Os incêndios da nossa perdição – Take I

(Carlos Esperança, in Facebook, 17/09/2024)

O País arde metódica e eficientemente com perda dramática de vidas e haveres a que não são alheias as alterações climáticas, a incúria e o abandono da floresta. E não faltam comentadores e peritos para explicarem a calamidade e prescrever soluções!

Não surpreende a exploração partidária para tirar dividendos do sofrimento e desolação, o que surpreende é a memória curta de cada partido e dos autarcas corresponsáveis da dimensão das sucessivas tragédias que nos fustigam.

Enquanto as televisões se alimentam dos fogos e do sofrimento vão-se anestesiando as pessoas, já esquecidas da falta de segurança do País, desde o roubo de computadores com segredos de Estado, no próprio MAI, à fuga de criminosos violentos de uma prisão de alta segurança.

O ensino e a saúde pioraram. A falta de professores aumentou e são mais escassos os serviços médicos, apenas a perceção dos problemas diminuiu. Não temos bastonários a queixarem-se da Saúde na abertura dos noticiários, nem agora com falta de professores.

Os fracassos escondem-se com promessas e proclamações, os erros desculpam-se com a herança do anterior governo, o caos passou a constrangimento, as situações dramáticas a difíceis e a incompetência a vontade de mudar.

É nestas situações que se revela o carácter das grandes figuras nacionais e dos pequenos figurões. Vale a pena recordar como o PR destruiu a ministra Constança Urbano (MAI) nos fogos de Pedrógão e como se comporta agora. Ouvi-o a aconselhar políticos, e a si próprio, a ficar longe do teatro de operações do combate aos incêndios, surgindo como porta-voz do PM e a seu lado, sem vontade de ir em sucessivos fins de semana à missa a Tábua como ia à de Pedrógão ou em périplo fúnebre ao funeral dos bombeiros agora mortos, com o PM e o PAR, como foi ao dos bombeiros do Douro.

O PM, perante tragédia igual, não empunhará a agulheta de bombeiro como o fez com o colete nas águas do rio. É mais fácil procurar mortos a navegar nas águas do rio do que a circular na estrada da morte a caminho de Tábua.

Perdido o sorriso de roberto, basta ao PM o ar compungido a chantagear o PS para lhe aprovar na República o OE/25 que nos Açores e Madeira o PSD negociou com o Chega.

Curvo-me com profundo respeito perante as vítimas dos incêndios com náusea das três principais figuras do Estado português.


O Governo e os incêndios – Take II

(Carlos Esperança, in Facebook, 20/09/2024)

Será que ainda vão chegar ao beijo?! 🙂

Enquanto as cinzas dos incêndios assentam, mais por mérito da meteorologia do que do êxito do combate, é justo felicitar o PM pela eficácia a esconder as responsabilidades políticas do governo.

Bastou-lhe apontar como réus os incendiários, como se tivesse dados que a GNR e a PJ desmentem, para esconder os eucaliptos e a gestão do território, e em modo Chega jurar vingança implacável contra os ditos, substituindo polícias e Tribunais, para excitar o País e virar contra incertos o instinto justiceiro.

Montenegro pode não saber governar, mas é hábil na propaganda e dissimulação. Falar de “interesses que sobrevoam” os incêndios coloca nas celuloses a culpa que esconde a governo que as favoreceu, os ex-ministros, agora estão nas Administrações e a CAP.

O PM não pode demitir Nuno Melo ou escondê-lo como fez ao Gonçalo porque terminaria a ficção AD que suporta o Governo, mas pode calar a MAI e substituí-la por pesos pesados bem-falantes, Leitão Amaro e Manuel Castro Almeida, que já substituem também o ministro das Finanças.

O governo vive do Bando dos Quatro, sem conotação com a China de Mao: o PM que o dirige, os dois ministros referidos e o PR, o primeiro a aparecer, a quem bastou dizer, “O país aprendeu com o passado” para esconder falhas operacionais da responsabilidade do governo.

Nunca um governo tão fraco foi tão forte, ora culpando o anterior, ora ocultando culpas próprias sob a retórica do PM e dos seus ministros vedetas. E, quando é preciso reforçar a defesa, manda o PR dar a cara. Este esconde depois a cumplicidade com um chiste ou remoque inofensivo ao governo e finge a independência que deixou de ter.

Cavaco Silva – Uma assombração

(Carlos Esperança, in Facebook, 21/05/2023)

Ontem, para fazer esquecer a melhoria da perspetiva da notação da dívida soberana pela agência americana Moody’s, surgida na véspera (ver aqui), apareceu a liderar a oposição de direita o rancoroso Professor Aníbal.

Substituiu Marcelo, convicto de que, à semelhança das águas residuais, que podem ser recicladas, os ativos tóxicos podem ser branqueados.

Aníbal Cavaco Silva, catedrático de Literatura pela Universidade de Goa, Grande Colar da Ordem da Liberdade por desvario de Marcelo, não se livrará do passado onde teve a sorte de as intrigas de Marcelo e as assinaturas falsas o fazerem, na Figueira da Foz, presidente do PSD contra o democrata João Salgueiro.

