Tudo ao contrário!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 12/01/2023)

Oito anos de construções fortificadas, túneis, bunkers e depósitos de armamento sem fim, dois meses de reposicionamento de reservas e perdas humanas militares, eis que tudo começa, finalmente, a colapsar. As perdas humanas situam-se na casa das dezenas de milhares de jovens, menos jovens, nacionais e estrangeiros, eis que aconteceu o inevitável. O comediante que é presidente, nos seus vídeos diários a partir de um qualquer bunker ou numa qualquer mansão resistiu sempre a fazer o que o oponente faz quando considera que o esforço é demasiado para o ganho: recuar para uma linha de defesa mais sólida, poupando homens e equipamento.

A narrativa oficial, partilhada vezes sem fim, ecoando “as vitórias mais importantes desde a Segunda Grande Guerra”, para o lado doméstico, não será despicienda, para a decisão de lutar até ao último homem. Afinal, qualquer decisão, de dar por perdida uma importante cadeia defensiva, implica uma inversão total na narrativa propagada pela imprensa corporativa do Atlântico Norte. Há que preparar primeiro o público, seguidor implacável de tais narrativas. Dizer-lhe a verdade, não é uma opção, pois tal significaria dizer efectivamente o contrário do que se tem dito, nomeadamente quanto ao desfecho inevitável do conflito.

Esta é mais uma guerra usada como ciclo de acumulação capitalista, facto bem patente na importância destes últimos 9 anos de sanções para a inversão da tendência no mercado mundial de armamento, que colocava os dois indirectos contendores em competição directa e com números muito próximos. Só que tal situação como que se inverteu, sendo hoje os EUA, o incontestável líder da venda mundial de armamento, com cerca de 2/3 a mais em valor de vendas do que o seu maior concorrente directo (a FR).

Não quer dizer que vendam mais quantidade…Vendem sobretudo mais caro. Os dados ao dispor são elucidativos sobre o uso da guerra e do complexo militar industrial enquanto instrumento do ciclo de acumulação capitalista, ou, ao contrário, enquanto instrumento que tem como objectivo fundamental a defesa nacional.

O “Global Fire Power 2023” que estabelece o “Fire Power Index”, coloca os EUA em primeiro com 0,0712, a Federação Russa (FR) com 0,0714 e a China (RPC) com 0,0722. Ou seja, os dois primeiros surgem empatados e o terceiro está muito próximo. O 4.º lugar, da India, já está muito mais longe, com 0,1025. O que é que isto nos diz sobre o papel de cada exército?

A primeira questão que salta à vista é, como é que um país que gasta 800 mil milhões de dólares em orçamento militar (e não integramos aqui o “dark money” das secretas, nem toda a investigação paga através de programas federais que também vai para fins militares), tem praticamente o mesmo poder de fogo que um país que gasta 65 mil milhões de dólares e pouco mais do que outro que gasta 290 mil milhões de dólares?

A resposta está em vários vectores: 1.º o complexo militar industrial norte americano é privado, logo, visa prosseguir o lucro, o enriquecimento de uma elite e a concentração de riqueza, sendo o estado um instrumento dessa acumulação; 2.º os outros dois têm um complexo militar industrial essencialmente público – não exclusivamente -, principalmente nas áreas mais sensíveis, não se destinando a mais do que cumprir o seu papel público, ou seja, garantir uma defesa nacional eficaz e capaz de defender a soberania do país.

Esta diferença é primordial, pois o primeiro faz armas para vender, nomeadamente e como dizem muitos especialistas, produzindo “brinquedos” de luxo, muito sofisticados e complexos, e por isso muito caros, quer no acto de compra, quer na manutenção, formação e exigências técnicas do pessoal, quer quando em combate, normalmente muito dados a avarias. Ao contrário, os outros dois contendores tentam produzir o mais barato possível, produtos eficazes, eficientes e com durabilidade. O facto de se tratarem, em grande parte, de empresas públicas, permite comprar a preço de custo e mesmo quando se tratam de empresas privadas, o preço que exigem está condicionado por um mercado dominado pelo sector empresarial público, cujas dinâmicas de acumulação são controladas pelo Estado, na defesa do que entende como interesse nacional. A isto, os EUA, chamam de “falta de liberdade económica”. Dos mais ricos, claro!

