Portugal é uma Ilha?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 22/02/2024)

(Este texto é revelador da insignificância dos nossos políticos e do espectáculo de martionetas que são os debates e a camapnha eleitoral. Sobre o que se passa na cena internacional os nossos políticos nada têm a dizer. A razão é simples: Portugal não risca nada a esse nível: somos uma colónia das mais pequenas e fazemos o que os mandantes ordenam. Mas, ao menos, podiam ter a honestidade de não prometer níveis de crescimento miríficos para a economia – alicerçados na panaceia estafada do choque fiscal -, sem saberem quais os planos de Bruxelas, do BCE, de Washington, e já agora, de Moscovo.

Estátua de Sal, 24/02/2024)


Portugal é uma Ilha? Quem ouvir os jornalistas que interrogam os políticos em campanha e o enxame de comentadores que esvoaçam sobre eles como moscas varejeiras só pode concluir que sim. E mais, uma ilha fora do tempo e do espaço, por onde não passam correntes marítimas nem anticiclones. Um território no meio do nada.

Ouvindo os assuntos que os jornalistas e respetivos enxames colocam aos políticos descobrimos que Portugal não sofre influências externas — não ouvi uma única questão sobre os impacto da guerra na Ucrânia, nem do genocídio de Gaza, nem da ação dos guerrilheiros d Iémen sobre as rotas marítimas do comércio, nem sobre as consequências do corte da Europa Ocidental coma Rússia, nem da desindustrialização e deslocalização das indústrias alemãs, o motor europeu, nem sobre a emergência dos BRICs e a nova moeda de troca mundial, nem sobre a má relação da União Europeia com o Mercosul, nem sobre o conflito no interior da oligarquia dos Estados Unidos entre os adeptos da intervenção externa como motor da economia (Democratas, maioritariamente) e os adeptos do investimento interno (Republicanos maioritariamente), nem sobre a relação entre o Euro e o Dólar, nem sobre a política do BCE (que é decisiva para a questão da habitação, por exemplo), nem sobre os pesadíssimos investimentos previstos na Europa para despesas militares a pretexto de uma ameaça de invasão Russa que tem sido difundida, em detrimento de investimentos produtivos.

Portugal é uma ilha? Parece que sim. Tudo é prometido sem que seja formulada a questão: como? Já agora, como vai ser mantido o turismo no Algarve sem água? E que impacto é que tem a redução do IVA na restauração se não tivermos clientes para se “restaurarem”?

O que responderá um dirigente político à pergunta: Quanto oferece de aumento de salários, seja o mínimo, o médio, o do setor privado ou da função pública, se o governo não controla nenhum dos fatores do custo de vida, se estes dependem da situação mundial, das guerras, das alianças, da bolsa de valores de Wall Street? No entendimento dos fotógrafos à la minute que surgem nos ecrãs nem vale a pena perguntar, nem comentar o que não foi dito. Penso que terá sido Cícero quem escreveu que o inimigo da verdade não é apenas a mentira, mas principalmente o silêncio.

O silêncio sobre os fatores determinantes do que está em jogo nas eleições é revelador da manipulação a que estamos sujeitos, levando-nos a discutir o puzzle de arranjos para formar um governo, se A casa com B e rejeita C. Se B não casa com C, mas se junta e conta com a complacência da sogra de A. É disto e sobre isto que se desenrola a campanha de esclarecimento. Histórias de becos e de vão de escada, de vidas comezinhas.

A alegoria da gruta de Platão é uma história retirada de A República, em que nos pedem para imaginar uma espécie de caverna subterrânea em que os seres humanos vivessem como prisioneiros desde sempre e possui uma parede de modo a que eles vejam somente o que se passa na parede paralela. Sombras do que os estão no exterior querem que eles entendam como realidade, a única imagem que os prisioneiros conseguem ver. Os de fora falam e gritam, criando ecos que os prisioneiros podem ouvir. Sombras e ecos são projeções distorcidas das imagens e dos sons reais. Saramago recriou de certo modo esta alegoria de sermos colocados em modo de ilusão em Ensaio Sobre a Cegueira.

