O melhor dirigente europeu e o pior

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/01/2024)

O alto e o baixo

O melhor é espanhol

O jornal El País, um grande jornal europeu, publica na edição de 1 de Janeiro de 2024 uma entrevista do escritor Arturo Pérez-Reverte ao programa El Hormiguero (O Formigueiro) da cadeia SER, de televisão, para falar do seu último romance. Uma conjugação de acontecimentos impossível de encontrar em Portugal, um grande jornal (que não há) noticiar a ida de um escritor a uma estação de televisão (de onde a literatura está banida, assim como os escritores) e descrever o que o escritor disse sobre a política do seu país e, no caso, a opinião que tem sobre a lei de amnistia que o primeiro-ministro Pedro Sanchez promoveu para comprar os votos dos independentistas catalães que lhe permitiram formar governo.

Antes de falar de Pedro Sanchez, diz Arturo Perez-Reverte, citado pelo El País: “suponho que irei ao programa falar de livros, mas temo que não somente de livros”. Arturo Pérez-Reverte acabou falando sobre o seu livro e sobre outros temas, entre eles a lei de amnistia e a figura de Pedro Sánchez. Reconheceu ser contra a dita lei, mas que compreende a decisão política do presidente do governo; “Pedro Sánchez é uma personagem fascinante.” Depois definiu Pedro Sánchez como um “aventureiro da política”: “É um pistoleiro, um assassino, um tipo que não olha aos meios “. Segundo o ponto de vista do escritor, o líder do PSOE tem “ o instinto assassino do jogador de xadrez” e, simultaneamente, “não leu um livro em toda a vida “. Apesar disso, Pérez-Reverte reconhece que Sanchez lhe parece fascinante porque tem nas veias as teorias de todos os teóricos do Renascimento: “Tem um instinto político extraordinário. É corajoso, tenaz, atrevido, não tem nenhum tipo de escrúpulos” E conclui: “É o político mais interessante de Espanha e provavelmente da Europa. Outra coisa é saber onde te leva, mas como personagem é um tipo fascinante”. Quanto aos outros políticos considera-os uns “monos” e que Pedro Sánchez apenas cairá “ quando já não tiver nada que vender e cairá sozinho. Parece-me imbatível e estou fascinado com ele.”

Os romancistas nos jornais e nas televisões são perigosos porque dizem estas ‘inconveniências’ que afligem a teologia oficial. Em Portugal, que sofre das condicionantes das sociedades de pequena dimensão, paroquiais e senhoriais, os hereges, mesmo que potenciais, os escritores, estão banidos do espaço público.

«Reservado o direito de admissão», uma placa que deixou de estar fisicamente colocada à entrada dos estabelecimentos, mas que continua no subconsciente nacional na entrada de todos os estúdios e redações. Locais reservados aos fiéis que se benzem, persignam e recitam o credo do proprietário!

O pior é alemão

Pedro Sanchez é, segundo Pérez-Rivete, de quem sou leitor e admirador, o melhor exemplo de dirigente europeu. Seria muito interessante conhecer quem ele considera o pior. À falta de uma resposta, avanço com a minha proposta. Deixando no caixote do lixo de onde saíram sem que se saiba quem as convocou as figuras risíveis de Ursula von der Leyen e de Josep Borrel, meros bonifrates, a minha escolha recai no chanceler alemão Olaf Scholz. Não o escolho por ele ser mau, que lhe falta qualidade para o ser, mas por ser o tipo de pastor que cumpre a sua função quando existem boas pastagens para o rebanho e não há ameaça de lobos e isto num tempo em que as pastagens estão quase secas e há alcateias por perto. Um tipo de “mono” perigoso, mais ainda na Alemanha, onde os lideres fracos abrem caminho a esquizofrénicos catastróficos que incendeiam a Europa. De Bismark da guerra Franco-Germânica à Tríplice Aliança do Kaiser Guilherme II e a Welpolitik (a conceção germânica da geoestratégia) da Alemanha imperial, na origem da I Grande Guerra e que teve continuidade no Terceiro Reich. Ora, foi à Alemanha que os Estados Unidos entregaram a “defesa da Europa democrática e livre”! Olaf Scholz é, manifestamente, um dirigente de transição e nós, os europeus estamos à mercê da sua visão de funcionário cumpridor e obediente.

