MARCELLUS VOBISCUM!

(José Gabriel, 18/12/2018)

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Um dia um anjo do Senhor – que digo eu, um arcanjo! – aparecendo a Marcelo, ordenou-lhe:

— Marcelo, filho de Baltazar, serás presidente de todos os portugueses, que é essa a vontade do Altíssimo!

Marcelo ficou perplexo, já que, sendo jurista, pensava serem indispensáveis os votos dos eleitores, mais que a vontade divina, para atingir tal desiderato. Porém, sendo crente, não se lhe pôs dúvida nem hesitação sobre o caminho a seguir. Pelo que, engolindo em seco, gaguejou humilde:

— Assim seja.

O anjo lá foi à sua vida – seja o que for que tal signifique, que o modesto escriba nada sabe sobre costumes angelicais -, resmungando para com as suas penas qualquer coisa pouco abonatória para O encomendante de tais tarefas.

E foi assim que Marcelo, o inocente, passo a passo, abriu o caminho à sua inevitável ascensão, caminho que não deixou de incluir um baptismal mergulho nas águas do rio onde nadam as Tágides.

E é vê-lo, hoje, lançando as suas bênçãos, apelos, conselhos, prédicas, reparos, paternais censuras e, até, uma ou outra ameaça de sobrolho erguido, perante os olhos maravilhados dos seus seguidores os quais – por observarem que tudo vem de alguém que nunca pôs as mãos na política real, nunca se embrenhou nas redes de intriga social, nunca foi presidente do PSD, nunca foi governante, nunca foi candidato a nada, nunca votou a favor e contra nada, nem contra a lei do Serviço Nacional de Saúde, abrenúncio!, numa palavra, nunca fez política nem defendeu interesses e causas que não as que, agora, lhe são sopradas do alto, sendo inocente do pecado original – o procuram e o seguem, nem que seja para com ele registar digital imagem que a posteridade agradecerá. Marcelo, o puro. Marcelo o único impoluto. Marcelo, o escolhido.

Por isso, oh meus irmãos descuidados, quando ouvirdes a palavra de Marcelo, sabei que, pela língua que se agita entre os seus dentes, passa a verdade, sempre a verdade. Para nós ficam as dúvidas, as angústias, as inseguranças, o mal viver. Nós, os muitos cuja única dádiva divina foi a ventura de viver no tempo de Marcelo, o imaculado.

Erguei, pois, as mãos aos céus – mas não agora que está frio, chuva e um vento do caraças – e, prostrados, agradecei. Marcellus vobiscum!

Haja Saúde

(Por José Gabriel, 15/12/2018)

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Marcelo Rebelo de Sousa vai estar perante o seu primeiro teste político realmente substantivo. Porque acudir a apoiar vítimas de catástrofes, visitar lugares e gentes, tirar selfies, tomar banho em praias do interior é simpático e, até, bondoso.

Promulgar leis de (quase) toda a sorte, incluindo as que versam as tais causas “fracturantes” – a direita moderna até lhes acha graça -, é giro e permite a cena da equidistância. Mas, agora, vem aí uma questão bem gorda, uma que mexe com os interesses dos patrocinadores da pesada: a Lei de Bases da Saúde.

O ensaio entre os comentadores televisivos já começou. “Ai Jesus que isto é ideológico”, bradam eles. Claro que é ideológico, criaturas! É por isso que a direita votou contra o SNS logo na sua fundação e, desde então, se tem afadigado em o transformar em fonte de rendimento para a iniciativa privada. E agora temem que a fonte seque – ou, pelo menos, vá minguando.

Ao longo dos golpes que foram sendo dados ao SNS original, sempre os seus inimigos visaram o mesmo objectivo: pôr a medicina privada a viver à custa do Estado, já que com um mercado verdadeiramente privado ela não teria grande sucesso.

Os grandes grupos de interesses movem-se e os seus mainatos afadigam-se na sua defesa. Como se distinguem? Fácil: aquilo a que os outros chamam Serviço Nacional de Saúde eles chamam Sistema Nacional de Saúde. Onde os defensores da causa pública defendem um serviço universal e tendencialmente gratuito, eles insistem em que o serviço público devia cuidar dos necessitados e o privado dos que podem pagar – sendo que este pagamento acabaria por ser extorquido do erário público.