Não abordar a questão da dependência de Portugal do estado do Mundo é fazer dos portugueses prisioneiros cegos. A melhor apreciação dos que criam este silêncio é o de ignorantes. A outra é a de manipuladores que utilizam a ignorância do seu público para lhes venderem ilusões.


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A extrema-direita faz parte do sistema — não se assustem!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/02/2024)

As campanhas eleitorais que se estão a desenvolver em vários países europeus têm um tema central que as máquinas de propaganda se encarregam de dramatizar até ao limite, a bem das audiências e do entorpecimento dos cidadãos em geral: a extrema-direita entra nas contas para os governos ditos democráticos e é um perigo para a democracia ou não?

A questão lembra-me as sessões de luta-livre americana, em que há sempre um vilão e os resultados estão decididos à partida. Todos, os lutadores, o árbitro e os empresários, os locutores e comentadores, os treinadores fazem parte do espetáculo. Os jogos que as televisões portuguesas têm apresentado em direto são programas de entretenimento e adormecimento: fazem de conta que existe um mau da fita e que este coloca em perigo a liberdade de decisão dos cidadãos e a sua intervenção nas decisões tomadas em seu nome. O mau da fita representa o seu papel de arruaceiro e o público assobia, ou aplaude.

O jornal El País publicou a 10 de fevereiro um texto de Andréa Rizzi, editor de assuntos globais sobre as “democracias cativas das minorias”. O artigo tem interesse por ser um exemplo da pasta de hambúrguer que é hoje em dia o recheio do pensamento dominante dos dirigentes europeus e dos fazedores de opinião europeia sobre o conceito de “democracia”.

O autor tem um bem guarnecido currículo europeu. Editor-chefe da secção Internacional e vice-diretor da secção de Opinião do El País, licenciado em Direito (La Sapienza, Roma), mestre em Jornalismo e em Direito da UE. Está, pois, habilitadíssimo a promover a falácia sobre a democracia que trouxe a Europa até ao impasse em que vive e da qual não sairá porque está em morte cerebral. Tal como os políticos europeus, o jornalista tem um pensamento redondo e liso sobre o regime que os poderes dominantes impuseram como sendo o padrão de democracia e que conduz à frase resumo dos populistas: eles são todos iguais. De facto, se não são, são ramos do mesmo tronco.

Andréa Rizzi escreve sobre os inimigos que ameaçam a democracia “a incapacidade de construir políticas de Estado sobre questões básicas permite que grupos minoritários em posições influentes obtenham enormes retornos e que os regimes autoritários observam com alegria esta fraqueza das democracias polarizadas.”

Não sei o que seja uma democracia polarizada, mas sei que se os atuais dirigentes europeus são incapazes de construir políticas, isto é, dar respostas a problemas da vida em sociedade sobre questões básicas, é natural que surjam alternativas. A questão é, pois, de aptidão e competência para definir políticas e realizá-las. Os inimigos da democracia são os que corrompem por dentro o seu princípio matricial, a participação dos cidadãos.

O autor, como está na moda, reduz o essencial do conceito de democracia ao voto em representantes. É uma redução deliberada e falaciosa. É a corrupção do conceito de democracia que os grupos dominantes promovem através da comunicação social, porque lhes permite validar o seu domínio com a “vontade popular”. É pura manipulação, que tem fundamentos teóricos — leia-se Capitalismo, Socialismo, Democracia, um livro do economista austríaco Joseph A. Schumpter (basta ir ao Google) — para ficar a saber como o autor (muito respeitado) restringiu a democracia a um mero arranjo organizacional de seleção de elites que competem entre si pelo voto do povo através de uma disputa eleitoral que lhes permite legitimar as suas decisões. É o que se chama uma conceção “procedimental” e minimalista da democracia, mas é a conceção em vigor e consolidada.