Swedish Institute for European Policy Studies, SIEPS, uma agência independente que realiza investigação e análises sobre política europeia desenvolveu um trabalho da autoria de Katarina Engberg sobre o pensamento oficial e não oficial da Alemanha na nova paisagem geopolítica, dominada pela guerra na Ucrânia, o alargamento de U E e a deslocação do centro de gravidade da Europa para Leste.

Olaf Scholz tem andado às apalpadelas neste ambiente de incertezas. Algumas respostas possíveis da Alemanha foram apresentadas no documento «Estratégia de Segurança Nacional» (Germany’s first National Security Strategy,2) publicado em Junho de 2023. Um documento à imagem de Olaf Scholz, redondo. O governo da Alemanha define como objetivo assegurar a paz, segurança e estabilidade, isto enquanto muitos estados europeus aguardavam respostas esclarecedoras sobre o futuro da Europa. As hesitações do governo alemão podem ser, como têm sido habitual, atribuídas à tradicional relutância da Alemanha do pós-guerra em assumir um papel de liderança na Europa, mas também à incapacidade dos seus governantes de lidar com os complexos problemas resultantes da guerra na Ucrânia e, antes desta, da esquecida agressão contra a Sérvia, do desmantelamento da Jugoslávia em que a Europa se deixou envolver, e de ter agora oito estados do Leste como pretendentes a membros da União Europeia, além da integração da Suécia e da Finlândia na NATO.

A guerra na Ucrânia expôs as fragilidades da Alemanha como potência líder da Europa, e os equívocos em que desde o início assentou o processo que conduziu à criação da União Europeia enquanto espaço político com autonomia no jogo de forças entre grandes atores mundiais. A guerra na Ucrânia revelou que o entendimento Franco-Germânico, que durante décadas foi tido como um pré-requisito para as mais importantes decisões europeias, não passava para os atuais dirigentes da Alemanha de uma falsa colagem e de um casamento de aparências, sem tradução efetiva no estabelecimento de uma política europeia. O eixo franco-alemão, muito publicitado, escondia e escondeu durante anos a opção da Alemanha pela submissão aos Estados Unidos, pelo apoio à sua política para a Ásia Central e para o confronto com a Rússia e a China.

Percebe-se hoje a oposição de chanceleres alemães tão carismáticos como os sociais democratas Willy Brandt ou Helmut Schmidt, ou democratas cristãos como Helmut Khol ou Angela Merkel à constituição de um Exército Europeu, a uma industria militar europeia, a um programa espacial europeu, a uma política europeia para o Médio Oriente e ao apoio mais ou menos encapotado ao programa anglo-americano de extensão da NATO para Leste, em benefício da estratégia dos EUA e violando acordos estabelecidos com Rússia após a implosão da URSS. Hoje percebe-se até o papel da Alemanha, através de Willy Brandt, na normalização do Portugal pós-25 de Novembro de 1975, através de Mário Soares, em que Miterrand, mon ami Miterrand, fez o que pôde para atrair Portugal para a esfera francesa, mas que acabou por fazer o papel de marido enganado.

Apesar de os “quatro grandes” estados-membros da UE, Alemanha, França, Espanha, Itália, se encontrarem na parte ocidental da Europa e representarem dois terços do PIB da UE, e os países da Europa de Leste apenas um décimo, Berlim preferiu seguir as indicações de Washington de privilegiar a frente Leste e de ali ser o seu representante como detentor do poder regional. Para desempenhar esse papel a Alemanha vai gastar 2% do seu PIB, 75,5 mil milhões de euros, em despesas militares a partir de 2024, em grande parte em compras aos Estados Unidos. A liderança por parte da “nova” Alemanha da Europa a partir do Leste, que é a estratégia dos Estados Unidos, levanta questões em Berlim: qual a atitude da Polónia e da Hungria na U E, se a Polónia aspira a um papel de liderança na região, argumentando que sempre esteve certa em relação à Rússia, enquanto a Hungria explora a possibilidade de jogar com as boas relações com a Rússia para obter vantagens junto da UE. Os estados bálticos têm a sua própria orientação, que nunca foi a da Alemanha, mas sim a do guarda-chuva americano. A futura direção política da Eslováquia é incerta. No que diz respeito à Ucrânia, esta terá de decidir se quer aliar-se preferencialmente a um parceiro pouco fiável e com pretensões a parte do seu território, como Polónia, junto às suas fronteiras, ou se prefere um vizinho forte como a Alemanha, mais fiável, embora mais afastado.

