A humilhação geoestratégica já está consumada

(Zé Oliveira Vidal, in Estátua de Sal, 01/06/2025, revisão da Estátua)

Imagem gerada por Inteligência Artificial

(Este artigo resulta de um comentário a um texto de João Gomes sobre o perigosas opções da Europa quanto à Ucrânia potencialmente geradoras da III Guerra Muncial (ver aqui). Pela sua acutilância na apresentação de algumas verdades incómodas – quanto à postura do Ocidente e de Portugal em particular -, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 01/06/2025)


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Citando o texto publicado:

A alternativa – aceitar a derrota da Ucrânia e a expansão da influência russa – pode ser vista como humilhação geoestratégica, mas evitará o sacrifício humano de milhões.”

Aceitar a derrota da Ucrânia é aceitar a realidade. Nunca foi objetivo dos EUA, nas décadas em que prepararam esta guerra por procuração (com extensa documentação ANTERIOR a 2022), levar a uma derrota da Rússia, pois tal cenário levaria ao uso de armas nucleares.

A Rússia avança em todas as frentes, está no terreno a atingir progressivamente todos os seus objetivos, e só teve de usar uma parte do seu potencial para o conseguir fazer, e ainda lhe sobram meios para assegurar a defesa do resto do território (que é o do maior país do Mundo) e continuar a ajudar países amigos a livrarem-se de terroristas (na maior parte dos casos terroristas apoiados pelo Ocidente), e ainda sobram veículos e armas para exportar para vários países.

A influência russa não terá expansão nenhuma. Pode é recuperar o que lhe foi roubado em 2014, quando os EUA fizeram o golpe sangrento em Kiev, com recurso a nazis tresloucados que acreditaram que a UE/NATO seriam sinónimo de democracia.

O povo russo, russófono e pró-russo de várias partes da Ucrânia está finalmente a ver uma esperança ao fundo do túnel. São milhões de pessoas vítimas da agressão ocidental desde 2014, diariamente oprimidas por uma brutal ditadura em Kiev onde se acha “normal” andar a glorificar nazis, a celebrar o passado de colaboração com Hitler, e a usar símbolos ligados aos nazis e em particular às brutais SS.

A humilhação geoestratégica da Europa já está consumada. Não foi a Rússia sozinha quem a fez. Foram em boa parte os EUA e um grupo de pessoas na própria Europa, que nada mais são do que traidores corruptos ao serviço de Washington.

Os tais “líderes” europeus parecem cães a repetir o que se ladra a partir de Washington e andam aos ziguezagues: hoje dizem uma coisa, amanhã o seu contrário, primeiro iam destruir a Rússia, agora pedem um cessar-fogo de joelhos e as suas sanções causam mais problemas à Europa (enquanto Rússia cresce 4% ao ano, tem pleno emprego, e pouquíssima dívida).

E quando Putin se diz disposto a sentar-se à mesa para negociar, toda a gente ficou a saber o seu lugar: a negociação direta é com os EUA, a negociação secundária é com a Ucrânia, e os cães (europeus vassalos de Washington) nem à mesa se sentam, por mais que ladrem.

Quanto ao sacrifício humano de milhões, é olhar para a Palestina ilegalmente ocupada, onde ilegítimos colonizadores ocidentais, com base numa ideologia racista extremista, provocam a fome, exterminam mulheres e crianças indefesas, bombardeiam hospitais e campos de refugiados, assassinam jornalistas e trabalhadores da ONU, cometem limpeza étnica e GENOCÍDIO, e ainda chamam a isso tudo de “defesa” ou “única democracia do Médio Oriente” ou “direitos humanos”.

Depois de exterminarem milhões de humanos no Iraque, Afeganistão, Líbia, Sérvia, Vietname, Laos, Camboja, etc, num total que já vai acima de 20 milhões de vítimas, comparável ao “currículo” do nazismo, e sem nunca pedir um único perdão, e sem julgar um único ocidental responsável por tamanha nojeira criminosa, de que estão à espera? Que agora, de repente, esses monstros sentados em Washington, Londres, Bruxelas, Jerusalém ocupada, Paris, e arredores, sintam algum tipo de consciência? Não. Quando for para nos sacrificar a todos, eles nem vão pestanejar.

