A guerra da Ucrânia não é um videojogo!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/10/2022)

Dos delegados da propaganda aos missionários — dos jornalistas aos historiadores

Da ciência às mezinhas


A medicina começou por ser um conjunto de práticas de senso comum: uso de determinadas substâncias associadas a melhorias, de ações de tipo mágico-religioso. Muitas doenças eram atribuídas a humores, a ações de agentes maléficos, de mafarricos, de invejosos, de hereges, de filhos do diabo. A epilepsia, por exemplo era fruto de um demónio que se infiltrava no ser humano. Mas a medicina passou a ser uma ciência quando utilizou o diagnóstico para explicar as doenças e procurar um remédio. O diagnóstico é um processo analítico para chegar a uma conclusão. Vamos ao médico para receber uma síntese baseada em elementos científicos, que incluem habitualmente técnicas e exames complementares.

Eu confio nesta abordagem científica das situações que dizem respeito à minha saúde. Já o mesmo não posso dizer das que me são apresentados nos estúdios de televisão por muitas personagens subtituladas com pomposos graus académicos e que dali, do púlpito televisivo, proferem diagnósticos sobre a guerra da Ucrânia. Tem sido um festival de historiadores e politólogos, além de generalistas de largo espetro para quem a ciência é uma prática esotérica, que segue a mesma metodologia da apreciação futebolística. Ainda não perdi a esperança de ver um desses artistas repetir a façanha da cabra dos antigos saltimbancos de feira, que se equilibrava num pé de cadeira e dali balia aos espetadores!

Eu não aceitaria que um médico explicasse a minha situação clinica com base nos humores carregados, do olhar de quem me quer mal, que as dores nas cruzes se deviam ao desejo de subir aos céus, que um médico me aconselhasse a ter cuidado ao sair de casa porque um vizinho estava com más intenções. Que referisse uma doença como o “bicho” que tomou conta dos meus ossos.

Ora, o que tenho ouvido quanto a explicações de historiadores e comentadores a propósito da guerra da Ucrânia é do tipo dos curandeiros, dos exorcistas e dos pregadores da inquisição. Historiadores e diplomados em ciência política, professores e professoras, doutores e doutoras nas mais diversas escolas apresentam como razão para a guerra na Ucrânia os maus humores de Putin! Ou a sua paranoia! Ou um mal inominável. Ou os traumas da infância! Há quem tenha mandado uma imagem de uma deusa local (sempre referida como a nossa Senhora de Fátima, imagem peregrina número 2) para a Ucrânia a fim de vencer e converter a velha Rússia e houve reportagens e atestados de historiadores e comentadores a garantir que a virgem, as rezas e as cerimónias sortiam efeito contra invasões dos bárbaros!

Há mestres na matéria da História e da Ciência política que, depois do que o saber europeu já parecia ter estabelecido quanto aos interesses como base de toda a ação política, incluindo a guerra, reduzem a história, a política e a guerra às taras de um homem, aos seus humores, aos seus demónios.

Há “historiadores” e “cientistas políticos” para quem, aplicando o seu método de diagnóstico dos acontecimentos do passado, explicariam as cruzadas com o verdadeiro desespero místico do papa Urbano quanto à sorte do Túmulo de Cristo em Jerusalém, vazio há mais de mil anos e não, como é corrente, ao facto da cristandade cuja sede fora estabelecida em Roma já se sentir suficientemente forte para ocupar a região do Médio Oriente, decisiva para o comércio. E também explicariam a independência de Portugal com o aparecimento de uma cruz nos céus de Ourique, a Afonso Henriques. E explicariam a perseguição aos judeus não pelo seu poderio financeiro, mas pelo corte de cabelo ou a circuncisão.

Utilizar termos tão científicos como: criminoso, sanguinário, desapiedado, genocida, novo czar, filho desta ou daquela, paranoico, a um dirigente político — no caso Putin — é reduzir a análise da história aos impropérios que devem ter começado quando o Caim matou o irmão Abel. É explicar uma fase da história das civilizações do Mediterrâneo com a metodologia das revistas cor-de-rosa, dos amores de Cleópatra com Marco António, por exemplo; é explicar a reconquista cristã da península com os amores de uma princesa árabe por um príncipe cristão, ou ao contrário!

Ouvir estes historiadores e estes cientistas políticos explicarem a guerra da Ucrânia pela maldade de um homem é acreditar que a história contemporânea de Portugal pode ser entendida com a leitura da primeira página do jornal Correio da Manhã, a história de Inglaterra com as primeiras páginas dos vários tabloides, que a história do Mundo é a dos noticiários da FOX e da CNN americanas, ou entender a história como os videojogos da Marvel, do homem dragão!

A guerra da Ucrânia já tinha desnudado os jornalistas, transformados em meros delegados de propaganda, também despiu dos mantos da credibilidade científica alguns (bastantes) historiadores e politólogos, que em vez da utilização de um método tão neutro quanto possível para obter uma conclusão racional preferiram os seus preconceitos e uma linguagem de vidente ou de pregador, ou até de condutor ofendido no seu direito à prioridade num cruzamento.

A história, a sua interpretação, os seus interesses, os seus atores não são um enredo de super-heróis da banda desenhada. Mas é essa a versão que nos está a ser vendida!

Há historiadores e politólogos que abordam a história da guerra da Ucrânia com o argumento cientifico de um biólogo que explicasse o ataque de um leão a uma gazela como fruto da maldade do leão, e não à sua necessidade, enquanto carnívoro, de caçar.

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As negras previsões do humor britânico

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 16/10/2022)

Apesar da seráfica figura de Carlos, que faz parecer um cirio um clarão de fogo-de-artifício, a situação em Inglaterra está a tal ponto após os governos de Cameron, Theresa May, Boris Johnson e agora Liz Truss, que o editorialista do «The Guardian», David Mitchell já escreve: “Talvez devêssemos considerar o regresso à monarquia absoluta!”

O humor britânico é um excelente boletim meteorológico para prever tempestades políticas e sociais. Quando os ingleses se riem de si, os outros europeus deviam pensar na tempestade que se aproxima.

Carlos III tomou uma decisão que podia inspirar Marcelo Rebelo de Sousa: Reduziu o seu horário de trabalho em duas horas. A medida motivou o comentário de The Guardian: É como um ator que esperou longos meses pelo papel e cuja primeira pergunta quando chega ao primeiro ensaio é: A que horas é o almoço.

