Haia como ponto de viragem da NATO na Europa

(Por Ricardo Nuno Costa, in Facebook, 23/06/2025)


A 38ª cimeira da NATO, que tem lugar em Haia esta semana pode marcar um ponto de viragem histórico, em particular no ramo europeu da Aliança.

Após a visita do secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth a Bruxelas no passado dia 5 de junho, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, não perdeu tempo em informar a imprensa que a NATO iria aprovar “por unanimidade” a subida dos gastos de defesa para um mínimo de 5% dos orçamentos de estado dos seus membros em relação ao PIB.

Hegseth trazia uma mensagem do presidente Trump, no sentido de gastar mais em armamento, uma receita de resto já conhecida desde a sua primeira administração, mas agora em circunstância mais propícias para o negócio. O chefe do Pentágono acabava de chegar do Diálogo de Shangri-La, em Singapura, onde deu ordens aos seus aliados do Indo-Pacífico no mesmo sentido, ante a “ameaça crescente da China” na região.

Mas porque é que Rutte afirmou com tantas certezas que “vamos aprovar por unanimidade”? Como sabe ele que é certa a implementação desta tão ambiciosa como fantasiosa fasquia? Sabem Rutte, Hegseth e Trump sequer o que representa isto para cada um dos 32 países, membros da Aliança?

Que esperar, por exemplo, de uma Finlândia ou Suécia, até há dois anos estados que desfrutaram de décadas de bem-estar social, em parte graças à sua neutralidade militar? Como irão entender suecos e finlandeses este duro golpe nas suas economias, quando lhes prometeram que a entrada da NATO lhes traria “segurança”?

Cinco dias dias depois, o secretário-geral da NATO anunciava em Londres a militarização total do continente, onde afirmou que a NATO precisa de mais milhares de veículos blindados e milhões de cartuchos de artilharia, bem como de um aumento de 400% na defesa aérea e antimíssil, dobrar a despesa em logística, transporte e apoio médico.

O chefe da NATO disse mesmo que a Europa precisa de mais navios e aviões: “Como exemplo, os aliados dos EUA na Europa precisam de 700 aviões de combate F-35” (da norte-americana Lockheed Martin, estreitamente relacionada com o genro de Trump). “Sabemos que precisamos de gastar muito, muito mais se quisermos cumprir todos estes objetivos”, avisou Rutte, passando a mensagem que o chefe do Pentágono lhe trouxera da Casa Branca.

O plano de Trump tem dois objetivos principais: por um lado restaurar a indústria pesada norte-americana através do sector armamentista, num momento em que a administração tenta desesperadamente minorar o défice orçamental que não deixa de se acumular; e por outro lado, encerrar a Europa num sistema de defesa já enormemente dependente dos EUA, com material, hardware e software norte-americanos, minando ao mesmo tempo qualquer tentativa de emancipação dos projetos industriais de defesa pan-europeus, fortemente degradados após a entrada da UE no conflito ucraniano sob as ordens dos EUA. O complexo industrial militar norte-americano visa assim dar o golpe decisivo na autonomia estratégica europeia.

Se tal se vier a concretizar, a despesa representará um grande fardo para os países mais pequenos e com economias mais frágeis. Definitivamente não é o mesmo exigir 5% a uma Alemanha, França ou Reino Unido, ou ao Montenegro, Croácia, Hungria, Grécia, Portugal ou qualquer dos bálticos, nem pelas capacidades das suas economias, nem pelas histórias dos países, nem pela perceção das suas populações.

É pura ingenuidade ou ignorância tratar 32 países, quase todos europeus, da mesma forma. Esta ideia só poderia sair de uma mente meramente transacional como a de Trump.

A Espanha já fez saber que não tem condições para cumprir esta meta. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que fez tanta coisa errada em política económica e fiscal, provavelmente cairá do governo em breve, exatamente no momento em que está fazendo coisas certas, nomeadamente no seu apoio ao processo de reconhecimento da Palestina na ONU, no distanciamento em relação a Israel, e agora ao atrever-se a negar-se a subir o seu orçamento militar para os padrões que exigem os EUA.

A imposição de Trump encerra uma tremenda hipocrisia, uma vez que os próprios EUA atualmente gastam somente 3% do seu orçamento em Defesa e visam inclusive reduzi-lo. Sabia-se que Trump iria fazer os europeus pagar as guerras dos EUA, isto foi avisado aqui, antes da sua eleição.