Por isso, isto só lá vai com uma revolução. Uma revolução que, ao contrário do grande erro cometido após o 25-Abril, desta vez não deixe estes animais à solta, livres para se reagruparem e voltarem ao poder: político, económico, e comunicacional.

Como Portugal não tem Sibéria, então faça-se um gulag merecido para esta gentalha ali na ilha das cagarras…Ficavam lá tão bem, lado a lado: Ventura, Portas, Montenegro, Durão, Sócrates, Costa, Rui Tavares, Rodrigo Guedes de Carvalho, José Rodrigues dos Santos, Ricardo Costa, a família Salgado toda, a família Azevedo toda, a família Balsemão toda, tudo quanto é avençado da Cofina e da CNN, etc.

Depois de restaurada a democracia, a liberdade, a verdade, a independência, e a decência, bastava só cumprir a Constituição de 1976, pré-revisões de traição que deram facadas na nossa soberania em nome da integração no império de Bruxelas, que é por sua vez, como se vê, apenas uma sucursal do império de Washington. Neutralidade militar, defesa assegurada, consciência tranquila, e colaboração-zero com imperialismos e belicismos e colonialismos (sionismo) genocidas.

Imaginem só, Portugal a usar o seu dinheiro para se desenvolver, por exemplo com soberania energética, com urgências abertas e SNS sem listas de espera, com saneamento básico para todos, etc, em vez de andar a oferecer chaimites, tanques, helicópteros mísseis, drones (os Tekever com 1000 Km de alcance, que um dia destes podem levar a que um Orechnik aterre em Lisboa…) e artilharia e balas, tudo doado a nazis, que os usam para atacar civis no Donbass e arredores.

Imaginem um Portugal que é convidado para ir a Moscovo celebrar o Dia da Vitória CONTRA o nazismo, em vez de um Portugal onde até oportunistas desonestas e covardes do BE vão em delegações (no lugar deixado vago à última hora pele Chega, e ao lado de PS, PSD, IL, e companhia) a Kiev dar apertos de mão a ditadores, golpistas, corruptos, e nazis. E esquecendo por completo os civis que os nazis massacram desde 2014, inclusive queimando pessoas vivas na Casa dos Sindicatos em Odessa.

Nem Salazar desceu tão baixo, pois esse ao menos era um patriota que procurou um caminho estreito para salvar Portugal da Segunda Guerra Mundial, e nunca se aliou descaradamente a nazis, mesmo apesar da amizade entre ele e Franco, Mussolini, e Hitler.

Quando até uma besta como Salazar fica bem na fotografia, quando comparado, lado a lado, com as bestas actuais de Lisboa e Bruxelas, então está tudo dito.

Valha-nos o espírito e a memória de Otelo, Maia e companhia, pois em carne e osso só temos o Gouveia e Melo e a restante cambada de NATO-cornos especialistas em propaganda e traição à Pátria e ao povo português.

Cada país tem aquilo que merece:

  • Portugal doou helicópteros Kamov aos nazis ucranianos, e depois ficou sem meios suficientes para combater incêndios.
  • Em breve teremos um Primeiro-Ministro chamado Ventura e um Presidente que só sabe fazer a saudação militar sob uma bandeira dos EUA/NATO.
  • Falta a luz no país inteiro quando alguém dá um peido junto a uma estação elétrica em Espanha.
  • Vamos todos voar na Ryanair quando a Lufhtansa comprar a preço de saldo o que resta da TAP.
  • Se quisermos material informático, temos de ir para a lista de países de segunda classe, onde os EUA nos puseram desde que se intensificou a competição na IA.
  • Os UMM são peças de museu, e se quisermos manter menos de 1% do nosso parque automóvel montado (NÃO fabricado) em Portugal, temos de pedir com muito jeitinho aos alemães.
  • Direitos Laborais é coisa de “extrema-esquerda”, pois o que é bom são falsos recibos verdes, caducidade da contratação coletiva, quase inexistência de sindicalismo e de fiscalização laboral, e andar a ser escravizado pelas Uber, Glovo, e companhia.
  • E que tal gente a ser expulsa de casa, sem poder comprar comida no final do mês, porque os salários que já eram miseráveis, foram ainda mais comprimidos pela inflação (causada pelas sanções)?
  • Ah, e depois de uma década perdida com austeridade e sacrifício, toca a f*der os défices e as dívidas outra vez, pois a escumalha de Washington+Bruxelas mandou-nos comprar muitas armas…