Dentro destas baias, que são a Bíblia das elites ocidentais, Andréa Rizzi considera que o “protesto dos tratores que está a abalar vários cantos da Europa põe em evidência problemas importantes das democracias, cujos equilíbrios de poder e mecanismos de funcionamento são muitas vezes tão frágeis que a ação determinada de uma minoria numa posição estratégica é suficiente para provocar reações políticas transcendentais”. A estabilidade é o bem supremo a ser garantido a todo o custo pela “democracia”. Não se mudam os sapatos, há, sim, que adaptar os pés! Na realidade o que os protestos, mesmo que sejam de uma minoria, evidenciam é o resultado de uma política, entendida como a aplicação de uma ideologia a uma sociedade, em que os cidadãos nada de fundamental decidem. Em que o essencial dos interesses está definido à partida, é imutável e assenta em dois pilares: a propaganda e a finança.

O protesto dos agricultores tem as mesmas causas do protesto dos candidatos a comprar casa, dos doentes à espera de consulta, dos reformados a propósito das pensões, dos motoristas de camiões, dos polícias, dos médicos e enfermeiros do SNS. Tem uma origem conhecida e escamoteada pela propaganda (informação é coisa que não existe): a ditadura da finança. O Banco central Europeu, essa democrática instituição, empresta dinheiro apenas aos bancos a 2% de juros, estes emprestam dinheiro aos que querem abrir um negócio, comprar uma casa, adquirir um bem, a 8% (os valores serão mais ou menos estes). O agricultor vende um quilo de um produto a um valor X a uma empresa de grande distribuição, que o vende ao público a 5X e mantem o diferencial no banco a render a 90 dias. O banco empresta esse dinheiro a 8X. Pessoal dos serviços nacionais de saúde protestam em toda a Europa porque a sua falência proporciona o desenvolvimento dos negócios da medicina privada, geradora de investimentos da banca e de avultados lucros. Não há votos que legitimem esta ditadura. Mas este regime é apresentado como essencialmente democrático e o que o ameaça, segundo o pensamento dominante, é a extrema-direita! Não é. É a usura, um velho termo caído em desuso que nenhum partido do “arco da governação”, e muito menos a extrema-direita, aqui em Portugal o Chega e a Iniciativa Liberal, a versão hard e a versão soft do neoliberalismo, prevê eliminar ou limitar.

O editorialista do EL País reconhece que “o protesto agrário é notável como mobilização e que esta, infelizmente, é instrumentalizada pela direita, mas como já conseguiu um forte impacto no debate político, as instituições de Bruxelas farão concessões”. Pois farão, como sempre fazem, como o farão com a habitação, ou com a saúde, mas não farão concessões em nome da democracia, nem para satisfazer uma justa pretensão, mas porque são máquinas de girar e centrifugar o dinheiro que proporciona lucros e poder às oligarquias financeiras e atirar dinheiro para a multidão faz parte das receitas vindas da antiguidade de os nobres o lançarem mãos cheias de moedas àqueles cujos protestos causam maior impacto. Os subsídios aos agricultores acabarão por ir parar à banca, através da inflação que provocam (as empresas de distribuição e a banca jamais abdicarão das suas percentagens de lucro), e o mesmo acontece com a habitação, os subsídios à compra de casa cujos juros os “liberais” propõem que sejam pagos pelo governos, ficando o Estado a subsidiá-los a bem dos lucros da banca e da “financiarização” da política, da sujeição da política à finança. O jogo de protestos e negociações está viciado à partida e não é de democracia que se trata.

A direita aproveita-se dessa causa? Perguntem à direita se tem um programa financeiro alternativo ao sistema bancário cujo vértice é o FED (o banco central dos EUA), a que se juntam o Banco Mundial e o FMI, ou à bolsa de Wall Street. No debate entre o Raimundo do PCP e o Ventura do Chega, este demagogo perguntou a Raimundo se ele era contra o Euro. Não sendo o Euro o fundo questão, o que acontece que o BCE é, porque o emite a um dado valor que contempla os interesses dos usurários (dos banqueiros e financeiros) contra o dos cidadãos.

O perigo do crescendo da extrema-direita que o editorialista refere, sem nunca explicar o que materializa o perigo, é o de ela introduzir uma violência descontrolada que perturbe a velocidade mais conveniente ao dínamo do sistema financeiro, uma velocidade que este determina através dos governos e dos partidos políticos tradicionais.

