EUA e Israel: Quem é o senhor e quem é a colónia?

(Raphael Machado in S.C.F. 06/03/2026)


Tel-Aviv instrumentalizará os EUA enquanto isso servir aos seus próprios interesses expansionistas.


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A Coalizão Epstein (EUA e Israel) iniciou no dia 28 de fevereiro uma guerra contra a República Islâmica do Irã. O tiro de partida foi o assassinato de 171 meninas numa escola primária (talvez como sacrifício a Baal, divindade favorita dos epsteinianos?), seguido pelo martírio do Aiatolá Ali Khamenei, em sua própria residência.

Foi o início de uma “operação” que os EUA esperavam ver terminada em algumas horas, depois em 3 dias. Bem, já passam de 6 dias de operação e todos os analistas indicam que a guerra durará, no mínimo, algumas semanas, com perdas significativas em ambos os lados.

O que levou essa operação a ser iniciada? A resposta fácil e previsível é que os EUA querem o petróleo e outros recursos naturais do Irã.

Usualmente, quem raciocina dessa maneira tende, também, a dizer que o Estado de Israel representa um enclave dos EUA ou do “Ocidente coletivo” no Oriente Médio, cuja finalidade seria servir de entreposto para facilitar ou possibilitar a ocupação da região, para garantir a exploração dos seus recursos naturais. É o resultado inevitável, talvez, de olhar para as estatísticas comparadas de ambos países.

Os EUA são maiores, têm um PIB maior, forças armadas mais poderosas e mais numerosas, possuem mais bilionários, enfim, são “superiores” em todos os quesitos possíveis e imagináveis, de modo que só se pode perceber a relação EUA-Israel como uma na qual os EUA mandam e Israel obedece.

De fato, as leituras marxianas e, em geral, materialistas vão nesse sentido. Mas a Guerra do Irã confirma essa avaliação?

Se é Israel a colônia obediente dos EUA, então a decisão de iniciar o conflito teria sido eminentemente dos EUA, com Israel simplesmente obedecendo à determinação de sua “metrópoles”.

Mas aquilo que se percebe das declarações oficiais do Secretário de Estado Marco Rubio e do Secretário de Guerra Pete Hegseth é exatamente o oposto: eles deixaram bastante claro em suas coletivas de imprensa que os EUA se envolveram no conflito apenas porque Israel já havia decidido atacar o Irã, com Washington simplesmente seguindo a determinação sionista.

Usou-se o artifício de alegar um plano de ataque preventivo por parte do Irã, mas o artifício foi rapidamente abandonado após ter sido refutado pelo Pentágono. De fato, o Irã não tinha qualquer plano de atacar seja os EUA, seja Israel.

Em outras palavras, Israel teria feito os EUA atacarem o Irã. Como isso é possível?

A solução para o mistério parece estar no papel da comunidade judaica dos EUA e sua influência sobre os negócios internos do país, tenham seus membros cidadania israelense ou não. Afinal, apesar de compor apenas 2.4% da população dos EUA, 25% dos seus membros possui renda equivalente ao 4% mais ricos entre os não judeus.

E se em muitos países, boa parte da comunidade judaica é crítica ou indiferente a Israel, nos EUA 90% dos membros da comunidade apoiam Israel contra seus inimigos. E esse apoio não é meramente verbal, expressando-se através da organização formal de lóbis que financiam candidatos pró-Israel e prejudicam candidatos anti-Israel, a mais famosa dessas organizações sendo a AIPAC, a qual investiu quase 130 milhões de dólares para eleger seus candidatos em 2024.

Um ativo muito mais importante, porém, é o fato de que, tal como indicado pela renda, muitos membros dessa comunidade ocupam postos de poder e influência na mídia de massa, no sistema bancário e no entretenimento. Mesmo sendo apenas, novamente, 2.4% da população dos EUA, constituem 33% dos CEOs dos principais bancos, 40% dos CEOs dos principais conglomerados midiáticos e 50% dos CEOs das principais empresas da indústria do entretenimento.

E esses são os setores que, basicamente, controlam o fluxo de investimentos, bem como moldam as opiniões e gostos da população do país.

Anos atrás, os geopolitólogos John Mearsheimer e Stephen Walt lançaram um ótimo livro sobre o lóbi sionista nos EUA. O que eles deixam bem claro naquela obra é que o apoio dos EUA a Israel não está vinculado a qualquer interesse estratégico de Washington. O custo de apoiar Israel é imenso, tanto em dinheiro quanto na popularidade internacional dos EUA. De fato, os EUA apenas se prejudicam ao apoiar Israel contra seus inimigos.

Então como se poderia dizer que os EUA controlam Israel?

Voltando à atual administração presidencial, personagens como Hegseth e Lindsay Graham admitem abertamente que o principal objetivo dos EUA é facilitar a reconstrução do Templo de Jerusalém para abrir o caminho para a vinda do Messias dos judeus. Escatologicamente, o problema aí é que, para católicos, ortodoxos e protestantes tradicionais, o Messias dos judeus é o Anticristo.