O sacrifício humano de milhões já é isto. A humilhação geoestratégica já está consumada.

E a esmagadora vitória da Rússia só é ultrapassada pela vitória ainda maior da China e do restante Sul Global, que está a erguer-se sem perder a dignidade. E, muito sinceramente, isso é uma excelente notícia para nós, a longo prazo. Um Mundo mais decente, e com a China a liderar, dando o exemplo.

Em Portugal só se discute a pressa em vender a TAP, algo que agravará o nosso défice externo. Na Rússia há um ranking para ver qual a empresa que mais meios aéreos fabrica e exporta, se os Topolev, Antonov, Ilyushin, Sukhoi, Mikoyan (dos famosos MiG), etc.

Em Portugal debate-se se um dia, no futuro, alguma vez será construído o primeiro metro de linha de comboios de alta-velocidade. Na China já construíram o equivalente ao suficiente para ligar a Europa toda.

Em Portugal estamos em estagnação e endividamento e sem soberania desde que aderimos (antidemocraticamente) a uma moeda estrangeira chamada Euro, cujo Banco Central está em Frankfurt, e não quer saber das necessidades do país. Nos BRICS promove-se a soberania de cada país, defende-se importância das moedas nacionais, e a brasileira Dilma lidera o Banco de Investimento (NDB), cujos empréstimos não são sinónimo de humilhações como acontece no Ocidente com burocratas do FMI a dar ordens a governos nacionais para impor a austeridade.

Bem vistas as coisas, até posso, de forma bem-humorada, acabar assim: se querem o colapso da Rússia e da China, então convidem-nos a aderir à UE e ao euro de imediato. Mas se querem a salvação de Portugal, então rezem para que o exército russo e o chinês cheguem a Lisboa o quanto antes!

Europa à Beira do Abismo?

(João Gomes, in Facebook, 30/05/2025, Revisão da Estátua)

Imagem do ataque russo ao Aeroporto de Lviv onde estacionavam aviões fornecidos pela Europa à Ucrânia.

Cresce o Risco de Escalada Militar Direta com a Rússia

Nos bastidores das capitais europeias, cresce a inquietação com a possibilidade de um colapso militar total da Ucrânia, enquanto líderes de peso como o chanceler alemão Merz, o presidente francês Macron e o primeiro-ministro britânico Starmer debatem medidas cada vez mais ousadas – e arriscadas. Em causa está a recente reabertura da possibilidade de permitir à Ucrânia usar mísseis ocidentais para atingir alvos em profundidade no território russo, incluindo até Moscovo.

A proposta, inicialmente avançada por Merz e depois parcialmente desmentida, sinaliza uma mudança de paradigma: o fim da autocontenção estratégica que vigorava desde o início do conflito em 2022. Essa prudência anterior estava ancorada num receio compreensível de escalada nuclear ou de um confronto direto entre a NATO e a Rússia – cenário que agora parece cada vez menos impensável.

Um campo de batalha em desintegração

O panorama no terreno é sombrio. A Ucrânia enfrenta uma crise militar sem precedentes: perdas humanas insustentáveis, exaustão de recursos, escassez crítica de munições e uma incapacidade industrial que contrasta com a máquina de guerra russa – amplamente superior em artilharia, drones, mísseis e poder aéreo.

