Guerra, desinformação e democracia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 17/02/2023)

Para além da verdade, também a democracia está a ser vítima desta guerra. A divergência de pensamento transformou-se em delito de opinião.


Tornou-se banal admitir que a verdade é a primeira vítima da guerra. Na maioria dos casos, é um reconhecimento pouco útil porque não ajuda a aumentar as defesas contra a mentira. Não nos coloca de sobreaviso. Não eleva os níveis de alerta. Isso aplica-se ao processo comunicacional relacionado com o conflito na Ucrânia, que nos envolveu nos últimos meses.

Passado quase um ano de hostilidades, é tempo de confrontarmos os factos com os discursos. Este exercício deve ser feito independentemente de convicções pessoais, ou do apoio que se dê a uma ou à outra fação. O facto de a esmagadora maioria da comunicação social estar do lado da causa ucraniana, por muito justa que seja, não legitima nem justifica a promoção sistemática de propaganda.

Qualquer declaração do Governo ucraniano, assim como de algumas outras fontes, como sejam os serviços secretos ingleses, transformados neste conflito em agência noticiosa, é automaticamente considerada uma verdade absoluta inquestionável, por mais ilógica e inverosímil que seja. Fica isenta de contraditório, averiguação e certificação.

Desvaneceu-se assim a fronteira entre notícia e informação. Tornou-se fútil e dispensável verificar a verosimilhança da notícia, um quesito fundamental para se tornar informação. Escancarou-se a porta à manipulação. Ao aceitarmos e promovermos realidades complexas com representações maniqueístas de santos de um lado, e pecadores do outro, tornamo-nos colaboracionistas e, nalguns casos, agentes da manipulação.

A manipulação informativa turva a cognição e impede que se percecione a realidade com clareza. Inibe a clarividência e impossibilita-nos irremediavelmente de compreender o outro. O raciocínio reduz-se a um corrupio de preconceitos.

No caso em apreço, o lado russo tem sido o alvo. As forças russas não tinham munições (davam apenas para uma semana), não tinham preparação, estavam mal equipados, aprendiam a manusear o armamento pela wikipedia, não tinham botas, os soldados desertavam, o ministro da Defesa foi demitido, o chefe das forças armadas morto, Putin foi atingido por várias doenças terminais, os civis eram o alvo dos bombardeamentos, sem esquecer a atribuição da destruição do Nord Stream à Rússia, etc.

Não faltaram “especialistas” para credibilizar estas “notícias”, na maioria dos casos insultos à nossa sanidade mental, com a finalidade exclusiva de moldar atitudes e comportamentos. Ajudaram a criar nas opiniões públicas ocidentais o dogma da vitória ucraniana, como se tratasse de uma imposição divina.

Afinal, quem não tem munições é Kiev, quem não tem base industrial e tecnológica de defesa capaz de apoiar a guerra é a Europa e a Ucrânia, que sobrevive apenas com recurso à ajuda externa, que fez uma remodelação governamental profunda, lançou brutais campanhas de mobilização, etc.

Para além da verdade, também a democracia está a ser vítima desta guerra. Com a conivência promíscua de largos setores da elite pensante do país, aplaude-se o pensamento único, insulta-se e demoniza-se quem questiona as narrativas do mainstream. A divergência de pensamento transformou-se em delito de opinião.

Independentemente do curso da guerra e do lado para que penda o nosso coração, quando informação e manipulação se misturam num pântano de insalubridade é clara a conclusão: a democracia está moribunda. Não só aqui, mas noutras latitudes também.


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As modulações da paz na Ucrânia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 25/11/2022)

Mais recentemente, temos assistido a intervenções de várias entidades apelando à obtenção de uma solução política para o conflito, todas admitindo a possibilidade da amputação territorial da Ucrânia.


Foram precisos nove meses de guerra, a destruição de 50% das infraestruturas energéticas da Ucrânia, a ruína do seu tecido industrial, uma crise sem precedentes de refugiados (cerca de oito milhões) e de deslocados internos, a redução de 33,4% do seu PIB, mais de cinco milhões de desempregados, e centenas de milhares de vidas humanas ceifadas para se começar a falar de paz. Importa perceber a origem desta mudança discursiva.