Para a estratégia dos Estados Unidos (que a Alemanha parece ter adotado) a Alemanha passou de um estado da frente no combate à Rússia, como foi durante a guerra-fria, para uma área de retaguarda da “defesa do Ocidente”, como um complexo logístico e de trânsito de forças dos Estados Unidos e do Reino Unido, no cenário de invasão russa até Paris, ou a Lisboa que os estrategas criam para justificar despesas militares.

Se o papel estratégico que os dirigentes alemães assumem para a Alemanha é o de área de retaguarda dos Estados Unidos na Europa, parece evidente que o papel político que Alemanha, o mais poderoso estado europeu, assume para si em termos militares e, logo, em termos políticos e económicos, é o mesmo que está disposta aceitar para a Europa, o da subalternidade política, económica, militar, estratégica. É o que pudemos esperar da liderança de Olaf Scholz.

A subalternização da Alemanha e da Europa perante os Estados Unidos ficou patente na triste figura de Olaf Scholz de sorriso amarelo, sentado na Sala Oval da Casa Branca, com a habitual lareira sempre acesa, como um menino a ser repreendido, a ouvir o dicktat de Biden de que o gasoduto NordStream2 jamais entraria em funcionamento. Scholz abanou as orelhas e o gasoduto pago pelos alemães foi destruído numa explosão nas águas territoriais da Suécia, um país soberano e candidato a membro da NATO, que recebeu assim a sua primeira lição de obediência democrática!

O papel de hub logístico dos Estados Unidos que a Alemanha aceitou ser exige grandes investimentos em infraestruturas — desde vias de comunicação a cuidados de saúde e ser o pilar da defesa convencional da Europa implica que forças armadas alemãs passarão dos atuais180.000 militares para 200,000, em 2031. A Alemanha é atualmente o segundo maior contribuinte para as despesas da guerra na Ucrânia, logo após os Estados Unidos, num total de 5.4 mil milhões de euros sem incluir a contribuição para o “fundo europeu para a paz” (sic) de 4.7 mil milhões de euros. Olaf Scholz traduziu o que pretende para a Alemanha ao afirmar que o seu governo pretende alterar o conceito de indústria de defesa com o objetivo, nas suas palavras, de esta se tornar semelhante à indústria automóvel, com capacidade para entregas sustentáveis ao longo dos tempos. Isto é, Olaf Scholz pretende uma indústria alemã de defesa segundo o modelo do complexo militar-industrial dos Estados Unidos, a que corresponde uma política europeia belicista para criar a permanente e continuada necessidade de novos produtos que rentabilizem os investimentos à custa de guerras por todo o planeta. A submissão de Olaf Scholz levará a Europa a acompanhar os EUA nas suas guerras por todo o mundo. O que já fora indiciado por outro dirigente europeu rastejante, o secretário da NATO, quando incluiu a China nas ameaças à organização! Mas terá impacto nos fundos europeus destinados a programas que aumentem a competitividade das economias dos estados membros da União Europeia, da sua coesão. Isto é, a economia da União Europeia será menos competitiva que a dos EUA e da China e até mesmo do que a Rússia. Haverá menos programas sociais, pior saúde e educação, mais desemprego e mais instabilidade política e social.

O objetivo de Olaf Scholz é uma Alemanha militarizada e belicista como potência líder da Europa, como agente dos Estados Unidos. O cinzento Olaf Scholz é o apagado serviçal que fará o trabalho de preparar a vinda de um incendiário que lance a Europa numa ou em várias fogueiras, ao pé de quem Pedro Sanchez será um simpático ferrabrás como o capitão Alatriste, o herói dos romances de Arturo Perez Reverte, um espadachim a soldo que se movimenta no submundo da decadente corte espanhola do século XVII, entre vielas e tabernas, assassinos como Malatesta, conspiradores como o inquisidor frei Emílio Bocanegra.

