Sobre as possibilidades das FA’s ucranianas

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 11/09/2023)

Usamos com demasiada frequência a frase “até ao último ucraniano” para enfatizar e reforçar o argumento que as FA’s Ucranianas estão a ter demasiadas perdas e sempre combinámos isso com a sua ininterrupta mobilização e, agora, também, com a mobilização daqueles que estão inaptos para o serviço militar. No entanto, tendemos a esquecer algo crucial. Em Bahmut, muitos dos que lutaram pelas FAU pertenciam a unidades de defesa territorial, com pouca ou nenhuma instrução. Tinham sido enviados, juntamente com tropas mais bem treinadas e equipadas, para tentar manter a cidade. Como conclusão lógica da sua participação, a sua maior parte foi exterminada até aos últimos homens, ou tornada ineficaz devido às terríveis perdas sofridas. Ninguém contesta esse facto, porque é verdade e está bem referenciado. Nesta ação o grupo Wagner teve sucesso. Mas também devemos ter presente que muitas dessas unidades eram de defesa territorial. Apenas alguns meses depois, as FAU atacaram com forças mais poderosas em Zaporozhye e, recentemente, em Donetsk. E ainda mantêm na sua posse Marinka, Avdeevka e Ugledar, estando a recuar lentamente na região de Kupyansk.

Neste momento, as forças que atacam em Zaporozhye e Donetsk são tropas treinadas no ocidente e internamente, fortemente armadas e em quantidades significativas, com bastantes armas ocidentais. Deve ter-se presente que em Bahmut se estava a desenvolver uma ação retardadora que foi paga de uma forma exagerada pelas FAU. O comando das forças ucranianas decidiu ganhar ali tempo em troca de sangue (de certo modo, não o poderiam ter feito de outra forma), mas enviou aqueles que tinham menor valor em termos de capacidade de combate, de forma a poupar as melhores tropas para o futuro ataque principal. Agora e depois de todo este tempo, o ataque principal não foi nem decisivo nem letal, como alguns previam. Mas no QG das FAU, não existem idiotas, eles foram formados nas mesmas escolas que os generais russos. Se alguém acreditar no contrário, estará errado. Provavelmente sob a influência dos generais da OTAN foi tentada uma manobra do tipo guerra relâmpago, que se veio a revelar inútil. No entanto, ainda continuam a atacar. E nesse caso resulta uma questão lógica. Por que razão estão a atacar? Não será o momento de cancelar essa ação?

A maior parte das vezes a resposta que aparece é: 1) Não o podem fazer, porque a OTAN não permite; 2) É por ordem do presidente; 3) O ataque é a melhor defesa. Enquanto o grupo de forças que actualmente está a ser consumido (neste momento, já são mais de 100.000 KIA/WIA/MIA), as FAU estão a fazer a mesma coisa que fizeram em Bahmut – ou seja: formar, treinar e equipar outro corpo de forças de combate principal, e ao mesmo tempo criar, novamente, um corpo secundário que será composto por unidades de defesa territorial. A tarefa deste último será aguentar, amortecer e tentar absorver o contra-ataque russo tanto quanto possível, sem que seja necessário sacrificar demasiado o corpo de forças de combate principal, em termos de homens e equipamento. A ideia é parecida com a dos russos, permitir que o inimigo ataque, desacelerá-lo, desgastá-lo o máximo possível e quando chegar a hora adequada, atacar novamente com um corpo de forças de combate principal recém-criado. E, se necessário, repeti-lo em seguida. Entenda-se que o comando das FAU reclama do pessoal, mas talvez não por causa do que se pensa.

Os centros de recrutamento estavam sob pressão para cumprir as quotas. Sendo corruptos, deixaram muitos escapar. Kiev e as maiores cidades estão cheias de homens com capacidade militar. O problema está na ineficiência dos recrutadores. Todos os aptos irão receber uma melhor instrução para formar um novo corpo de forças de combate principal. Todos aqueles inaptos, jovens, velhos, mulheres (talvez), previstos para conter o ataque russo receberão um treino mínimo. Não precisam de nada melhor, excepto saber atirar, porque estarão sentados nas trincheiras e fortificações, à espera que o exército russo os expulse, mas ao mesmo tempo fique desgastado nesse processo. Tudo o que foi visto até agora, desde o início da guerra em diante, nos leva a considerar que um tal desenvolvimento não só é possível como já foi utilizado em diversas ocasiões. Uma tal abordagem tem um custo elevado em termos de vidas humanas e não é muito digna, mas quem pretende combater e vencer mantendo a dignidade, obviamente nunca esteve numa guerra.