A Alemanha é um elemento importante nesta equação. O chanceler Friedrich Merz foi o primeiro a submeter-se às ordens de Trump, anunciando imediatamente subir o orçamento militar para 5% do PIB, assim que assumiu o governo em Berlim. Na semana passada, na reunião do G7 no Canadá, Merz voltou a tomar protagonismo, ao afirmar que “temos que estar agradecidos aos israelitas, porque são eles que fazem o trabalho sujo” ao atacarem o Irão. A Alemanha está fortemente implicada nas guerras de Israel, nomeadamente ao ser o seu maior fornecedor de armas.

Quem não perdeu tempo para aproveitar aquelas escandalosas palavras foi Bezalel Smotrich. O controverso ministro das Finanças israelita afirmou que “os países árabes ricos, a Alemanha, a Grã-Bretanha e a França, têm de partilhar os custos da guerra de Israel contra o Irão, pelo menos de um ponto de vista económico. Um Irão com armas nucleares e mísseis representa uma ameaça não só para Israel ou para o Médio Oriente, mas para todo o mundo.”

Ou seja, para além da meta dos 5%, em Haia estará em cima da mesa também a continuidade do apoio da NATO ao regime por procuração de Kiev na sua guerra contra a Rússia, e agora também a guerra iniciada imprudentemente por Netanyahu contra o Irão. É óbvio que, por muitas promessas de circunstância que alguns irão proferir,  não haverá consenso, nem verbas para tudo isto, e a discórdia estará servida entre os aliados. A semana que começa tem tudo para se converter no divisor de águas que a Aliança Atlântica nunca conheceu.

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O que é que os americanos conseguiram com seu ataque ao Irão?

(Dmitri Medvedev, in Telegram, canal Geopolítica Z 22/06/2025)

Dmitri Medvedev, ex-Presidente e ex-Primeiro-ministro da Rússia

1. A infraestrutura crítica do ciclo nuclear, ao que tudo indica, não foi atingida ou sofreu danos insignificantes.

2. O enriquecimento de materiais nucleares – e agora pode-se dizer claramente: a futura produção de armas nucleares – continuará.

3. Vários países estão prontos para fornecer diretamente a carga nuclear ao Irã.

4. Israel está sob ataque, explosões ressoam, as pessoas estão em pânico.

5. Os EUA estão envolvidos em um novo conflito, com possibilidade de operação terrestre.

6. O regime político do Irã foi preservado, e com grande probabilidade se fortaleceu.

7. O povo se unifica em torno da liderança espiritual, inclusive aqueles que antes não simpatizavam com ela.

8. Trump, que chegou como presidente pacificador, iniciou uma nova guerra para os EUA.

9. A esmagadora maioria dos países do mundo está contra as ações de Israel e dos EUA.

10. Com esse “sucesso”, Trump não verá o Prêmio Nobel da Paz – mesmo com toda a corrupção da indicação. Um ótimo começo, parabéns, Sr. Presidente!

Segue agora um excelente texto de análise a estas declarações de Medvedev.


Medvedev avisa: o pesadelo nuclear do império está desencadeado

(Por Gerry Nolan, in Telegram, canal Sófia Smirnov, 23/06/2025)

A encenação da águia à meia-noite sobre os céus iranianos prometia um espectáculo de choque e pavor, a “obliteração” das instalações nucleares que, como nos garantiram, desarmaria Teerão para sempre.

Mas a poeira baixou de forma diferente. Dmitry Medvedev, o feroz cirurgião geopolítico da Rússia, calmamente realizou a autópsia: “A infraestrutura crítica permanece intacta. O enriquecimento continuará. E agora, vários países estão prontos para entregar ao Irão as suas próprias ogivas nucleares.”

Leia entre as linhas cuidadosamente escolhidas de Medvedev e verá não apenas um aviso, mas uma declaração multipolar de independência, que reduz as palhaçadas unilaterais dos Estados Unidos a meros acessos de raiva num palco cada vez menor.

O espetáculo americano do bombardeiro B-2, anunciado como decisivo, foi apenas uma propaganda performativa, uma miragem poderosa projetada para aplacar as ansiedades israelitas e apaziguar os egos neoconservadores. O Irão minimizou o ataque, recuperando-se com facilidade e sinalizando que a sua trajetória nuclear permanece inalterada. De facto, o ataque do Império não passou de um ato de desespero.

