A história de um homem que não conhecemos tão bem como julgamos. Os amigos chamavam-lhe Zeca

(In Blitz, Expresso Diário, 25/04/2019)

(Para sempre ligado ao 25 de Abril – quanto mais não seja devido ao facto de Grândola Vila Morena, ter sido usada como sinal pelos capitães para desencadear a sua acção no terreno -, convém também hoje recordar esse vulto maior da música portuguesa, Zeca Afonso, os sucessos e as vicissitudes.

Estátua de Sal, 25/04/2019)


Ferido desde a infância, esforçava-se por ser justo, sofria de insónias e, com ou sem dinheiro, perseguido ou não, sonhava dia e noite com música – toda a música, da Beira Baixa a Moçambique. A 25 de Abril do ano em que faria 90 anos, voltamos a José Afonso: o dos discos e o humano.


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Quando Humberto Delgado foi como Assange: escondido numa embaixada para fugir às autoridades

(In Expresso Diário, 11/04/2019)

Humberto Delgado

Uma criada soprou ao general que a PIDE o queria prender. Humberto Delgado pediu de imediato ajuda ao embaixador do Brasil em Lisboa para o acolher e assim poder continuar a sua luta contra o regime de Salazar. O neto do general, Frederico Delgado Rosa, autor de “Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo”, deixa ao Expresso um depoimento sobre esses dias do seu avô.


Quando se fala no “caso Delgado” pensa-se logo no assassinato de Humberto Delgado pela PIDE em 1965, mas no ano de 1959 houve outro “caso Delgado” que foi justamente o asilo de Humberto Delgado na embaixada do Brasil em Lisboa.

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Tudo começou porque chegou-lhe a informação de que a PIDE o ia apanhar através de uma criada que ouvira isso da boca de uma figura da polícia política. Ao saber disso, ele reuniu-se com os seus correligionários e com a família também. Assim, na iminência de se ver preso pela PIDE – o que estava completamente fora de aceitação pela sua parte, porque ele queria continuar o combate contra o regime de Salazar e a respetiva revolta armada -, pediu asilo ao embaixador Álvaro Lins, uma grande figura da história do Brasil e também da literatura brasileira, e foi acolhido de imediato na sua residência.

Curiosamente, a embaixada ficava justamente ao lado da sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. É extremamente irónico que o perseguido pela PIDE ficasse tão perto da própria sede da PIDE. E, aliás, a embaixatriz Heloísa Lins cedo lhe relatou que ouvia durante a noite os gritos dos torturados pela PIDE e que se queixara disso às autoridades mas nunca obtivera resposta. A única que lhe tinham dado é que ela estava equivocada e que esses barulhos eram dos elétricos a chiarem nas calhas e, portanto, não eram gritos humanos…

Durante esses meses em que esteve refugiado na embaixada do Brasil, em Lisboa, Humberto Delgado era diariamente visitado pela sua mulher e pelas suas filhas, que tinham obrigatoriamente de passar ao lado da PIDE. E esse jogo de gato e do rato, de pressão psicológica de ter de estar a passar diariamente ao lado da PIDE e dos seus esbirros, teve, claro, uma componente pessoal bastante forte. Como se eles [da PIDE] estivessem sempre a dizer “isto está por dias para nós o apanharmos”.

Foi um braço de ferro muito grande entre janeiro e abril de 1959, porque obviamente que o regime de Salazar fazia de tudo para ele sair da embaixada sem passar a imagem de que era um perseguido político. Claro que Humberto Delgado não queria sair da embaixada se não fosse com as garantias de que a seguir ia para o Brasil. O regime tentou de tudo para demonstrar que não o perseguia e que ele não corria qualquer perigo.

No decurso desses três meses aconteceu a famosa mas malograda revolta da Sé – as pessoas esquecem-se que foi uma tentativa de ‘golpe delgadista’ contra o regime encabeçada por oficiais e civis em contacto com Humberto Delgado. Mas infelizmente essa revolta não prosseguiu porque houve fugas de informação e um controlo tão apertado sobre os oficiais envolvidos que impossibilitou qualquer hipótese de poder avançar.

Com os holofotes do mundo sobre este caso de Humberto Delgado, levou muito tempo até se encontrar uma solução entre os dois países. Acabou por se solucionar através da intervenção do jornalista brasileiro João Dantas, diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, que veio a Portugal e serviu de intermediário entre as duas nações.

Para a situação ser resolvida sem ser o embaixador a levar Humberto Delgado debaixo do seu braço até o aeroporto, digamos que foi o João Dantes que assumiu essa responsabilidade pela calada da noite. E assim Humberto Delgado partiu para o Brasil, onde aterrou no dia do Tiradentes, um feriado nacional celebrado a 21 de abril.

Na verdade, o embaixador Álvaro Lins agiu por sua conta e soube lidar com este impasse diplomático porque o Presidente do Brasil [Juscelino Kubitschek] não queria ficar de mal com o Portugal de Salazar.

O meu avô ficou eternamente grato ao embaixador Álvaro Lins e à sua esposa Heloísa. Humberto Delgado viveu exilado no Brasil entre 1959 e 1964. E foram anos sem dúvida complicados porque ele continuou a preparar ações revolucionárias contra o regime português que culminaram na revolta de Beja, que foi igualmente malograda na passagem de ano de 1961 para 1962. Isto passou-se no rescaldo da sua entrada clandestina em Portugal: entrou e saiu do país e a PIDE carimbou-lhe o passaporte, ou seja, a polícia que o queria prender permitiu que ele entrasse e saísse do país. Este facto ridicularizou o regime aos olhos do mundo.


