Madrid se mata

(Valdemar Cruz, in Expresso Curto, 15/10/2019)

Bom dia,

Na monarquia espanhola não parece haver espaço para a república da Catalunha. O Supremo Tribunal acolheu a acusação de “sedição” e condenou a penas entre os nove e os treze anos de prisão e perda de direitos políticos a nove dos doze dirigentes independentistas catalães. Em simultâneo foi reativado o mandado de captura europeu contra o ex-presidente da Generalitat, Jordi Puigdemont.

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Pedro Sánchez, Primeiro-Ministro espanhol, tinha a faculdade de proclamar um indulto, mas a pressão exercida pela direita e pela extrema-direita (que antes mesmo do julgamento já o acusava de pretender indultar os presos, o que pressuponha que os considerava culpados antes de serem julgados), inibiu uma decisão que poderia amenizar as consequências de uma das mais graves crises institucionais alguma vez enfrentadas por Espanha desde a proclamação da Constituição de 1978, abrir espaço para um novo tipo de diálogo e fazer impor o primado da política após as deliberações unânimes dos juízes do Supremo. Para que não ficassem dúvidas sobre o seu compromisso, Sanchez anunciou o “absoluto cumprimento da sentença”.

Apesar de, como o reconhece o El País num editorial de total apoio à condenação dos dirigentes catalães, ser “evidente que a aplicação do Código Penal por parte do Supremo Tribunal não resolverá a crise constitucional provocada por uma estratégia que é sem dúvida política, mesmo se assente na ilegalidade”.

Em algumas áreas de opinião espalha-se a convicção de que os catalães saem humilhados de uma sentença histórica através da qual a sociedade espanhola no seu todo vê serem postas em causa questões muito sérias sobre a liberdade de expressão, de reunião e de manifestação. Se nos anos glamorosos de 1980, da movida espanhola saía a expressão “Madrid me mata”, este pode vir a transformar-se num tempo de chumbo em que, com tantas e tão complexas feridas abertas, poderá caber a ideia de que “Madrid se mata”. É mais uma das incógnitas para o futuro.

Desde logo porque na sociedade espanhola há quem veja a sentença como uma vitória das “pombas”, para completo desagrado e revolta dos “falcões”. Não por acaso, nos sectores mais ligados à direita radical, a que o jornal “El Mundo” dá voz, expressa-se um total desagrado por uma sentença que, não apenas deixa cair a acusação mais grave – o crime de rebelião – como permite que os presos tenham acesso desde já a alguns direitos.

A violência saiu à rua mal foi conhecida a sentença, tornada pública em plena campanha eleitoral espanhola. Numa réplica do que tem sucedido em Hong Kong, com milhares de pessoas a manifestarem-se, o aeroporto de Barcelona depressa se transformou no centro dos protestos, com mais de cem voos cancelados.

O Futebol Clube de Barcelona, uma das grandes instituições catalãs, publicou no seu sítio oficial um comunicado intitulado “A prisão não é solução”, no qual, para lá de expressar toda a sua solidariedade para com “as famílias dos que estão privados de liberdade”, refere que, na senda da sua histórica posição de defesa da liberdade de expressão e do direito a decidir, sustenta que “a resolução do conflito que vive a Catalunha passa, exclusivamente, pelo diálogo político”.


O tema continuará na agenda nos próximos tempos e novas ações de protesto estão programadas, até porque, como assinala o jornal El Público, há pelo menos dez incógnitas que ficam agora no ar resultantes deste processo. Para nenhuma delas há respostas fáceis, com milhares e milhares de catalães disponíveis para manifestarem a sua indignação por uma sentença que, é assinalado em alguns meios, aplica, em média, penas mais pesadas aos independentistas catalães do que aos autores do golpe de Estado desencadeado em 23 de fevereiro de 1981 por militares franquistas.