A manutenção da extrema-direita europeia no limbo em que ainda se encontra resulta da avaliação da sua utilidade que os grandes grupos financeiros fazem, pois são eles que a financiam, como financiam os partidos tradicionais: É mais vantajoso ter perto do poder uma extrema-direita xenófoba que provoque a rejeição de emigrantes, com o consequente aumento do custo da hora de trabalho e a obrigação dos europeus realizarem tarefas pesadas, sujas e mal pagas, ou mantê-la afastada de forma a garantir uma reserva de mão-de-obra através da emigração? Quando é que a extrema-direita deve ser utilizada para promover agitação social (greves de médicos e enfermeiros, de motoristas, de polícias, de agricultores, juízes e procuradores) que passem a ser mais vantajosas do que investimentos na construção civil, na exploração de matérias-primas, na hotelaria ou turismo? A aproximação da extrema-direita do poder resulta da análise que os seus investidores fazem da sua utilidade na realização das suas estratégias e não do seu perigo.

Adianta o comentador do El País “que na história recente da Europa há vários casos de meia dúzia de assentos parlamentares que exercem uma influência absurda, ou de setores muito minoritários que, por uma razão ou outra, têm uma capacidade de pressão exorbitante.” E mais: “Isto é democracia, dir-se-á.” Pois é, digo eu, e também: o que não é democracia é a política (e a democracia) ser determinada por meia dúzia de assentos não parlamentares, ocupados por desconhecidos sentados em cadeiras ergonómicas à volta de mesas de tampo brilhante, em salões insonorizados no topo de arranhas céus, ou em bunkers isolados das vistas e dos ouvidos dos cidadãos, onde têm lugar os governadores dos bancos centrais, que ninguém elegeu, ou os membros da elite dos clubes financeiros, do tipo Bieldberg, ou os mágicos manipuladores dos centros de estudos, os think tanks de grandes fundações que têm multimilionários como patrocinadores, ou os administradores dos grandes fundos de investimentos que dominam as bolsas de valores. A democracia é evitar a tirania dos que nos determinam o valor do dinheiro que temos e recebemos, o quanto podemos comprar com ele, quanto temos de pagar por uma casa, por um quilo de batatas, por um litro de azeite, por uma semana de férias, por uma operação cirúrgica, por um medicamento, um livro, ou um casaco. E, dado que o artigo também refere a guerra na Ucrânia, democracia é ter direito a saber as causas e poder intervir na decisão de a Europa meter a cabeça no laço que a estrangulará.

Considera o autor, como muitos comentadores de largo espetro televisivo que nos Estados Unidos o desbloqueamento da ajuda à Ucrânia se transformou numa provação devido à mera “politiquice” entre Democratas e Republicanos. É não perceber (ou não querer que os outros percebam) nada dos americanos: os oligarcas que governam os Estados Unidos desde a fundação — os “gloriosos foundig fathers” — agiram sempre e apenas de acordo com os seus interesses, o impasse não é politiquice, é conflito de interesses entre grupos oligárquicos, não existe nenhuma disfunção no topo de política dos EUA, o que menos incomoda os políticos americanos é o direito, a razão, ou o interesse dos outros. E o mesmo se diga da questão do genocídio dos palestinianos. O que interessa aos EUA é manter o domínio no Medio Oriente através de Israel sem ultrapassar o limite em que surjam acusados de cumplicidade por outros atores políticos importantes, de ponderar quando as vantagens do apoio ao massacre passam a ser menores do que os inconvenientes. Pura análise de vantagens e inconvenientes. A observação da atitude das democracias europeias perante a guerra na Ucrânia e o genocídio na Palestina expõe o conceito em vigor de democracia europeia: os cidadãos podem reclamar (não muito alto), mas a política europeia em nada se alterará. Atirar dinheiro para calar reivindicações, sim, é democrático, considerar as vozes que questionam as decisões fundamentais não é!

A ação das minorias não é contra a democracia, é o resultado de políticas decididas sem intervenção dos instrumentos da democracia: a consulta e a participação.