Mas acontece que Sua Majestade quer poupar tempo aos súbditos. Propôs diminuir em duas horas a cerimónia da coroação (Maio 2023) — mais simples e mais barata. Não é apenas a duração do evento que vai ser cortada. Algumas tradições antigas provavelmente serão removidas, por exemplo, o “tribunal de reivindicações” onde se finge que as decisões são tomadas. Também é provável que a apresentação de lingotes de ouro ao novo monarca seja eliminada.

A lista de convidados também será reduzida, dos 8.000 que foram amontoados na Abadia de Westminster da última vez, com a ajuda de enormes pórticos de madeira para uns 2.000 (que, ainda assim, incluirão Marcelo Rebelo de Sousa, estou certo).

Também está a ser pensado refazer o código da vestimenta e dispensar os nobres de usar “roupões” de coroação. Um pena, pois roupas loucas parecem ser um divertimento importante neste tipo de eventos: todos de uniforme, mas sem uniformidade de uniforme. Uniformes em enorme variedade, esse é um paradoxo do cerimonial real e que se sente adequado às circunstâncias em que a figura de topo de uma economia G7 deve ser apresentada com um símbolo sagrado, coroada com um capacete de metal nobre, antes que todos nos possamos curvar sempre que o Rei entra numa sala.

Obviamente é tudo um pouco bizarro, mas parece relativamente inofensivo e pode ser divertido. A arqueologia viva é interessante. Encurtar a coroação é bom, desde que se mantenham os atores vestidos carnavalisticamente e que se mantenham as regras. Todos devem sentar-se, a menos que devam ficar de pé. Todos devem usar preto, a menos que usem vermelho. Todos devem estar quietos, exceto um homem que grita incrivelmente alto.

O jornal Daily Mail rejeitou a ideia dos ambientalistas de que na coroação de 2023 fossem proibidos os toques de sinos e as sirenes, para não assustar pássaros e outros animais, e orquestrou um inquérito para provar a aprovação do público. Setenta por cento dos entrevistados declararam que “pompa é o que a Grã-Bretanha faz melhor”. Apoiaram os ruídos metálicos. Pode-se argumentar que nenhum país representa a pompa melhor do que a Grã-Bretanha, mas é surpreendente a noção de que a principal reivindicação à excelência deste país que produziu o segundo maior número de vencedores do Nobel se centra na arcaica coreografia militar e religiosa!

Parece ser boa medida encurtar a coroação e perder algumas cenas de que ninguém ouviu falar, desde que ainda seja um grande evento com todos vestidos de forma extravagante. A cerimónia apenas necessita de ser insana e ser apresentada como se fosse a coisa mais surpreendente do mundo!

É sensato da monarquia reconhecer os tempos difíceis e de apertos e não colocar muitos lingotes nas fotografias de Charles III. A economia está a afundar-se, milhões de pessoas estão assustadas, os pobres a ficar mais pobres e o Rei está a demonstrar que se importa com eles, algo que o governo parece surpreendentemente incapaz de fazer.

Isso faz-me suspeitar que nossa situação (a da Grã Bretanha, mas aplica-se a toa a Europa, e Marcelo Rebelo de Sousa é monárquico) poderia melhorar se restaurássemos a monarquia absoluta. Nas presentes circunstâncias é evidente que a monarquia é mais funcional do que o governo parlamentar.

Na última eleição, nosso sistema de votação deu ao público uma escolha entre um mentiroso e um socialista e acabamos não sendo governados por nenhum deles. Em vez disso, temos um líder votado apenas por um punhado de membros de direita do clube conservador, que manifestamente não tem a confiança do público.

Democracia e meritocracia são, naturalmente, muito preferíveis à autocracia real, mas a administração de Truss não tem mandato democrático e não demonstra mérito. Carlos III parece ter tanto direito de nos dizer o que fazer quanto ela e dificilmente poderia fazer pior.

Fim de elementos retirados do artigo. https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/oct/16/i-know-which-of-our-unelected-leaders-i-prefer-king-charles-liz-truss

Já agora, Ursula Van Der Leyen, Borrel, Charles Mitchel, o secretário da Nato, a presidente do Banco Central Europeu também não têm, tal como Liz Truss, mandato democrático. E não será problema arranjar um rei para a União Europeia, até temos especialistas em casas reais que vão à televisão e, tal como Carlos de Inglaterra, um Carlos de qualquer ponto da Europa poderia fazer pior do que os atuais ocupantes dos cargos reais de Bruxelas.

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A guerra — A política SEM A MÁSCARA da Moral

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 12/10/2022)

(Texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que se consegue ir ouvindo na desmontagem da narrativa a que o “Império” nos vai sujeitando.

Estátua de Sal, 13/10/2022)


A guerra na Ucrânia decide a nova arquitetura do poder político mundial, não é uma luta do Bem contra o Mal. Quando referimos a palavra política associamos o termo a pelo menos 3 realidades: em primeiro lugar associamo-lo à administração da polis — tarefas administrativas, gestão — o que hoje surge englobado sob o grande chapéu de administração pública e tarefas do Estado, em segundo lugar a disputas partidárias, negócios disfarçados de falsas alternativas eleitorais, má-língua onde surgem alhos e bugalho, comentários enviesados, em terceiro lugar, mas raramente, à política entendida como o processo de definição de modos de organizar uma dada sociedade para a integrar em espaços mais vastos, isto é, falar da política como uma forma de pensar e de construir uma realidade tão próxima quanto possível da harmonia, da virtú, de que falava Maquiavel em o Príncipe e que nunca deixou de estar presente. A política virtuosa seria aquela que não sucumbe ao “poderio da caprichosa e inconstante Fortuna do momento”, o oposto da que tem sido praticada pelos que temos tido ao comando dos nossos destinos. Político virtuoso seria o que consegue ser senhor da sorte, ser o que determina as circunstâncias e não o que se deixa ir na sua espuma. É esta terceira abordagem da política que me interessa para analisar a guerra na Ucrânia.

Interessa-me abordar a relação entre a política e a guerra no âmbito geral da utilização da política para provocar, promover, desenvolver ações e conduzir campanhas para assegurar o objetivo principal da política e da guerra: o poder e, através do poder, acumular riqueza e mais poder.

A guerra nunca é, nunca foi uma luta dos bons contra os maus, do Bem contra o Mal, foi sempre uma disputa por vantagens, por bens materiais, por posições estratégicas que garantam mais poder, ou maiores facilidades de o obter. A guerra da Ucrânia decorre em obediência a estes objetivos.

 Há comentadores erigidos em estrelas televisivas desta guerra que não leram a História, que nem dos sumérios e dos persas têm notícia, nem da Bíblia, e há historiadores que não leram o Príncipe, de Maquiavel, nem o relato da guerra do Peloponeso, de Tucídides.

