Marcelo Rebelo de Sousa – Um perfil escondido (2)

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/10/2022)

Depois da agradável surpresa de um PR inteligente, culto e simpático, sucedendo a dez anos de um empedernido e azedo salazarista, Marcelo começou a arruinar, no segundo mandato, a imagem do primeiro. Já gastou o cabedal de simpatia que mereceu.

A irrefreável tendência para comentar tudo, do futebol à política, da canoagem à poesia, das vacinas à economia, dos incêndios às inundações, das decisões políticas aos autores, dos OE à conduta das oposições, só se contém perante eventuais fugas de informação da sua Casa Militar, na decisão conjunta do PM e PR para a nomeação do alm. Gouveia e Melo para CEMA, e notícias de pedofilia eclesiástica.

Ao contrário dos beija-mãos ao Papa e aos bispos, exibe uma postura arrogante com os políticos, quiçá ressabiado da derrota na Câmara de Lisboa, do epíteto de Balsemão e das acusações deste, de ser delator das decisões dos Conselhos de Ministros para os media, mestre na intriga e na dissimulação, nas pretensas idas à casa de banho.

O homem que chamou Lelé da Cuca ao dono do semanário que o nomeou diretor, para se desculpar com um teste aos revisores e lhe revelar, depois, que o considerava como pai, é quem escreveu a Marcelo Caetano o elogiá-lo: “Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades «soaristas»1.

É ainda o mesmo que na entrevista telefónica à jornalista Alexandra Tavares-Teles, na revista Notícias Magazine, recordando, ‘como viveu o 25 de Abril’, refere a resposta que deu ao pai, influente ministro da ditadura, depois de este lhe ter dito que Marcelo Caetano lhe garantira que vinham a caminho de Lisboa tropas fiéis ao governo: «Disse-lhe o que sabia. ‘Não, pai, não vêm forças nenhumas, não pensem nisso, isto está a correr rapidamente. Acabou.’». E, quando a jornalista lhe perguntou: «De onde vinha essa certeza?», respondeu com aquela candura que usa na intriga e nos afetos:

– O António Reis [militante e dirigente político ligado ao PS] tinha-me avisado da proximidade do 25 de Abril com alguma precisão. E embora o meu pai fosse dos membros do governo teoricamente mais bem informados, percebi, naquele momento, que, de facto, estava muito pouco informado. Penso que ele terá transmitido a informação a Marcello Caetano e que este terá respondido: “Esse Marcelo Nuno só traz más notícias. Isso são coisas do contra». 2

Não sei o que mais admirar, se a insensatez do jovem político António Reis, a devoção filial de Marcelo ao ministro fascista, a denúncia da Revolução ao Governo ou a traição à (in)confidência do amigo. Aliás, era interessante saber quando foi «aquele momento», o da indiscrição de António Reis a Marcelo Nuno e o da delação ao governo, através do [pai] ministro de Caetano. Felizmente, Marcelo Caetano não o levava a sério.

Marcelo não é só o hipócrita que, na apoteose da fé, deixou numa cama o sacramento do matrimónio indissolúvel e levou para outra as hormonas e o adultério3. Foi também, e é, o artífice das soluções mais reacionárias que a direita democrática tomou em Portugal.

Foi contra o SNS, lutando depois contra a universalidade, alegando o seu caso, injusto, pois podia e devia pagar a saúde, e tinha direito à gratuitidade. Com Guterres pensou o referendo que atrasou a legislação que aprovou a despenalização da IVG. Este Marcelo, que lava mais branco o passado do que qualquer detergente as nódoas, é o mesmo cujos preconceitos pios preferiam a morte de mulheres cuja vida perigasse com a gravidez, a gestação obrigatória das vítimas de violação e das grávidas de um feto teratogénico.

Esteve sempre, nos costumes, do lado mais reacionário, tal como na política. Veja-se:

Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Manuel Durão Barroso e António Pinto Leite surgiram no início de 1984, organizados, para fazerem regressar ao poder, por via democrática, a velha política, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”, e foram decisivos em dois congressos do PSD, em 1984 [Braga] derrotando Mota Amaral com Mota Pinto e, especialmente, em 1985 [Figueira da Foz], na improvável ascensão à liderança partidária do obscuro salazarista Cavaco Silva, derrotando João Salgueiro.

Marcelo não foi apenas líder do PSD, foi sempre o defensor das posições que são hoje minoritárias na sociedade portuguesa, por mais anestesiada e aturdida que se encontre.

Depois de dez anos de Cavaco, a reintegrar pides e a gozar os pingues fundos europeus conseguidos com a adesão à UE por Mário Soares, podia pensar-se que Marcelo teria o remorso cristão e democrático, e reincidiu na vivenda de Ricardo Salgado, juntando ao casal do anfitrião, o seu, o de Durão Barroso e o de Cavaco, para preparar a primeira candidatura vitoriosa de Cavaco a PR.

Nunca ninguém o confrontou sobre a posição que tomou quando Eanes defrontou o gen. Soares Carneiro, ex-diretor do presídio colonial de S. Nicolau e que, após a derrota, em afronta aos militares de Abril, Cavaco reintegrou no ativo e promoveu a CEMGFA. Foi essa afronta à democracia e à legalidade que levou o PR Marcelo a atribuir a Cavaco o mais elevado grau da Ordem da Liberdade? Foi uma ofensa aos mártires da ditadura.

Marcelo, que aceitou ser presidente da Fundação Casa de Bragança, saberia que o cargo era incompatível com a ética republicana e a presidência da República? Pode agradar à populaça, mas não serve a democracia.