Na realidade, podemos encontrar exemplos semelhantes nos anais de outras guerras e em antigos manuais e registos históricos da era soviética, alguns oriundos diretamente dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial contra os alemães, onde algumas divisões de baixa qualidade foram colocadas na primeira linha, para tentar enfraquecer os alemães, permitindo assim o sucesso de tropas soviéticas mais capazes para capitalizar o enfraquecimento do inimigo. Ambos os lados deste conflito sabem disso.

Em relação às perdas de armamento e viaturas de combate, de facto as perdas em hardware são enormes para as FAU, mas estas ainda têm muitas ao seu dispor. Há que ter presente que as armas para a Ucrânia fluem sem parar. A notícia, de há poucos dias, que os EUA estão a enviar 190 MRAPs, passou quase despercebida. Existem muitos casos assim. Portanto, não, a Ucrânia não ficará sem armas tão cedo.

Pessoalmente, acredito que o caminho escolhido por Moscovo, para obter a vitória neste conflito, é acabar com a possibilidade das FAU em travarem uma guerra nas gerações vindouras. A solução que foi optada consiste na degradação, exaustão, quebra de vontade e derrota total, uma espécie de guerra de desgaste, mas numa escala muito maior.

De forma semelhante também assim estava definido na doutrina estratégica soviética. E isso significa que a guerra não terminará tão cedo. Depois disso, não haverá mais Ucrânia.

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O miserável fracasso da ofensiva de Zelensky 

(Rainer Rupp, in Geopol, 06/08/2023)

A chamada “contraofensiva” da Ucrânia, que começou no início de junho, não conseguiu até agora registar quaisquer ganhos significativos no terreno, tendo, pelo contrário, sofrido perdas extremamente elevadas de soldados e de material. Ao longo da frente de cerca de mil quilómetros, o exército ucraniano (AFU) não conseguiu, em momento algum, penetrar nas instalações de defesa e de bunkers dos russos, escalonadas em três linhas, que tinham sido construídas sob a liderança dos pioneiros do exército russo, sob as ordens do lendário general Surovikin, com grande esforço ao longo de muitos meses. 

Os avanços ucranianos individuais, efectuados com grandes perdas, permaneceram até agora todos na chamada “zona cinzenta”. Esta constitui um tampão entre a linha da frente dos ucranianos e a primeira das três linhas de defesa russas. A zona cinzenta tem entre 10 e 15 quilómetros de largura, dependendo das condições locais. É normalmente controlada, no todo ou em parte, pelos russos, graças ao seu poder de fogo e à sua superioridade aérea. 

No caso de um ataque ucraniano, a infantaria russa recua e abre caminho a bombardeamentos maciços de artilharia e aéreos. Depois de os tanques e veículos blindados de transporte de pessoal ucranianos e a infantaria que os acompanhava terem sido em grande parte destruídos desta forma, as unidades de infantaria russas avançam novamente, normalmente empurrando os ucranianos para a sua posição inicial. É este o padrão da grande maioria dos combates nesta “ofensiva” ucraniana. 

Não podemos deixar de abanar a cabeça perante a loucura da liderança militar ucraniana, que continua a enviar massas dos seus próprios soldados para a sua morte certa em condições inalteradas, e mesmo com uma superioridade russa cada vez maior. 

Estas ordens desumanas da liderança ucraniana só podem ser explicadas pelo facto de o regime de Zelensky estar sob enorme pressão da administração Biden para, pelo menos, mostrar um sucesso de propaganda com a “ofensiva”. Tendo em conta as críticas crescentes em Washington e nos EUA em geral à política ucraniana de Biden, cresce o perigo de que, se a ofensiva for um fracasso óbvio, o apoio americano se desvaneça, o que teria consequências devastadoras para o regime de Zelensky. 

As acções da liderança militar ucraniana podem ser explicadas pelo facto de que, na ausência de outros recursos e tácticas, não tem outra escolha senão cometer o mesmo erro repetidamente e sacrificar pessoas e materiais sem sentido, se a pretensão da ofensiva, anunciada com grande pompa, for preservada em termos de política externa. Esta loucura política explica também porque é que as baixas ucranianas nos últimos dois meses foram particularmente elevadas, enquanto as dos russos foram muito limitadas. 