A Confusão é Geral. Palavra de Dom Casmurro

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 06/09/2019)

Bom dia,

É no velório de Escobar que Bentinho, isto é, Dom Casmurro, a personagem criada pelo escritor brasileiro Machado de Assis, fica com a certeza da culpa, da traição, de Capitu, sua esposa. O problema está em, quando se trata de relações amor/ódio, nenhuma certeza ser absoluta. Há sempre espaço para a dúvida. Afinal, quem traiu quem? É, se quisermos, um pouco o que se passa com a relação tormentosa entre a União Europeia e a Grã Bretanha.

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Ameaçam separar-se. Mesmo se todos percebem como a lei do divórcio é, no contexto da UE, algo ainda mais complexo que uma escalada dos Himalaias e uma missão à Antártida juntas. Ambos se sentem traídos e já se sabe como nestas situações a culpa nunca está de um lado só. Ontem, no que parece já um ato de desespero, o Primeiro Ministro britânico, Boris Johnson, anunciou o desejo da sua própria morte ao assegurar preferir estar “morto numa vala a pedir novo adiamento do Brexit”.

A UE, para já, segue tudo à distância e no conforto do primeiro balcão, com a aparente tranquilidade de quem sabe ter-se consolidado a ideia de que quem queira abandonar a União, ou é louco, ou é suicida. Isso cria dilemas morais terríveis, como se viu pela reação do próprio irmão de Boris Johnson, que abdicou do cargo de ministro e deputado, derrotado pelo que considera ser “a tensão insolúvel entre a lealdade familiar e o interesse nacional.” O drama é shakespeariano ou freudiano? É uma reação com o poder de espelhar, através das divisões numa família, as profundas clivagens que neste momento corroem a sociedade britânica, desde o contexto familiar às relações entre diferentes comunidades. Numa metáfora dessa realidade, o jornal The Guardian escreve sobre uma família dividida e mostra como o Brexit fraturou os Johnsons.

Outras fraturas se manifestam. As chefias da polícia não gostaram e censuraram o Primeiro Ministro por usar alunos da Academia de Polícia de West Yorkshire como adereço, ou pano de fundo, durante o seu discurso de ontem sobre o Brexit.

Os britânicos irão a votos para resolver a contenda? Sairão da UE com ou sem acordo? Irão mesmo sair? Ou conseguirão adiar mais alguns meses o divórcio, para conseguirem um acordo capaz de satisfazer ambas as partes?

A UE, explica-se no Expresso on line, quer “uma boa razão” para adiar o Brexit. Boris quer ter eleições a 15 de outubro, dois dias antes da reunião do Conselho Europeu. Convencido da vitória e da obtenção de uma maioria no Parlamento, teria assim margem para escapar à obrigação de pedir um adiamento da saída, até porque já sabemos que preferia estar morto numa vala, a fazê-lo. Jeremy Corbin e os trabalhistas não têm tarefa fácil, desde logo por andarem a pedir eleições há muito tempo. Ou aceitam o jogo de Boris, ou, sem perderem a face, reclamam eleições, mas mais tarde, fora da agenda pessoal do Primeiro Ministro.

No meio disto tudo o que andam a fazer os Liberais, essa salgalhada onde vão parar os descontentes dos Conservadores e dos Trabalhistas, e de cuja agenda pouco se fala? É outra das incógnitas da cobertura noticiosa que mereceria reflexão mais aprofundada.

A confusão é geral. Em rigor, Machado de Assis usou o pretérito imperfeito. “A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…”. Como o Brexit vem de um passado na verdade pouco perfeito, embora seja sobretudo presente e futuro, deixemos os tempos verbais e atentemos numa dúvida que nem é existencial: quem faz aqui o papel de Capitu ? E quem será o cadáver?


OUTRAS NOTÍCIAS

Da noite vem o insonso debate entre Rui Rio e Assunção Cristas. Quando se fala de crise de identidade da direita e do centro-direita, ali está a demonstração prática dessa realidade. Num momento de necessária intensa disputa de eleitorado, fizeram pouco pela vida. De tanto não quererem hostilizar-se, acabaram a revelar ténues diferenças. Como se escreve no Expresso, optaram por um pacto de não agressão. Uniram-se no que parece ter-se tornado no mantra da direita: a redução de impostos. Apenas uma diferença assinalável: Cristas assumiu por inteiro as dores do anterior Governo PSD/CDS, ao contrário de Rio e, por consequência, rejeitou em absoluto qualquer espécie de colaboração com um futuro governo do PS. Ao contrário de Rio, disponível para o que chama “reformas estruturais”.