A política, reduzida à administração pública e à conversa onde se cruzam afirmações simplistas, descontextualizadas, sem relacionar causas e efeitos tem por finalidade fazer com que os homens e mulheres comuns, os simples de espirito do bíblico do sermão da montanha, não se interroguem sobre o que se se encontra por detrás das grandes e decisivas questões, aquelas que resultam da visão que uma dada sociedade tem do seu papel no mundo, na história, sobre as determinantes do futuro, os seus grandes objetivos, as ameaças internas e externas que enfrentam, o ambiente, o clima e as guerras.

Não é por acaso, nem por desejo de proximidade com o “povo” que os detentores do poder induzem os cidadãos a discutir bravamente um por cento nas pensões, um cêntimo no preço dos combustíveis, a falta de um pediatra num centro de saúde, o escândalo da nomeação de uma secretária ou de um assessor, a realização de um referendo para a mudança de nome de uma freguesia.

Fazem-no para que os homens e mulheres comuns não discutam a produção e distribuição da riqueza. É um ato político utilizar a pequena política para manter a grande política – a dos grandes interesses — fora das vistas e das ações das maiorias. É um ato político o truque de nos fazer olhar para a ponta do dedo e não para o que se encontra além.

É do que está por detrás do dedo que me proponho falar a propósito da guerra da Ucrânia. A guerra da Ucrânia é um acontecimento de política no seu sentido mais lato, com objetivos políticos, autores e consequências políticas.

Os atuais cidadãos europeus foram convocados pelos poderes instalados nos governos dos respetivos Estados para esta guerra na Ucrânia com a utilização de falsos argumentos idênticos aos que levaram milhões dos seus antepassados para as legiões de Roma, para as cruzadas, para as Américas, Ásia e África, para as guerras dos cem dias ou dos cem anos, para a La Grande Armée de Napoleão, para as trincheiras da Flandres e as rajadas de metralha da IGG.

Foram mantidos durante o tempo das ações preparatórias da guerra no mesmo grau de ignorância dos seus motivos dos europeus de há um século. A Grande Guerra de 1914 – 1918 travou-se para que industriais e banqueiros europeus acedessem às matérias-primas de África, necessárias para satisfazer a energia gerada pela Revolução Industrial e as suas caldeiras, mas essa causa real não podia ser assim exposta aos homens e mulheres de Inglaterra, da Alemanha, da França, da Itália.

Houve que falar em patriotismo, nacionalismo, soberania para justificar a guerra. Os políticos no poder falaram então em trazer os selvagens para a civilização dos cristãos, tal como os de hoje arengam sobre o direito dos ucranianos a serem trazidos para a civilização das multinacionais, quando do que se trata é de explorar a situação geoestratégica da Ucrânia para enfraquecer uma potência adversária.

A Grande Guerra estava a ser preparada desde a Conferência de Berlim (1884/5), da divisão de África, tal como esta na Ucrânia esteve a ser preparada desde o final da URSS e mais aceleradamente a partir de 2014. Nem a Grande Guerra começou com a morte do arquiduque de Áustria em Sarajevo, nem esta, na Ucrânia, com um delírio de Vladimir Putin (argumento que tem sido apresentado por políticos e publicistas como causa imediata e tem sido levado a sério até por setores informados da sociedade!) que o levou a decretar a invasão numa madrugada de Fevereiro de 2022.

A atual guerra na Ucrânia seguiu os mesmos caminhos de esconder sob um manto de moral abstrata os verdadeiros e reais interesses que são e foram a sua causa. A grande política é arte de manter os povos na ignorância do essencial e a morrer pelo que desconhecem. A grande política é a arte de impor um interesse da minoria através da ignorância da maioria.

Repare-se que desde a invenção da moeda até aos dias de hoje os homens comuns pagam bens e serviços com meios (geralmente um objeto metálico ou um papel com imagem e assinatura) de que desconhecem em absoluto como surgem, o que representam para além do valor facial do metal da moeda ou do papel da nota. Além das causas das guerras, os seres comuns são também mantidos na ignorância do modo como funciona o sistema financeiro mundial, por exemplo. Em que ao dinheiro não corresponde nada de concreto, nem conchas, nem sal, nem prata, nem ouro. O mesmo se pode dizer do valor das palavras e das explicações que são distribuídas ao povo pelos detentores do poder.

Esta guerra da Ucrânia estava inscrita na estratégia dos Estados Unidos desde o estabelecimento da política de longo prazo enunciada por Zbigniew Brzezinski, Conselheiro de Defesa dos Estados Unidos, há 25 anos, após o fim da URSS, na Conclusão do seu livro: «The Grand Chessboard»: “Está na hora de os Estados-Unidos formularem e porem em prática uma geoestratégia de longo prazo na Eurásia. Esta necessidade resulta de 2 realidades: A América é doravante a única superpotência mundial e a Eurásia é o palco principal do planeta (… ) A estabilidade da supremacia dos EUA sobre o mundo dependerão do modo como os EUA souberem manipular ou souberem satisfazer os principais atores geoestratégicos no tabuleiro. (…) O centro da Eurásia — espaço compreendido entre a Europa e a China só continuará a ser um “buraco negro” enquanto a Rússia não tiver resolvido os seus conflitos e decidido qual a sua atitude na cena internacional”… Este livro tem como complemento do Título American Primacy and Its Geostrategic Imperatives (1997) — A supremacia americana e os seus imperativos estratégicos. Foi editado pela Basic Books.

Este era, é, continua a ser, o conceito estratégico dos EUA para a Eurásia. A Rússia sob o governo do grupo de Putin terá outro, assim como a China, após Deng Xiaoping, e a Índia de Nheru e do Não Alinhamento, e que não assentam no reconhecimento da supremacia dos EUA como a única potência mundial. Supremacia é um conceito estratégico distinto de superioridade. Dos dicionários: «Soberania ou autoridade derradeira; poder absoluto e máximo.» É à luz da intenção de impor este poder absoluto e máximo que as ações estratégicas dos EUA devem ser analisadas, assim como as dos restantes grandes atores mundiais;

É neste quadro de disputa de poderes mundiais que se trava a guerra na Ucrânia, para o controlo da Eurásia. E é no controlo da Eurásia que Brzezinski inclui a Europa (União Europeia) que ele considera centrada na Alemanha e na França (a Inglaterra foi desde a II GM uma peça no bolso dos EUA). A UE, afastada a chanceler Merkl, entregue a Ursula Van Der Leyn e com o apoio de governos tradicionalmente dependentes dos EUA, caso da Polónia e dos Estados Bálticos, cumpriu o seu papel de apêndice dos EUA.