É uma Alemanha perigosa — mas conhecida — que Olaf Scholz prepara.


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A derrota do Deus do Ocidente

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/12/2023)

A ação do Estado Judaico na Palestina, o genocídio em Gaza e a destruição da Cisjordânia constitui um ato que os seus autores pretendem que seja o ato final do direito de origem divina de Povo Eleito à Terra Prometida, a provocar um Armagedeão em termos do Antigo Testamento bíblico. Os dirigentes judaicos justificaram e justificam com o Antigo Testamento da Bíblia e com o seu deus Javé a ocupação manu militari de mais este território da Terra Prometida a Abraão há quatro mil anos. Sem a dimensão religiosa não é possível entender a política do Estado de Israel, o discurso e o comportamento dos seus dirigentes e a atitude de arrogância que revelam perante aa comunidade internacional (gentios) e até contra os seus protetores americanos.

No entanto, no Ocidente cristão esta guerra santa, equivalente a uma cruzada ou uma jhiad, está a ser quase exclusivamente analisada sob o ponto de vista técnico, como um historicamente vulgar conflito tendo por base os interesses de grupos políticos, económicos e sociais, interesses estratégicos de poder global envolvendo superpotências e potências regionais. Como mais uma “guerra” das muitas em que o Ocidente se tem envolvido desde que se reconstituiu após a queda do império romano, tendo o cristianismo como base ideológica e civilizacional.

No entanto esta é uma guerra de rutura civilizacional, que coloca em causa as raízes mais profundas da nossa civilização, que promove a substituição dos valores do cristianismo e do Novo Testamento pelo judaísmo e pelo Velho Testamento, o retrocesso de uma civilização de abertura, que o cristianismo foi e daí a sua universalidade, por uma civilização fechada, racista e suprematista como é o judaísmo.

O que nos tem sido apresentado pelos grandes meios de manipulação são episódios da violência inerente a qualquer confronto armado, com a particularidade da utilização de meios desproporcionados, da impiedade e da ausência de limites, ou de misericórdia. Os autores do guião da ação do Estado de Israel em Gaza e na Cisjordânia e os especialistas contratados para a analisar pretendem inculcar a ideia de que a atual ação militar contra as populações palestinianas faz parte do “direito de defesa de Israel”, pelo que o mundo estaria perante um facto recorrente, apenas um pouco mais sangrento, mas sem que nada de essencial tenha sido alterado. O discurso dominante, mesmo quando especializado, encontra-se delimitado pela análise da arte da guerra: aniquilação do inimigo através do genocídio, ou por uma conjugação de massacre e sujeição dos vencidos aos princípios e leis dos vencedores.

Podemos chocar-nos com o genocídio dos palestinianos executado a frio e com justificações de aberrante hipocrisia em nome dos interesses do Ocidente americano, mas do ponto de vista estratégico e operacional, como referem os comentadores militares, a operação está a decorrer muito bem e conforme o planeado. Nada de novo: Delenda Carthago! — Cartago tem de ser destruída! — assim terminava Catão os discursos fosse qual fosse o assunto. O mesmo afirmam Netanyahou e os seus camisas negras em todas as ocasiões: Delenda o Hamas! — Delenda Gaza, a Cisjordânia! Até surge nas notícias o picante de que os alvos são selecionados pela Inteligência Artificial, o que, numa segunda leitura, reduz os pilotos dos aviões, os artilheiros, os manipuladores de drones a imbecis que se limitam a seguir a inteligência das máquinas. Mas como é em nome da promessa da posse da Terra Prometida, tudo se desculpa e nenhum desses seres invocou problemas de consciência.

Há, contudo, uma outra análise que deve (devia) ser feita e que remete para a profundidade das raízes desta ação de Israel — da vingança histórica e milenar que ela materializa contra o Ocidente. O Ocidente está a dar a oportunidade de ouro para a realização do mais extraordinário ato de vingança contra si próprio desde a instauração do cristianismo como religião do império romano decretado no século IV por Constantino, dentro do princípio cujus regio, ejus regio — a religião do príncipe é a religião do país.