E então veio Medvedev, brandindo palavras mais afiadas que as destruidoras de bunkers:

Israel está sob ataque, explosões estão a abalar o país e as pessoas estão em pânico.” Trump, antes aclamado como o “presidente da paz“, agora encontra os seus Estados Unidos enredados em mais um conflito, com uma guerra terrestre iminente e o Prémio Nobel da Paz a ser apenas uma piada. Como brincou Medvedev com sarcasmo letal: “Um óptimo começo, parabéns, Sr. Presidente!

Lembre-se do Iémen, onde meses de bombardeamentos implacáveis ​​deixaram os houthis não enfraquecidos, mas sim encorajados. Washington e Londres acabaram por implorar por negociações de cessar-fogo mediadas pelo Omã, forçados a negociar a partir da fraqueza. O Iémen, minúsculo em comparação com o Irão, tornou-se um padrão humilhante para a impotência ocidental.

Agora, ampliando o Iémen cem vezes, temos o Irão. Teerão não é um Estado incipiente, é um Estado-civilização ancestral com mísseis hipersónicos, redes de proxy em expansão e alianças profundas com a Rússia, a China e amigos potencialmente dotados de armas nucleares, prontos para oferecer ajuda atómica.

As implicações da confirmação enigmática de Medvedev são sísmicas. Pela primeira vez reconhecidas abertamente por um peso-pesado global, as transferências nucleares de “terceiros” para o Irão podem em breve tornar obsoleta a exclusividade nuclear ocidental sionista no Médio Oriente. O Sul Global, a Eurásia – e até mesmo alguns estados europeus cautelosos -, estão a alinhar-se, tácita ou abertamente, com essa nova realidade, reconhecendo que o domínio unilateral israelo-americano, nuclear ou não, é um artefacto do passado.

Em suma, as aventuras noturnas do Império inadvertidamente prepararam o cenário para um futuro nuclear multipolar, um futuro que Washington não pode controlar nem ditar. Mas pode agradecer a si mesma por acender o pavio.

Trump, o autoproclamado presidente antiguerra que prometeu diplomacia em vez de destruição, abraçou agora plenamente o pesadelo neoconservador. As aspirações ao Prémio Nobel da Paz evaporam nas areias do deserto de Natanz, Fordow e Esfahan. Os parabéns irónicos de Medvedev: “Que jeito de começar, Sr. Presidente!”, captam a amarga ironia. O legado de Trump, rotulado como populismo pacifista, alinha-se agora irrevogavelmente ao militarismo imperial.

A mensagem de Medvedev ressoa claramente: as regras do jogo geopolítico mudaram irrevogavelmente. Rússia, Irão e aliados não aceitarão mais ataques unilaterais ou estrangulamento económico silenciosamente. Multipolaridade significa equilíbrio nuclear, equilíbrio estratégico e, em última análise, o fim das pretensões unipolares.

Teerão sobrevive, fortalecida, unida sob uma causa que o Império lhes entregou de bandeja. Entretanto, Telavive recupera-se de vulnerabilidades sem precedentes, com a sua aura outrora poderosa fragmentada por ataques iranianos de precisão, como parte da Operação Promessa Verdadeira 3.

A manobra imprudente do Império, executada com miopia estratégica, saiu-lhe espetacularmente pela culatra. Washington, presa em ciclos perpétuos de conflito, enfrenta agora uma ordem multipolar cuja construção ajudou inadvertidamente a acelerar.

Medvedev falou. O pesadelo nuclear do Império começou.

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Israel

(Por General Pezarat Correia, in O diario.info, 18/06/2025)


Israel é uma fortaleza militar, pilar do poderio dos Estados Unidos da América (EUA) numa das áreas geoestratégicas mais sensíveis da Terra, a bacia do Mediterrâneo euro-afro-asiático.

Acresce que Israel é produto do processo de descolonização do Império Otomano, na sequência da Guerra Mundial 1914-1918 (IGM) que, maquiavelicamente, como sempre foi marca da política imperial britânica, Londres procurou gerir por forma a preservar os seus interesses. Por mandato da Sociedade das Nações (SDN) ao Reino Unido (RU) coubera, entre outros territórios, a administração da Palestina, onde coabitavam, pacificamente, comunidades cristã, judaica e muçulmana. Esta era largamente maioritária enquanto a judaica era apenas de cerca de 50.000 pessoas, distribuídas por vários colonatos, pela cidade portuária de Telavive e com significativa presença em Jerusalém, partilhada com cristãos e muçulmanos. Em 1919, o secretário de estado dos Negócios Estrangeiros britânico Arthur Balfour, pressionado pela influente comunidade judaica do RU, difunde a célebre Declaração Balfour prometendo aos judeus o “lar judaico na Palestina”. À maioria árabe, que não foi ouvida nem achada nesta decisão arbitrária da potência para-colonial, limitou-se a dizer “cheguem-se para lá que isto agora passa a ser terra judaica”. Foi neste contexto que, em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial (IIGM), nasceu o estado de Israel.