Mélenchon: “Abandonem os tratados, idiotas!”

(Jean Luc Mélenchon, in Expresso Diário, 10/03/2019)


Jean-Luc Mélenchon, líder do partido A França Insubmissa, fundado em 2016

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Num exclusivo para Portugal, o Expresso publica um artigo de opinião do político francês Jean-Luc Mélenchon, em que este faz a apologia do renascimento da Europa. Numa resposta ao artigo de Emmanuel Macron publicado em diversos ‘media’ europeus no início da semana, o líder do partido A França Insubmissa apela à renúncia “à falsa dupla franco-alemã” e declara guerra aos tratados europeus, “que condensam todas as políticas económicas no dogma absurdo do liberalismo ortodoxo”

O Presidente francês dirige-se aos europeus? A verdade é que existe outro discurso francês. No Velho Continente, o interesse geral dos seres humanos merece melhor do que ser diluído na estratégia da conversa de circunstância de Emmanuel Macron. Na Europa, chegou a altura de falarmos a única língua verdadeiramente internacional, capaz de motivar a ação comum de povos que têm uma História, línguas e culturas tão diferentes: a linguagem dos bens comuns a defender e a alargar. Dos projetos de vida comuns. Dos direitos sociais e dos serviços públicos a reconstruir, depois do saque resultante de trinta anos de concorrência livre e não falseada. A linguagem da paz, face aos delírios agressivos antirrussos e às provocações guerreiras da NATO.

A questão é urgente. Porque estamos todos a ser ameaçados por um sistema de produção e de comércio que destrói a Terra e os seres humanos. Não terá também chegado o momento de impor medidas de solidariedade capazes de salvar-nos da catástrofe ecológica em curso? O monstro financeiro empanturrou-se, em detrimento de todos os pequenos prazeres da vida. Se é preciso um renascimento na Europa, que seja o da soberania do povo e das Luzes, contra o obscurantismo do dinheiro e de paixões religiosas antagónicas. Se a França pode ser útil a todos, que seja propondo os trabalhos de Hércules que é urgente realizar.

Sim, num prazo de vinte anos, os povos da Europa podem impor a si próprios respeitar a regra verde em todos os aspetos: deixar de tirar da Natureza mais do que esta é capaz de reconstituir. Os nossos povos podem desde já renunciar a utilizar pesticidas, que assassinam a biodiversidade. Podem decidir erradicar a pobreza no Velho Continente, garantir um salário decente para todos, limitar as disparidades de rendimentos, para travar a epidemia infindável das desigualdades. Somos capazes de alargar a todo o continente as disposições legais mais favoráveis sobre direitos das mulheres. Somos capazes de bloquear a ação dos ladrões de impostos, que todos os anos desviam biliões de euros. Em suma: é possível iniciar uma nova era da civilização humana. Aqui, no continente mais rico e mais instruído, podemos fazer isso. Se assumir um protecionismo negociado com o mundo, a Europa transformará as suas normas humanistas numa nova linha de horizonte, comum a milhões de seres humanos.

Para tal, só temos de renunciar à falsa dupla franco-alemã, esse pretensioso domínio conjunto controlado pela CDU. Humilha os restantes 26 países e isola os franceses dos seus pares naturais do sul. Só temos de renunciar ao medo dos russos, que são parceiros. Se a democracia se encontra ameaçada, é sobretudo pela tirania do sector financeiro e pelos métodos grosseiros utilizados para dirigir os povos. Foi isso que levou ao martírio da Grécia e à perseguição dos opositores na Polónia e na Hungria.


Jean-Luc Mélenchon, rodeado de ‘coletes amarelos’, num protesto em Bordéus

Também em França, o problema que se coloca à nossa democracia não vem de Moscovo mas de Paris, porque este Presidente exerce uma repressão feroz contra os ‘coletes amarelos’, desde que os protestos tiveram início, há 17 semanas. Que lição de democracia pode dar Macron, depois de contabilizados 12 mortos, 2000 feridos, 18 pessoas que perderam um olho, cinco mãos amputadas, 8000 detidos, 1500 condenações após apresentação imediata em tribunal? Todas estas vidas ficaram destruídas, por terem reclamado o seu lugar ao sol… Que lição de democracia pode o Presidente francês dar quando a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Conselho da Europa e o Parlamento Europeu se mostram publicamente preocupados com a violência policial em França?

E como é insuportável a violência da ilusão que leva a crer que o afogamento no Mediterrânio deixará a fortaleza Europa a salvo dos refugiados económicos e ecológicos! O facto de Viktor Orbán aprovar o discurso de Macron devia causar apreensão. Para compensar esta brutalidade, é precisa uma política imediata contra as causas dos exílios forçados: guerras, alterações climáticas, pilhagem económica.

Todas estas misérias sociais têm uma origem comum: o conteúdo dos tratados europeus, que condensam todas as políticas económicas no dogma absurdo do liberalismo ortodoxo, caro ao Governo de Merkel. A condição prévia para a cooperação na Europa é o abandono dos tratados. Para os povos europeus, é urgente mudar de direção. Emmanuel Macron e Angela Merkel personificam as antigas receitas mórbidas. O renascimento de que a Europa precisa é o dos direitos políticos dos seus povos. Se a França pode ser útil em alguma coisa, é nesta matéria, na condição de se apresentar como parceiro e não como quem quer dar lições.