Estas noites de mar de morte

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 05/07/2019)

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É melhor ser alegre que ser triste, proclama Vinícius de Moraes no “Samba da Bênção”. É um truísmo muito la palissiano. Nem por isso deixa de ser o início de uma grande canção feita de verdades plenas. A verdade inteira às vezes derrama dores tão impossíveis como infinitas. A verdade não mata. Mas a verdade choca. Como quando se sabe que uma embarcação com 86 migrantes a bordo naufragou no Mediterrâneo e a notícia já quase passa despercebida. Se à mesma hora caísse no Mediterrâneo um avião e daí resultassem dezenas de mortos, por exemplo 86, teríamos por certo abertura de telejornais, longos e continuadas relatos da tragédia. A raridade é em si mesma fomentadora de notícia.


Quando a verdade se banaliza, até já os mortos são indiferentes. Não sei se é o triunfo da desumanização. Será, por certo, a vitória da indiferença perante uma tragédia que os poderes europeus têm preferido empurrar para as brumas do esquecimento.


Na verdade, é melhor ser alegre que ser triste. A dificuldade da alegria está no peso daqueles mortos, daqueles olhares perdidos no infinito, daquela dor silenciada nas profundezas do Oceano.


Umas horas depois de ser conhecido aquele naufrágio, a ONG italiana Mediterranea resgatava 54 migrantes nas águas internacionais ao largo da Líbia. Como Itália mantém a política de portos fechados a estas embarcações, com a acusação de que fomentam a imigração ilegal, a ONG procurava um porto seguro para desembarcar os resgatados. Já houve uma dezena de navios de resgate no Mediterrâneo. Esta quinta-feira restava um.


As mudanças nas políticas destinadas ao tratamento destes casos (fim da operação Mare Nostrum), adotadas pela União Europeia a partir de 2014, com o objetivo de travar a entrada na Europa de refugiadas (das guerras, das alterações climáticas, da miséria) levou um grupo de advogados internacionais com base em Paris a apresentarem um processo no Tribunal penal Internacional, em Haia contra a UE, acusada da prática de crimes contra a humanidade.


Na equação tem de ser colocada de forma séria a questão do combate ao tráfico de seres humanos e aos negócios milionários que lhe estão associados.

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Porém, e esta é uma componente fulcral do problema, o documento, divulgado pela Deutshe Welle, assegura que, em vez de resgatar e proporcionar segurança à população civil em perigo no mar, “a UE facilitou a morte de milhares por afogamento, antes de introduzir um sistema compreensivo de deportação para campos que se assemelham aos de concentração”. Embora, acrescenta, tenham caído as chegadas de pessoas através do Mediterrâneo, “mais de 40 mil pessoas foram interceptadasno mar e levadas a campos de detenção e a câmaras de tortura sob a legislação europeia”.


A UE financia os campos criados na Líbia (vídeo nos campos de refugiados aqui), bem como as operações da Guarda Costeira líbia destinadas a barrar a entrada na Europa de todo o tipo de refugiados.


A Comissão Europeia defendeu-se para assegurar que a “prioridade sempre foi e continuará a ser proteger vidas e garantir tratamento humano e digno em todas as rotas migratórias”.


Nem uma palavra, porém, para uma circunstância decisiva e fatal em todo o processo: após a ação conjugada, em 2011, de forças da NATO e grupos islamitas para derrubar Khaddafi, a Líbia transformou-se num território sem lei, nem regras, onde se praticam as maiores barbaridades, facilitadas pela abundância de armas e pela proliferação de grupos terroristas.


Ora, é aqui, neste território caótico, governados por milícias envolvidas em atrocidades, corrupção, tráfico de seres humanos, que a UE despeja dinheiro, concentra os campos de “acolhimento” de refugiados, e tenta lavar a consciência.


É melhor ser alegre que ser triste. Pena a tristeza tantas vezes roubar o espaço que preferia dar à alegria.