Segundo estimativas de peritos militares ocidentais que continuam a manter boas relações com colegas no ativo, como o coronel reformado norte-americano Douglas MacGregor ou o ex-coronel norte-americano Scott Ritter, a AFU perdeu 20.000 homens só em julho passado, ou seja, no segundo mês da alegada ofensiva, e outros 20.000 homens no primeiro mês da ofensiva. A estas perdas totais de 40.000 homens nos primeiros dois meses da ofensiva há que acrescentar mais de um milhar de veículos blindados e tanques da UA destruídos, a maioria dos quais provenientes de abastecimentos ocidentais. 
Em termos globais, o ex-coronel MacGregor, que, na qualidade de antigo conselheiro de um secretário da Defesa dos EUA do presidente Trump, ainda mantém boas relações com o Pentágono, estima que a Ucrânia perdeu cerca de 300 mil homens desde o início da guerra. Ou caíram, ou foram feridos tão gravemente que já não poderão servir. MacGregor estima as perdas correspondentes do lado russo em cerca de 50.000 mortos e feridos graves. 

Apesar das perdas catastróficas dos ucranianos, os incorrigíveis propagandistas dos EUA/NATO continuam a tentar apresentar o exército ucraniano como o vencedor. Há uma expressão inglesa para isto: “To put lipstick on a pig” (pôr bâton num porco). Mas nem mesmo o bâton pode fazer de um porco uma princesa. 

Os belicistas dos governos dos países da NATO deveriam começar a perceber lentamente que a sua guerra por procuração na Ucrânia nunca foi militarmente vencível, mesmo com a ajuda dos EUA/NATO contra a Rússia, e agora que até os EUA estão a ficar sem munições, é ainda mais impossível de vencer. Economicamente, também, o tiro dos EUA/NATO contra a Rússia saiu pela culatra. 

O Ocidente coletivo debate-se com a estagnação, a Alemanha está em recessão e a economia russa está em expansão e já está a crescer novamente, entre 2,5 e 3 por cento, de acordo com os números do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central russo. E quanto à opinião internacional e ao pretenso isolamento da Rússia, já todos devem ter reparado que é o Ocidente coletivo (sobretudo a Alemanha), que está a ser evitado pelos países do Sul Global, da América Latina à África e do Médio Oriente à Ásia.
Enquanto na Alemanha os representantes dos meios de comunicação social empresariais e governamentais continuam a evitar cuidadosamente tons críticos em relação à política ucraniana, nos EUA as coisas estão a parecer diferentes, com uma dinâmica crescente. 

Os títulos optimistas, com os quais os principais meios de comunicação social dos EUA anunciaram e elogiaram a contraofensiva da Ucrânia ainda na primavera, desapareceram entretanto. Ao contrário dos meios de comunicação social alemães, os meios de comunicação social americanos não deixaram de abordar as indicações dadas pelos principais dirigentes ucranianos nas últimas semanas de que a ofensiva estagnou e pode fracassar. 

Nos últimos dias, uma série de relatórios importantes nos principais meios de comunicação social dos EUA sugeriram que a situação na Ucrânia é muito pior do que as autoridades têm admitido até à data. Estes relatórios de correspondentes ocidentais no terreno na Ucrânia contêm testemunhos em primeira mão do colapso da moral de combate dos soldados ucranianos e das imensas e rápidas baixas face ao esmagador poder de fogo russo. Em suma, na perspetiva dos apoiantes da “Ucrânia tem de vencer”, a situação é muito pior do que se pensava anteriormente, de acordo com os meios de comunicação social dos EUA. 
Um primeiro relatório(1) na segunda-feira desta semana veio da Reuters e tinha como título: “Os russos estavam à nossa espera”; subtítulo: “As tropas ucranianas descrevem uma luta mais dura do que o esperado”. A agência noticiosa britânica tinha dado uma cobertura muito unilateral pró-ucraniana e anti-russa da política de Londres desde o início da guerra. No entanto, está agora a fazer esforços para corrigir o seu rumo anterior em relação à situação real. 