Independentemente das convicções religiosas de cada um é inegável a importância das religiões na organização das sociedades e na vida dos seres humanos. Para criar instituições políticas, o primeiro obstáculo é o de superar a desconfiança geral do grupo. Não se pode organizar um sistema político estável se a população, ou pelo menos uma parte dela, não aceita a autoridade de um chefe. A resposta mais eficaz a este desafio foi concentrar a autoridade religiosa e a do chefe político e militar. Estabelecer a religião como fonte da autoridade política. O primeiro registo desta ideia parece ser o do faraó Akenaton (1350 a.C), que se declarou emissário de um único Deus, Aten, a única ponte entre o humano e divino. A associação do poder de base militar e religiosa teve consequências para a religião, que se tornou parte da organização política.

A criação dos deuses e das religiões constituem as mais importantes descobertas do ser humano, mais importantes que a descoberta da roda, do fogo ou da escrita. O ser humano não quer apenas viver, tem necessidade de dar sentido à vida. A religião é um dos espaços para dar sentido à vida e os deuses são criações do homem, têm real existência. Quando um piloto judeu larga uma bomba do seu avião sobre Gaza em nome do seu deus, esse deus existe, mata e venceu o deus que não salvou os seus fiéis palestinianos. O deus dos cruzados europeus que atacaram o Templo de Jerusalém e mataram os que lá se encontravam a ponto de o sangue dar pelos jarretes dos cavalos existia e venceu o deus que lá estava. Os deuses existem, têm criador e, infelizmente, os criadores de deuses são por norma os mais ambiciosos e sem escrúpulos dos homens, que os utilizam para lhes servirem de instrumento de domínio.

A dimensão religiosa desta ação do Estado judaico devia e deve estar no centro das análises, porque é ela que, em última instância, determina o futuro de todos os envolvidos e, desde logo, do Ocidente que fornece as armas e o apoio político e ideológico a quem se bate por um deus que é o seu e que há dois mil anos foi derrotado pelo deus do Ocidente.

O Estado de Israel tem o judaísmo por infraestrutura ideológica. Pelo seu lado, o Ocidente, a partir do édito de Milão e da “conversão” de Constantino, validou o cristianismo como religião oficial, colocando o judaísmo na situação de seita responsável pela morte e sacrifício do novo Deus de Roma. Durante séculos, até ao nazismo, os judeus foram tidos no imaginário ocidental como um povo-vítima, pacífico, perseguido, estigmatizado, que se deixava sacrificar sem luta. O judaísmo era uma religião de mansos que viviam em guetos e aí celebravam os seus rituais. O Ocidente ignorou a violência genética do judaísmo e do seu deus, Javé. Não pareceu surpreendido com o terrorismo que os judeus praticaram logo que tiveram a oportunidade de reunirem uma massa critica adequada primeiro no protetorado britânico da Palestina, que evoluiria para Estado de Israel sob os auspícios das Nações Unidas, atribuindo as práticas dos seus grupos terroristas à necessidade de defesa e ao seu direito de existência. Não era: o judaísmo é geneticamente violento, por ser exclusivista, racista e negacionista do outro, por se assumir como a prova de que é a ideologia de um povo eleito, superior.

O grande sofisma utilizado pela elite judaica no coração do Ocidente para se confundir com ele e o tomar por dentro tem sido o de que o cristianismo é uma “continuação” do judaísmo (uma justificação que também serviria para o islamismo…) e o instrumento culminante dessa manobra de continuidade do cristianismo a partir do judaísmo foi o Estado de Israel, promovido pelo movimento sionista, aproveitando as condições do pós-Segunda Guerra.

Na realidade, o cristianismo é uma nova religião que nasceu e se desenvolveu em confronto direto e irredimível com o judaísmo. Durante dois mil anos o convívio entre as duas religiões teve episódios de grande conflitualidade — a Inquisição, os pogrom e o nazismo — alternando com outros de coexistência mais ou menos tolerada segundo os interesses do momento, em especial nos momentos de aperto financeiro dos soberanos cristãos.