Não terá sido alheia a esta alteração de “dinâmica”, as consequências que a guerra está a ter na Europa, causadas pelo efeito bumerangue das sanções impostas pela União Europeia (UE) à Rússia, entre outras a inflação galopante, a recessão económica, e a deterioração das condições de vida das populações, que começam a contestar as políticas dos seus governantes.

Como salientou Kristalina Georgieva, a diretora-geral do FMI, numa entrevista ao “Washington Post”, “a guerra parece estar a desencadear uma série de desenvolvimentos que podem ficar fora de controlo”. A probabilidade de fragmentação da economia mundial tornou-se elevada: “podemos estar a caminhar como sonâmbulos para um mundo que é mais pobre e menos seguro.” Segundo ela, a construção de barreiras económicas pelos EUA e pela UE para obterem objetivos geopolíticos podem fazer mais mal do que bem, referindo apenas o campo económico.

Contudo, o fator determinante na introdução da diplomacia na ação e no discurso político deve-se ao facto de Washington ter conseguido concretizar, com esta guerra, vários objetivos geoestratégicos de longa data.

Em primeiro lugar, inviabilizar um projeto europeu dotado de autonomia estratégica, passível de competir e rivalizar no futuro com Washington. Será difícil, nos tempos mais próximos, um dirigente europeu ter a coragem de afirmar que “os europeus têm de lutar pelo seu próprio futuro e destino”, nos termos em que esta afirmação foi feita pela então Chanceler Angela Merkel.

Em segundo lugar, obter a total submissão da Alemanha, o principal polo agregador desse tão almejado projeto europeu, em risco de perder a sua competitividade industrial conseguida, em grande parte, pelo recurso aos hidrocarbonetos russos baratos. Está presente na memória de todos a célebre conferência de imprensa em que Joe Biden disse diante de Olaf Scholtz que “se a Rússia invadir a Ucrânia, o Nord Stream 2 deixará de existir”.

Em terceiro, consumar a rutura da Europa com a Rússia impedindo o aprofundamento da cooperação entre elas nos mais variados domínios, desde o económico ao tecnológico, fazendo com que Moscovo se afastasse da Europa e pivoteasse para leste e para os mercados asiáticos. Esse afastamento já se tinha iniciado há alguns anos, mas acelerou-se com a guerra. A destruição dos gasodutos ajudou a consumar esse movimento.

E, em quarto, o enfraquecimento da Rússia, através de um prolongado regime de sanções, contando para tal com o apoio incondicional da UE, objetivo menos conseguido do que os anteriores. Para além da guerra económica desencadeada à Rússia não ter tido até agora os efeitos esperados, está a ter um efeito desastroso para as economias europeias. Algumas das sanções impostas à Rússia poderão manter-se mesmo que exista um acordo de paz. Embora a Secretária do Tesouro Janet Yellen admita que o conflito está a acabar, foi muito clara sobre esta matéria.

Como escreveu Timothy Ash, “os 5,6% do orçamento norte-americano de defesa utilizados para destruir quase metade da capacidade militar convencional da Rússia foram um investimento absolutamente incrível. A análise de custo-benefício do apoio dos EUA à Ucrânia é incontestável. Está a produzir vitórias em quase todos os campos.”

As preocupações geopolíticas de Washington

A guerra na Ucrânia foi um pretexto para Washington materializar o seu projeto geopolítico, tão bem descrito por vários pensadores e think tanks norte-americanos. A designada primazia norte-americana, como lhe chamou Zbigniew Brzezinski, visa impedir a emergência na Eurásia de uma potência que possa rivalizar e competir com os EUA. Houve momentos em que se pensou que a UE podia ser essa potência, mas as conhecidas divergências internas impediram a realização desse sonho, que com a guerra na Ucrânia passou de sonho adiado a sonho irrealizável. Washington nunca esteve distraído relativamente às ambições emancipatórias europeias, nomeadamente aos seus conceitos estratégicos, em particular ao último (a bússola estratégica) aprovado já em 2022.

