Os engulhos de Dombrovskis

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 24/02/2017)

nicolau

Quis o acaso que esta manhã bem cedo, ao passar à frente de um hotel situado no Terreiro de Paço, dei de caras com Valdis Dombrovskis, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Euro e Estabilidade, um dos mais duros e ortodoxos responsáveis europeus, neo-liberal convicto e grande apoiante da linha austeritária aplicada aos países do sul da Europa como forma de ultrapassarem a crise que vivem.

Dombrovskis estava a sair do hotel para ir à Assembleia da República, onde admitiu que Portugal tenderá a sair do Procedimento por Défice Excessivo (PDE) se a evolução positiva da economia se confirmar, nomeadamente nas estatísticas oficiais de Abril. Com efeito, segundo acrescentou, para o país abandonar o PDE será necessário que as “tendências [sobre os valores do défice] se confirmem”.

“Vamos usar o Eurostat de Abril”, lembrou o responsável, numa referência à estatística oficial europeia que fixará os valores das contas públicas de 2016, e acrescentando que nas previsões económicas e financeiras da Primavera, em Maio, também haverá nova avaliação. Será a Comissão Europeia que, nessa altura, emitirá a sua recomendação que decide se um país sai ou não do PDE.

Ora convenhamos que é demais. Há, da parte de alguns comissários europeus e da maioria dos membros do Eurogrupo uma desconfiança intrínseca e uma sanha contra Portugal porque não só a actual solução política não lhes agrada (Governo PS, apoiado pelo BE e PCP), como as políticas que tem vindo a ser seguidas são diferentes daquelas que os ortodoxos dirigentes europeus sempre preconizaram, assentes em reduções de salários, pensões e prestações sociais, além da redução dos direitos dos trabalhadores.

Mesmo a burocracia europeia está na mesma via. As previsões que fizeram em Setembro para um crescimento da economia portuguesa, continuando a apontar para um valor de 0,9% quando já era evidente que o crescimento iria ficar pelo menos em 1,2% (vai provavelmente fixar-se em 1,4%), não pode ser considerado em erro, face aos valores que já eram conhecidos – e só pode ser entendido como uma vontade de deturpar os valores para pressionar o Governo português e mitigar as boas notícias junto dos mercados e dos investidores.

E tudo isto porque um Governo que segue uma orientação diferente e mesmo assim, após um ano no poder, consegue apresentar o défice mais baixo em 42 anos de democracia (facto assinalado hoje mesmo pelo Washington Post), é um perigo para todos os que sempre defenderam que não havia outra alternativa às políticas de violenta austeridade que preconizaram e continuam a defender.

Dombrovskis tem engolido, portanto, vários sapos ao pequeno-almoço, e como tem azia insiste em deturpar as regras comunitárias. Com efeito, a avaliação que é feita a um país para saber se saiu ou não do Procedimento por Défice Excessivo é baseada nos dados do Eurostat relativos ao ano anterior, no caso 2016. É isso e só isso que deve ser tido em conta. As previsões económicas e financeiras de Maio da Comissão Europeia já não contam para nada no que respeita à avaliação do ano passado. Por isso, ao dizer o que disse e ao fazer o que, pelos vistos, a linha ortodoxa da Comissão pretende fazer – ou seja, esperar até Maio pelas previsões da Comissão e só aí tomar uma decisão sobre a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo – Dombrovskis a Comissão não só extrapolam o que está inscrito nos tratados europeus como demonstram que ainda tem uma réstia de esperança de que surja qualquer razão para impedir que Bruxelas aprove essa saída.

É lamentável esta atitude de Dombrovskis, porque não é baseada em dados objetivos mas em posições políticas, e pelo que ela revela de mau perder e de dificuldade em aceitar outra via para atingir os mesmos objectivos. E é ainda mais lamentável que a Comissão não se demarque do seu vice-presidente, esclarecendo de uma vez por todas quando analisará a saída de Portugal do PDE e o que conta efectivamente para essa avaliação.

Défice de 2,1%: o grande silêncio

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/02/2017)

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De repente, o ministro das Finanças anuncia que o défice em 2016 ficou não em 2,8%, 2,5%, 2,4% mas em 2,1% e o grande debate é em torno dos sms trocados entre Mário Centeno e o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues. De repente, sabe-se que o défice passou de 3,1% em 2015 para 2,1% no ano passado e o que se discute acaloradamente é se haverá ou não uma nova comissão parlamentar de inquérito, desta vez incidindo especificamente nas trocas de mensagens entre Centeno e Domingues. De repente, devíamos estar a falar de coisas importantes para o país mas os noticiários e os comentários são dominados por uma troca de sms entre duas pessoas.

Sim, claro que é importantíssimo saber o que Centeno disse a Domingues. Claro que é óbvio que Domingues pôs como condição não apresentar, nem ele nem a sua equipa, as declarações de rendimentos e património. Claro que o ministro ou alguém por ele aceitou essa exigência. Claro que a decisão de alterar o estatuto de gestor público para responder a isso foi uma péssima e canhestra ideia. Claro que quem bichanou ao ouvido de Marques Mendes a publicação do diploma foi o Presidente da República. Claro que a partir daí, Centeno, que nunca quis mentir, se enredou em explicações cada vez mais sofridas e menos credíveis, até terminar com o famoso “erro de percepção” em que terá induzido Domingues. E agora? Pois, e agora?

Nunca nenhum político mentiu no parlamento? Nunca nenhum político mentiu numa comissão parlamentar de inquérito? Não vamos mais longe: no Governo anterior foi tudo de uma enorme lisura e verdade? O que Pedro Passos Coelho disse na campanha eleitoral foi o que fez depois quando chegou ao poder? Maria Luís Albuquerque nunca torceu a verdade no caso dos swaps? Cavaco Silva, no livro que ontem lançou, conta exactamente o que se passou aquando do famoso caso das escutas ao Palácio de Belém?