A estes dois vectores poderemos ainda adicionar outras variáveis que não deixarão de ter grande importância: qualquer uma das economias do 2.º e 3.º classificados são menos financeirizadas e, nesse sentido, menos especulativas, principalmente em sectores estratégicos, o que se reflecte em preços mais baixos e num menor peso do sector rentista sobre a indústria. Depois ambos os países têm um potencial industrial instalado muito grande, o que permite a produção nacional quase exclusiva, com cadeias de produção quase totalmente em moeda nacional e por isso muito pouco vulneráveis a ataques especulativos ou a disrupções de outro tipo (no caso da federação russa, ainda tem a vantagem de ter acesso a todas as matérias primas no seu próprio território). Por fim, e entroncando no tópico anterior, ambos os países têm contas de capital fechadas (pelo menos em parte, sendo que a FR tem vindo a fechar com as sanções e a RPC só abre em determinadas áreas e com muitos limites), o que permite estabelecer cadeias de produção de alto valor acrescentado, mas de baixo custo comparativo, quando avaliado, nominalmente, em dólares. As vantagens que aqui constatamos em matéria de defesa são também visíveis noutros domínios como por exemplo a investigação espacial, a ferrovia e a banca. Só assim se suportam sanções em catadupa (caso da FR), só assim é possível usar o potencial acumulado para um desenvolvimento mais rápido do país (como no caso da RPC).

Venham de lá agora os defensores do neoliberalismo e da “abertura” dos mercados, defender que os países defendem melhor a sua soberania dessa forma, e não através das medidas protecionistas atrás referidas. Não fossem essas medidas e as duas economias em causa já estariam absolutamente arrasadas, quer por sanções, quer por ataques especulativos e os seus povos na mais absoluta indigência, de que tanto lhes custou sair. Não é por acaso que as duas grandes reivindicações dos EUA quanto às mudanças na RPC estão relacionadas com a privatização do seu imenso (cerca de 30% da propriedade do país) sector público empresarial (principalmente a banca) e com a abertura total das contas de capital. Não é por acaso, também, que os EUA acusaram a FR de valorizar a sua moeda através do controlo de capitais. Eis porque razão a Casa Branca diz ser necessária uma “mudança de regime”. Este não interessa à “sua” democracia, dificulta a entrada de cavalos de tróia.

Mas se este constitui um dos mais importantes factores em disputa, um outro, o energético, já deu frutos, pelo menos no curto prazo. De acordo com a Bloomberg, os EUA tornaram-se, em 2022, o maior produtor mundial de gás. Tudo à custa da transição da compra europeia, da FR para os EUA. Se, para os EUA, esta “oportunidade” (como referiu Blinken) foi fantástica, para a Europa, deixa à mostra toda a sua fragilidade, política, económica e cultural. Para se ter uma ideia do custo que tem o “desacoplamento” da FR e “acoplamento” nos EUA, em matéria de dependência energética, basta ver os dados relativos à balança comercial em Novembro de 2022, período em que estes países se dedicaram a encher as suas reservas de gás natural e outros combustíveis.