Conforme acima referido, um dos motores da concretização desse projeto seria a Alemanha. As preocupações geopolíticas de Washington relativamente à Alemanha alargavam-se à sua possível aproximação à Rússia. Washington teve sempre presente o pensamento de alguns setores a elite política alemã assente nas premissas da Rückversicherungspolitik abraçada pelo chanceler Otto von Bismarck, no século XIX, que defendia, para o bem da segurança da Alemanha, o estreitamento dos laços com a Rússia, respeitar os seus interesses e não alienar Moscovo. Sempre que a Alemanha abandonou esta abordagem colocou-se no caminho da derrota, como aconteceu em 1914 e 1941. Durante a Guerra Fria, essa aproximação ocorreu de forma mitigada em vários momentos e com diferentes matizes, como foi o caso da Ostpolitik promovida pelo chanceler Willy Brandt, e da cooperação energética entre a Alemanha e Rússia com mais de meio século, iniciada em 1964, com a entrada em funcionamento do pipeline “Amizade”.

É essencial para os EUA impedir essa aproximação. Foi exatamente isso que aconteceu, no final da Guerra Fria, quando Moscovo ambicionava aproximar-se da Europa e integrar as instituições europeias, nomeadamente a Comunidade Europeia e a NATO. Sentindo o perigo dessa aproximação, o presidente Bill Clinton não teve dúvidas sobre as opções a tomar. Nesta lógica de afastamento, não é de estranhar que o Parlamento Europeu tenha considerado a Rússia um “Estado terrorista”. Isto representa uma vitória de Washington em toda a linha. Uma vez alcançados os seus objetivos geopolíticos, o prolongamento da guerra torna-se um risco desnecessário.

Os sobressaltos da diplomacia

A guerra na Ucrânia podia ter sido evitada, tivesse existido pressão diplomática eficaz sobre Kiev por parte dos atores internacionais envolvidos, de modo a dar corpo ao projeto federal subjacente aos acordos de Minsk. Dada a sua história, cultura, e composição étnica, fazia todo o sentido que a Ucrânia fosse um Estado federal, dando assim expressão política a todas as sensibilidades que a integram, algo que os grupos ultranacionalistas e neonazis não toleram. A demonstração militar russa na fronteira com a Ucrânia no início de 2022 não foi suficientemente dissuasora para obrigar Kiev a ceder. Já com as forças russas na Ucrânia, ucranianos e russos estiveram em março e abril próximo de um acordo, que teria posto fim ao conflito, não tivesse sido Volodymyr Zelensky mal aconselhado.

Tal como Alija Izetbegovic, presidente dos bósnios muçulmanos, também Zelensky acreditou no canto das sereias. Acreditou que os seus patrocinadores estavam de armas e bagagens no seu comboio, esquecendo, ou desconhecendo, dada a sua impreparação para o cargo, que as grandes potências são implacáveis quando os seus interesses se desencontram com os dos seus vassalos. Que o digam, entre outros, Van Thieu, Najibullah ou Ashraf Ghani.

Uma vez atingida a maioria dos seus objetivos, mas também com receio dos efeitos políticos e económicos nefastos que o prolongamento da guerra possa vir a causar, em particular na solidariedade transatlântica, os EUA começaram a pensar na paz. Sintomaticamente, a maioria das iniciativas nesse sentido tiveram origem nos EUA. Isso começou a tornar-se evidente nas alterações do discurso, embora não exista consenso sobre esta matéria nos círculos dirigentes norte-americanos.

Essas divergências são evidentes, por exemplo, entre os Departamentos de Estado e de Defesa, mas também entre diferentes setores da elite política, onde militam os designados liberais internacionalistas e os grupos neoconservadores. Conselheiros do Presidente Joe Biden têm dito que é cedo para negociações não se encontrando a situação ainda madura para tal. Por outro lado, tem havido a preocupação de alguns responsáveis norte-americanos mostrarem que não estão a colocar pressão sobre os ucranianos, não lhes dizendo o que devem fazer, sobretudo em matéria de cedências territoriais. Foi esse o sentido das declarações de Joe Biden, a 9 de novembro, dizendo que Washington nem sequer pressionava Kiev a falar com Moscovo.

