O PR e a audiência ao líder do partido fascista

(Carlos Esperança, in Facebook, 30/07/2022)

Um módico de contenção, alguma acalmia na frenética exibição mediática, é o mínimo que se exige a quem tem como principal obrigação garantir o regular funcionamento das instituições democráticas.

O PR não pode aparecer em todos os noticiários de todos os canais televisivos, emissões de rádio e primeiras páginas dos jornais, como comentador convidado permanente sobre vacinas, incêndios, guerras, cartas de bispos, decisões do Governo, queixas de cidadãos, empresários, sindicatos, líderes partidários, política externa, milagres de Fátima, táticas de futebol e desempenhos ministeriais.

Ainda não vi qualquer crítica à audiência ao líder do partido fascista que usou a AR para defender posições criminosas à luz da Constituição e solicitou audiência ao PR para lhe pedir que admoestasse o presidente da AR por ter defendido a CRP na sequência de diatribes suas, xenófobas e racistas, contra imigrantes, pretexto aproveitado para fazer no Parlamento uma cena intolerável, após afirmações que, sem o estatuto de deputado, eram passíveis de sanções criminais.

A legitimidade do partido fascista, depois de aceite pelo Tribunal Constitucional, não se contesta, resulta do voto popular como a dos outros partidos. O que se torna inesperada é a facilidade com que o PR recebe o líder, sabendo que daria azo à gritaria arruaceira e à ameaça de subversão da ordem no Parlamento, instituição que seria de partido único se ele fosse poder.

Foi penoso e assustador assistir à exibição grotesca do marginal, à saída da audiência com o PR, a ameaçar com piruetas histriónicas a tranquilidade democrática no coração da democracia.

O neofascista sabe que o PR não tem poderes que lhe permitam admoestar a segunda figura do Estado, mas para o marginal incendiário foi pretexto, à saída da audiência, a ameaçar a AR, para imitar Trump a incitar o assalto ao Capitólio.

Marcelo já devia ter aprendido a ser cauto, com as três desconsiderações de Bolsonaro, duas de Cavaco e uma de Alberto João Jardim, a não se imiscuir onde não deve. Aliás, o mau gosto da audiência a Paulo Rangel na véspera da disputa da liderança a Rui Rio, foi a preferência infeliz que manifestou, à semelhança de um recado que encomendou ao comandante da PSP, Magina da Silva, sobre a reorganização das polícias, como se não lhe bastasse Marques Mendes como seu alter ego.

Só lhe faltava tomar as dores do patriarca Clemente na defesa das comprometedoras declarações sobre um crime que ocultou. Mas fê-lo. Gratuitamente, como a leviandade com que lhe beija publicamente a mão, esquecendo que é PR de um país laico.

A audiência ao líder neofascista foi um péssimo serviço à democracia, um pretexto para a escalada do populismo de quem não hesita em apropriar-se da superstição de Fátima para a promoção pessoal e do seu perigoso ideário.

Marcelo criará condições para a direita ser poder, mas vai acabar mal o mandato.


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Assim vai a Europa… – Alguns comentários sobre a situação presente

(Carlos Esperança, in Facebook, 27/03/2022)

Enquanto a maior ditadura do mundo, com 1.400 milhões de habitantes, ganha a guerra na Ucrânia, limitando-se a assistir, a Europa recebe o imperador Biden, que combaterá ao lado de Zelensky até ao último europeu, promovendo a venda de armas do complexo militar-industrial dos EUA e valorizando o gás de xisto e os cereais dos EUA.

Nem sequer os jornalistas lhe censuram a falta de autoridade moral para usar linguagem de almocreve e acicatar a guerra na Europa, destruindo as instituições que genuinamente se batem pela paz, nomeadamente a ONU e o Vaticano, provocando a desorientação dos países e a desordem das consciências, e deixando a fatura para os europeus.

O pensamento único vai regressando à Europa, colocada em estado de estupor, perante a violência da guerra ucraniana, sem estratégia própria, a navegar ao sabor dos interesses geoestratégicos alheios. Putin, que apoiou a extrema-direita europeia, conseguiu destruir a Ucrânia e Rússia, a última à espera de se tornar uma nova Jugoslávia onde o fascismo islâmico se prepara para a desintegrar e criar novos estados fantoches apoiados pelos responsáveis da sua desintegração.

Dizer que nenhuma potência gosta de que lhe ponham mísseis na fronteira, devia ser um truísmo tautologicamente demonstrado, e passou a ser a arma ao serviço do pensamento único, sob meaça de ser um argumento a favor do czar Putin.