A estratégia apresentada por Brzezinski fazia e faz todo o sentido do ponto de vista dos EUA enquanto potência hegemónica a nível planetário. Como também faz todo o sentido que os seus estrategas atuais tenham desenvolvido uma longa manobra de envolvimento da Ucrânia e de aliciamento das elites políticas europeias no sentido de utilizar a Ucrânia como agente provocatório da resposta russa e de desencadear o confronto indispensável para a execução dos seus planos.

A transformação de uma canónica ação de desafio, de atração do inimigo a uma armadilha para o forçar ao combate em situação de desfavorável, é uma manobra estudada desde a antiguidade. A Batalha do Desfiladeiro das Termópilas é um exemplo clássico.

Hoje discute-se se a invasão russa foi uma ação de guerra preventiva — isto é uma ação para antecipar uma operação de guerra relâmpago das forças ucranianas e dos seus aliados para ocupar o Leste (Donbass), ou se foi um ato de agressão inexplicável, ou explicável pela demência do poder russo, reduzido a uma figura, Putin, o louco, dentro dos 10 princípios das boas técnicas de propaganda estabelecidas por Goebels: demonizar e individualizar um e um só inimigo!

Hoje, Outubro de 2022, já é indiferente qualificar esta guerra. Para a Europa ela está decidida. Por Europa quero dizer com toda a clareza a União Europeia, o Reino Unido, a NATO, com exceção da Turquia, dos EUA e do Canadá. Em termos de desempenho de papéis na estratégia definida por Brezinski para a Eurásia, podemos concluir que todos os dirigentes europeus atualmente no palco desempenharam os papéis para que haviam sido recrutados em obediência às normas de um casting onde quem não for do agrado do produtor da peça, os EUA, está inibido de pertencer ao elenco.

Recordem-se os assassínios de Aldo Moro, de Olaf Palme, do antigo secretário-geral da ONU, Dag Hammarskjold, morto no Congo e de tantos outros a quem aconteceu um acidente ou se viram envolvidos num escândalo por se desviarem do guião. De António Costa no extremo ocidental da Europa, a Kaja Kallas da Estónia, incluindo Ursula Von der Leyen da UE, são todos Ucrânia, isto é, são todos Zelenskis, procônsules (os funcionários que no império romano estavam encarregados do governo de uma província) mais ou menos evidentes dos Estados Unidos nos seus territórios.

Para a Europa, hoje, trata-se tão só de minimizar os danos no futuro, no jus post bellum. O massacre a que as opiniões públicas europeias têm sido sujeitas levou-as a aceitar estes dirigentes sem se interrogarem sobre a sua credibilidade. A acreditar nas explicações sobre as causas da guerra de homens e mulheres que já lhes haviam aparecido nos ecrãs de televisão ou nas colunas dos jornais a comentar incêndios, inflação, políticas de rendimentos e preços, veículos híbridos, justiça, saúde e epidemias, secas e inundações, casamentos e batizados, agitações sociais, religiões e expressões artísticas. Assim descrito, o fenómeno da transfiguração e multiplicação dos profetas pode parecer ridículo, mas o preocupante é que esta manipulação ocorreu diante de nós e a maioria dos europeus tomou-a como polivalência aceitável, talento de gente séria, alguns com credenciais académicas e assento em confrarias solenes que nos desejam ajudar a perceber a realidade, a alfabetizar-nos, a conduzir-nos ao verdadeiro caminho da salvação.

E não é a desfaçatez dos manipuladores que me surpreende, pois o seu papel é levar-nos a acreditar, como fazem os ilusionistas, mas que um público adulto tenha de facto acreditado que o ilusionista não só serrou o corpo da jovem assistente, como o recompôs!

Roçam o delírio as afirmações de Úrsula Van Der Leyen e do secretário da NATO de que após UE e NATO se envolverem na guerra, no acrítico apoio ao regime de Zelenski, nas sanções à Rússia e no empurrão desta para a aliança com a China e a Ásia os europeus estão mais fortes, mas têm crentes assanhados e sem dúvidas!

Doravante, os planeadores de operações psicológicas e de APSIC sabem que podem contar com a crença das massas nos seus números de televendas do Bem contra o Mal e de que o nosso inimigo não é igual a nós, o princípio de todos os racismos, de todos os nacionalismos e de todos os fanatismos.

A guerra na Ucrânia tem objetivos definidos, responde a interesses concretos, mas os cidadãos, nesta política de ignorância, nunca acedem ao interior da caixa negra, para utilizar a figura de análise social da Teoria dos Sistemas. São colocados perante factos consumados, pensamentos únicos — os inputs — e os dirigentes esperam que saiam da caixa sob a forma de crentes e de apóstolos de espada desembainhada, como Paulo de Tarso. As televisões e as redes sociais são a caixa negra desta guerra de transformar um conflito de interesses num vibrador de emoções.

A questão da escuridão na política, muito bem tratada em dois romances de Saramago, o «Ensaio sobre a cegueira» e o «Ensaio sobre a lucidez», deveria ser o centro da discussão política. Não é. Quanto à decisão sobre assuntos essenciais, da guerra, da vida e da morte, da justiça, do papel de cada Estado no mundo, das relações com os espaços físicos, económicos e sociais e, já agora quanto às causas da riqueza de umas nações e da pobreza de outras, lembrando Adam Smith, um humilde súbdito da Coreia do Norte tem exatamente o mesmo poder real de intervenção, de resposta e de interrogação que um ilustrado e democrático súbdito da rainha ou do rei de Inglaterra: Nenhum.

Ninguém perguntou aos coreanos do Norte se queriam ter armas nucleares, nem aos ingleses. Nenhum dirigente perguntou aos europeus se queriam declarar guerra à Rússia, tal como King Jong-un não pediu opinião aos coreanos do Norte quanto à guerra com os do Sul.

Estamos em guerra na Ucrânia, contra a Rússia, mas os europeus do século XXI sabem porventura menos sobre as suas causas do que os sumérios sabiam há cinco mil anos sobre o que os levou a combater em Lagash (entre o Iraque e o Irão atuais). Os sumérios tinham um objetivo definido e conhecido: terras aráveis. Estamos certamente mais próximo dos gregos da guerra do Peloponeso entre Tebas, Atenas e Esparta, sem sentido a não ser o poder das suas elites, mas de que resultou a derrota das três cidades-estado e a vitória da Macedónia, que neste caso da guerra na Ucrânia lembra a China!