A fraqueza das denominadas democracias europeias do pós Segunda Guerra não está na maldade dos americanos, dos russos, dos chineses, ou dos guerrilheiros que disparam sobre os barcos que se dirigem ao canal do Suez, está no regime de ditadura financeira, no servilismo dos dirigentes europeus aos interesses da finança, na negação dos valores que a Europa do pós-guerra foi considerando seus depois de séculos de colonização e de colonialismo de imposição de um poder baseado na força e na convicção da superioridade cultural.

A decadência das democracias europeias tem hoje um centro interpretativo, com figuras e cenas ao vivo — tipo sex shop — em Israel. A Europa pode rever-se hoje nesse espelho. O nazismo nasceu da fraqueza dos que se diziam democratas e afinal eram obedientes funcionários públicos, como declararam no tribunal de Nuremberga.

Por fim a questão exemplar da agricultura europeia e da política da União Europeia. De acordo com o Eurosat, em 2019 o setor agrícola ocupava 9,5 milhões de europeus e 3,8 milhões na produção alimentar, a agricultura contribuía com 1,3% do PIB europeu.

A UE atribuiu ao conjunto de 27 países 38,2 mil milhões de euros à política agrícola, 13,8 mil milhões para desenvolvimento rural e 2,4 mil milhões ao mercado de produtos agrícolas. No total 54, 4 mil milhões. Há pouco, a mesma UE atribuiu 50 mil milhões à Ucrânia. Em conclusão: Os agricultores são uns chatos antidemocratas e os ucranianos chefiados por Zelenski uns democratas de primeira apanha!

Os vários protestos que ocorrem na Europa podem estar a ser conduzidos pela extrema-direita, mas a extrema-direita apenas está a geri-los em nome de outros interesses. Nunca colocou em causa o poder do BCE, nem as guerras em que a Europa se envolveu seguindo os EUA no Iraque, na Síria, no Afeganistão, no Kosovo, na Ucrânia e na Palestina, nunca colocou em causa os muros no México, nem em Gaza, nem as despesas colossais com o rearmamento da Europa, nem a inevitável desindustrialização da Europa causada pelo aumento do preço da energia devido às sanções à Rússia, sobre as quais os cidadãos europeus não foram, democraticamente, chamados a discutir. A extrema-direita faz parte de um “sistema” em que “democracia” passou a ser uma palavra sem sentido, em que o rótulo não corresponde ao conteúdo.

Estas “imparidades” pagam-se caro. A solução habitual para resolver os grandes impasses é uma grande guerra de destruição de bens materiais e humanos. O discurso da guerra já está na ordem do dia nos dirigentes europeus e não é por acaso que falam sempre de armas nucleares. A extrema-direita também não ameaça esta solução, apoia-a. Faz parte da NATO.

Deixo o link para o artigo do El País aqui.

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Geração Ronaldo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/01/2024)

Uma das possíveis formas de emprateleirar gerações — de “fazer” História — é recorrendo à taxionomia, a ciência que se ocupa da organização de grupos de seres vivos com base nas suas semelhanças e diferenças.

A taxionomia histórica tem recorrido a uma classificação dos seres humanos por gerações: geração dos babyboomers, os do pós Segunda Guerra, e depois há para todos os gostos: geração X, Y, Z, alfa, millennialwoke, de 70, aqui em Portugal até a ‘geração rasca’. Eu tenho a minha tabela privativa, que inclui a geração da ‘cena’ — termo que integra a novilíngua, revelador da diminuição drástica do vocabulário destas novas espécies geracionais, que acabarão a falar com os polegares nos ecrãs tácteis, prevejo, sem qualquer drama — dos alunos, ou de um aluno ou de frequentador ou frequentadores da Universidade Católica que agarrou ou agarraram num jornalista do jornal Expresso e o retiraram preso por braços e pernas da sala onde o doutor André Ventura, chefe do partido Chega, ia proferir uma conferência sobre a sua visão do mundo.