Não obstante, são vários os desenvolvimentos reveladores da existência de uma diplomacia discreta nos bastidores. De acordo com vários relatos, a Administração Biden pediu ao governo ucraniano que anunciasse a sua disponibilidade para entrar em negociações com Moscovo, e se retratasse de declarações anteriores pedindo a destituição do Presidente Vladimir Putin. O Verkovna Rada tinha aprovado em 4 de outubro uma lei que proibia as negociações com o presidente Putin.

A ida do Conselheiro Nacional de Segurança Jack Sullivan a Kiev, em 4 de novembro, visou instar Zelensky a mostrar flexibilidade a adotar uma postura de negociação “realista” em possíveis negociações com a Rússia, e avançar para conversações reconsiderando, eventualmente, o objetivo declarado de restaurar o controlo sobre a Crimeia. No rescaldo dessa reunião, Zelensky reconsiderou de facto a sua anterior posição e veio afirmar publicamente a disponibilidade para negociar com Putin, apesar da lei que o proibia de o fazer não ter sido revogada.

As discussões sobre a fórmula de Sullivan estão em andamento, tendo os contatos entre os EUA e a Rússia aumentado significativamente. Entretanto, os diretores da CIA e do Serviço russo de Inteligência Estrangeira, respetivamente, William Burns e Sergei Naryshkin reuniram-se em Ancara, no dia 14 de novembro, algo que deixou Kiev bastante incomodada, apesar de Joe Biden ter clarificado que nada seria dirimido sem a Ucrânia. Segundo ele, a decisão final seria sempre dos ucranianos, nomeadamente, em matéria de cedências territoriais. Zelensky teria provavelmente presente as negociações entre os EUA e os Talibã sobre o futuro da guerra no Afeganistão, sem o envolvimento de Cabul.

Mais recentemente, temos assistido a intervenções de várias entidades apelando à obtenção de uma solução política para o conflito, todas admitindo a possibilidade da amputação territorial da Ucrânia. Desde Charles Kupchan até altas patentes militares, algo que nunca antes tinham feito. O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas dos EUA, general Mark Milley, veio afirmar publicamente que, por ser altamente improvável que a Ucrânia tenha capacidade para recuperar o território sob controlo russo, seria conveniente iniciar-se um processo de negociações de paz neste inverno, assinalando que a Rússia dispõe ainda de um poder de combate significativo.

Seria, portanto, improvável que Kiev consiga expulsar o Exército russo das posições que atualmente ocupa. Segundo ele, “a probabilidade de uma vitória militar ucraniana é agora extremamente baixa “. Afinal, os ataques de mísseis russos não param e a infraestrutura da Ucrânia já foi quase totalmente destruída. Outras vozes juntaram-se a Milley, como a dos antigos SACEUR Wesley Clark e James Stavridis, todas elas refletindo a necessidade de um compromisso.

Sem surpresa, as palavras de Milley foram mal recebidas em Kiev, motivando uma reação oposta ao pretendido. O CEMGFA ucraniano, general Valerii Zaluzhnyi, disse que “as forças armadas ucranianas não aceitam quaisquer negociações, acordos ou soluções de compromisso”. Para haver negociações a Rússia teria de libertar todos os territórios ocupados, o que é absolutamente irrealista. Esta abordagem esteve presente na proposta utópica de paz que Zelensky apresentou na cimeira do G20, a 15 de novembro, assente em dez pontos, a qual exigia a saída das tropas russas do território ucraniano como condição para se sentarem à mesa das negociações. Também o vice-ministro da Defesa ucraniano fez declarações semelhantes.

Independentemente dos esforços que venham a ser envidados para sentar russos e ucranianos à mesma mesa para discutir o seu futuro, ambas as partes encontram-se ainda longe de um impasse doloroso, convencidas de que conseguem ganhar militarmente a guerra. Como nada será ganho à mesa das negociações, que não tenha sido conquistado no campo de batalha, devemos preparar-nos para uma grande confrontação militar cujo resultado ditará não só o futuro de ambos os países como a futura arquitetura de segurança europeia, em particular, no que respeita à possível adesão da Ucrânia à NATO. Só depois poderemos falar de negociações e de paz.