O facto de duas famílias judaicas dominarem desde o século XVIII o sistema financeiro mundial, o coração do sistema capitalista, as duas praças mundiais, os Rothschild em Londres (e também Frankfurt) e os Rockfeller em Nova Iorque fez com que o judaísmo, enquanto formatador civilizacional, aparelho ideológico e legitimador de comportamentos fosse parasitando e metastesiando o corpo principal da civilização ocidental, tendo o cristianismo como base dos seus princípios.

Segundo o Antigo Testamento da Bíblia, pelo qual se regem os judeus, o pacto entre eles e Javé, o seu deus, teria começado com Abraão, há cerca de 4 mil anos. Este foi chamado por Deus para deixar a cidade de Ur, na Mesopotâmia e ir fundar uma nova nação numa terra desconhecida, a Terra Prometida, que seria chamada de Canaã. O deus que apareceu a Abraão rompia com a tradição politeísta dos gregos, e colocava-se na posição omnipotente de exigir o que quisesse. No caso de Abraão, ordenou-lhe que sacrificasse o seu filho Isaac como prova de fé, isto é, de sujeição.

O Javé do Antigo Testamento (o Pentateuco, para os judeus) não tem semelhanças com o pai protetor que mais tarde o cristianismo iria propagar como sendo o seu Deus. Javé é um deus brutal, parcial e assassino, um deus de guerra, que seria conhecido como Javé Sabaoth, Deus dos Exércitos. Manda pragas aos egípcios, mostra-se até arrependido da sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda a humanidade através do dilúvio, do qual só escapou a família de Noé e os animais que colocou na arca.

Javé, o deus dos judeus, está mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não se desvie das instruções que entregou a Moisés do que em criar condições de paz e de harmonia, de felicidade e de justiça. Javé é passionalmente partidário do seu povo eleito, os judeus, e tem pouca misericórdia pelos não favoritos. É uma divindade tribal.

A narrativa de continuidade entre o judaísmo e o cristianismo foi destruída por Paulo de Tarso, ao estabelecer que o cristão se justificava pela fé e não pela obediência à lei judaica, nem à sua ascendência judaica, que os gentios, os não judeus, se podiam converter, abrindo o cristianismo a novos espaços. Paulo tirou Jesus Cristo da pequena gaiola de um messias para o povo hebreu, ou de mais um profeta, transformando-o num salvador de todos os povos. Javé, esse continuou ligado apenas ao povo hebreu, enquanto Cristo ganhava um caráter universal. Javé continuou a ser o deus carrancudo dos judeus e o cristianismo transmitiu a imagem de um deus bem mais amistoso que Javé.

Na tradição judaica estava muito claro que o homem devia temer a Deus acima de tudo. Com o cristianismo, a mensagem passa a ser amar a Deus acima de tudo. A diferença entre o judaísmo e o cristianismo é a mesma entre temer e amar. É esta escolha que está em causa com a ação de Israel na Palestina e em que os dirigentes ocidentais estão a tomar o partido do Deus do medo, defensor de um pequeno povo de eleitos contra a humanidade. O “direito de Israel a defender-se” tem o sentido de direito divino a destruir ou subjugar todos os que não são os eleitos, incluindo nós, os que lhe fornecemos as armas e a complacência.

O que o Estado de Israel está a realizar perante o mundo e em nome do Ocidente é a morte do Deus dos cristãos, do Deus que, apesar das violências cometidas em seu nome, permitiu que surgisse um humanismo cristão, que produziu um Santo Agostinho, um São Francisco, que permitiu a recuperação do conceito de um deus moral, em oposição ao deus brutal.

A vitória nas guerras foi sempre a vitória dos deuses dos vencedores. A vitória de Israel na Palestina é a vitória do deus dos judeus sobre o deus dos muçulmanos, mas também sobre o deus dos cristãos. O deus moral representado por Cristo podia oferecer uma via para que as sociedades cooperassem, evitando ofender um poder superior atento ao seu comportamento em relação aos demais. Javé, o deus dos judeus exclui o compromisso. E essa exclusão é evidente no discurso dos dirigentes judaicos.