A ‘cena’ motivou várias reações, todas virtuosas. Os meninos da Católica tinham todo o direito de ouvir o doutor Ventura em confissão privada, os jornalistas devem preocupar-se com outras coisas. Houve quem criticasse os meninos desta geração: eles não têm valores e não respeitam a democracia, nem a transparência. E porque não convidaram os chefes do partido comunista, ou do Bloco de Esquerda? Ou alguém que tivesse a ideia de que apenas o trabalho produz riqueza, de que o sucesso não é ser senhor doutor ou engenheiro, ou CEO, ou ter um diploma de Mestre em Negócios — um MBA — Master of Business Administration — uma ferramenta vendida em propinas pelas Business Schools, escolas especializadas em áreas de negócio e gestão, em sacar umas verbas do Estado para criar uma start up, ou um unicórnio que morrerá como as alforrecas à beira mar, deixando um carro de topo de gama ao jovem de sucesso.

A ‘cena’ dos jovens futuros doutores da Católica, do doutor Ventura e do jornalista do Expresso não surge do nada. A filosofia do Ocidente valoriza o ‘devir’ através de uma lógica que nega o ‘Nada’. Nega o ‘Nada’, tomado e reconhecido enquanto abcesso encrustado nos processos de secularização e racionalização da história ocidental. A negação do nada foi resolvida com a invenção de um Criador e uma narrativa, a do Génesis, que faz do Criador uma personagem, um ser existente, Deus. Este Criador arranjou um emprego temporário, terá sido o primeiro trabalhador precário, e durante seis dias criou o universo do qual se tornou um CEO bárbaro, moderno, que esteve a ponto de eliminar as suas criaturas com um dilúvio, e a quem impôs um drástico regulamento, em forma de tábuas de dez mandamentos, entregues a um delegado, Moisés, no Monte Sinai, que começa por exigir que as suas criaturas amem o seu criador acima da todas as coisas e apenas a ele!

É esta a conceção do mundo — a ideologia — da Universidade Católica, dos seus mestres e alunos e, logicamente, dos convidados a formá-los. É significativo que ninguém entre os docentes da Universidade Católica tenha informado a atual geração de alunos da existência de uma antiga organização que se chamou Juventude Universitária Católica, a JUC, um organismo da Ação Católica, que juntamente com a Juventude Operária Católica, a JOC, e a Juventude Escolar Católica, a JEC, transmitiam aos jovens, além da fé num ente metafísico, juiz e acolhedor de hóspedes eternos num paraíso, valores terrenos de solidariedade e de justiça social . Os atuais jovens universitários da Católica trocaram a JUC pelo Chega! O tempora o mores — “ó tempos! ó costumes!” Cícero, Catilinárias.

Uma das causas apontadas para ‘cena’ da Católica — Ventura — Jornalista — remete para a sociologia, para a origem social dos alunos, crias de famílias abastadas, ou pelo menos dispostas a investir na educação dos filhos para eles virem a pertencer à elite que “saca fundos e manda nos negócios” e tem no doutor Ventura um exemplo vivo e encarnado do sucesso. André Ventura é um São Paulo para a comunidade dos alumni da Católica, alguém que se converteu às virtudes do sucesso, que renegou as origens e se apresenta como um fanático da nova religião. O Chega é uma moda entre a juventude, que tanto integra os suburbanos de epiderme tatuada, os dos jeans rasgados, como os rostos pálidos de blazer e calça creme. Por detrás encontram-se velhas raposas que salivam ao apreciarem estes jovens candidatos a Faustos, a vender a alma a troco de promessas de riqueza.

Como chegámos aqui? Acredito que os alunos da Católica que convidaram o doutor Ventura para lhes iluminar o presente e o futuro nunca tenham ouvido falar de Paraménides, um filósofo grego que muito pensou sobre o Ser e o não ser. Perguntava o grego: Seria possível que coisa nenhuma viesse a ser alguma coisa? Pensar o nada é também pensar o Ser e pensar o Ser é também pensar o devir! Os alumni da Católica estão preocupados com o seu devir e o doutor Ventura e os seus “chegas” também (com o deles, claro).