Os Direitos da Humanidade ainda hoje não incluem o direito de saber o valor das coisas, nem como esse valor é estabelecido e, menos ainda, a ser informado das razões pelas quais os poderosos podem impor a perda da vida dos seus semelhantes para defenderem as suas propriedades e os seus privilégios. A resistência ao recrutamento de jovens russos é idêntica à resistência dos jovens portugueses em irem combater na IGG, ou na Guerra Colonial, ou dos americanos irem combater no Vietname.

O dever dos poderosos explicarem as suas alterações de apreciação sobre amigos e inimigos é ainda menos considerado. A chefe dos comissários da U E, Ursula Van der Leyen, não entendeu necessário explicar como passou a afirmar a partir de Fevereiro de 2022 que na Ucrânia de Zelenski são os nossos valores que estavam em causa, tal como afirmou o secretário-geral da NATO: somos a Ucrânia, são os nossos valores que estão em causa, quando o regime de Zelenski, abolira partidos, assassinara sindicalistas, desrespeitara acordos de autonomia e era considerado o 114º ou 122º Estado mais corrupto entre os representados na ONU, isto em Novembro de 2021! Como explicam os políticos estas mudanças de critério? Kissinger explicava estas transferências com o pragmatismo: são os nossos fdp. É uma resposta convincente, mas não deve ser tomada como exemplo de princípios morais. As cruzadas, a Inquisição e o colonialismo assentaram nessa moral de boné de beisebol: um tamanho serve a todos (one size fits all). Recuso aceitar que sejam bons exemplos.

A guerra da Ucrânia revela a eficácia da propaganda, mas devia precaver os cidadãos comuns contra o que lhe dizem ou lhe mandam dizer os poderosos. Na guerra da Ucrânia estamos numa floresta de enganos. Apenas sentiremos os seus resultados, sofreremos as suas consequências.

 A guerra da Ucrânia confirma que o sistema de representação política dito democrático e ocidental sofre de estrangulamentos deliberados, destinados a evitar que a voz do povo seja decisiva nos assuntos essenciais. A democracia dita liberal, que substituiu na Europa as monarquias absolutas, nunca foi um regime democrático e popular (temos em Portugal essa experiência histórica com os governos liberais resultantes da guerra entre absolutistas e liberais), a Revolução Francesa não originou nenhuma democracia, nem a Revolução Inglesa.

Os regimes saídos das grandes revoluções europeias dos séculos dezassete e dezoito foram sempre uma teia que banqueiros e comerciantes — as burguesias — teceram para exercer o seu poder e os seus valores. No final do século XX, a globalização e o acesso das grandes massas à informação, da substituição do texto escrito e impresso pela imagem e o som prontos a digerir num ecrã de televisão ou de computador criaram um problema de representatividade: Como levar os milhões de espetadores e de internautas a apoiar o grupo restrito do poder? Conhecemos a resposta dos poderes: Apelando à moral e ao nacionalismo! A moral — o Bem, claro, e o Nacionalismo, somos superiores, eleitos, bons e os outros são inferiores, desprezíveis e maus — estes têm sido os leitmotiv, os motivos condutores, os temas que se repetem sempre que é encenada uma ação para conseguir apoio popular. Apelando ao gosto da maioria, da moda, a política vende hoje o pensamento único como as cadeias de fast food vendem carne picada com molho gorduroso!

Na realidade a utilização do argumento da superioridade moral das democracias ocidentais sobre todos os outros sistemas de representação existentes no mundo é uma manifestação de falsa superioridade do homem branco e anglo-saxónico. É mais uma subversão da realidade. A única superioridade que conta é a da força, é o interesse do Estado, capturado por uma minoria oligarca. O resto são acompanhamentos e maionese para cobrir a realidade.

Através da análise da forma como a informação sobre esta guerra na Ucrânia tem sido utilizada, com o lançamento de cortinas de fumo, é possível perceber o que pensam os grupos dominantes da participação do povo nas decisões. Para eles, para a grande política, os cidadãos comuns são peças de caça que se devem deixar apanhar pela ilusão do bom pasto. Os políticos alguma vez explicaram as razões para o valor da moeda nacional? Ou explicaram que é um Banco Central? A política elucida os eleitores sobre o papel dos bancos centrais? E sobre a posse da terra? Já agora e voltando aos ingleses, que detinham a soberania do protetorado da Palestina, os democratas ingleses deram a palavra aos palestinianos sobre a invasão dos judeus refugiados do centro da Europa? E, mais tarde, a divisão do continente indiano por um advogado de Londres, Cyril Radclife, que nunca tinha ido à India, mas separou a União Indiana do Paquistão com uma régua, num processo de originou um êxodo de 16 milhões de pessoas e mais de 1 milhão de mortos foi tomada tendo alguma consideração pela democracia, pelos povos, pelas pessoas em Inglaterra ou no continente indiano?

O que está a ocorrer na Ucrânia é exatamente o mesmo que aconteceu na divisão da Índia Britânica, na guerra do Vietname, na Jugoslávia, no Iraque, que aconteceu com a divisão de África na Conferência de Berlim e, antes dela, na divisão do mundo entre Portugal e a Espanha em Tordesilhas. Onde esteve a voz do povo em todas estas ocasiões? Nas barrigas dos poderosos, nos folhos das suas golas altas.

Quanto à guerra na Ucrânia podemos perguntar a quem a preparou o mesmo que não perguntaram, nem nos disseram (a não ser a dois videntes nacionais — Paulo Portas e Durão Barroso) onde estavam as armas de destruição massiva no Iraque? A resposta será a mesma: os governos ditos democráticos nem informam os cidadãos, nem lhes perguntam a opinião. Montam gigantescas campanhas de manipulação de opinião, a cargo de empresas de opinião e de assessores — designados resolvedores de problemas — para enfiarem uma opinião pré formatada pela garganta dos cidadãos, tidos como gansos para produção de fois gras. Os cidadãos russos souberam tanto das razões da guerra na Chechénia quanto os americanos sobre o Vietname. A diferença terá sido no espetáculo informativo e em alguns bons filmes saídos dos estúdios de Hollywood.