Mesmo para quem, como eu, entende a religião apenas como uma dimensão simbólica do comportamento humano e a religiosidade como um sistema produtor de normas e culturas inerentes a qualquer sociedade, quer a religião, quer a religiosidade são fatores constitutivos e estruturantes da vida humana. Não me é, pois, indiferente, muito pelo contrário, ser regido pelas normas de Javé ou de Cristo, de ser regido pelo Velho Testamento, pelo Alcorão ou pelo Novo Testamento. Não é a mesma coisa ser não crente numa divindade numa civilização que tenha por deus Javé ou Alá, entre judeus e muçulmanos, ou sê-lo numa civilização que tenha Cristo por referência.

Impressiona-me a ausência de pensamento no interior do cristianismo sobre o conflito judaico-cristão, que coloca em causa a nossa civilização. Preocupa-me que estejamos a ir atrás do canto das sereias do conflito com os muçulmanos, encadeados que estamos pelo domínio dos poços de petróleo do Médio Oriente e dos eixos de ataque à Rússia, a primeira barreira a ser ultrapassada para os Estados Unidos enfrentarem a China. Entendo ser uma cegueira perigosa e criminosa o Ocidente abdicar do seu Deus e dos seus valores, trocando-o por Javé, o velho carrancudo, vingador e sem piedade.

Além dos palestinianos, é também o cristianismo que está debaixo de fogo neste Natal na Palestina. Quem invoca um deus para justificar o genocídio na Palestina não me merece respeito. Repugna-me a corrupção dos que traficam o seu deus com eles. Dos católicos, dos anglicanos, dos luteranos, das igrejas evangélicas, dos cardeais de Roma, dos televangelistas americanos, dos vendedores de dízimo brasileiros nem uma palavra!

Para ser claro: à vingança dos judeus por dois mil anos de humilhação pela derrota de Javé, os cristãos respondem agora com a traição ao seu Deus. Falta-nos um Shakespeare!


O Radioso Futuro de Gaza está a chegar!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/12/2023)

Já começou a surgir entre os compadres e as comadres que se dedicam a fazer malha e lançar cartas no comentariado escrito e televisivo a magna questão do futuro de Gaza. Parece que ninguém, a não ser o cândido Cravinho (nunca se sabe se é candura se pura venda a retalho), acredita já na falácia dos dois estados. Há que vender outro produto. Será que a Autoridade Palestiniana (que perdeu as eleições,) irá fazer de comparsa numa farsa em que Gaza surge como um quintal israelita com palestinianos selecionados e esterilizados? Será o governo de Israel a nomear um governador? Magnas questões que entreterão uns tantos biscateiros no intervalo dos comentários a penaltis e foras de jogo do futebol.

Mas a questão do futuro de Gaza e dos palestinianos está decidida e resolvida há anos. Como nas touradas, a faena está no seu tércio final, no seu fim, e estamos a assistir aos momentos que precedem a morte da vítima que esteve encerrada e foi solta para ser morta.

Estamos no tempo do rufar dos tambores. Assistimos ao número de fantasia e de genocídio que o Estado de Israel e os Estados Unidos estão a consumar para justificar a operação de destruição e limpeza de Gaza.

Qual é o objetivo do Estado de Israel e dos Estados Unidos para a ação de limpeza e massacre que está a ser levada a cabo em Gaza? Um pouco de distância para ganhar perspetiva:

Em seis de Outubro Benjamin Netanyahou era um político prestes a ser julgado por corrupção e que estava a ser acossado como golpista por parte da opinião pública. Pois, além de corrupto, pretendia dar um golpe constitucional e colacar o sistema judicial ao serviço do governo. Era um has been, um marginal, um tipo que mesmo num Estado de apartheid e com o passado de violência e desrespeito pelos mais elementares valores humanos era para atirar ao lixo. Era um lixo. No dia sete de Outubro Netanyahou passou a ter a utilidade do lixo: desde que tratado podia ser reciclado em pó químico para eliminar espécies inconvenientes. Podia servir para realizar trabalhos sujos, servir de esfregão!