O avanço russo em regiões como Kharkiv, Dnipro e Donetsk ameaça provocar o colapso em cascata das linhas ucranianas, forçando Kiev a reposicionar tropas ou a recuar para o rio Dnieper. Especialistas apontam que, se nada mudar, o exército ucraniano pode atingir o “ponto de dissolução” até o outono de 2026 – ou antes.

Além disso, fontes indicam que os sistemas de defesa aérea ucranianos estão à beira da exaustão. A redução na taxa de interceção de drones de 90% para menos de 30% em algumas áreas expõe cidades e infraestruturas a bombardeamentos contínuos. A produção russa, tanto de mísseis quanto de drones, ultrapassa largamente a capacidade do Ocidente, hoje debilitado por décadas de desindustrialização.

O dilema europeu: intervir ou recuar?

Posição da Ucrânia no território europeu.

Perante este cenário, surge a questão: estará a Europa disposta a aceitar uma vitória russa e a imposição de um governo pró-Moscovo em Kiev? Ou arriscará um envolvimento direto, com tropas no terreno e mobilização militar geral, num confronto de grandes proporções que, ironicamente, os EUA de Trump parecem cada vez menos dispostos a apoiar?

A resposta é complexa. Os EUA, sob Trump, retiraram o apoio total a Kiev e pressionam por negociações de paz – mesmo que em termos desfavoráveis à Ucrânia. Para os países europeus que mais apostaram na estratégia de contenção e apoio indireto – como Alemanha, França e Reino Unido -, o dilema é existencial: ou aceitam a derrota estratégica da Ucrânia, ou escalam o conflito com consequências imprevisíveis.

A tentação de atingir a Rússia à distância – usando tecnologia europeia, mas mantendo soldados “fora do campo de batalha” – parece uma aposta cada vez mais arriscada. A Rússia já alertou que ataques em profundidade ao seu território com armamento europeu seriam tratados como atos de guerra, com retaliações diretas não apenas contra a Ucrânia, mas contra os próprios países fornecedores.

A hipótese do “governo pró Rússia”

Caso a Ucrânia sofra um colapso político-militar, torna-se plausível o cenário de Moscovo impor um governo pró-russo em Kiev. Do ponto de vista realista e estratégico, muitos analistas consideram que os europeus – esgotados económica, política e socialmente – poderão acabar por aceitar esse desfecho, ao estilo do “fait accompli” da Crimeia em 2014. Para os EUA, que observam à distância, tal desfecho poderia até representar mais uma “vitória de pirro”: Europa enfraquecida, Rússia sangrada, e o foco global deslocado para o Indo-Pacífico, onde está o verdadeiro interesse estratégico americano.

Este é um momento de decisão:

Com as cartas lançadas, a Europa enfrenta talvez o seu maior dilema desde a Segunda Guerra Mundial. Qualquer passo em falso pode significar o início de um conflito continental em larga escala, com mobilização generalizada e consequências imprevisíveis.

A alternativa – aceitar a derrota da Ucrânia e a expansão da influência russa – pode ser vista como humilhação geoestratégica, mas evitará o sacrifício humano de milhões.

Num tempo de retórica inflamada e decisões precipitadas, é a prudência, e não a bravura, que pode salvar a Europa de um novo abismo.

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Ne me quitte pas – Jacques Brel

(Paulo Marques, in Facebook, 28/05/2025)


(Nem só de política vive o homem e, por isso mesmo, hoje a Estátua resolveu virar a agulha para a música, para uma canção e histórias de outros tempos que – e digo-o com alguma mágoa e nostalgia -, eram bem melhores e esperançosos do que aqueles que estamos a viver. E uma lágrima escapou-me, rebelde e fugidia.

Estátua de Sal, 31/05/2025)


Já passaram mais de 60 anos. Foi em setembro de 1959 que, então com 30 anos de vida e já uns seis de carreira nos discos, o belga Jacques Brel (1929 – 1978) escreveu, compôs e cantou uma canção que se tornaria um dos seus mais aclamados êxitos: “Ne Me Quitte Pas”.