Os dados fornecidos pela Golden Sachs dizem que, para a França, o ultimo novembro foi o mais negativo dos últimos 20 anos, em matéria de défice comercial (- 15%). A Suécia, tal como a França, também teve o pior novembro dos últimos 20 anos, um dos únicos 5 que em 20, tiveram deficit, sendo o deste ano muito superior ao do ano passado, que já era negativo e reflectia a “grande” decisão de Úrsula em se passar a comprar o gás “on the spot” ao invés de celebrar contratos de longa duração (já estava em preparação o “desacoplamento”), como seria aconselhável. A Alemanha, mantendo-se em terreno positivo, teve, mesmo assim, o seu pior novembro dos últimos 18 anos. Em matéria de produção industrial química e farmacêutica (que exigem gás), está em queda livre, baixando para níveis muito inferiores a 2010, em plena crise do subprime. O preço elevadíssimo do gás americano torna inviável a produção e, por outro lado, a falta de gás, devido ao encerramento e destruição do Nord Stream pelos seus “aliados”, leva a que tenha de se optar entre a produção industrial por um lado, e a manutenção das reservas estratégicas de gás, por outro, tão necessárias ao aquecimento em pleno inverno. A Alemanha tem optado pelo encerramento e deslocalização de empresas. Umas para a RPC, outras para os EUA, que até tem um competitivo sector farmacêutico (nada é por acaso).

O Japão também está numa situação complicada, também com o pior novembro dos últimos 20 anos. Por essa razão não será alheia a decisão de voltar a comprar petróleo à FR, nomeadamente voltando ao projeto Sahkalin e não cumprindo o teto de preço que havia antes, no G7, “contribuído”  para fixar. Esta decisão certamente não deixará os seus mestres atlantistas muito contentes.

Assim, a conclusão de um dos economistas da Golden Sachs que divulgou estes dados é esta: “os campeões mundiais da exportação já deixaram de o ser”. Eis no que dá prescindir da soberania nacional e deixar os “aliados” passarem a tomar as decisões que a cada um cabem.

A total sujeição dos países do G7 e EU aos ditames da NATO, organização criada para os arregimentar, confundindo-se hoje com a própria União Europeia; a aplicação cega de todas as sanções e orientações económicas e financeiras; a falta de mecanismos de protecção dos respectivos mercados internos… Não deixam de ter o efeito a que estamos a assistir, que havia sido previsto por tanta gente silenciada ao longo deste tempo. Como devem detestar ter razão.

E enquanto todos mantêm tal abertura, o “aliado” atlântico adopta medidas proteccionistas que visam precisamente captar o que de melhor a indústria dos seus “amigos” ainda tiver para dar.

Depois disto e do anunciado – manobra de diversão para os desaires militares recentes – pela cúpula da União Europeia, só falta ver o nosso Primeiro-ministro, Presidente e demais direitas e esquerdas atlantistas virem defender a entrada rápida da Ucrânia, da Geórgia, e da Moldávia na União Europeia… Tudo por solidariedade, claro! Quero ver depois quando esta gente, que tanta empresa tem que vive dos fundos comunitários, deixar de os receber… De certeza que vão encontrar culpados onde não existem. Afinal essa é a sua praxis!

Querem mudanças, querem mesmo? É fazer tudo ao contrário do que estes dizem!


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Opressão “democrática”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 09/01/2023)

As mentiras não são democraticas – SOS

O tratamento que a imprensa corporativa do Atlântico Norte deu à questão do cessar-fogo de 36 horas (de 6 para 7 de Janeiro), é um retrato fiel do uso destes órgãos para fins eminentemente propagandísticos. Perante a proposta de cessar-fogo, não foi apenas Biden que a ridicularizou, referindo que o seu homólogo estaria a tentar “ganhar oxigénio”. Foi o próprio regime banderista que declarou rejeitá-la.

Refira-se que, esta “rejeição”, muito raramente foi noticiada na imprensa do Norte Atlântico, em termos tão explícitos, como pudemos encontrar em órgãos noticiosos que operam fora desta órbita, como é o caso da Al-Mayahdeen ou mesmo da Al-Jazeera. O facto é que, não só assistimos a uma ridicularização da proposta unilateral, como não assistimos a qualquer consternação pela rejeição da proposta por uma das partes.