A estratégia dos Estados Unidos e do grupo dirigente de Israel desde a fundação, em 1948, foi a de criar um estado etnicamente unitário, onde os palestinianos não têm lugar. Israel é desde a fundação um “forte”, uma base avançada dos EUA no Médio Oriente. Na situação de crise de liderança mundial que vivemos, com o surgimento de novos atores a disputar a hegemonia dos EUA (os BRICs, por exemplo) é decisivo que estes disponham de suportes de absoluta confiança nas zonas críticas: Israel para o Médio Oriente, a Sul; a Ucrânia para a Eurásia, no Centro e os estados bálticos (mais a Finlândia e a Suécia — daí a entrada na NATO) a Norte. É uma clássica manobra de tenaz, de ataque pelos flancos, que pode ser transformada numa manobra em cunha, com o esforço principal ao centro — a Ucrânia. Curiosamente os comentadores militares nunca referem esta típica manobra de operações ofensivas! É de chamar os comentadores de futebol que esses percebem do assunto.

Os dirigentes do Estado de Israel sabiam desde há um ano que o HAMAS iria tentar fazer uma operação de alívio do cerco a Gaza. Se essa operação foi ou não incentivada e promovida pelo Estado de Israel é uma questão que deve ser colocada (tanto quanto se sabe nenhum chefe de serviços de informações nem de serviços secretos foi demitido por não ter descoberto o que parece que todos sabiam, dos egípcios aos ingleses e, evidentemente, dos EUA). É hoje evidente que a operação do HAMAS sobre uma aldeia estratégica guarnecida por colonos serviu de pretexto para a brutal e decisiva “resposta” israelita a que estamos a assistir.

A brutalidade que algumas boas almas se dignam considerar excessiva, desde que precedida da oração de condenação do “bárbaro ataque do HAMAS”, é condição necessária para atingir os objetivos fixados. A ação do HAMAS teria de ser chocante o suficiente para justificar a violência extrema de Israel, mesmo correndo o risco da repercussão mundial negativo.

Gerir o excesso indispensável, a desumanidade da resposta, exigiu que fosse encontrada uma figura execrável e queimada, alguém que desse a cara por um genocídio. Uma criatura sem valores, e ninguém melhor que Netanyahou, um Zé do Lixo, como alguém o designou para desempenhar esse papel. Netanyahou é hoje o rosto do pide mau. Do tipo execrável. Serve à perfeição como o rosto do sanguinário.

Dentro de poucos dias, quando Gaza estiver arrasada e os palestinianos mortos e os sobreviventes reduzidos à condição de restos humanos, distribuídos por campos de refugiados, surgirá o polícia Bom, os Estados Unidos, com um Biden sorridente, (ele necessita de uma boa imagem para as eleições) e um qualquer dirigente israelita que substitua o anjo da guerra do Netanyahou com uma pomba branca na mão, ambos a estabelecer um cessar-fogo, a prometer abrir fronteiras à ajuda humanitária, o israelita a fazer de sacristão na rábula de Biden, homem de paz e com os dirigentes da U E sorridentes, com a senhora Ursula Von Der Leyen e o senhor Borrel a cantarem o hino da União.

Netanyahou e o pequeno gangue à sua volta no que designam por Conselho de Guerra serão entregues a uma empresa de Tratolixo. Serão passados por um túnel de desinfeção, de limpeza. Já negociaram entretanto os futuros, serão esquecidos, reciclados, e toda a máquina de manipulação baterá palmas. Haverá eleições — Israel voltará a ser a única “democracia do Médio Oriente”! Os comentadores garantirão que, finalmente, venceu o bom senso e prevaleceu o respeito pelos direitos típicos da civilização ocidental! Deus descerá de novo à Terra! Até haverá lugar a prémios nobel da paz, se for necessário! Todos nos felicitaremos. A farsa foi um êxito!

Gaza será um cemitério em ruínas. Virão os bulldozers, após a saída dos tanks. Sobre os escombros serão edificados bairros, escolas, universidades, sinagogas, flutuarão bandeiras israelitas. Haverá um monumento aos soldados israelitas que libertaram Gaza do Hamas. Haverá um busto (discreto) de Netanyahou, como mais um dos conquistadores de um talhão da Terra Prometida. Os seus pecados, se os tiver cometido, serão perdoados. Um dia, daqui a uns tempos, alguém se lembrará destes tempos e haverá a vingança. Estamos a assistir à sua sementeira…


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