A atual guerra não traz nenhuma novidade essencial, a não ser na utilização de armas de destruição maciça do sentido crítico da sociedade, reduzindo a poeira o direito à dúvida e à interrogação. De facto, nenhum político fornecerá aos eleitores elementos para eles decidirem sobre as vantagens de uma crise de penúria, de falências, inflação, decrescimento e desemprego na Europa. Hoje, na guerra da Ucrânia, como na crise do subprime de 2008 e da falência do Banco Lhemann Brothers, nenhum político (democrático ou autocrático) explica aos cidadãos comuns que eles estão a ser as vítimas circunstanciais de uma prepotência, ou de uma fraude, com origem no século dezassete, quando o rei Guilherme de Orange concedeu aos acionistas privados encabeçados pela família Rothschild o monopólio de emissão de moeda na região de Londres, dando-lhe assim duas das funções clássicas de um banco central: ser banqueiro do governo e deter o monopólio de emissão de moeda. Essas funções mantêm-se até hoje: os bancos centrais servem para financiar as guerras dos soberanos que representam as oligarquias no poder. Isto é, a política é, em resumo, um ciclo vicioso, em que os banqueiros emprestam dinheiro aos detentores do poder para estes fazerem as guerras que lhes interessam e servem os seus interesses.

Na guerra da Ucrânia é a política de hierarquia de poderes saída do final da guerra fria que está a ser posta em causa e a ser substituída por uma outra, com novas moedas, com novas esquadras navais, com novas potências espaciais. A guerra na Ucrânia é a borbulha visível da emergência de uma nova arquitetura de poder planetário desde que os Estados Unidos substituíram a Inglaterra no centro do mundo. Um sistema criado pela Inglaterra no século dezassete, através de um poder baseado nas armas que protegiam comerciantes dependentes de um sistema bancário, de seguros e de propriedades, que criou a árvore das patacas das dívidas soberanas e dos bancos centrais, tendo como moeda mundial de troca a Libra, primeiro e o Dólar, depois. O sistema em que cerca de 15% da população mundial dominava os 85% restantes.

“Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis.” Afirmou Mayer Amschel (Bauer) Rothschild. Num registo oposto disse James Garfield, presidente americano em 1881: Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão.

James Garfield foi assassinado poucas semanas após ter proferido estas palavras e não foi o único presidente norte-americano morto por eles, Abraham Lincoln e John Kennedy foram assassinados pelos mesmos  Money changers (ou bancários), numa prática que remonta a Roma A.C. quando Júlio César pretendeu limitar a propriedade privada de terras ao máximo de 500 acres e liberalizar a cunhagem de moedas, que era feita pelos especuladores. Júlio César recuperou o poder de emitir moeda, tornando-o disponível para qualquer um que possuísse ouro ou prata, mas acabou assassinado, de ao seu assassínio e à crise da emissão de moeda as pessoas comuns perderam as suas casas e seus bens, da mesma forma como vimos acontecer na crise americana das hipotecas.

O que está hoje em jogo a propósito da Ucrânia, a causa da guerra é, como na batalha do Peloponeso, ou na guerra entre Persas e Romanos, o direito de emitir moeda, de impor uma relação de valor entre um objeto simbólico (moeda ou nota) e um bem. Sófocles, o filósofo grego parece ter sido o génio que inventou o dinheiro virtual, adicionando cobre às dracmas de prata, continuando estes a valer como se fossem de prata. Assim, os gregos compravam o trigo à Ucrânia quando esgotaram a sua capacidade de explorar minas de prata. Este processo tem hoje a pomposa designação de fractional reserve lending, ou “empréstimo sem cobertura de um valor material”, o que significa emprestar mais dinheiro do que se tem em caixa e que é a maior fraude de todos os tempos. O dólar é o velho dracma de cobre que vale como prata. No caso é um retângulo de papel que todo o mundo aceita, pela força, como valendo o que os seus emissores querem que valha. O dólar como moeda única de troca mundial é a causa da guerra da Ucrânia? A única, não. Mas alguém explicou que era uma das causas? Não. Esta é a alta política, a que é decidida nos clubes de Bildeberg, em Wall Street, em Davos…, mas também e cada vez mais em Pequim, em Nova Deli, em Ankara, em Teerão…

Nenhum político apresentará como uma das causas para a guerra na Ucrânia a manutenção do direito de um banco central e privado — no caso o FED dos Estados Unidos — praticar em regime de monopólio o dinheiro sem valor instituído no século dezassete como privilégio do Bank of England, constituído em 1694 e de natureza privada. Os nobres ingleses, a família real e a câmara dos lordes colocaram um banco privado a administrar todas as finanças e operações económicas de um país, o que equivale a entregar a nação a uma organização mafiosa de banqueiros que controla a economia com a finalidade de lucro e assim mantém a população totalmente refém de suas políticas financeiras. (Todos os Estados têm os seus Espirito Santo, os seus BPN, os seus BANIF e várias famílias reais).

A fabulosa fortuna dos Rothschild foi conseguida financiando os dois lados das guerras, garantindo no mínimo a duplicação dos lucros com os juros cobrados, vencesse quem vencesse. Há, sempre houve muitos políticos a colaborar com os Rothschild e a serem eleitos com o seu dinheiro para eles ainda aumentarem a sua riqueza e o seu poder. A guerra da Ucrânia é uma operação financeira, de especulação, de criação de incerteza para gerar lucros, conduzida por meios militares e de manipulação de massas, é uma guerra com os mesmos objetivos de tantas outras, a de Angola, por exemplo, a do Iraque e a da Líbia, apenas com os meios tecnológicos atuais.

Por detrás de cada guerra encontra-se sempre um objetivo: o lucro e a concentração do lucro num pequeno número de pessoas, que nos Estados Unidos são designados por multimilionários, banqueiros, empresários de sucesso e no mundo oponente são designados oligarcas, príncipes ou reis. A política que provoca guerras é a dos oligopólios e dos oligarcas, independentemente do nome. A política é um efetivo exercício de domínio. A finalidade da guerra é impor uma política (uma conjugação de vontade, meios e interesses) pela força.

Mas a guerra na Ucrânia revela que pela primeira vez uma superpotência — a Rússia — confronta militarmente um estado vassalo (a Ucrânia) da superpotência dominante e afronta os interesses dos seus banqueiros e das suas famílias reinantes. Este desafio tem um significado por si mesmo: a superpotência dominante já está a ser desafiada e não ousa envolver-se diretamente. Estamos perante um desafio político e estratégico sem precedentes e que deve ser analisado de forma racional. Aristóteles escreveu que entre a guerra e a política existem dois elementos que não podem ser discutidos: a Moral — o bem e o mal — nem o Direito, isto é a lei.

A questão da inaplicabilidade do Direito ao fenómeno da guerra resulta de apenas existir o Direito do vencedor, o único com força para impor um castigo. Quanto à Moral, o pensamento Ocidental a propósito da guerra assenta nos conceitos de Santo Agostinho do jus ad bellum, de um Estado só poder (dever) declarar guerra pelas razões adequadas, com um reta intençãocomo último recurso, considerando a probabilidade de sucesso e utilizando meios de proporcionalidade, isto é, antes de iniciar a guerra, um Estado deve comparar os benefícios que espera que resultem dela com os malefícios.