Passado o período das 36 horas, o que sucedeu? O que já se esperava. A intenção de aproveitamento, de uma suposta baixa de guardas, esbarrou num estado de alerta permanente e numa capacidade de resposta rápida, associada à prontidão ofensiva das frentes ligadas aos “músicos” mercenários. Foi simples: “já que não aceitam, também não pensem que aqui vamos estar de pernas abertas”. E a devastação fez-se sentir com 5 aviões derrubados e mais de 600 militares eliminados. E então sim, aí veio a consternação.

Assistimos a um desfilar de acusações porque as forças proponentes “não cumpriram” o seu próprio cessar-fogo. E até já se fala de queixas internacionais. Ou seja, rejeitaram o cessar-fogo e agora estão chateados porque os proponentes não o cumpriram. Mas o que esperavam? Que se deixassem atacar? Que aplicassem um rígido cessar-fogo unilateral enquanto a outra parte aproveitava para atacar sem dó nem piedade? Lógica da batata: “foi uma armadilha”! E se foi? Não serão as armadilhas próprias do combate? E porque rejeitaram a proposta de cessar-fogo? Não o fizessem, e já teriam moral para se queixar. Agora, não aderir e acusar a outra parte de recuar na sua pretensão…

Mas se o desespero é evidente, à medida que se aproxima o general Inverno, e as remessas multimilionárias de material de guerra nem suficientes são para repor o que foi perdido. A questão que se deve colocar é a seguinte: quanta mais destruição é necessária para que o regime banderista e os seus promotores considerem a hipótese de fazer a paz e não a guerra?

Imaginem que o dinheiro usado para comprar, preparar e reparar os 367 aviões, 200 helicópteros, 2,856 drones, 400 sistemas de defesa aérea, 7,460 tanques e outros veículos blindados, 972 lançadores de mísseis, 3,793 canhões e morteiros e 7,978 unidades de equipamento especial (julgo que jipes, pickups e outros), já destruídos pelas forças moscovitas neste conflito, ao invés de ser usado para a guerra, tinha sido usado para a paz? Imaginem que os acordos de Minsk não tinham servido para ganhar tempo para construir este exército (já confirmado por Merkel e Hollande), mas para evitar a guerra, como pretendia o povo e alguns envolvidos?

Para se ter uma ideia do que vale isto tudo, este exército, já destruído, equivale, a números calculados por diversos especialistas, a um ou dois Produtos Internos Brutos do país, quantia gasta durante 8 anos, desde que conquistaram o poder, em 2014.

Temos, pois, um país que estava em paz com os vizinhos, cujo governo, em 2014 – após um golpe de estado e extinção forçada de 13 partidos da oposição, que representavam cerca de metade da respetiva população (considerando as eleições de 2012) -, entra numa deriva militarista que resulta, não apenas, numa guerra civil contra uma das duas etnias mais representativas, como empreende um esforço económico absurdo para construir um exército absolutamente desproporcionado, face à sua dimensão.

Este país, à data, em paz com os vizinhos e, por isso mesmo, sem razões para esta deriva militarista, é vítima de um golpe de estado, trabalhado a partir do exterior, perpetrado para o dividir e o fazer entrar numa deriva belicista e por procuração, que se sabia ser, ela própria, desestabilizadora. O regime saído de 2014 faz isto tudo contra as pretensões do seu povo, prometendo a paz e a reconciliação nacionais, quando se preparava, apenas e só, para a guerra.

Este país, que o Ocidente coletivo diz representar a guerra da “democracia” contra “as autocracias”, manteve-se durante penosos oito anos como o mais pobre e corrupto país da Europa, usando fundos intermináveis para possuir uma das forças armadas mais preparadas DO MUNDO! A suposta “democracia” ocidental não impediu este povo de ser miserável, de se usarem centenas de milhares de milhões de euros em armas e preparação para a guerra, enquanto o FMI – pilar da sua destruição – sugava a propriedade pública que ainda restava, colocando-a nas mãos de obedientes oligarcas. Hoje a Blackrock tem uma parte importante das terras mais produtivas do país. Tudo se paga e a “democracia” garante-o.