Ao longo dos anos, a magnífica e imortal canção foi interpretada por inúmeras vozes entre as quais as de Edith Piaf, Nina Simone, Barbara, Juliette Gréco, Sylvie Martin, Scott Walker, Sting, Ray Charles, Marc Almond, Maysa ou Simone de Oliveira.

O historiador António Araújo, traçou-lhe um breve, mas incisivo, esboço biográfico (Diário de Notícias, 14/10/2018):

Je vous ne quitterai pas. Estas terão sido das últimas palavras de Jacques Brel, segundo Oliver Todd, o seu mais credenciado biógrafo. Disse-as à enfermeira-chefe da clínica de Bobigny, arredores de Paris, poucas horas antes de morrer, eram três da madrugada de 9 de Outubro de 1978. Faleceu Brel de uma embolia motivada por um cancro do pulmão, resultado de anos e anos de fumo inveterado, aos quatro maços por noite.

Não causa espanto o facto de o cantor – ou marchand de chansons, como se definia – ter usado aquelas palavras na agonia derradeira, nos breves instantes em que lhe tiravam a máscara de oxigénio afivelada no rosto arfante. Ne me quitte pas foi o maior êxito da sua carreira, a canção pela qual será sempre lembrado. Compô-la em conjunto com o seu pianista, Gérard Jouannest, ainda que este nunca tenha recebido os devidos créditos por isso. A canção foi registada em Setembro de 1959 com o nome de Jacques Brel como autor exclusivo, música e letra. Os especialistas dizem sentir nos versos influências de Dostoiveski e de García Lorca e, na música, da Rapsódia Húngara n.º 6, de Liszt.

Brel sempre negou que a canção tivesse um carácter autobiográfico, afirmando mesmo que ela não era sequer uma canção de amor, antes um hino à cobardia moral dos homens, contando a história de um fraco que desperdiçara a sua vida. Misógino empedernido, acrescentou que o facto de as mulheres encararem Ne me quitte pas como uma canção de amor era algo que, apesar de falso, as reconfortava no seu eterno romantismo.

Aqui, as coisas complicam-se. É que a atriz e cançonetista, Suzanne Gabriello, asseverou, vezes sem conta, que a música era mesmo uma canção de amor, nascida da ligação que Brel com ela manteve durante vários anos. O cantor casara novo, aos 21 anos, com Thérèse Michielsen, Miche, sendo pai pouco depois. Na altura confidenciou a um familiar próximo, talvez em jeito de blague, que sonhava ter dez filhos. Mas era um marido que pouco ou nada ajudava em casa, que jamais lavou um biberão ou mudou uma fralda, noctívago que passava as manhãs na cama a dormir, nunca tendo levado as crianças à escola.

Em 1953, nasceu France, a segunda filha, que mais tarde criará e dirigirá a fundação com o nome do pai. Jacques deixara de trabalhar na empresa da família poucos dias antes do nascimento de France para tentar a sua sorte em Paris como cantor profissional.

 Passando dificuldades, vivendo num hotel miserável de Pigalle, pede à mulher que volte a trabalhar. Miche torna-se dactilógrafa de teses universitárias. Brel entra então no mundo da canção sob o patrocínio de Jacques Canetti, irmão do Nobel da Literatura, diretor artístico da Philips e proprietário do teatro Les Trois Baudets, onde o jovem belga actuava todas as noites. Os primórdios não foram auspiciosos: Canetti chegara a perguntar-lhe se pensava abraçar uma carreira artística com uma aparência física daquelas e, nas páginas do France-Soir, um crítico mais agreste lembrou-lhe, com maldosa ironia, que existiam comboios de regresso a Bruxelas.