Eis alguns excertos do artigo da Reuters sobre um ataque de uma unidade ucraniana: 
«Entraram numa zona de morte. O momento era errado. Perderam-se muitos homens. No final, recapturaram a aldeia em ruínas de Staromaiorske, fazendo o maior avanço da Ucrânia em semanas.» 
(Um comentário rápido: aqui a Reuters fala apenas de ganhos de terreno de alguns quilómetros na “zona cinzenta”). Continuando no sound bite original da Reuters: 

«As tropas na ponta de lança da contraofensiva ucraniana dizem que uma batalha na semana passada na linha da frente no sudeste se revelou mais dura e sangrenta do que o esperado, com planos que correram mal e um inimigo que estava bem preparado». 

Depois vem uma passagem que destaca uma força russa mais bem equipada e estrategicamente organizada: “Os russos estavam à nossa espera”, disse um soldado de 29 anos, com o nome de código Bulat, de uma unidade enviada para a batalha em veículos blindados durante o ataque da semana passada. “Dispararam contra nós armas anti-tanque e lança-granadas. O meu veículo passou por cima de uma mina anti-tanque, mas estava tudo bem, o veículo foi atingido e todos estavam vivos. Baixámo-nos e fugimos para nos abrigarmos. Porque o mais importante é encontrar abrigo e depois continuar”. 
“A nossa missão devia durar dois dias. Mas não podíamos entrar à hora certa, no escuro, por várias razões. Por isso, entrámos mais tarde e perdemos o momento certo”, disse Bulat. “Eles [os russos] destruíram metodicamente as estradas. Construíram buracos que impediam a entrada e saída da aldeia, mesmo com tempo seco. Até marchar era difícil. Não se podia usar tochas à noite, mas mesmo assim era preciso avançar”. 

O relatório recorda ainda que a Ucrânia recebeu dezenas de milhares de milhões de dólares em equipamento e formação do Ocidente para lançar a sua contraofensiva para retomar os territórios ocupados este Verão. Mas reconhece-se que a operação tem sido mais lenta do que o esperado. De acordo com os comandantes ucranianos, isto foi feito deliberadamente para evitar um elevado número de baixas, uma afirmação que a Reuters não questiona, embora o oposto seja óbvio, nomeadamente que a liderança militar prefere levar as pessoas à morte se arriscar menos tanques em troca. 


No entanto, a Reuters aborda o facto de a Ucrânia ter atrasado deliberadamente o início da ofensiva durante tanto tempo devido à falta de material, ao mesmo tempo que os “impacientes apoiantes ocidentais”, ou seja, os americanos, mantinham a pressão para lançar a ofensiva. Este facto, disse, deu aos russos ainda mais tempo para se prepararem. Cito: 

“Os russos tiveram meses para preparar as suas fortificações e semear campos minados. Os atacantes ucranianos não têm a superioridade aérea que os seus aliados da NATO normalmente esperam nos seus exercícios de treino”, continua o relatório. 

Vale a pena recordar aqui que, ainda no mês passado, o homem forte ucraniano Zelensky culpou furiosamente o Ocidente, incluindo os EUA, por atrasar a entrega de armas mais avançadas e programas de treino para caças-bombardeiros F-16 americanos. Há mais de uma semana, Zelensky tinha dito a Fareed Zakaria(2) da CNN: 

«Tínhamos planos para iniciar a contraofensiva já na primavera. Mas não o fizemos porque — francamente — não tínhamos munições e armas suficientes e não tínhamos brigadas suficientes devidamente treinadas nestas armas». 

Um segundo relatório importante foi publicado esta semana pelo Wall Street Journal(3). Fala de taxas de baixas significativamente mais elevadas entre as forças ucranianas do que é habitualmente conhecido. A par de histórias trágicas sobre a miséria humana da guerra, mais visível nos hospitais militares, foi aí que os correspondentes do WSJ reuniram as suas estatísticas para tirar conclusões sobre as verdadeiras baixas da Ucrânia, que são mantidas em segredo pelo regime de Zelensky. 

Com base em fontes da indústria médica ucraniana, como fabricantes de próteses, médicos e instituições de caridade, o WSJ refere que entre 20.000 e 50.000 ucranianos perderam um ou mais membros desde o início da guerra. Mas o WSJ também refere que 

«O número real pode ser mais elevado porque leva tempo a registar os pacientes depois de terem sido submetidos ao procedimento. Alguns são amputados semanas ou meses depois de terem sido feridos. E com a atual contraofensiva de Kiev, a guerra pode ter entrado numa fase mais brutal». 