A Paz é um mero pretexto retórico para a eliminação do adversário escolhido pela Nato, e o presidente da Ucrânia foi promovido a herói das democracias liberais, mesmo depois de ter proibido os partidos da oposição. O histerismo com que se veiculam as posições de Zelensky chega ao despautério de exaltar a sua censura ao governo de Portugal por não ser tão belicista quanto desejava, à Nato por ter medo da Rússia e à Europa por não dar pretexto ao holocausto nuclear envolvendo-se diretamente na guerra que procura estender ao Mundo.

A Europa, herdeira do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, arrisca a desintegração. Os nacionalismos já a corroem, o belicismo dos que não aceitam pagar a fatura da sua imprudência ameaça as instituições democráticas, a extrema-direita anda aí nas ruas, de Lisboa a Kiev, e a Polónia e a Hungria, que tinham suspensos os fundos por desrespeitarem os direitos humanos, já integram o paradigma das futuras democracias, que constroem muros para impedir a entrada de refugiados de tez escura, mas abrem as portas a caucasianos.

Quando aceitamos censura à informação e nos resignamos às verdades únicas, é a ruína dos valores que promovemos, a democracia que pomos em jogo e o futuro coletivo que hipotecamos.

Ninguém se preocupa já com alterações climáticas, com a fome que aumenta em África por cada dia que se prolonga a guerra na Europa, com os refugiados da Síria e do Iémen, com os regimes teocráticos que se multiplicam, com a Turquia na sua deriva islâmica e antidemocrática a forçar a integração na UE, enfim, com a subversão dos valores que nos moldaram e tínhamos por irreversíveis.

O mundo não é a preto e branco e os que resistem são difamados. Podem calar-nos, mas não nos renderemos.


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Rússia / Ucrânia – 3

(Carlos Esperança, 02/03/2022)

“Devem ouvir-se igualmente ambas as partes” – (Demóstones, in Oração da Coroa, 330 a.c.)

Não, não estou com os invasores contra os invadidos, no Iraque ou na Ucrânia, onde os mais fracos foram invadidos pelos mais fortes, e lutarei contra o unanimismo vesgo que nos conduziu à falta de liberdade e ao histerismo belicista.

Os media parecem-se, cada vez mais, com os da ditadura salazarista, o Sr. Milhazes é o Ferreira da Costa, «Aqui, Luanda, rádio Moscovo não fala verdade», e JRS, o Artur Agostinho a anunciar eufórico a voz do dono «Portugueses, temos o Santa Maria entre nós».

Agora, depois de termos esquecido que «os sinos da velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portugueses», assistimos à violenta propaganda onde se esmagam as vozes discordantes. É o maior ataque à liberdade de expressão depois do derrube da ditadura.

A invasão da Ucrânia foi uma condenável e condenada tragédia, e o unanimismo da UE uma desgraça. Do R.U., Boris Johnson comanda a histeria belicista que fez esquecer as suas traquinices festivas, que o afastariam do cargo. Da União Europeia, onde me sinto um federalista convicto, ainda agora, esperava a moderação do não alinhamento acéfalo com interesses do complexo militar-industrial dos EUA. Esperança baldada.

A Ucrânia nasceu onde a História a condena a fronteiras de geografia variável, com um governo que, à semelhança de todos os países que sofreram a violência soviética, Rússia incluída, exacerba o nacionalismo, com o racismo, homofobia e russofobia a porem em causa os direitos humanos.

Quando a liberdade de expressão é seriamente condicionada, a verdade única imposta, e a defesa da guerra passa a opção legítima, urge defender a Paz, e dizer Não.

Defenderei o aprofundamento económico, social e político da UE, sem o qual se esvazia a democracia, sem trocar a liberdade de expressão e o pluralismo por qualquer amanhã, por mais musical que se apresente, ou pela liberdade de esmagar os mais fracos.

Combater o pensamento único é uma manifestação de cidadania, uma questão de honra, a exigência democrática que obriga à defesa dos adversários. A ditadura devia ter sido uma vacina eficaz e sem prazo de validade. E não foi, como se vê.

Fiel aos valores da democracia representativa e ao seu aprofundamento, recuso modelos caducados e as utopias que inspiram. O século XX deu-nos as democracias e as tiranias, e produziu os mais obscuros sistemas e as mais tenebrosas abjeções.

Não avalizo novas aventuras totalitárias, seja qual for o pretexto, qualquer que seja o quadrante. Num momento de comoção seletiva, ao serviço da agenda belicista da Nato, hei de gritar «Sim à Paz, Não à Guerra», sem esquecer o povo mártir da Ucrânia.

Deixo, para reflexão, a advertência de Mário Soares, em 11 de setembro de 2008. Ver o texto de Mário Soares aqui.


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