Para se ter uma ideia da “importância” da “democracia” ocidental para este país, vejamos que, à data de 1991, este país tinha, de acordo com alguns estudos, o melhor nível de vida da URSS. No final de 2020, este país “democrata” não apenas tinha um PIB per capita 5/6 vezes inferior ao dos seus desavindos vizinhos “autocratas”, como as instituições, economia, cultura, infraestruturas desses dois países estão muito à frente das suas. A “democracia” ocidental não impediu este país de se manter atrasado, devastado e de ser terreno fértil de máfias da prostituição, armas e droga.

Mas se a situação deste país é em si emblemática sobre o papel e objetivos da implantação artificial (porque promovida a partir do exterior) da “democracia” ocidental, olhando para os países que dizem promover tais “valores” da “democracia” e dos “direitos humanos”, constatamos que, mesmo aí, nem todos se podem gabar de serem protegidos por tão “avançado” regime.

Assim, por muitos “valores” que sejam propagados, a verdade é que a “democracia” não impediu os EUA de: manter a pena de morte; abrir e manter em funcionamento um campo de concentração e detenção sem acusação ou direito a defesa, como Guantánamo; implementar legislação que permite a tortura em interrogatórios; criar uma forma de processo-crime sem garantias para o arguido quando se trate da acusação e espionagem ou de terrorismo – o espionage act que vitima Julien Assange; implantar e manter um apartheid sobre os negros e índios, que ainda hoje persiste em muitos estados e sectores sociais; manter sem sistema de saúde mais de 40 milhões de americanos; manter milhões de americanos a viver em tendas, nas ruas, em automóveis, roulottes ou casa pré-fabricadas sem saneamento básico.

Mas se isto não chegar, gostava de deixar uma questão: que outra “democracia” ou “autocracia” se pode orgulhar de possuir a maior população prisional do mundo? Com 5% da população mundial, os EUA têm atrás das grades 25% da população prisional mundial, sendo que, uma esmagadora maioria são negros e latinos. A “democracia” possui um sistema de encarceramento em massa superior e a fazer inveja a qualquer “autocracia”.

Esta mesma “democracia” ocidental, sempre tão leve e descomprometida para a elite ocidental, é tão pesada para o sul global. Afinal, esta mesma “democracia” não impede os países que a propagam, de aplicarem sanções a mais de 50 países pobres, matando de fome e privação alimentar centenas de milhares de crianças, jovens e mulheres, todos os anos. Nestes mais de 100 anos de sanções “democráticas”, são incontáveis os milhões de mortos, doentes e miseráveis causados por tanto respeito pelos “direitos humanos”.

Foi este mesmo respeito pelos “direitos humanos” que justificou – e justifica – as guerras de agressão a dezenas de países. Entre os mais recentes temos o Iraque, a Síria, o Iémen, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Sérvia, a Líbia, num desenrolar de bombardeamentos “democráticos” que mataram e destruíram as vidas de dezenas de milhões de seres humanos, muitos deles arriscando as suas vidas em botes de borracha. Depois de verem os seus países destruídos pela pilhagem desenfreada iniciada há cerca de 500 anos, ainda são acusados pela extrema-direita – a face mais agressiva do sistema económico capitalista ocidental – de quererem “invadir” o Ocidente. O mesmo Ocidente que tanta “democracia” lhes levou.

A “democracia” ocidental também não impediu que em 1948 tenha sido implantado um estado apartheid na Palestina. Este estado, não apenas matou e deslocalizou milhões de seres humanos para aí se implantar, baseando as suas ações numa ideologia teocrática que busca na bíblia – e noutros textos religiosos – a base da legitimidade do seu supremacismo racial, e que se mantém até hoje, agravando-se sucessivamente, à custa de armas, entre elas, as nucleares. Hoje, com um governo de extrema-direita, com gente que defende a exterminação do povo palestiniano.