Para efeitos de comparação, o jornal apresenta os números da Primeira Guerra Mundial, que se caracterizou sobretudo por duelos de artilharia na guerra de posição. Cita o WSJ: 

«Cerca de 67.000 alemães e 41.000 britânicos tiveram de ser amputados durante a Primeira Guerra Mundial, quando o procedimento era muitas vezes a única forma de evitar a morte. … Menos de 2.000 soldados americanos nas invasões do Afeganistão e do Iraque tiveram de ser amputados». 

Este facto não só revela a escala horrível e catastrófica da carnificina desta guerra, como também pode explicar porque é que o conflito na Ucrânia tem desaparecido dos cabeçalhos ocidentais nos últimos tempos. O otimismo do Ocidente está a desvanecer-se, o seu empenho está a diminuir e a futura derrota da Ucrânia no campo de batalha parece cada vez mais provável. Isto levanta a questão de saber durante quanto tempo mais os belicistas ocidentais na política e nos meios de comunicação social podem esconder o estado real e desolador das forças armadas ucranianas. 

Tudo aponta para uma derrota geral da Ucrânia, para um colapso económico, social e militar. Entretanto, já se fala isoladamente de possíveis compromissos com os russos, por exemplo, sob a forma de concessões territoriais por parte da Ucrânia. Há algumas semanas, ninguém teria mencionado tal monstruosidade, com medo de ser denunciado como agente de Putin. 

Um indicador do desespero do establishment de política externa de Washington são os seus esforços para encontrar um compromisso com os russos através de bastidores diplomáticos(4), contornando a Casa Branca, que permitiria aos EUA sair do desastre da Ucrânia com a menor perda de face possível. Mas para que isso aconteça, o Presidente Biden teria primeiro de se demitir por doença e os falcões à sua volta teriam de ser enviados para o deserto. Tecnicamente, isso é concebível, mas politicamente inviável nas condições actuais. 

Para uma nova equipa em Washington, temos de esperar até janeiro de 2025. Nessa altura, a guerra na Ucrânia terá terminado; e nos termos da Rússia. Até lá, os falcões profissionais anti-Rússia nos governos dos EUA/NATO que apostaram as suas carreiras na vitória da Ucrânia tentarão fazer tudo o que puderem para atrasar o momento da sua derrota. 

O compromisso com a Rússia, ou seja, as concessões territoriais relativamente às regiões pró-russas da Ucrânia, está fora de questão para estes falcões porque equivale à sua derrota pessoal. Pelo contrário, podemos esperar mais escaladas incontroláveis da parte deles, que não só destruiriam o resto da Ucrânia, mas também a nós, na Europa Ocidental. 

Cabe-nos a todos nós impedir estas pessoas. Também na Europa, temos de nos certificar de que elegemos para o topo da hierarquia políticos que, finalmente, se esforçarão por restabelecer a paz e boas relações comerciais com a Rússia. 

Fontes e comentários: 

(1) https://www.reuters.com/world/europe/the-russians-were-waiting-us-ukraine-troops-describe-tougher-fight-than-expected-2023-07-31/ 
(2) https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/4114111-zelensky-points-to-lack-of-munitions-training-for-delayed-ukraine-counteroffensive/ 
(3) https://www.wsj.com/articles/in-ukraine-a-surge-in-amputations-reveals-the-human-cost-of-russias-war-d0bca320 
(4) https://www.zerohedge.com/geopolitical/details-secret-us-russia-talks-revealed-ukraine-counteroffensive-bad-shape 

Peça traduzida do alemão para GeoPol desde Apolut 


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Militares comentadores ou militares propagandistas?

