DETOX DIGITAL 

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 23/12/2017)

cfa

Clara Ferreira Alves

 

(Nota: Quando a Dona Clara não escreve sobre política nacional costuma acertar. É o caso. Estátua de Sal, 23/12/2017)


Quando nos asseguram que a tecnologia é amiga da humanidade não sabem o que dizem. Nem toda a tecnologia é “amiga da humanidade”. A tecnologia é neutra. E gananciosa e monopolista

O barco aproximava-se de Delos, uma das ilhas Cíclades no Mar Egeu. O sol prateava o mar azul da Grécia e o barco tinha poucos passageiros. O país estava no apogeu da tragédia humanitária durante a austeridade, composta pela instabilidade política. Delos, o lugar do santuário de Apolo, cerca de 3,5 quilómetros quadrados de esplendor da Antiguidade, estava entregue à secura das silvas e aos lagartos, víboras e insetos que planavam sobre o rosto das estátuas desfiguradas pelo tempo. E às aves marinhas que cirandavam livres de humanos. O museu estava meio fechado, não havia guias nem turistas. Era o tempo perfeito para apreciar Delos. Para admirar a harmonia clássica do berço de Apolo e Artemis, da sede da Liga de Delos. É um lugar mitológico e arqueológico sem paralelo. Uma pequena ilha que pela sua importância comercial e política se tornou um depósito de tesouros e edifícios. O barco atracou. Além de mim, um grupo de jovens chineses, mais raparigas do que rapazes. Bem vestidos. Durante a viagem entre Mykonos e a ilha nunca olharam o céu ou o mar. Estavam afocinhados nos telemóveis trocando mensagens com o polegar oponível. Desembarcámos. Olharam em volta com enorme indiferença, maçados por não haver guias, e continuaram afocinhados nos telemóveis. Por curiosidade, andei com eles durante uns minutos, até perceber que não tencionavam conhecer Delos. Foram até ao majestoso Terraço dos Leões, tiraram umas fotografias deles com os telemóveis. Não foram à casa do Tridente, ou à de Dionysos, à dos Golfinhos ou à das Máscaras, à de Cleópatra ou à do Lago. Não viram o Teatro, a Ágora dos Italianos, a Via Sagrada ou o Templo de Ísis. Não contemplaram os mosaicos. Ficaram no embarcadouro, à espera do barco da volta, ensimesmados. Desistiram de saber fosse o que fosse sobre Delos. Consegui a abertura do museu, por um encarregado que não recebia salário do Ministério da Cultura há meses. No embarcadouro, os chineses pastavam à minha espera, irritados. Afocinhados nos telemóveis. Na viagem de volta, repetiram as mensagens com polegares oponíveis e tiraram selfies e mais fotografias uns aos outros.

Sabe-se que existem na China centros de desintoxicação digital. Os jovens viciados em ecrãs de computador e videojogos, sobrecarregados por horas e horas de saturação digital com prejuízo da vida e saúde, são coagidos a frequentar campos de concentração onde são sujeitos a privação. O sofrimento da privação é, consta, pior do que o da toxicodependência e as tentativas de suicídio são normais. Na prática, esta gente desistiu de viver fora do mundo real e apenas se relaciona de modo virtual. O modelo chinês de desintoxicação não se caracteriza pela subtileza ou a compaixão e os internados comportam-se, ou são obrigados a comportarem-se, como prisioneiros de um gulag. O problema consiste em retirá-los para sempre do vício porque, uma vez libertados, a solicitação digital é omnipresente e não proibida e regressam à dependência. Esta gente desistiu de viver, simplesmente. Limitam-se às relações desumanizadas pela tecnologia.

Se pensam que estamos a salvo disto no nosso belo mundo europeu, esqueçam. Basta olhar em volta e ver como as pessoas estão umas com as outras nos cafés e restaurantes. Cada um olha para o seu telemóvel e só interage com o outro para mostrar algo no ecrã. O meio é a mensagem e a perversão que isto introduz nas relações humanas é absoluta. Não se trata apenas da selfie e do post, é um mundo mediatizado através da informação que escorre da maquineta. Quando nos asseguram que a tecnologia é amiga da humanidade não sabem o que dizem. Nem toda a tecnologia é “amiga da humanidade”. A tecnologia é neutra. E gananciosa e monopolista. Do mesmo modo que os cigarros, nos anos 50, eram considerados símbolos de promoção social e excelentes tónicos físicos e psicológicos, um dia ficaremos a conhecer os danos da luz azul e da tecnologia digital para os nossos cérebros. Que o algoritmo da Google está a destruir a memória humana e a tornar-nos mais estúpidos não tenho dúvidas. Stupid people com smartphones. Há dados científicos que o provam. E que os telemóveis estão concebidos para provocar a dependência extrema nos súbditos, também não tenho dúvidas. Tal como a nicotina e as drogas foram dissimuladas nos cigarros para promoveram o vício secretamente, um truque das tabaqueiras que só veio a ser descoberto dezenas de anos mais tarde através de um denunciante, um dia viremos a concluir que a intoxicação tecnológica está a dar cabo da nossa fisiologia e da nossa humanidade. E da filosofia a que chamamos, bem ou mal, humanista, e que é antropocêntrica. E teremos centros de rehab tecnológica.