O conceito de guerra justa é bondoso, mas falacioso. A colocação dos antagonistas na situação de agressor e de agredido é sempre circunstancial. Se as circunstancias se alterarem o agredido passa a agressor e todas as premissas se invertem e são utilizadas segundo a conveniência dos contendores.

Com tanto recurso a argumentos históricos, histórias da Rússia para todos os gostos, nenhum político, nem nenhum dos manipuladores de opinião pública nos recordou que foi a guerra da Crimeia que esteve na origem do modelo de desenvolvimento do império britânico no século dezassete. Na origem do pensamento geoestratégico do império marítimo, por oposição aos impérios continentais, esteve o aproveitamento que a Inglaterra fez das guerras napoleónicas para constituir uma rede de apoio à expansão militar e económica do Império com portos militares. Os ingleses — tão ucranistas e soberanistas hoje — aproveitaram a decadência dos impérios Otomano e Chinês para desencadear a guerra da Crimeia com o objetivo, de impor uma zona de influência, controlar áreas estratégicas e impedir os russos de alcançar o Mediterrâneo.

 Nada de aparentemente distinto da estratégia dos EUA que aproveitaram o desmembramento da União Soviética para imporem a sua supremacia. Fizeram-no utilizando os mesmos argumentos do império britânico, designados na altura por humanitarismo. Uma retórica moral de civilizar, democratizar, libertar o mercado para conseguir o desenvolvimento, a paz e o bem-estar, que passou a ser utilizada para garantir o controlo territorial sem causar comoção na opinião das massas metropolitanas ou coloniais (e a Europa é hoje uma colónia), mobilizando-as a favor da intervenção, em nome de uma missão civilizadora, de conversão à democracia, contra os ditadores, cujos resultados são visíveis na desagregação da Jugoslávia, na Bósnia, no Kosovo, o berço do mercenarismo islâmico, no Iraque, na Líbia, na Síria, em África.

O atual discurso do humanitarismo, que refere um conceito de soberania absoluta aplicável aos atuais dirigentes do Estado da Ucrânia (criado em 1991) e que tomaram o poder em 2019, com a eleição de Vladomir Zelenski, com base num programa de união entre as populações falantes de russo e ucraniano, da “desoligarquização” (corrupção em larga escala) do país e da promessa de acabar com a já muito violenta guerra russo-ucraniana no Leste. Zelenski não cumpriu nenhuma das promessas, mas, no entanto, os políticos democráticos ocidentais (à semelhança do que fazem nos seus países, mas de forma mais sofisticada) entenderam que o seu regime tinha direito e a legitimidade para subalugar o seu território para instalação de armas da NATO que ameaçariam a vizinha Rússia.

A estratégia dos EUA de afrontamento militar e económico com a Rússia para controlo da Eurásia parece de alto risco. De facto, essa estratégia promove a transferência de poder para a China. Ao atirar a Rússia para uma aliança preferencial com a China a estratégia americana induz o perverso efeito de aliar um forte poder continental, a Rússia, a um emergente mas já considerável poder naval, a China. O conjunto de poder China-Rússia é superior ao dos EUA na zona decisiva do Pacífico.

Os EUA optaram por absorver a UE, sem qualquer valor de hard power, em vez de introduzirem um elemento perturbador entre eles e a China e os cidadãos europeus foram esmagados por um massivo tapete de manipulação, de imposição de pensamento único, de acusações de traição a quem criticasse a versão dos EUA e dos seus agentes na UE e na NATO, chegando ao ponto de verem violados os apregoados princípios de liberdade com a instauração da censura.

A guerra na Ucrânia revelou a importância da 5ª dimensão da Guerra: a Comunicação, mas ela revelou também o antagonismo, entendido como uma contradição insuperável, entre a “grande política” e a cidadania democrática. A utilização pelos políticos dos meios de controlo e manipulação das mentes, da arma da comunicação, enquanto opção política para ganhar a adesão de uma maioria de apoiantes não é compatível com a informação leal e com o respeito pelas opiniões da maioria. A conhecida frase de que a verdade é a primeira vítima da guerra tem um significado ainda mais doloroso: a verdade não é compatível com o exercício do poder. Daí ser tão importante uma informação livre do poder e ser tão tentador para o poder o domínio dos meios de comunicação.

Os novos regimes que estamos a ver nascer na Europa, gerados por Estados resultantes de partilhas recentes e cujos povos nunca viveram as revoluções liberais e burguesas originárias da Inglaterra e da França, casos da Polónia, da Hungria, da Eslováquia, da república Checa, Bulgária, da Ucrânia, da Lituânia, da Estónia ou da Letónia, mas até da Finlândia e da Suécia, por vezes classificados como iliberais, de ensurdecimento e de emudecimento dos cidadãos comuns é um dos resultados mais dramáticos desta guerra. Estamos no limiar de um novo paradigma político que já não é do de uma democracia liberal. É indispensável a existência de meios de informação que forneçam o contraditório à propaganda dos detentores do poder. E não devemos cair na fácil tentação de considerar os governos como os únicos detentores do poder de facto. Na realidade, os governos (mais ou menos legitimados) são apenas um dos instrumentos de exercício do poder, dos menos decisivos, aliás, de menor importância do que a propaganda, enquanto manipulação de mentes; e menos determinantes, muito menos, do que a oligarquia financeira, enquanto arma de manipulação da distribuição e acumulação da riqueza.

Por fim temos o Jus post bellum, que diz respeito à fase final da guerra, quando esta está já decidida. Trata-se de saber o que fazer uma vez terminada a guerra a quente. Na Ucrânia embora se travem duros combates e possa ocorrer uma escalada perigosa, todos os objetivos foram alcançados e podemos analisar as consequências da guerra na nova arquitetura do poder mundial.

O que pretendiam os dois grandes atores desta guerra?

A Rússia pretendia evitar que a Ucrânia se tornasse um vizinho hostil e que subalugasse o seu território ao seu opositor, os Estados Unidos. Conseguiu. A Ucrânia deixou de ter possibilidade não só de ser uma base de ataque, mas até um Estado viável, na medida em que tem as suas infraestruturas essenciais destruídas: terrenos aráveis, vias de comunicação, centrais de energia, portos, aeroportos, escolas, hospitais e, principalmente os seus recursos humanos, ou mortos na guerra, ou exilados.

