Guerra e Paz

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/08/2022)

Aprendi que quem deseja a paz é fervoroso apoiante de Putin, inimigo de dez milhões de vítimas em fuga da Ucrânia, e adversário da civilização ocidental e da Nato. Aliás, o título remete para o do romance de um russo a quem o título de nobreza, o pacifismo e a morte do autor, antes da Revolução comunista, podiam ter poupado a incineração.

Não contraria os que veem na invasão da Ucrânia uma luta entre uma ditadura invasora e a democracia invadida, mais entusiasmados com os russos que morrem na guerra onde os EUA, digo, a Nato e a Rússia se confrontam, do que estarrecidos com os dez milhões de refugiados ucranianos e um número incontável de mortos e feridos.

À medida que a fadiga de guerra se instala, e os países europeus não conseguem debelar a inflação e manter os níveis de bem-estar que precederam a pandemia e a guerra, é de temer que arrefeça a solidariedade para com um povo indiscutivelmente mártir.

Sei que devo ser grato a Erdogan, aliado da civilização ocidental e possuidor do maior exército da Nato fora dos EUA, agora a negociar com russos e ucranianos um preço de favor para cereais e combustíveis, e com os americanos o esquecimento dos curdos.

Por mais que repita que prefiro a pior das democracias à melhor ditadura, há quem veja nas dúvidas traição e no livre-pensamento dissimulação.

Por isso prefiro refletir sobre a ditadura da China, esperando que não olhem os chineses como responsáveis do déspota que os oprime. Sou, aliás, dos poucos que, contra a falta de reconhecimento internacional da independência de Taiwan, a defendo. Não esqueço o que a China fez às liberdades em Macau e Hong-Kong, comprometida a respeitá-las, bem como aos cidadãos que reclamaram liberdade em Tiananmen.

Mas quem disse que as guerras são ganhas pelos justos? Quem garante às democracias a sobrevivência contra as ditaduras?

Sendo as coisas o que são, permitam-me que não compreenda que a Nato, digo, os EUA enviassem a Taipé a senhora Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, quando, sem aparentes benefícios, contribuiu certamente para solidificar a aliança entre Moscovo e Pequim.

Quando Moscovo é um risco para início de uma guerra mundial não fazia falta Pequim para outro rastilho da tragédia, e Taiwan não fica mais segura depois da insólita visita.

Desculpem, leitores, devo estar doente e não penso como pessoa de bem, os cérebros do complexo militar-industrial dos EUA e os portugueses defensores da civilização cristã e ocidental e da Nato. Não leiam o que escrevo, oiçam o Sr. Milhazes.

Mas não se esqueçam que hoje é o 77.º aniversário da tragédia de Hiroxima (ver notícia aqui), quando os únicos que podiam recorrer à bomba nuclear não hesitaram. Hoje, não falta quem queira repetir a tragédia, com um poder destruidor incomparável.

É urgente impedir a repetição da tragédia de Hiroxima, em 6 de agosto de 1945, agora à escala planetária, e que a população mundial grite, a uma só voz: Hiroxima, nunca mais!


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