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 03/08/2023)

Aproveitando e copiando uma grande parte do notável texto, em resposta aos dislates do coronel DFA, pelo meu amigo MGen Carlos Branco (a quem pedi autorização para o efeito) e após introduzir as necessárias alterações para o referir à minha pessoa e acrescentar algo da minha lavra, especialmente o adjetivar que me é característico, produzi o artigo que se segue e que mais uma vez importa salientar – só foi possível graças ao extraordinário talento do meu Camarada:

“As posições dos comentadores militares sobre o conflito na Ucrânia podem ser, em termos genéricos, divididas em dois grupos, cujos fundamentos refletem, curiosamente, as suas experiências profissionais. De um lado estão os que estiveram na guerra e, do outro, os que não estiveram (ter passado pela ex-Jugoslávia, quando já não havia guerra, ou mesmo no Afeganistão, mas sem sair do alojamento, não conta como guerra). As vivências pessoais parecem afetar o modo como se percecionam os acontecimentos. Se é que é possível enquadrar a posição dos indefectíveis apologistas do Zelensky, ela é mais característica do segundo grupo. É infantil reduzir o presente conflito ucraniano a uma conveniente fórmula maniqueísta e despojá-lo da complexidade que ele encerra. Os bons contra os maus; de um lado, os invadidos, do outro, os invasores. Será, talvez, uma mensagem forte para efeitos de Comunicação Estratégica, porque é simples e fácil de ser apreendida, mas não é útil para ajudar a compreender um conflito complexo.

A escola neorrealista das relações internacionais explica com muita clareza o que move os Estados na cena internacional. John Mearsheimer, professor universitário nos EUA e uma das figuras proeminentes do neorrealismo ofensivo, num artigo na Foreign Affairs, em 2014, não ilibava os EUA e os seus aliados europeus da partilha de responsabilidade pela crise na Ucrânia. Foi precisamente com base nesse artigo que, no decurso do meu doutoramento, apresentei um trabalho sobre as relações Ucrânia – Rússia (disponível em academia.edu), seguindo a mesma linha de pensamento. Não venham agora os zelenkistas, acusar o Prof. Mearsheimer de ser um agente do Kremlin e um perigoso antiamericano. O que se passa é que, ao contrário de muitos dos académicos portugueses, muitos dos americanos não se “venderam” ao sistema.

É lógico que as partes envolvidas – EUA e Rússia – montem as suas campanhas de Comunicação Estratégica, que definam as suas agendas de temas e mensagens. Estranho seria se não o fizessem. Mas isso não obriga ninguém a alinhar nelas. Compreendo as demonizações que cada campo faz do adversário. Desde o início do conflito (e com isto não estou a dizer que do outro lado não há centrais de desinformação), as centrais de propaganda ocidentais construíram com entusiasmo a imagem de um “heroico cavaleiro ucraniano” que derrota facilmente inúmeras hordas asiáticas e vai assim “salvar a Europa” (?) e, em última análise, a humanidade e a Ordem baseada em regras. Será esta a única leitura dos acontecimentos? A verdade única? Será razoável reduzir esta guerra a uma luta do bem contra o mal?

Ora um tema desta importância não pode ser discutido com base na emoção e na troca de injúrias e acusações maldosas, mas sim na razão. É naturalmente legítimo que cada um defenda o campo que corresponda às suas verdades, às suas crenças e aos seus preconceitos, mas não é aceitável que essas divergências sejam reforçadas com falsidades e invencionices recheadas de injúrias e impropérios sobre a outra parte.

Cada um acredita naquilo que lhe parece mais adequado. Há quem acredite, e não são poucos, que a Rússia já não tem munições, que os soldados russos são frouxos e fogem mal avistam os “heroicos cavaleiros ucranianos”, que aprenderam a manejar as armas na Wikipédia, que foi preciso o Shoigu ser Ministro da Defesa para os soldados terem meias, que o Putin tem cancros, que Gerasimov foi morto (os russos fizeram o mesmo relativamente a Zhaluzhny e Budanov), que os russos vão explodir a central nuclear de Zaporizhzhia com minas antipessoal, que os frigoríficos na Rússia foram desmanchados a fim de lhes serem retirados os chips para o fabrico dos seus mísseis (esta pérola foi verbalizada por Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia), etc. Podem consolar-se com as lucubrações que quiserem, mas depois não venham regurgitar que a verdade é a primeira vítima da guerra.

É especialmente deprimente assistirmos ao logro em que caíram as elites europeias, vítimas da sua própria propaganda, propaganda essa na qual acreditam sem pestanejar, sem capacidade crítica e sempre predispostos a engolir o que lhes vendem. Mas o que é verdadeiramente chocante é a sua disponibilidade para abraçar acefalamente a desinformação mais básica e rudimentar que lhes é colocada à frente. Deixou de ser necessário refinar a mensagem – seja o que for dito, por mais inverosímil que seja, é aceite sem reservas. E isto é aplicável, naturalmente, a todas as partes envolvidas.