A sua primeira aparição no Olympia, em Julho de 1954, raiou o desastre. É por essa altura que conhece Suzanne Gabriello, cantora e filha de cantores, Zizou de seu petit nom. É ela que consegue vencer a resistência inicial de Bruno Coquatrix, director todo-poderoso do Olympia, que detestava Brel e o seu estilo. Aos poucos, o belga com dentes de cavalo revela-se um estrondo em palco, com atuações trepidantes que o faziam perder vários quilos em cada performance. Aprendera com Montand que, além do timbre da voz e da melodia, das letras que falavam de amores tristes e condenados, para cativar uma plateia era essencial a presença física, a expressão da dor estampada no rosto e o condizente movimento corporal.

Com a mulher e as duas filhas em Bruxelas, tem agora tempo e espaço para o seu romance clandestino com Zizou, cujo pai, indignado com aqueles amores extraconjugais, chega a telefonar a Miche, a legítima, ameaçando-a que iria fazer com que tirassem ao marido a carta de trabalho de cançonetista em França.

 Esta não era a primeira aventura romântica de Brel, mas foi certamente das mais profundas e duradouras da sua vida (e, já agora, das mais proveitosas para a sua trajetória artística). Jacques chega a dizer a Zizou que se ia divorciar de Miche, mas o apego às filhas, a doença do pai e, convém dizê-lo, o seu profundo conservadorismo em matéria de costumes acabam por dissuadi-lo.

Filho da burguesia de Bruxelas, nascido numa família francófona e católica de industriais, antigo escutista, soldado que ia para o quartel num Studebaker guiado pelo motorista do pai, Jacques Romain Georges Brel só no final da vida se libertaria de uma visão retrógrada do mundo, machista e homofóbica, onde cabia aos homens ganhar o sustento do lar e às mulheres cuidar da casa e das crianças.

 Nunca se separou de Miche, mesmo quando decidiu viver com Maddly Bamy nos confins do Pacífico Sul, onde está sepultado a poucos metros da campa de Gauguin. Com Zizou manteve uma relação de cinco anos, feita de avanços e recuos, de encontros furtivos num apartamento alugado na Place de Clichy, de separações tempestuosas e reencontros fatais nos cabarés de Montmartre.

De permeio, nasce Isabelle, a terceira filha. Zizou sabe por acaso desse nascimento e rompe com Brel da maneira habitual, definitivamente provisória. Diz-lhe, magoadíssima, que esperava que Isabelle nunca viesse a saber até que ponto o seu pai era um frouxo. Nem isso, porém, terminaria a relação, que apenas em 1961 cessa definitivamente, ao que parece por iniciativa de Zizou, que só então fica a saber que Jacques já arranjara entretanto um novo amor, Sophie. Voltarão a encontrar-se fugazmente em 1966, e passam a noite juntos na véspera da despedida do cantor do Olympia e dos palcos, quando Brel trocou a música por uma malsucedida experiência no cinema, como ator e realizador. E, por uma trágica coincidência do destino, ambos morreram de cancro, ele em 1978, ela em 1992.

Ficou, de tudo isto, Ne me quitte pas, que Zizou garante ter sido escrita para si, em jeito de súplica num tempo de rutura. Brel negou a pés juntos, mas o certo é que basta ler a letra ou ouvir a música para perceber que ela é, obviamente, uma canção de amor. Brel ficou com uma Sophie efémera, Zizou com uma música eterna, inesquecível. Caso para dizer: “estamos quites, pá”.

O que não se sabia, pois ela sempre foi mais discreta do que ele, é que, enquanto namorava com o autor de Ne me quitte pas, Zizou teve outra paixão consumada, com o humorista e artista de music-hall Guy Bedos. Nas suas memórias, Bedos fala dessa relação ardente, mas nunca revela quem era a protagonista, cujo nome só foi conhecido num programa televisivo de 2015. Suzanne Gabriello, dita Zizou, que muitos tomavam pela amante abandonada e enganada, tinha afinal uma vida sentimental muito mais rica do que todos julgávamos, Brel incluído. Mesmo caso para dizer: : “estamos quites, pá”.


E para quem quiser recordar aqui fica 🙂 :


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