Os Estados Unidos, à custa dos ucranianos comuns, da vida dos jovens, do sacrifício de adultos e velhos, conseguiram desgastar o aparelho militar e o sistema produtivo da Rússia, desgastar o poder político do grupo de Putin, abrir fissuras entre políticos e militares russos, entre o poder e a sociedade civil e cortar ligações da Rússia com outros espaços, afetando o seu prestígio internacional. Conseguiram separar a União Europeia da Rússia evitando a criação de um grande espaço com autonomia estratégica entre os EUA e a China — a tal estratégia de domínio da Eurásia que Brzezinski referia como essencial à supremacia dos EUA. Reduziram a UE a um estado vassalo.

A UE deixou de contar na estratégia de poder mundial e, em minha opinião, entrará num processo de grande turbulência social e política que replicará em versão aumentada a desagregação da Jugoslávia.

Parece razoável concluir que os grandes derrotados desta guerra são a Rússia e a UE. A estratégia europeísta promovida no Ocidente por figuras como Giscard D’Estaing, Miterrand e Delors, por Adenaur, Helmut Khol e Angela Merkel de uma União Europeia que incluísse a Rússia, que fosse do atlântico aos Urais, que dispusesse de uma moeda de troca mundial alternativa ao dólar, que fosse socialmente avançada e não liberal, foi estrondosamente derrotada.

A Rússia perdeu os seus europeístas, o que incluía o grupo de São Petersburgo de onde emergiu Putin, e estes tiveram de optar pela aliança a Oriente com a China em condições de subalternidade, enquanto a UE se afundou na condição de anexo militar americano, de ponta de lança dos interesses dos EUA, de força auxiliar de fixação de meios da Rússia na fronteira Ocidental, para que a China não receba reforços na luta pelo controlo do Pacífico e do Índico quando chegar o momento decisivo dos Estados Unidos, aquele em que se desagregam, ou se tornam um poder assumidamente totalitário.

O que podemos esperar? A guerra a partir de agora tem apenas como finalidade desgastar a Rússia, que é um dos objetivos estratégicos explicitados pela atual administração dos EUA, humilhar a Rússia para que ela não possa ser um competidor no mercado mundial de armas, nem possa ser um aliado da China na instalação da Rota da Seda e no domínio do Pacífico e para acentuar divergências na UE que levem a vários Brexit — casos da Polónia (que pode assumir o papel de Cavalo de Troia até agora representado pela Inglaterra) e à sua desagregação.

É a vitória dos EUA! Mas esta tem fortes probabilidades de ser uma vitória pírrica: Com esta guerra, os Estados Unidos empurraram a Rússia para uma aliança mais estreita com a China e com a Índia, até com a Turquia. Ora, assentando atualmente e num futuro próximo o poder mundial em três vetores, o poderio nuclear, o espaço e a finança, o conjunto criado pela Rússia e a China, mais a Índia, tem um poderio nuclear superior aos EUA, têm o mesmo ou maior poderio no domínio do espaço e pode criar uma moeda de troca mundial juntamente com a Índia que retire o monopólio ao dólar. Este monopólio resulta, aliás, de um diferencial de poder que já não existe. A captação da UE pelos EUA nada acrescenta ao seu potencial, nem nuclear, nem no espaço nem nas finanças. A integração da UE nos Estados Unidos nada acrescenta ao papel dos europeus no mundo, antes pelo contrário.

Numa análise racional, pareceria mais vantajoso para os EUA terem mantido a UE e a Rússia como 3º polo de poder mundial, entre eles e a China, mas essa estratégia implicava pensamento estratégico de alguém que tivesse lido Maquiavel, ou Sun Tse, ou até o padre António Vieira… Seria exigir demais à cultura de uma sociedade herdeira dos princípios dos jovens predadores que chegaram a um novo continente dispostos a esquecer o passado e a viver o presente.

O Padre António Vieira, no «Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda», pregado na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na cidade da Baía, em 1640 falava aos que acreditam em guerras de bons contra os maus, a ponto de acusar Deus, de tal forma ela foi entregue aos interesses mais vis dos homens. Vieira referia-se à guerra entre Holandeses e Portugueses pelo domínio do Brasil, mas o que escreve adapta-se à guerra na Ucrânia.

“O que se vive na Baía já se viveu nos tempos bíblicos. Então como agora, Deus parecia abandonar os seus, pondo em causa os seus próprios pergaminhos. Se não os ajuda por amor e dó, que os não desampare para ele próprio não ficar mal visto. Foi assim na travessia do deserto, ante o castigo iminente provocado pela adoração do bezerro de ouro. Que Javé, ao menos, salve a face. Pois, se aniquila os povos, que diriam os egípcios desse Deus que o tirara da escravidão? Ne quaeso dicant Aegyptii (Ex 32,12): «Por favor, não digam os Egípcios». Moisés perguntava «que dirão: E eu digo e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes (os russos, desde logo) com os sucessos prósperos, que Vós lhe dais, ou permitis que a sua é a religião verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e que a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. (…)”

Vieira interroga-se sobre o que diriam os egípcios do desamparo a que o deus dos judeus deixava os seus crentes e interrogava-se do que diriam os portugueses do desamparo do seu. Hoje, os cidadãos da UE e também da Grã-Bretanha vivem a mesma perplexidade dos judeus e dos portugueses: Não digam aos russos, nem aos chineses, nem aos indianos, nem aos africanos, nem aos sul-americanos o que nos fizeram os nossos deuses de Bruxelas e de Washington com esta guerra, com estas sanções, com as suas ambições, com os seus negócios!

A guerra no Brasil entre portugueses e holandeses era na realidade uma guerra entre ingleses e holandeses num território que interessava a ambos. Vieira, depois de pedir a Deus que «Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, que derrotem e desbaratem as dos holandeses», crava os olhos no juiz e arguido ao mesmo tempo, ou seja, no próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento exposto na igreja onde pregou: «Que Deus assuma as suas responsabilidades. Caso contrário, não só ficará mal visto como sofrerá as consequências. E ainda terá de pagar as custas do processo! As custas de toda a demanda também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há-de dar a vossa mesma graça as razões com que Vos hei-de arguir, a eficácia com que vos hei-de apertar, e todas as armas com que vos hei-de render.»

Vieira teve a coragem de interrogar Deus e de o acusar. Nós não. Nós baixamos a cabeça aos bezerros de ouro de Bruxelas, os da UE e da NATO. Vieira afirmou que Deus pagaria as custas do processo e nós entendemos que deve ser o diabo, os outros, a pagá-lo. Mas seremos a pagá-lo. Somos sempre.


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