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As (in)dependências da Europa

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 26/10/2022)

Ao contrário do que afirmam os dirigentes europeus, a transição energética, tecnológica e industrial que a Europa pretende trilhar não vai conduzir à sua autonomia ou independência, mas sim aumentar as suas dependências, agora da China, em vez da Rússia.


Tanto Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, como Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, têm-se pronunciado repetidas vezes sobre a autonomia estratégica e a independência energética da União Europeia.

Temos dúvidas como conseguirá a União atingir esses objetivos tão ambiciosos, perante a série de dependências que as tensas relações entre a China e os EUA, a crise da Covid-19 e a guerra na Ucrânia trouxeram à tona de água, não só em matéria de comércio, investimento e cadeias de abastecimentos, como das matérias-primas necessárias à transição energética e tecnológica, que a União pretende implementar. Um dos aspetos que os oito meses de guerra tornaram evidente é o facto do modelo de desenvolvimento económico europeu assente em matérias-primas baratas, que lhe permitiam obter vantagens competitivas no mercado global, se encontrar esgotado.

Um relatório efetuado no âmbito da Comissão Europeia identificava 137 dependências da União. Dessas, 52% tinham origem na China, e apenas 3% na Rússia. Sem se estabelecer uma relação com a natureza do impacto de cada uma delas, a sua contabilização é um instrumento de análise insuficiente.

Preocupar-nos-emos neste texto apenas com as dependências de maior impacto na tão almejada transição energética e tecnológica. Pensamos nas novas tecnologias altamente exigentes em dados (comunicações móveis de quinta/sexta geração, inteligência artificial, quantum computing, robotização, biotecnologia, veículos sem condutor, aparelhos médicos de alta performance, a designada “internet das coisas” e as indústrias de defesa) que definirão o futuro paradigma tecnológico e industrial.

A transição tecnológica e industrial

O futuro da Europa dependerá do modo como se conseguir posicionar relativamente às indústrias do futuro. Sem poder aceder às matérias-primas baratas, como nos tempos do colonialismo, e ao gás russo barato (e outros produtos), será difícil à Europa implementar um sistema industrial que lhe permita competir com vantagem. A Europa tem pela frente dois problemas incontornáveis: a transição tecnológica e industrial e o abastecimento das matérias-primas que as viabilizam.

Em matéria de energias renováveis, eletrónica digital e indústrias intensivas em energia, a União está fortemente dependente de matérias-primas de que não dispõe. A mesma dificuldade coloca-se noutros setores, como na saúde, onde os ingredientes para a produção de medicamentos são provenientes de outras latitudes que não a europeia. Quando falamos, por exemplo, de energia solar, há que ter em conta que os dez maiores fabricantes mundiais de painéis solares encontram-se quase todos na Ásia. A China domina na sua fabricação (96% em wafers; 77% nas células, Europa 0%; e 70% em módulos, Europa 2%).

Os produtos associados às tecnologias em ascensão – smartphones, tablets, TVs digitais, infraestruturas de comunicações sem fio, hardware de rede e todos os outros bens que usam computadores – necessitam de semicondutores. Neste mercado, não existem a nível mundial fabricantes europeus nos dez primeiros lugares (dados de 2017). A União está a tentar entrar na primeira liga global de fabricação de semicondutores, tendo estabelecido o ambicioso objetivo de duplicar a sua participação no mercado global até 2030, tendo, no entanto, de efetuar ainda investimentos colossais para o conseguir.

Embora a Europa disponha de pontos fortes nalguns elos da cadeia de valor dos semicondutores, está muito atrás da Ásia, sobretudo quando se trata dos chips mais sofisticados. Excetuando o caso da Intel na Irlanda, onde existe capacidade para fabricar chips de 14 nanómetros (nm), são poucas as fábricas na Europa com capacidade para fabricar chips com menos de 22 nm. A grande diferença faz-se na tecnologia dos 2 nm, fundamental para sustentar as indústrias tecnologicamente mais exigentes, como aquelas referidas. E aí a União encontra-se consideravelmente atrás dos EUA e da Ásia.