A direita tem desenvolvido nos últimos anos campanhas sistemáticas para denegrir os dirigentes de esquerda. Acusá-los de serem mentirosos é o primeiro passo. Já aconteceu com António Costa (vide as recentes acusações de Assunção Cristas no parlamento ao primeiro-ministro, quando se conhece o historial de Paulo Portas na sua relação com a verdade). Mas quando não chega vai-se mais longe. O lamaçal que foi lançado sobre vários dirigentes do PS durante o caso Casa Pia foi das manobras mais sujas que a democracia portuguesa conheceu.

Nada disso justifica as contradições de Centeno, nem que tenha aceite as exigências de Domingues, nem que tenha permitido que uma sociedade de advogados elaborasse ela própria o diploma. Tudo erros, tudo asneiras. Mas o Presidente da República deu sibilinamente o caso por encerrado e o primeiro-ministro mantém a confiança em Centeno.

Na verdade, o que a direita não suporta é que Centeno tenha provado que era possível trilhar outro caminho económico, com menos sacrifícios para os portugueses, e mesmo assim conseguir reduzir o défice para valores historicamente baixos, o mais baixo em 42 anos de democracia, coisa que a direita nunca conseguiu até agora. O que a direita não perdoa a Centeno é que tenha conseguido fazer isto colocando a economia a crescer um pouco mais do que se esperava, com o regresso do investimento, a subida das exportações, a melhoria do clima económico e do indicador de confiança.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros

A bolsa portuguesa é como o rato Mickey; não existe

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 10/02/2017)

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É sempre muito surpreendente o espaço que jornais, rádios e televisões dedicam ao sobe e desce diário das acções na bolsa de Lisboa. E é surpreendente porque desde que começou o século XXI, a bolsa portuguesa não tem feito senão minguar, minguar, minguar, a tal ponto que hoje em dia bem se poderia acabar com ela que pouca gente daria por isso.

Sim, houve os tempos áureos do capitalismo popular e do início do processo de privatizações na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90, em que pesos pesados públicos entraram na bolsa como a PT, a EDP, a REN, além de grandes bancos privados como o BCP, o BES, o BPI e empresas com forte presença no tecido produtivo nacional, como a Sonae ou a Jerónimo Martins.

Sim, houve tempos em que a compra e venda de acções fervilhavam e os corretores e os bancos não tinham mãos a medir. Alguns dos corretores tornaram-se mesmo estrelas mediáticas, como Pedro Caldeira, cuja corretora acabou mal, deixando um rasto longo de lesados.

Era o tempo em que só no mercado de negociação em contínuo havia cerca de 80 empresas e no mercado não oficial havia mais umas três dezenas. As sete OPV (Ofertas Públicas de Venda) que Belmiro de Azevedo fez quando Miguel Cadilhe era ministro das Finanças e que lhe permitiram levantar “uma pipa de massa” foram o sinal para que muitos empresários quisessem igualmente colocar as suas empresas em bolsa, onde viam a possibilidade de captar muito investimento a um custo bastante mais baixo do que se o fizessem junto do sistema bancário.

Contudo, a adesão de Portugal ao euro a partir de 2001 fez baixar drasticamente as taxas de juro, tornando mais competitivos os financiamentos bancários. A banca, que via na bolsa um concorrente forte, aproveitou a oportunidade e começou a minar o mercado de capitais, lembrando aos empresários que, no caso de colocarem as suas empresas em bolsa ficariam sujeitos a regras de supervisão e de transparência bem mais exigentes do que se optassem por se endividar junto dos bancos. Ao mesmo tempo, o capitalismo popular diminuiu drasticamente e o entusiasmo dos investidores privados com as acções também caiu, dada a menor rentabilidade que apresentavam e a liquidez reduzida em muitos casos.

E assim, pouco a pouco, com uns escândalos à mistura, lançamento de OPAs sobre a totalidade do capital que as autoridades não obrigaram a que fossem feitas, emissões obrigacionistas que não foram pagas, acções que sofreram fortes desvalorizações, os pequenos e médios investidores afastaram-se do mercado de capitais e os empresários começaram igualmente a fugir dele.

Chega-se pois a 2017 numa situação em que o principal índice bolsista nacional, o PSI-20, não tem 20 empresas, mas 17. E das 17 que tem, os títulos verdadeiramente líquidos e interessantes não chegam a dez. E no total há cerca de 30 empresas cotadas no mercado de cotação em contínuo. O sinal mais evidente do desprestígio a que a bolsa chegou é o facto de Maria João Carioca ter aceite a presidência da Euronext para seis meses depois se demitir e aceitar um cargo de administradora na Caixa Geral de Depósitos liderada por Paulo Macedo.

Resumindo e concatenando, a bolsa portuguesa é tão real como o rato Mickey: trata-se cada vez mais de uma ficção, que pouco interessa.

É por isso que faz cada vez menos sentido o espaço dos comentários e análises nas rádios, jornais e televisões sobre uma bolsa que pouco ou nada varia: todos os dos dias desce um bocadinho e está no vermelho quando todas as bolsas europeias estão no verde, e às vezes sobe um bocadinho e está no verde quando todas as outras estão no vermelho. E negócios com empresas cotadas em bolsa são praticamente inexistentes.

Ficção por ficção, sempre é mais divertido o rato Mickey – que, além do mais, é um bocadinho mais antigo que a bolsa de Lisboa.