Tenho por este PR o respeito mínimo a que o Código Penal me obriga; julgo-o capaz de quase tudo e com uma agenda perigosa. Vejo nele um perturbador da governabilidade e das relações interpartidárias, por obsessão dele e não por desconfiança minha.

É preciso avisar a malta! É urgente impedir a presidencialização do regime parlamentar através do PR que se imiscui na exclusiva responsabilidade do Governo pela condução política do País e na do PM na condução do Governo.

A CRP obriga o PR a respeitá-la e a defendê-la, o que não faz. O que a CRP não obriga é um cidadão a acreditar no PR, na honorabilidade da sua agenda privada, na brancura do seu passado, na honradez da sua palavra ou na isenção dos seus julgamentos.

Às vezes tenho a vaga impressão, talvez injusta, de que o Palácio de Belém pode ser, à semelhança do que acontece no Brasil, no Palácio do Planalto, habitado por mesquinhos inquilinos que são incompatíveis com a verdade, independentemente do sufrágio que lhes abre as portas.

1 (in «Cartas Particulares a Marcello Caetano», organização e seleção de José Freire Antunes, vol. 2, Lisboa, 1985, p. 353 via Abril de Novo Magazine)

2 (In Notícias Magazine, 22 de abril de 2018, pág. 20, 3.ª coluna).

3 Vocábulo da linguagem pia.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O PR, o cardeal Clemente e os bispos que encobrem crimes

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/10/2022)

O cardeal de Lisboa disse que só havia dois partidos (CDS e Chega) com doutrina de acordo com a da Igreja católica e, numa pulsão censória, considerou «conquistas irrecusáveis […] o direito à vida, à liberdade e ‘à responsabilidade de expressão’ […]», transformando a liberdade em responsabilidade, num lapso freudiano. (Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa – Fonte: DN, 12-01-2015, pág. 14).

Marcelo, depois de ter dito e reincidido o que pensava da pedofilia eclesiástica e de tentar branquear a ocultação do crime público pelos bispos a quem beijou a mão, face ao descrédito que o atingiu, criou um facto novo e fez esquecer o drama de crianças que a violação destruiu, moral e psicologicamente e levam a vida a sangrar por dentro.

Raramente um crime tão grave desapareceu tão rapidamente da comunicação social e, em vez de denúncias das vítimas, aparece o PR a falar do que não lhe diz respeito, já refeito do mal que fez a uma investigação em curso.

Do bispo Ximenes Belo ignora-se o paradeiro, as denúncias de violações pias pararam, e, das investigações, nem o órgão oficioso do M.P. diz se continuam.

O que é preciso é um criador de factos para embrutecer a malta.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Guerra e Paz

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/08/2022)

Aprendi que quem deseja a paz é fervoroso apoiante de Putin, inimigo de dez milhões de vítimas em fuga da Ucrânia, e adversário da civilização ocidental e da Nato. Aliás, o título remete para o do romance de um russo a quem o título de nobreza, o pacifismo e a morte do autor, antes da Revolução comunista, podiam ter poupado a incineração.

Não contraria os que veem na invasão da Ucrânia uma luta entre uma ditadura invasora e a democracia invadida, mais entusiasmados com os russos que morrem na guerra onde os EUA, digo, a Nato e a Rússia se confrontam, do que estarrecidos com os dez milhões de refugiados ucranianos e um número incontável de mortos e feridos.

À medida que a fadiga de guerra se instala, e os países europeus não conseguem debelar a inflação e manter os níveis de bem-estar que precederam a pandemia e a guerra, é de temer que arrefeça a solidariedade para com um povo indiscutivelmente mártir.

Sei que devo ser grato a Erdogan, aliado da civilização ocidental e possuidor do maior exército da Nato fora dos EUA, agora a negociar com russos e ucranianos um preço de favor para cereais e combustíveis, e com os americanos o esquecimento dos curdos.

Por mais que repita que prefiro a pior das democracias à melhor ditadura, há quem veja nas dúvidas traição e no livre-pensamento dissimulação.

Por isso prefiro refletir sobre a ditadura da China, esperando que não olhem os chineses como responsáveis do déspota que os oprime. Sou, aliás, dos poucos que, contra a falta de reconhecimento internacional da independência de Taiwan, a defendo. Não esqueço o que a China fez às liberdades em Macau e Hong-Kong, comprometida a respeitá-las, bem como aos cidadãos que reclamaram liberdade em Tiananmen.

Mas quem disse que as guerras são ganhas pelos justos? Quem garante às democracias a sobrevivência contra as ditaduras?

Sendo as coisas o que são, permitam-me que não compreenda que a Nato, digo, os EUA enviassem a Taipé a senhora Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, quando, sem aparentes benefícios, contribuiu certamente para solidificar a aliança entre Moscovo e Pequim.

Quando Moscovo é um risco para início de uma guerra mundial não fazia falta Pequim para outro rastilho da tragédia, e Taiwan não fica mais segura depois da insólita visita.

Desculpem, leitores, devo estar doente e não penso como pessoa de bem, os cérebros do complexo militar-industrial dos EUA e os portugueses defensores da civilização cristã e ocidental e da Nato. Não leiam o que escrevo, oiçam o Sr. Milhazes.

Mas não se esqueçam que hoje é o 77.º aniversário da tragédia de Hiroxima (ver notícia aqui), quando os únicos que podiam recorrer à bomba nuclear não hesitaram. Hoje, não falta quem queira repetir a tragédia, com um poder destruidor incomparável.

É urgente impedir a repetição da tragédia de Hiroxima, em 6 de agosto de 1945, agora à escala planetária, e que a população mundial grite, a uma só voz: Hiroxima, nunca mais!


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.