No terreno, a oferta privada não seria suplementar mas concorrencial com a pública, acham eles. Poderá alegar-se, com razão, que tal sistema é, a longo prazo, insustentável; em alguns países da Europa tal golpe já foi tentado e o recuo foi inevitável. Mas a direita o os seus patrões vivem para o lucro de amanhã, não para o longo prazo e muito menos para o interesse público.

É visível que esta questão provoca um confronto no interior do próprio PS e não é casual o emagrecimento, por parte do governo, da proposta da Comissão presidida – et pour cause – por Maria de Belém. Penso que, acreditando nas palavras da ministra da Saúde, a emenda foi para melhor e as suas declarações de defesa do SNS público e da revisão da exclusividade dos profissionais parecem prová-lo.

E voltamos a Marcelo. Este, perante a aproximação do desafio, não hesitou em pressionar o Parlamento e ameaçar vetar uma lei de bases que não seja “flexível” – sabemos o que isso significa em “direitês”- e apoiada por um largo “consenso” – e sabemos o que isto significa em “centralês”.

Enquanto flutuou na espuma das coisas, Marcelo safou-se, mas agora é coisa para gente crescida. E o Presidente começa pessimamente.

O Criminoso falhado

(José Gabriel, 23/11/2018)

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Zé Mãozinhas estava inconsolável. Sentia-se injustiçado. E, no entanto, tudo tinha feito para que o sucesso fosse certo. Planeara o seu dia de crime cuidadosamente. Começara, como se impunha, pelo crime de violência doméstica esbofeteando – não sem alguma hesitação – a mulher. Esta, porém, não era boa de assoar e o Zé foi obrigado, sob uma saraivada de socos e pontapés, a refugiar-se na cozinha. Uma vez aí, prosseguiu a cena como pôde partindo toda a louça a que pode deitar a mão. Não era grande façanha, mas era, sem dúvida, classificável como violência doméstica. Fugiu pela janela da cozinha e, dirigindo-se ao quintal contíguo ao seu, aí se propôs prosseguir a sua jornada criminosa agredindo ao pontapé o cão do vizinho. Mas também o canídeo se mostrou pouco colaborante e, ferrando com inusitado vigor a perna do Mãozinhas, lá lhe deixou uma marca inesquecível – como se provava pela ligadura que, agora, envolvia a perna do frustrado agressor.

Quer dizer: um êxito parcial. Seguiu-se o prato forte do plano: o assalto ao tasco do Manel Barriga de Jinguba, agora, respondendo ao surto de turismo, transformado em bar gourmet. Munido da pistola de plástico – uma boa imitação, adrede comprada na Aurora Radiosa, a loja chinesa lá do bairro – o Zé, irreconhecível, com o rosto coberto pelo cachené surripiado à mulher, obteve, finalmente, um sucesso inquestionável. Cento e quarenta euros e mais uns cêntimos! Assalto à mão armada, coisa qualificada.

Pela tarde, sem surpresa, o Zé era preso e levado à presença do juiz. Sujeito a apertado interrogatório, confessou sem dificuldades – e, para surpresa do magistrado, com algum orgulho – os crimes de que era acusado. Era a glória! Detido enquanto esperava pelas medidas de coacção aplicáveis, o Zé esperou, frente à televisão, o inevitável estardalhaço mediático do seu dia de crime. No mínimo, esperava a transcrição do interrogatório a que tinha sido sujeito horas antes. Por isso, e para maior segurança, sentou-se a ver a CMTV.

Mas esperou e desesperou em vão. Ouviu pela enésima vez um interrogatório a uma viúva alegadamente assassina, a gravação de mais duas sessões de perguntas a uns tipos do futebol e outras minudências. Mas sobre ele, Zé Mãozinhas, indubitavelmente o criminoso do dia, nada. Nem uma palavra, nem uma passagenzita do seu confronto com o juiz. Tanto esforço para nada. Ainda por cima, a partir desse dia, teria de enfrentar, quando voltasse para casa, a hostilidade da mulher, a fúria vingativa do cão do vizinho e o rancor do Manel, que nunca mais lhe fiaria um petisco, um copo que fosse.

A Justiça é uma justiça de classe, conjecturava o Zé. As televisões também. Toda a fama para os ricos e todo o esquecimento para os pobres.

Claro que o Zé podia conceber e executar um crime mais cabeludo, coisa que desse verdadeiro escândalo. Mas, no fundo, ele sabia que não passava de um malandro de bairro, um criminoso de pechisbeque. E o Zé chorava a falta de reconhecimento. Fosse pelo que fosse, mas que lhe dessem um qualquer tipo de reconhecimento. Puta de vida.