Percebê-los exige perceber que o devir de cada um dos atores da ‘cena’ da Católica e do Chega não inclui o devir da sociedade. Eles, os ‘chega de carne tenra’ ou os ‘chega de coiro duro”, os ‘chega lingrinhas’ e os ‘chega barrigudos’ comportam-se como os marinheiros holandeses perante os “dodó”, as aves gigantes da família dos pombos, existentes nas ilhas de Maurício, no Índico, e que por não terem inimigos naturais não fugiam dos homens; estes, sem outras preocupações que não fosse alimentarem-se de boa carne obtida com facilidade, mataram-nos até extinguirem a espécie em menos de cem anos. Ou como os habitantes da Ilha da Páscoa, que destruíram todas as árvores para esculpirem deuses que lhes trouxessem chuva e boas colheitas, até a ilha se tornar inabitável. As propostas dos movimentos populistas como o Chega são deste tipo e têm esta sofisticação de raciocínio: a redução ao ‘Nada’ produz riqueza e boa vida aos que a souberem aproveitar. O vale entre os rios Tigre e Eufrates já foi fértil — o crescente fértil — a sua redução ao nada que é hoje o deserto teve por filosofia o sucesso imediato da exploração sem cuidar do devir, do futuro. Esta ideologia do ‘Nada’ teve uma aplicação próxima de nós com a política de Bolsonaro para a desflorestação da Amazónia! É ao ‘Nada’ onde o Chega quer chegar e é essa a ideologia do neoliberalismo que constitui a doutrina da Católica. Os novos dirigentes ocidentais, saídos de madrassas como a Católica e integrados em seitas como o Chega ou a Opus Dei conduzirão Portugal e o Ocidente segundo estes princípios. É fácil adivinhar o futuro.

Quanto aos ‘velhos chega’ sabemos de onde vêm, como sabemos de onde vieram os legionários do Estado Novo, não há qualquer novidade nem surpresa, nem necessidade de estudos muito aprofundados. Mas quanto aos jovens, aos que frequentam as universidades, em particular as juventudes das minorias privilegiadas. Que geração é esta? De onde vem? Os médicos, gente da ciência sobre os interiores dos seres, afirmam que somos o que comemos (e também o que bebemos, vamos lá). O que comeu e bebeu esta geração? Da experiência de contactos com ela, comeu maioritariamente hambúrgueres e bebeu colas. Eu fui cinco vezes a restaurantes da cadeia McDonald — sei que foram cinco e recordo os locais e as circunstâncias de dilema que me levaram a eles: ou um McDonald e uma cola ou nada! Ora, o nada no estômago é uma realidade e não uma questão metafísica.

O que mais me impressionou nos ditos restaurantes — há de outras marcas — nem foi o cheiro, nem a gordura a escorrer, nem a molhanga, nem a necessidade de abrir a boca como um hipopótamo para enfiar o nariz naquela bola de encher barrigas e nádegas e esvaziar cérebros, de aumentar os números da roupa até ao 5XL e a linguagem a umas trinta palavras, mas uma figura — um género de manequim em plástico colorido chamado Ronaldo — o palhaço Ronaldo, à porta e junto aos balcões. O palhaço Ronaldo representava nos ditos restaurantes o que a figura da Última Ceia representa nos lares católicos, ou uma natureza morta a reproduzir um pão entre os menos religiosos, ou até, em restaurantes mais rústicos, a decoração composta por enxadas, foices, até a canga de um animal que puxou arados. Imagens de uma realidade: comer resulta do trabalho, resulta da transformação dos produtos da terra em alimentos à custa do esforço humano. Comer é uma partilha. Ora, esta geração de jovens fãs do Chega, come abençoada por um palhaço com o nome de Ronaldo e come sozinha a comida retirada de um pacote ou embrulhada num papel!