Com ele nascia também o conflito na Palestina, com a sistemática perseguição e expulsão da comunidade árabe e atração de judeus para alterar a correlação demográfica das várias comunidades, com a progressiva e violenta expansão territorial de Israel à custa dos Estados vizinhos, com a transformação de Israel num Estado de regime de apartheid onde a maioria árabe foi forçada à emigração ou à sujeição a um estatuto discriminatório na sua própria terra. À Palestina, com um território privado de continuidade, com acesso aos recursos aquíferos vitais para uma comunidade maioritariamente camponesa controlado por Israel, com circulação nas estradas condicionada, com acessos ao exterior limitados, é negada a possibilidade de constituir um Estado. Entretanto Israel, a seu bel-prazer e com proteção armada face a uma autoridade palestiniana desarmada, vai construindo colonatos nas terras da Palestina potencialmente mais produtivas.

Toda esta política de Israel tem sido objeto de reiterada condenação pela Organização das Nações Unidas (ONU). Israel é o Estado membro com maior número de resoluções da ONU por cumprir. Beneficiando de um estatuto de exceção e impunidade, não respeita nenhum acordo, mesmo aqueles que assinou. O Acordo de Oslo, concluído em 1993 que, apesar de leoninamente favorável a Israel, consagrava a solução dos dois Estados, selou-se pelo assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin por um israelita a mando nunca se apurou de quem. É hoje letra morta para os atuais dirigentes sionistas. Com a complacência dos dirigentes políticos ocidentais que patrocinaram aquele acordo.

Quando, depois da vitória na IIGM, os EUA se substituíram ao RU como potência marítima global, assumiram por inteiro o patronato de Israel como a fortaleza garante do seu domínio imperial no Médio Oriente. Pelo valor posicional geoestratégico no cruzamento dos eixos norte-sul e leste oeste, pelo controlo regional dos recursos energéticos, como agente perturbador numa zona civilizacionalmente muito instável, Israel é uma praça fundamental de Washington na sua ambição de preservar um estatuto que, na realidade, já não detém, o de líder de um sistema mundial unipolar.

Por isso chegou ao ponto de, violando todos os acordos, nomeadamente o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, dotar Israel de armas nucleares. Mas clandestinamente, porque não se assume como tal. Daqui a inqualificável hipocrisia com que vemos Israel, com o apoio do ocidente alargado, proclamar que o Irão nunca poderá dotar-se de armas nucleares. Israel é o último Estado com legitimidade para esta exigência. O certo é que, fazendo-o, está à beira de lançar o mundo numa terceira guerra mundial que, a acontecer, atingirá o paroxismo de um conflito com armas nucleares.

Ninguém quer ver o óbvio: a desnuclearização do Médio Oriente não passa pelo impedimento do Irão à arma nuclear, passa, isso sim, pelo desarmamento nuclear de Israel. Então, sim, será legítimo impedir que o Irão atinja esse patamar.

Como a hipocrisia não tem limites, Israel, o Estado mais agressivo e desestabilizador em todo o Médio Oriente, tem, no dizer das cabeças iluminadas que nos governam, o direito a defender-se. Direito que é negado aos palestinianos, há décadas sujeitos à permanente pressão agressiva de Israel, que atualmente se traduz no genocídio cruel, racional, a frio, de um povo, ao qual o mundo assiste passivamente.

Deixo aqui uma profecia para o futuro, a que já não assistirei: a paz na Palestina já não passa pelos dois Estados. Israel tornou essa solução uma miragem. A solução passará por um só Estado, a Palestina, laico, onde conviverão todos, cristãos, judeus, muçulmanos, ao qual regressarão os milhões de palestinianos que a perseguição sionista obrigou ao exílio.

Nós, europeus, todos, temos pesos nas consciências pelas perseguições a que, durante séculos, condenámos os judeus. Que atingiu as raias do inimaginável na Alemanha nazi e nos países por ela ocupados. Agora estamos a procurar sanar as nossas culpas e aliviar as nossas consciências, solidarizando-nos com os judeus à custa dos palestinianos. Só que não foram os palestinianos os agentes das perseguições seculares aos judeus. FOMOS NÓS.

Fonte aqui

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