Particularmente perigoso é o que se passa com a Academia, a Comunicação Social e segmentos importantes da elite política que não param para pensar e que reproduzem sem pudor, sem filtros e sem refletir, tudo o que lhes é posto à frente; ou então, fazem-no porque sabem que assim garantem a continuidade das alvíssaras e prebendas que o “colinho” proporciona. O diretor do pasquim “Observador”, entrincheirado num dos campos, apelidou de idiotas úteis quem não comprava a sua versão “linear e transparente” dos acontecimentos. Parece que afinal o grupo dos idiotas úteis é outro, em que ele naturalmente se insere. No início da guerra em 2014, ainda houve quem dissesse umas coisas acertadas, antes de passarmos a ser intoxicados pelo funcionamento a todo o vapor da máquina trituradora da propaganda. Até o truão José Milhazes disse umas coisas óbvias. Mas depois impôs-se a disciplina. Fez-se tábua rasa dos temas inconvenientes (corrupção, nazismo, satanismo, tráfico de crianças, drogas e armas, etc.), que foram sendo progressivamente substituídos por outros menos “ácidos”. Limpou-se a história.

Particularmente grave, foi ter-se convencido a grande maioria das pessoas que era possível fazer recuar a Rússia, uma potência nuclear, recorrendo aos ucranianos. Não acreditar nisso não é ser putinista, é ser realista; sobretudo para quem, por motivos profissionais, teve de conhecer e lidar, o melhor que foi possível, com oficiais russos e ucranianos que então comandava e, depois, para efeitos académicos, pesquisar e estudar aprofundadamente o conflito e as suas envolventes, e, portanto, sabe alguma coisa do que está a descrever. É fácil e é barato apelidar quem tem posições antagónicas de antiocidentais ou antiamericanos, sem se justificar exatamente as razões subjacentes, seguindo assim os métodos nazis de catalogação dos divergentes. Por muito que lhes custe, temos de facto a noção que os EUA não são no seu todo como os liberais intervencionistas que fomentaram os acontecimentos de 2014, durante a Administração Obama, ou como a presente Administração norte-americana que nos conduziu à miserável situação em que agora nos encontramos.

Desejos e preferências à parte, o que o Ocidente precisa de entender com sobriedade é uma simples e dura realidade: a Rússia tem o maior arsenal nuclear do mundo, tem o seu complexo militar-industrial a funcionar sem restrições e a 200%, garantiu poderosos e firmes apoios políticos e não vai ser possível expulsá-la pela força dos territórios ocupados. Isto não é defender os pontos de vista do Kremlin. É, mais uma vez, ser realista. Os crentes nos sonhos irrealizáveis podem vociferar, esbracejar e espernear, mas isso não os vai livrar de serem confrontados com a realidade.

Tudo isto é “demasiado andamento” para os indefetíveis do sr. Zelensky, pois como só no dia 24/02/2022 “acordaram” para este conflito, são incapazes de perceber a complexidade das realidades que lhe estão associadas. Para essa malta, o deixar de confundir o neorrealismo com o putinismo, seja lá o que isto for, é um exercício muito complicado. Não será possível compreenderem o que se pretende esclarecer, pela simples razão de não lhes ser possível considerar a informação de uma forma neutral. As suas avaliações são sempre condicionadas por um filtro cognitivo que lhes atribui o significado em função de conclusões que, para eles, já estão pré-formuladas. Por isso, não será exagerado afirmar que esta gente vive numa realidade virtual em que quem não concorda com eles, ou é antiocidental, ou é putinista, ou é comuna, conseguindo assim no seu imaginário uma perfeita quadratura do círculo.

Discutir com ignorantes acaba sempre mal, e por isso mesmo já deixei de responder a comentários provocatórios sobre os meus artigos aqui no FB (simplesmente oblitero os engraçadinhos) e só dou resposta àqueles que, mesmo contrariando as minhas teses, são provenientes de amizades de longa data que quero preservar. Como dizia um famoso (de bem merecida fama) tenente-coronel no Regimento de Comandos e com razão: “Vocês nunca tentem ensinar um porco a cantar. O porco não aprende, vocês ficam roucos, e no fim o porco nem sequer vos agradece.”  


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