Há o Ronaldo futebolista — mas não é desse, nem do seu exemplo que esta geração se alimenta ideologicamente. O Ronaldo futebolista fez-se à custa de esforço, de muito esforço para ser o mais rápido, o que salta mais alto, o que remata com mais força e precisão. O Ronaldo futebolista e o palhaço Ronaldo da McDonald são entidades antagónicas, apenas com o nome em comum. A geração da Católica é a geração Ronaldo palhaço. O doutor Ventura é o Ronaldo palhaço, o que diz à sua geração que os hambúrgueres são um alimento saudável, culinária de agrado geral, um negócio de sucesso, que as Colas são uma bebida regeneradora de órgãos vitais, que a seriedade no trabalho é para falhados — losers — ou para quem não consegue vender cabritos sem ter um rebanhoO palhaço Ronaldo dos hambúrgueres diz aos frutos da sua geração, aos fiéis do seu pastor Ventura o que eles querem ouvir: apanhem e abocanhem o que puderem, o mundo é dos que não pensam no devir.

A geração do Ronaldo palhaço, a que pertencem os da ‘cena’ que purgou o jornalista do Expresso do sermão do doutor Ventura na Católica é a do Nada. A geração para a qual nada que seja vantajoso para um indivíduo — ele próprio — possa causar angústia, desconforto ou problemas de consciência. A de que nada é impedido ao que consegue vender um palhaço que convence que a comida nasce atrás de uma máquina que exibe fotografias de comida e que fornece trocos. É a geração para a qual a relação de criação e destruição deve apenas estar subordinada ao lucro imediato. A geração Ronaldo tem como ícone nacional o doutor Ventura e como ícone mundial Donald Trump, com quem o palhaço Ronaldo tem semelhanças fisionómicas, aliás.

A geração Ronaldo acredita que é possível pensar e falar sobre o que, ao que tudo indica, não existe. Que assume como verdade afirmações que fazem sentido, mas não se referem a coisa alguma, como é o caso das ‘promessas’ do doutor Ventura. Vai acabar com a corrupção. Vai aumentar o ordenado mínimo. Vai fazer a banca pagar as rendas de casa. Vai tratar da saúde a todos os portugueses, os coxos vão começar a andar e os cegos a ver.

São afirmações tão verdadeiras como dizer que Sísifo, a figura da mitologia grega que subia e descia o monte carregando eternamente um barril de água se propôs afinal a subir ao monte Everest com uma caixa de refrigerantes ao dorso!

Todas estas afirmações fazem sentido, em geral. Possuem sujeito, verbo e estão gramaticalmente corretas. Todavia, qual é o seu grau de veracidade? Como pode uma afirmação ser verdadeira ou falsa se estamos a falar sobre coisas inexistentes? Como é suposto pensarmos sobre coisas que não existem no mundo real, mas que de alguma forma parecem existir nas nossas mentes, ou nas dos nossos pastores falantes? Para a geração Ronaldo e para Ventura, o seu guia, o Nada não existe. Tudo existe desde que seja afirmado. O púlpito, real ou virtual, é o local de criação de uma realidade: crê e salvar-te-ás! Ora o que faria um jornalista nessa sessão espirita sobre a transformação do nada num MBA? Rua! E só não foi merecidamente defenestrado por bondade ou porque as câmaras das TVs não estavam lá para transmitir o espetáculo que promove audiências.

Parte da razão pela qual conseguimos pensar, falar ou até imaginar coisas que não existem, é a linguagem. As palavras permitem-nos perceber conceitos e ideias, mesmo que estas não correspondam a nada, mesmo numa realidade empírica. O doutor Ventura, como Donald Trump, é mestre da linguagem que fornece um argumento sobre o que as audiências devem julgar como possível ou não. Quando falam de objetivos não realizáveis ou de realidades não existentes, colocam os fiéis a acreditar em mundos imaginários, mundos que podem ferir critérios verificáveis de realidade e verdade, mas que passam a existir nas suas mentes.

A geração Ronaldo, que não é exclusiva da Universidade Católica, mas inclui muitos dos jovens formatados nos mitos do integrismo religioso, desde a Opus Dei aos movimentos evangélicos, de jovens que acreditam que o palhaço Ronaldo transforma arengas contra emigrantes em hambúrgueres e estes em maná de votos, mas não acredita que o futebolista Ronaldo possa marcar um golo sem bola, exige um VAR!


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