Noutras matérias igualmente cruciais, o atraso europeu é gritante: o maior fornecedor europeu de serviços de Cloud atinge menos de 1% do mercado europeu; a esmagadora maioria das grandes empresas tecnológicas são americanas (Apple, Microsoft, Google/Alphabet, Amazon, Tesla, Intel, Meta/Facebook), não existindo empresas europeias com capacidade para rivalizar; em matéria de cibersegurança, os EUA detêm a liderança. Das 500 empresas globais de cibersegurança, as norte-americanas ocupam cerca de 74,5% do mercado, enquanto as europeias apenas 13,8%.

As matérias-primas e a energia

Para levar a transição energética e industrial por diante, a União vai precisar de certas matérias-primas e de energia que não possui. No primeiro caso releva-se a importância da China e no segundo a da Rússia.

Os países europeus não surgem no topo dos países produtores de algumas das matérias-primas essenciais. Falamos, por exemplo, do tântalo, cobre, terras raras, cobalto, lítio e grafite. Na Europa, apenas o Reino Unido, que não pertence à União, aparece na lista de maior fornecedor de dois produtos (flúor e tungstatos, 14% e 5% da produção mundial, respetivamente) de seis críticos (Iodo, óxido de lítio, dióxido de molibdénio, flúor, tungstatos e fósforo). A China domina a cadeia de valor das terras raras (extração e processamento). A contribuição mundial da União Europeia é de 1%.

O magnésio é outra matéria-prima crítica devido às suas aplicações estratégicas. Também neste caso, os países da União encontram-se fortemente dependentes de fontes exteriores ao espaço europeu. A sua extração está fortemente concentrada na China onde reside 89% da produção mundial. Em 2018, 93% das 184 mil toneladas consumidas na União tiveram origem na China. A lista de dependências não se esgota aqui.

É nos hidrocarbonetos, em particular no gás natural, que o impacto da guerra na Ucrânia é mais imediato e onde as dependências europeias são mais evidentes. O efeito da guerra fez-se sentir nos aumentos dos preços, mas é na indústria que as consequências económicas serão mais dramáticas, uma vez que afetarão a sua competitividade, agravada pela desvalorização do euro.

Se é verdade que a Rússia pode causar danos significativos à Europa, a Europa foi hábil em os ampliar. Não bastava a recusa alemã, num ato de autoflagelação, de colocar o Nord Stream 2 em funcionamento, por pressão de Washington, empenhado em vender o seu próprio gás à Europa, bastante mais caro do que o russo, vê-se agora na incómoda situação de procurar desesperadamente fontes de fornecimento alternativas.

Para contrariar a dependência do gás russo barato, em que assentava o modelo de desenvolvimento económico europeu, e particularmente o alemão, a Europa terá inevitavelmente de se sujeitar a outras dependências, naturalmente mais caras e mais voláteis. Como se isso não bastasse, são os EUA, a Rússia e a China que dispõem de maior capacidade de refinação de petróleo, sendo os EUA e a Rússia os dois maiores exportadores de diesel, responsáveis por cerca de 22% do comércio mundial. Por outro lado, em matéria de energia nuclear, a Rússia é responsável por cerca de 46% do fornecimento de combustível nuclear a nível mundial.

O equívoco

Ao contrário do que afirmam os dirigentes europeus, a transição energética, tecnológica e industrial que a Europa pretende trilhar não vai conduzir à sua autonomia ou independência, mas sim aumentar as suas dependências, agora da China, em vez da Rússia. Esses objetivos ficam comprometidos quando se olha apenas para um dos lados do Atlântico, onde se jogam todas as cartas. Por isso, faria sentido que Bruxelas se tivesse empenhado em desenvolver um relacionamento pragmático com Beijing e Moscovo, o que está presentemente longínquo no primeiro caso e impossível no segundo. Encontra-se assim encurralada num jogo de soma nula sem grande margem de manobra.

Apesar da comparação sobre o “jardim” e a “floresta” feita por Josep Borrell ser arrogante e sobranceira, ela encerra alguma réstia de lucidez, que os seus pares parecem não ter ainda tido. Pelo andar da carruagem, as “selvas” vão mesmo tomar conta do “jardim”.


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