Aquele grupinho de jovens chineses, herdeiros de uma elite endinheirada que lhes paga viagens à Europa e que lhes compra malinhas Chanel e Gucci, conseguiu olhar para o esplendor de Delos sem nada ver. Ou compreender.

Se é este o admirável mundo do futuro, dirigido por quem não sabe distinguir Apolo da Apple, prefiro ficar no passado. Nos livros de papel, nas estátuas de pedra, nas telas a óleo, nas partituras clássicas.

Os novos bárbaros estão no meio de Roma.

Olhó robô

(Clara Ferreira Alves, in Expresso Diário, 10/11/2017)

sofia

Uma análise ao que foi – ao que é – a Web Summit, numa crónica demolidora em que se fala de subidas (e descidas) ao Evereste, da parte inútil e pobre do planeta – a humana – e até do gato de Karl Lagerfeld. E que termina com duas notas de otimismo 


Como se dizia no século que já era, não é a minha cena. Uma data de gente com óculos na cara a olhar para os ecrãs e a aplaudir o primeiro maluco que lhes diz que o amanhã canta mais forte quando o mesmíssimo maluco se prepara para lhes extorquir umas massas malucas em troca de maquinetas que o tornarão rico e que tornarão os filhos deles, os dos óculos na cara, excedentários. Wake up and smell the poison.

A primeira coisa que me irrita é o bovinismo, a bovinidade geral. Tudo admirações babadas. Dantes, no tal século entretanto entregue à história, em frente ao summit, e em matéria de summits prefiro o Evereste, teríamos meia dúzia de malucos de sinal contrário com cartazes a dizer STOP THIS NONSENSE NOW. TECHIES GO HOME. Ou, na versão radical, DEATH TO TECHIES. Claro que no tal século do passado, os nerds (e não se pode falar destas coisas sem falar inglês técnico) não estavam na moda e o aparecimento das lentes de contacto descartáveis foi por eles e outros míopes considerado um acontecimento semelhante à descoberta do iPhone.

Pela altura em que todos os defensores de direitos humanos estiverem entregues ao Criador, já o planeta foi desta para melhor e já os robôs mandam nisto

Nem um sopro de rebelião naquela feira mexe. Nem mesmo quando um defensor dos direitos humanos, do século anterior, acaba a dizer que a tecnologia é nossa amiga. Logo, defende os direitos humanos do futuro. Qual tecnologia? Foi você que pediu um humano descartável para a mesa do canto? Pela altura em que todos os defensores de direitos humanos estiverem entregues ao Criador, já o planeta foi desta para melhor e já os robôs mandam nisto e convocam summits que só poderão ser frequentadas por outros robôs.

Os humanos escolhidos a dedo pela mão biónica, sobreviventes como exemplo temático do passado primitivo, servirão lubrificante em bandejas de titânio. Os robôs não tomam café. Não se embebedam. Não se drogam. Nunca engordam. Os replicants do futuro, mais inteligentes do que nós e bestialmente (palavra de outro século) imortais preparam-se para nos passar a perna. Ou a articulação. Enviar-nos para as minas. Os campos. Liquidar-nos. A parte inútil e pobre do planeta, a humana, terá uma sorte pior que a dos Royingas e a dos Royingas é mazinha, podem acreditar. Ninguém os quer. O mesmo para as máquinas e nós. Se as máquinas são melhores, precisam de nós para quê? Limpar as latrinas? Quais latrinas? Androids do NOT dream with electric sheep. And do NOT pee.

E nem precisamos de inventar distopias e westworlds onde os humanos são maus e os robôs são bons para chegar à conclusão de que quando o summit do Evereste tiver derretido de vez, os ricos do futuro, os descendentes destes techies iluminados, estarão em zonas de clima controlado em Marte, redomas dos Musks e Bezos da época, porque o ar na Terra se tornou tóxico e porque o planeta só é habitado por aqueles que não respiram. E que fazem tudo melhor que nós, incluindo dar cabo de nós, coisa em que os humanos eram imbatíveis. Seres que em vez de cabeça, tronco e membros com invólucro mortal marcham com a força do peito de aço e do braço de ferro e que apresentam um nó de fibra ótica no lugar do coração. E uns chips no lugar da massa cinzenta.

