O Criminoso falhado

(José Gabriel, 23/11/2018)

pistola
Zé Mãozinhas estava inconsolável. Sentia-se injustiçado. E, no entanto, tudo tinha feito para que o sucesso fosse certo. Planeara o seu dia de crime cuidadosamente. Começara, como se impunha, pelo crime de violência doméstica esbofeteando – não sem alguma hesitação – a mulher. Esta, porém, não era boa de assoar e o Zé foi obrigado, sob uma saraivada de socos e pontapés, a refugiar-se na cozinha. Uma vez aí, prosseguiu a cena como pôde partindo toda a louça a que pode deitar a mão. Não era grande façanha, mas era, sem dúvida, classificável como violência doméstica. Fugiu pela janela da cozinha e, dirigindo-se ao quintal contíguo ao seu, aí se propôs prosseguir a sua jornada criminosa agredindo ao pontapé o cão do vizinho. Mas também o canídeo se mostrou pouco colaborante e, ferrando com inusitado vigor a perna do Mãozinhas, lá lhe deixou uma marca inesquecível – como se provava pela ligadura que, agora, envolvia a perna do frustrado agressor.

Quer dizer: um êxito parcial. Seguiu-se o prato forte do plano: o assalto ao tasco do Manel Barriga de Jinguba, agora, respondendo ao surto de turismo, transformado em bar gourmet. Munido da pistola de plástico – uma boa imitação, adrede comprada na Aurora Radiosa, a loja chinesa lá do bairro – o Zé, irreconhecível, com o rosto coberto pelo cachené surripiado à mulher, obteve, finalmente, um sucesso inquestionável. Cento e quarenta euros e mais uns cêntimos! Assalto à mão armada, coisa qualificada.

Pela tarde, sem surpresa, o Zé era preso e levado à presença do juiz. Sujeito a apertado interrogatório, confessou sem dificuldades – e, para surpresa do magistrado, com algum orgulho – os crimes de que era acusado. Era a glória! Detido enquanto esperava pelas medidas de coacção aplicáveis, o Zé esperou, frente à televisão, o inevitável estardalhaço mediático do seu dia de crime. No mínimo, esperava a transcrição do interrogatório a que tinha sido sujeito horas antes. Por isso, e para maior segurança, sentou-se a ver a CMTV.

Mas esperou e desesperou em vão. Ouviu pela enésima vez um interrogatório a uma viúva alegadamente assassina, a gravação de mais duas sessões de perguntas a uns tipos do futebol e outras minudências. Mas sobre ele, Zé Mãozinhas, indubitavelmente o criminoso do dia, nada. Nem uma palavra, nem uma passagenzita do seu confronto com o juiz. Tanto esforço para nada. Ainda por cima, a partir desse dia, teria de enfrentar, quando voltasse para casa, a hostilidade da mulher, a fúria vingativa do cão do vizinho e o rancor do Manel, que nunca mais lhe fiaria um petisco, um copo que fosse.

A Justiça é uma justiça de classe, conjecturava o Zé. As televisões também. Toda a fama para os ricos e todo o esquecimento para os pobres.

Claro que o Zé podia conceber e executar um crime mais cabeludo, coisa que desse verdadeiro escândalo. Mas, no fundo, ele sabia que não passava de um malandro de bairro, um criminoso de pechisbeque. E o Zé chorava a falta de reconhecimento. Fosse pelo que fosse, mas que lhe dessem um qualquer tipo de reconhecimento. Puta de vida.

 

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