Por mais que Israel seja dependente da ajuda financeira e militar dos EUA, o sionismo capturou os mecanismos de decisão e formação da opinião pública de maneira tão total que praticamente poderíamos comparar o hegemon unipolar a um golem acéfalo. No lugar de “America First”, é a política do “Israel First”.

Enquanto bases, radares, aviões e pessoal dos EUA é atingido por chuvas de mísseis e drones, e Washington vai perdendo influência e capacidade de projetar poder no Oriente Médio, torna-se inevitável chegar à conclusão de que é Israel quem dá as cartas nessa relação, e que Tel-Aviv instrumentalizará os EUA enquanto isso servir aos seus próprios interesses expansionistas.

Texto em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

Montenegro luta pelo poder e receia a crise

(João Gomes, in Facebook, 06/03/2026)


Há apenas poucas semanas, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, garantia aos portugueses que governaria durante quatro anos. A promessa parecia simples, direta e quase tranquila, como quem acredita que o caminho está limpo de obstáculos. A política, porém, raramente respeita calendários anunciados com tanta confiança. De repente, o cenário mudou.

Uma devastadora sequência de tempestades no centro-sul do país destruiu uma parte significativa da produção nacional, afetando cadeias industriais e agrícolas e abrindo um rombo financeiro que poderá ultrapassar os quatro mil milhões de euros. Um impacto próximo de um ponto percentual do PIB – o suficiente para transformar previsões orçamentais otimistas numa realidade muito mais incerta.

Quando um governo ainda procura resolver velhos problemas estruturais – saúde pública em tensão permanente, dificuldades na política de imigração, mercado de trabalho pouco dinâmico e uma execução lenta dos fundos europeus – a chegada de uma crise inesperada tem o efeito de revelar aquilo que já existia: fragilidade na capacidade de resposta do Estado.

É neste contexto que a política portuguesa entra num momento curioso. Passos Coelho decidiu reaparecer no debate público com críticas claras à direção política atual. Não é um gesto banal. Na tradição dos grandes partidos portugueses, antigos líderes raramente intervêm de forma tão direta quando o partido está no poder. Quando isso acontece, normalmente significa que algo mais profundo está a mover-se nos bastidores.

Ao mesmo tempo, surge outra sombra política: o caso da empresa Spinumviva, ligada ao próprio primeiro-ministro. Embora não exista acusação criminal, a decisão do Tribunal Constitucional de permitir a divulgação de informação relevante mantém o tema no centro do escrutínio público. Em política, muitas vezes o problema não é a ilegalidade comprovada, mas a suspeita persistente.

Como se não bastasse, o ambiente internacional também começa a mudar. A tensão no Médio Oriente e a guerra envolvendo o Irão já provocaram oscilações significativas no preço dos combustíveis. A história económica europeia mostra que estas crises energéticas raramente ficam confinadas ao mercado petrolífero: rapidamente se transformam em inflação, aumento do custo de vida e pressão social.

Perante este cenário acumulado – crise natural, pressão económica, escrutínio político e críticas internas – Montenegro tomou uma decisão que revela tanto confiança como prudência: convocar eleições internas no seu partido. Foi uma mensagem clara. Quem quiser contestar a sua liderança terá oportunidade de o fazer nas urnas do partido. É um gesto político clássico. Ao antecipar o confronto interno, o líder procura transformar a contestação difusa num desafio claro e imediato. Se vencer, reforça a sua legitimidade; se perder, o problema deixa de ser apenas político e passa a ser institucional. Porque, nesse caso, Portugal entraria numa zona politicamente delicada.

Se o líder do partido do governo deixar de ser primeiro-ministro – ou se o partido escolher outro líder – abre-se inevitavelmente uma questão constitucional e política: quem governa e com que legitimidade parlamentar? Em teoria, o chefe do governo pode continuar em funções. Na prática, o sistema político português dificilmente toleraria tal dissociação durante muito tempo. É por isso que as eleições internas do partido podem acabar por ser mais relevantes do que parecem. Não se trata apenas de uma disputa de liderança. Trata-se de um teste ao equilíbrio de poder dentro do próprio governo.

Entretanto, enquanto a política se reorganiza, os problemas estruturais do país continuam praticamente no mesmo lugar onde estavam antes das tempestades. O sistema de saúde permanece pressionado, a política de imigração continua a gerar divisões, o mercado de trabalho não mostra sinais claros de transformação e os grandes projetos financiados pela União Europeia avançam mais devagar do que o discurso oficial sugere. Portugal parece viver um curioso paradoxo: a política move-se rapidamente, mas os problemas movem-se muito pouco.

Se Montenegro vencer as eleições internas, poderá apresentar o resultado como uma renovação de confiança. Mas isso não eliminará os desafios que se acumulam à porta do governo. Se, pelo contrário, perder – hipótese ainda teórica – Portugal poderá entrar num novo ciclo político marcado por reorganização partidária, eventual mudança de liderança governativa e até eleições antecipadas.