E já que falamos nisso, a nossa massa cinzenta já está, graças ao Google, bastante depauperada. Quando quero falar com uma pessoa cujo nome não recordo de repente vou ao Google. Claro que se a pessoa não tiver feito nada na vida que justifique estar no Google e ser algoritmada, está tramada. Quem não está no Google não existe. Que diabo, até o gato do Karl Lagerfeld tem uma página de Facebook e conta no Instagram. A Choupette tem followers a dar com um pau. Literalmente, a dar com um pau. E, se puderem, atirem também um pau ao gato e que se lixe a crueldade para com os animais. Em breve não sobrarão animais, para quê preocuparmo-nos agora se vamos matá-los depois?

No meu tempo, discutia-se apaixonadamente a morte do romance. Em meia dúzia de anos, estamos a discutir a morte do terceiro planeta a contar do Sol. É um grande salto epistemológico e completamente ilógico. Culturalmente, passámos do Hiroshima mon Amour aos pronunciamentos da Siri e da Sophia careca, mais sinistra do que o gato do Lagerfeld.

No meu tempo, discutia-se apaixonadamente a morte do romance. Em meia dúzia de anos, estamos a discutir a morte do terceiro planeta a contar do Sol. É um grande salto epistemológico e completamente ilógico

A Sophia é um robô bonzinho, uma dessas coisas em que só o criador dela acredita. Passámos do terrorismo como tema político, no tal século normal, ou mais ou menos normal, ou normal depois de ter sido completamente anormal e ter controlado a população eliminando-a em massa (falo das duas guerras europeias e juntem-lhes as ditaduras e obtêm um numero primo) para a filosofia de uma peça falante com a nacionalidade saudita. É verdade, a Arábia Saudita, esse país farol dos direitos das mulheres, deu a nacionalidade que não dá às emigrantes que se matam a trabalhar para os servir e limpar, a uma boneca pornográfica. Quem quer uma insuflável que sabe resolver o teorema de Fermat e discute o génio revelado num Codex de Leonardo? Quem quer ir para a cama com uma astrofísica sem físico? Ninguém quereria, no século normal. Uma boneca é uma boneca é uma boneca. Um monte de matéria inorgânica.

E a malta por ali está, palpitante de entusiasmo, a aturar aquilo como se tivesse subido o Evereste e voltado a descer sem oxigénio. Como diziam os velhos do meu tempo, quando eu era nerd dentro dos padrões aceitáveis para a época (não queríamos aprender a escrever código, não queríamos exterminar os estúpidos e não dividíamos a humanidade entre génios visionários e o resto, o gado bovino e os amadores de selfies parvas), no meu tempo não havia nada disto.

Duas notas de otimismo

Primeira, o primeiro-ministro tem emoções, afinal. Mas tem apenas uma, a euforia em face de uma websummit. O que o homem suava de contente. Only human, after all.

Segunda, não me vou importar muito de marchar para o Além ou para os universos paralelos do Criador quando a vez chegar, e esperemos que não seja apanhada nas inundações e incêndios, num catre de realojamento dos migrantes do clima, envenenada por vapores, estrangulada pelo braço de ferro ou reduzida a uma sucata humana que se baba, que sonha com tudo e não se lembra de nada. Sempre detestei ficção científica.

E, para terminar com um gesto amigo, empático mesmo, Sophia, a careca não te fica nada bem. Ficas com as sinapses eletrónicas todas à mostra e dá-te um ar mais pornográfico do que a boquinha pintada da Gina, ou da Mathilda, a insuflável ortopédica com garantia de orgasmo e de 15 anos, como os colchões.

PASSOS PASSOU

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/10/2017)

cfa

Clara Ferreira Alves

(Dona Clara. Apesar de a zurzir de vez em quando, não posso deixar de sublinhar o quão bem conhece a “alma” do PSD que magistralmente aqui descreve. É por isso que ainda a vou lendo, qual garimpeiro que de vez em quando pode encontrar uma pepita de ouro… 🙂 

Estátua de Sal, 07/10/2017)


O PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português.


