Olhó robô

(Clara Ferreira Alves, in Expresso Diário, 10/11/2017)

sofia

Uma análise ao que foi – ao que é – a Web Summit, numa crónica demolidora em que se fala de subidas (e descidas) ao Evereste, da parte inútil e pobre do planeta – a humana – e até do gato de Karl Lagerfeld. E que termina com duas notas de otimismo 


Como se dizia no século que já era, não é a minha cena. Uma data de gente com óculos na cara a olhar para os ecrãs e a aplaudir o primeiro maluco que lhes diz que o amanhã canta mais forte quando o mesmíssimo maluco se prepara para lhes extorquir umas massas malucas em troca de maquinetas que o tornarão rico e que tornarão os filhos deles, os dos óculos na cara, excedentários. Wake up and smell the poison.

A primeira coisa que me irrita é o bovinismo, a bovinidade geral. Tudo admirações babadas. Dantes, no tal século entretanto entregue à história, em frente ao summit, e em matéria de summits prefiro o Evereste, teríamos meia dúzia de malucos de sinal contrário com cartazes a dizer STOP THIS NONSENSE NOW. TECHIES GO HOME. Ou, na versão radical, DEATH TO TECHIES. Claro que no tal século do passado, os nerds (e não se pode falar destas coisas sem falar inglês técnico) não estavam na moda e o aparecimento das lentes de contacto descartáveis foi por eles e outros míopes considerado um acontecimento semelhante à descoberta do iPhone.

Pela altura em que todos os defensores de direitos humanos estiverem entregues ao Criador, já o planeta foi desta para melhor e já os robôs mandam nisto

Nem um sopro de rebelião naquela feira mexe. Nem mesmo quando um defensor dos direitos humanos, do século anterior, acaba a dizer que a tecnologia é nossa amiga. Logo, defende os direitos humanos do futuro. Qual tecnologia? Foi você que pediu um humano descartável para a mesa do canto? Pela altura em que todos os defensores de direitos humanos estiverem entregues ao Criador, já o planeta foi desta para melhor e já os robôs mandam nisto e convocam summits que só poderão ser frequentadas por outros robôs.

Os humanos escolhidos a dedo pela mão biónica, sobreviventes como exemplo temático do passado primitivo, servirão lubrificante em bandejas de titânio. Os robôs não tomam café. Não se embebedam. Não se drogam. Nunca engordam. Os replicants do futuro, mais inteligentes do que nós e bestialmente (palavra de outro século) imortais preparam-se para nos passar a perna. Ou a articulação. Enviar-nos para as minas. Os campos. Liquidar-nos. A parte inútil e pobre do planeta, a humana, terá uma sorte pior que a dos Royingas e a dos Royingas é mazinha, podem acreditar. Ninguém os quer. O mesmo para as máquinas e nós. Se as máquinas são melhores, precisam de nós para quê? Limpar as latrinas? Quais latrinas? Androids do NOT dream with electric sheep. And do NOT pee.

E nem precisamos de inventar distopias e westworlds onde os humanos são maus e os robôs são bons para chegar à conclusão de que quando o summit do Evereste tiver derretido de vez, os ricos do futuro, os descendentes destes techies iluminados, estarão em zonas de clima controlado em Marte, redomas dos Musks e Bezos da época, porque o ar na Terra se tornou tóxico e porque o planeta só é habitado por aqueles que não respiram. E que fazem tudo melhor que nós, incluindo dar cabo de nós, coisa em que os humanos eram imbatíveis. Seres que em vez de cabeça, tronco e membros com invólucro mortal marcham com a força do peito de aço e do braço de ferro e que apresentam um nó de fibra ótica no lugar do coração. E uns chips no lugar da massa cinzenta.

E já que falamos nisso, a nossa massa cinzenta já está, graças ao Google, bastante depauperada. Quando quero falar com uma pessoa cujo nome não recordo de repente vou ao Google. Claro que se a pessoa não tiver feito nada na vida que justifique estar no Google e ser algoritmada, está tramada. Quem não está no Google não existe. Que diabo, até o gato do Karl Lagerfeld tem uma página de Facebook e conta no Instagram. A Choupette tem followers a dar com um pau. Literalmente, a dar com um pau. E, se puderem, atirem também um pau ao gato e que se lixe a crueldade para com os animais. Em breve não sobrarão animais, para quê preocuparmo-nos agora se vamos matá-los depois?

No meu tempo, discutia-se apaixonadamente a morte do romance. Em meia dúzia de anos, estamos a discutir a morte do terceiro planeta a contar do Sol. É um grande salto epistemológico e completamente ilógico. Culturalmente, passámos do Hiroshima mon Amour aos pronunciamentos da Siri e da Sophia careca, mais sinistra do que o gato do Lagerfeld.

No meu tempo, discutia-se apaixonadamente a morte do romance. Em meia dúzia de anos, estamos a discutir a morte do terceiro planeta a contar do Sol. É um grande salto epistemológico e completamente ilógico

A Sophia é um robô bonzinho, uma dessas coisas em que só o criador dela acredita. Passámos do terrorismo como tema político, no tal século normal, ou mais ou menos normal, ou normal depois de ter sido completamente anormal e ter controlado a população eliminando-a em massa (falo das duas guerras europeias e juntem-lhes as ditaduras e obtêm um numero primo) para a filosofia de uma peça falante com a nacionalidade saudita. É verdade, a Arábia Saudita, esse país farol dos direitos das mulheres, deu a nacionalidade que não dá às emigrantes que se matam a trabalhar para os servir e limpar, a uma boneca pornográfica. Quem quer uma insuflável que sabe resolver o teorema de Fermat e discute o génio revelado num Codex de Leonardo? Quem quer ir para a cama com uma astrofísica sem físico? Ninguém quereria, no século normal. Uma boneca é uma boneca é uma boneca. Um monte de matéria inorgânica.

E a malta por ali está, palpitante de entusiasmo, a aturar aquilo como se tivesse subido o Evereste e voltado a descer sem oxigénio. Como diziam os velhos do meu tempo, quando eu era nerd dentro dos padrões aceitáveis para a época (não queríamos aprender a escrever código, não queríamos exterminar os estúpidos e não dividíamos a humanidade entre génios visionários e o resto, o gado bovino e os amadores de selfies parvas), no meu tempo não havia nada disto.

Duas notas de otimismo

Primeira, o primeiro-ministro tem emoções, afinal. Mas tem apenas uma, a euforia em face de uma websummit. O que o homem suava de contente. Only human, after all.

Segunda, não me vou importar muito de marchar para o Além ou para os universos paralelos do Criador quando a vez chegar, e esperemos que não seja apanhada nas inundações e incêndios, num catre de realojamento dos migrantes do clima, envenenada por vapores, estrangulada pelo braço de ferro ou reduzida a uma sucata humana que se baba, que sonha com tudo e não se lembra de nada. Sempre detestei ficção científica.

E, para terminar com um gesto amigo, empático mesmo, Sophia, a careca não te fica nada bem. Ficas com as sinapses eletrónicas todas à mostra e dá-te um ar mais pornográfico do que a boquinha pintada da Gina, ou da Mathilda, a insuflável ortopédica com garantia de orgasmo e de 15 anos, como os colchões.

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3 pensamentos sobre “Olhó robô

  1. Esta senhora odeia tudo à volta dela: os homens, a tecnologia, o Deus do cristianismo, os homens novamente… E depois escreve estes textos superficiais, onde se nota claramente que o único objetivo é exibir a sua cultura mal formada e mal refletida. Basta ver pérolas como “as duas guerras europeias” (referindo-se às duas Guerras Mundiais)! Enfim.

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