A mesma “democracia” que hoje justifica o “desacoplar” dos países “autocráticos”, classificados como tal, apenas e só, porque não sucumbem à pilhagem dos seus recursos; pilhagem que os manteria na profunda miséria de onde vieram por ação “protetora” dos “direitos humanos”, é aquela que agora é responsável pela degradação – injustificada e inexplicada – das condições de vida dos povos europeus, arrastados para uma luta que não é a sua, nem lhes interessa minimamente.

Considerar que temos de morrer à fome para proteger a “democracia”, deve fazer-nos questionar o papel que hoje tem a própria “democracia”. É que, a “democracia”, não pode constituir um emaranhado de palavras vazias, usadas para justificar todos os fins.

A “democracia” tem de constituir um instrumento do desenvolvimento das condições de vida e de trabalho dos povos, um instrumento e não um fim em si mesma. Tratada como um fim em si mesma, a democracia deixa de o ser, para se transformar num ritual vazio de sentido ao serviço de fins nada democráticos. É o problema da forma e da substância. E um exemplo desta contradição, que encontra no modelo ocidental um fim em si mesmo, é a comparação do comediante encartado, a Churchill.

Esta comparação, totalmente vazia de sentido, não deixa de comportar em si a contradição que a origina e que radica na desvalorização da própria democracia enquanto instrumento ao serviço do desenvolvimento. Se o objetivo é valorizar o comediante, tal só é possível perante a fábula. E, neste caso, podemos dizer que uma fábula – a de que Churchill era democrata – origina outra fábula – a de que o comediante é democrata e está ao serviço do seu povo.

Para se ter uma ideia do que valia a “democraticidade” de Churchill, basta olhar para o que foi o domínio britânico na India. Não é necessário ir a mais nenhum lado. De acordo com um estudo académico realizado, (ver aqui), no pico do poder imperial na India, entre 1880 e 1920, morreram 165 milhões de pessoas em resultado do agravamento das condições vida resultantes da pilhagem de recursos e da repressão.

Este é apenas um pequeno exemplo da brutalidade genocida do imperialismo. Churchill, não apenas o abraçou, como o continuou e como foi peça-chave no agravamento da repressão contra a luta de Gandhi, sendo ator principal de uma sangrenta história que, a contar-se e a recordar-se, faria esmorecer qualquer defensor do imperialismo. A “democracia” de Churchill não impediu a matança, o genocídio material e moral, de continuarem. Hoje, e a provar que a repetição histórica é uma farsa, o comediante de serviço, usa os recursos do Império para conduzir o seu povo para a morte, o seu próprio povo. Actor-chave na deriva belicista, no incumprimento dos acordos e Minsk, na promessa incumprida de paz e na utilização de fundos que fariam falta para desenvolver o seu país, na aquisição de armas, o Churchill farsola abraçou o projeto, continuou-o e deu-lhe ainda mais gás. A “democracia” não o impediu de o fazer.

Outro exemplo do valor da “democracia” ressalta de um olhar sério para a votação das resoluções, que se vai fazendo na Assembleia Geral da ONU. Rapidamente se chegará à conclusão do papel atual, que os poderes de facto, conferem à “democracia” e aos “valores” ditos “ocidentais”. Do ambiente aos direitos humanos, passando pela economia e política, o mundo divide-se constantemente em dois, uma minoria a que chamamos de “Ocidente coletivo” e uma maioria imensa a que chamamos de “Sul Global”, (ver aqui).

 Será que a “democracia” pode estar ao serviço da opressão e mesmo assim ser democracia?


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Um merecido prémio!

(Hugo Dionísio, in Resistir, 25/12/2022)

Um sentimento de total justiça foi o que senti quando assisti à entrega do Prémio Sakharov ao comediante Zelensky. Raramente um prémio incorpora, de forma tão substancial, a profunda ligação entre a instituição que o promove, as grandes famílias políticas europeias que o aprovaram e o próprio destinatário. Aplaudi de pé! Sim, senhor! Eu aprovo totalmente!


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