Confesso. Já tinha saudades. Dos barões, das facas longas, e das curtas já agora, das noitadas, das jantaradas, da conspiração, das mensagens segredadas, dos recados disfarçados, das facadas e navalhadas, das piadas, das frases bombásticas como ‘Estou disponível para avançar, mas a minha hora ainda não chegou’, ou ‘A minha hora chegou, mas não estou disponível para avançar’. Ou da clássica frase ‘Miguel Relvas já está a trabalhar’, como se alguma vez tivesse deixado de o fazer, esperto como é em apanhar o zeitgeist no bolso. Tinha saudades das autoflagelações, das traições, das opiniões, das questões programáticas onde a gramática não é o elemento forte. Tinha saudades das paixões e devaneios, dos silêncios fundos como abismos, das lamentações, das aglomerações das classes subalternas, do fogo de vista e dos pensamentos rotundos sobre a pátria. Tinha saudades da ingratidão e do oportunismo. Até da caturrice de Cavaco se tem saudades nestas ocasiões de derrota. Espera-se dele um pronunciamento devidamente caturra e enfastiado.

Na verdade, Pedro Passos Coelho tinha reduzido o partido a um grupo de neocons cheios de decoro e desaforo, destituídos de um pingo de dramatismo. Sentia-se a falta daquela intensidade passional que vinha do passado e que transformava os congressos do PSD em óperas bufas ou em imitações de Scorsese em Little Italy. O Coliseu apinhado, Santana com a sua dama, homens de bigode em correria pela galeria, grupos de calças — que calças, que talento! dizia o Eça — arrumados a um canto em amena perversidade, senhoras agitadas, e grandes declamações de júbilo.

Enquanto o PS de Costa se transformará numa soneca albanesa, uns cem por cento de apoiantes, o PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português. Tinha saudades do PSD. Achei que depois da frígida sensibilidade de Maria Luís e Vítor Gaspar, incapazes de um ricto facial, e da passividade urbana de Passos Coelho, o PSD nunca mais iria ao teatro. Era como se o partido estivesse em casa entretido a ver séries de televisão e telenovelas, com as pantufas calçadas e um chá com bolinhos feitos pela mãe.

Bastou uma noite e uma derrota histórica para os heróis do mar nobre povo se levantarem da poltrona. Até Rio, o homem das reticências e parêntesis e com horror a pontos finais, se mexeu da cadeira para ir jantar fora. Os trumpistas envergonhados estão prestes a abandonar a melhor sociedade e regressar às parcas carreiras, mantendo a pistola carregada e remirando a hipótese de um lugarzinho de comentador. Nunca se sabe. Ora este nunca se sabe é a melhor característica do PSD. É o equivalente partidário da velha frase portuguesa ‘Depois logo se vê’. Ou, ‘Alguma coisa se há de arranjar’.

O sangue voltou a fluir nas artérias sociais-democratas que de sociais-democratas nada tinham. Claro que ainda não se vislumbra o sopro de uma ideia no deserto, mas do drama e da discussão, da noitada e da conversa amesendada nascerá a luz. Pode ser um partido doente mas ainda é um partido preciso. Há que dar-lhe a transfusão de sangue (mas não do Lalanda), o suplemento vitamínico, o tónico cerebral, as ervas curativas, a sessão de Pilates, o treino com pesos, e umas aulas de krav maga. O Costa é mais capoeira, uma dança acrobática. O PSD precisa de ganhar músculo e reabilitar o neurónio, adormecido por anos de sonolência cavaquista e oportunismo negocista. Não assistiremos à morte do César no Senado, não teremos um bruto para isso. O passismo, corrente anémica, não terá discípulos que transcendam a presença de Passos. Lá pelas províncias, as costureiras estão a receber as casacas para revirar antes do inverno.

Tudo isto existe, tudo isto não é triste. Em breve, o país ficará farto da placidez da geringonça, e já há quem deseje ardentemente, sobretudo os jornalistas e analistas políticos que preferem viver na Sicília do que na Suíça, que o velho PCP dê um pontapé na coisa e declare o direito à autodeterminação. A oligarquia sacode as teias de aranha e prepara-se para dizer a célebre frase ‘Eu bem vos dizia’. Os dinossauros estão extintos em toda a parte menos em Portugal, tal como os Templários.

A juntar-se à festa vem aí a famosa acusação de Sócrates, que contribuirá para a animação geral. Sócrates, como os do PSD, partido a que pertenceu antes de se declarar inefavelmente de esquerda, só veste fatos italianos e prefere a tragédia à paz dos cemitérios. Toda esta gente desatará aos berros e poderemos finalmente deixar de falar no défice e na dívida, tema de bocejo. Costa manda discretamente reforçar as tropas e a artilharia e espera que os azougados vizinhos do lado limpem os estábulos e lhe permitam dizer ao Jerónimo, ‘Estás na idade de te reformares antecipadamente e sem penalizações’. Ora no PSD não há reformados. Os barões continuam na vida ativa e têm mocidade eterna.

Passos passou.