Assim, o país aproxima-se de maio com uma pergunta no ar: saber se estamos perante um simples episódio de turbulência política ou perante o início de uma nova fase na vida política portuguesa. Entretanto, como tantas vezes acontece em Portugal, a política discute o poder enquanto o país espera pelas soluções.


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Imagina que a Democracia tem um “final feliz”

(Luis Rocha, in Facebook, 05/03/2026, mural de António Reis, revisão Estátua )


Imagina que um homem extremamente bem relacionado te convida para almoçar. Não um almoço qualquer, claro. Um daqueles almoços onde a lista de convidados parece saída de um encontro entre a realeza, Wall Street, Hollywood e meia dúzia de políticos que juram nunca ter estado ali. Imagina que o anfitrião é educado, inteligente, simpático, daqueles que conhecem toda a gente e que, curiosamente, toda a gente parece conhecer.

Imagina que, a meio da tarde, o anfitrião te pergunta com a naturalidade de quem oferece café se queres uma massagem. Nada de estranho. Stress, agenda cheia, o mundo é duro para quem tem responsabilidades. Depois mostra-te uma sala com jovens raparigas que parecem ter saído de um catálogo de spa tropical.

Imagina que aceitas. Imagina que a massagem termina com um daqueles chamados “finais felizes” que, convenhamos, transformam rapidamente qualquer spa numa tese prática sobre hipocrisia humana. Oral, manual, talvez mais do que isso. Um momento breve de decadência privada entre adultos que, naquele instante, acreditam que ninguém está a ver.

Agora imagina que dias depois o teu anfitrião telefona. E com uma voz perfeitamente tranquila te informa que as jovens eram menores. E que, por acaso, tudo foi gravado. Parabéns. Acabaste de ser promovido a marioneta.

Agora imagina que és juiz. Estás a decidir um processo delicado do tipo pedofilia, corrupção, tráfico de influências ou evasão fiscal. O tipo de caso que aparece nos jornais, e faz os discursos sobre moralidade pública florescer como papoilas em Maio. Imagina que o telefone toca. Do outro lado está o teu antigo anfitrião. Não pede nada de forma direta, claro. Pessoas sofisticadas não fazem chantagem de forma vulgar. Limitam-se a recordar-te que a memória digital é uma coisa extraordinária. E que certos vídeos envelhecem muito mal.

Imagina agora que és político. Tens de votar legislação sobre controlo de armas, direitos laborais ou regulação ambiental. Discursos inflamados no parlamento, entrevistas televisivas, promessas de integridade. Tudo muito digno. Até te lembrares da sala de massagens. E da câmara no canto.

Imagina que és editor de um grande jornal. Um desses guardiões da verdade que escrevem editoriais sobre ética pública e civilização ocidental. E imagina que sabes que existe um ficheiro com o teu nome. Um ficheiro onde a tua dignidade aparece reduzida a meia hora de spa altamente comprometedora.

Agora imagina que o teu simpático anfitrião afinal não era apenas um milionário excêntrico com amigos influentes. Imagina que era um operador. Um ativo. Alguém financiado para recolher segredos, fragilidades e pecados de gente poderosa. Um colecionador de compromissos humanos embalados em vídeo. Um homem chamado Jeffrey Epstein.

Imagina também que a sua companheira, Ghislaine Maxwell, não era apenas uma socialite elegante, mas também filha de Robert Maxwell, figura rodeada durante décadas pela aura de colaboração com os serviços de inteligência israelitas. E imagina que, quando Robert Maxwell morreu, recebeu funeral com honras em Israel.

Mas claro, tudo isto são coincidências. A História adora coincidências. Imagina agora a dimensão da coleção. Príncipes, bilionários, senadores, governadores, jornalistas, juízes, académicos e até presidentes. Um verdadeiro museu das elites ocidentais. Alguns desses nomes surgiram publicamente. Outros ficaram convenientemente protegidos pela névoa jurídica e pelo silêncio institucional.

Depois imagina que um dia o colecionador morre numa prisão. Oficialmente suicídio. Câmaras que não funcionam. Guardas que dormem. Protocolos que falham todos ao mesmo tempo, como se a incompetência tivesse decidido fazer uma festa. E imagina que, pouco depois, desaparecem gravações. Desaparecem documentos. Desaparecem provas.

Porque revelar tudo seria… inconveniente. Não para a justiça, naturalmente, essa gosta de luz, mas para uma certa elite global que descobriria, de repente, que a moralidade pública tinha sido administrada por um clube privado de pecadores gravados em alta definição.

Imagina agora a última cena. Milhares de pessoas poderosas continuam nos seus cargos. Fazem discursos, votam leis, escrevem editoriais, tomam decisões sobre guerras, economia e liberdade. E talvez algumas delas, quando o telefone toca à noite, sintam aquele frio muito particular na espinha.

Não é culpa. Não é arrependimento. É apenas a lembrança de que algures pode existir um vídeo.

E que, no grande teatro da política mundial, a democracia pode até parecer um sistema de governo. Mas às vezes funciona mais como um espectáculo de marionetas.

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