Marcelo, Júdice e Santana Lopes fizeram-no PM; Marcelo, Durão Barroso e Ricardo Salgado, ingratamente abandonado, prepararam na vivenda do último a sua candidatura vitoriosa a PR.

Mas não se julgue que o político videirinho foi apenas um salazarista beneficiado com a democracia, a que pretendeu abolir, conluiado com Passos Coelho, os feriados identitários do País, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro.

Com o reiterado absentismo na Universidade Nova, para dar aulas na Católica, obrigou o reitor, Alfredo de Sousa, que o fizera catedrático, a levantar-lhe o processo disciplinar que o despediria por faltas injustificadas. Teve a sorte de ter como ministro da Educação João de Deus Pinheiro que lhe relevou as faltas e receberia em recompensa o Min. dos Negócios Estrangeiros.

O ressentido salazarista não foi apenas venal na docência, “mísero professor” no léxico cavaquista, foi igualmente no negócio das ações da SLN, para ele e filha, e no suspeito negócio da Vivenda Gaivota Azul, na Praia da Coelha.

Apesar de exigir que se nasça duas vezes para alguém ser tão sério como ele, há boas razões para pensar que sobra uma. Os seus negócios foram tão nebulosos como as razões do preenchimento da ficha na Pide, com erros de ortografia.

Ontem, o Professor Aníbal veio bolçar o ódio que o devora, depois de ter sido obrigado a dar posse ao primeiro Governo de António Costa, de ter então esbracejado e denunciado à União Europeia o perigo de um PM apoiado pelo PCP e BE. Exigiu que António Costa pedisse a demissão, apareceu nas televisões, rádios e cassetes piratas, e regressou aos sais de fruto enquanto a oposição de direita continuará a ser liderada por Marcelo.

O homem é assim, o salazarista inculto e primário que o marcelista culto, empático e igualmente perverso está a substituir com mais êxito.

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Marques Mendes e as suas homilias semanais

(Carlos Esperança, in Facebook, 10/04/2022)

Nunca sabemos se o bruxo de Fafe é ele próprio, o militante de uma das fações do PSD, o conselheiro de Estado, o candidato a PR ou o alcoviteiro de Belém, e qualquer um dos avatares é suficiente para que os jornais, emissoras de rádio, canais de televisão e redes sociais façam eco das homilias do comentador avençado do “Jornal da Noite”, da SIC.

Quando tinha acesso à agenda do Conselho de Ministros, na época insalubre de Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís, era certeiro a predizer o futuro e a acertar no que se discutia em S. Bento, incluindo as reuniões que se faziam por telemóvel, onde os SMS podiam ser a ata para a resolução do grupo GES/BES e outras decisões graves.

A fama de pitonisa privilegiada do regime vem desses tempos. No início da legislatura do primeiro governo de António Costa, que o PS, BE, PCP e PEV sustentaram, já se enganava mais do que quem nunca teve dúvidas, seu antecessor na liderança do PSD.

Há mais de sete anos, no dia seguinte à tomada de posse do Governo PS, na primeira homilia, num domingo, como convém aos pregadores, dedicou-se a divagações sobre o “estado de espírito” do PM e saiu-se com este sombrio diagnóstico: “António Costa está com medo da sombra e psicologicamente frágil”.

Logo ecoaram as palavras em todos os megafones ao serviço da direita, então da direita que aguardava de Belém um sinal de que não lhe faltaria quando a casa do PSD e o táxi do CDS saíssem a brilhar da lavandaria dos congressos. Não previu o CDS que teria de prescindir do táxi por falta de passageiros.

Marques Mendes devia lembrar-se da coincidência das suas homilias com as capas dos jornais no início do primeiro Governo de António Costa, quando o Professor Cavaco ululava imprecações e, já laureado com o Grande Colar da Ordem da Liberdade, devorava frascos de sais de fruto a debelar a azia de um Governo, apoiado por toda a esquerda, que o velho salazarista foi obrigado a empossar.

Num país onde minguam notícias e sobram opiniões é um regalo recordar as capas dos jornais desse tempo, já que as profecias do bruxo se perderam no ruído da intoxicação da opinião pública.

Admira que a credibilidade do bruxo se reforce depois dos desatinos. Alguém se lembra ter dito que Mário Centeno na presidência do Eurogrupo só podia ser a piada do 1.º de abril?

Tudo se esquece, desde problemas eventuais com alegados negócios problemáticos, de cuja investigação o Conselho de Estado o livrou, até às profecias que só acerta depois.

António Costa há de deixar de ser PM, só não se sabe quando! O PR há de dissolver a AR, mas está com medo do partido fascista e não quer que o País julgue que é ele que pretende o regresso a um governo onde o pai coubesse.

Assim, à espera de incêndios que hão de surgir, não será difícil deixar a direita abraçada à extrema-direita, mas não sabe o PR nem o seu alter ego Marques Mendes quando será.

A concretização do desejo por voluntarismo do PR pode transformar o narcisista que é em tão odiado PR quanto o salazarista que o precedeu em Belém.


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