O populismo do saco azul

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 04/05/2018)

Como será que Manuel Pinho conseguiu sobreviver 19 meses só com o ordenado de ministro?! Coitado. (…) Com tanta massa distribuída por portas traseiras, estou convencido de que o verdadeiro Banco Bom era o saco azul do BES.


Alegadamente (a palavra mais usada em Portugal), Manuel Pinho, que iniciou funções de ministro da Economia em Março de 2005, a partir de Outubro do ano seguinte passou a acumular com as retribuições deste cargo público uma quantia mensal de 14.963,94 euros, paga pelo Grupo Espírito Santo (GES). Fantástico! A minha primeira questão é: como será que ele conseguiu sobreviver 19 meses só com o ordenado de ministro?! Coitado. Deve ter sido terrível ter de cortar nos lagostins ao pequeno-almoço. Com tanta massa distribuída por portas traseiras, estou convencido de que o verdadeiro Banco Bom era o saco azul do BES.

Houve um silêncio estranho, durante uns dias, após o conhecimento desta “alegadona” trafulhice. A classe política hesitou. Segundo se sabe, anda por aí um populismo perigoso e chocante e os partidos hesitaram. Por vezes, ficamos com a sensação de que foram os “populistas” que andaram a receber dinheiro do saco azul do BES.

Só quando o elefante no meio da sala começou a tocar o sino, e a pedir moedas com a tromba, é que os partidos reagiram. Reagiram? É capaz de ser exagero. Decidiram fazer uma comissão de inquérito. Eu, quando oiço falar em comissões de inquérito, saco logo da pistola.

Já todos assistimos a mais de trinta temporadas da série “Comissões de Inquérito na Assembleia da República”. Há demasiada tensão e, normalmente, as pessoas que vão ser inquiridas sofrem de súbitas perdas de memória. Outra característica é nunca terem conhecido determinada pessoa ou nunca terem ouvido falar naquele nome. Estamos sempre a dizer que o país é tão pequenino e, de uma forma ou de outra, todos se conhecem e esta gente, apesar de trabalhar na mesma área, e por vezes na mesma casa, nunca se conhece.

As comissões de inquérito são uma tortura, mas para nós, contribuintes. Percebemos como fomos enganados e que quem nos enganou se está nas tintas para isso. E que aquilo não vai dar em nada. Cá está! Não quero alarmar os senhores deputados, mas acho que não há nada que alimente mais o tal terrível populismo do que ver na TV as comissões de inquérito. Eu sei que vou ter um ataque de populismo quando vir o Pinho na comissão de inquérito. Ele já avisou que vai à comissão, mas não fala. Já estou a imaginar os gestos que vou fazer em casa, com os dedos, e os palavrões que vou dizer enquanto ele estiver com cara de pau em silêncio.

Alegadamente, ao quadrado, tivemos um ministro da Economia a soldo de grandes empresas. O que lhe pagávamos era a gorjeta. Em breve, teremos esse ministro a ser questionado numa comissão de inquérito por alguns deputados que trabalham para nós e para as Arrow Global deste mundo. Não sei se não deveríamos repensar isto tudo. Acho que vou tomar um duche frio porque me estou a sentir demasiado populista.


TOP-5

Verde Pinho

1. Salgado: “Nunca na vida corrompi ninguém” – o Salgado podia comprar 10 milhões de cornetos e oferecer aos portugueses para comerem com a testa.

2. “‘Prós e Contras’ sobre igualdade salarial teve painel de convidados de cinco homens e uma mulher” – mas a Fátima faz barulho por uma dúzia delas.

3. “Pela primeira vez, finalmente, todas as aldeias na Índia têm electricidade” – estão fartos de violações sem a luz acesa.

4. Facebook anuncia ferramenta para encontros amorosos – bem pensado, eles já recolheram tanta informação sobre os utilizadores que, de certeza, facilmente sabem quem são as almas gémeas.

5. O antigo administrador do BES Amílcar Morais Pires declarou que está disponível para voltar a trabalhar na banca – no que sobra dela, depois de administradores como o Amílcar.

Face Lift Book

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 13/04/2018)

quadros

João Quadros

Zuckerberg apareceu de fato e gravata. Finalmente, teve a oportunidade de pôr a T-shirt cinzenta a lavar… Ver o Zuckerberg de fato e gravata causa uma sensação estranha, é o equivalente a ver o Lobo Xavier de fato-de-macaco.


Após depor no Senado, Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, esteve, na passada quarta-feira, na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos para responder a dúvidas sobre o escândalo Facebook/Cambridge Analytica. Começo por dizer que não tenho Facebook desde 2011, logo, se houve dados partilhados até essa altura, espero que saibam que eu já sou uma pessoa completamente diferente, tirando o cabelo. Por exemplo, detestava pickles. Agora, adoro-os, se estiverem acompanhados de frango no churrasco. As razões do meu abandono foram explicadas nas páginas deste jornal, numa crónica publicada a 23 de Setembro de 2011 e intitulada Facebook Free, https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/facebook_free.

Recordo que, a 17 de Março, os jornais The New York Times e The Guardian revelaram que os dados de mais de 50 milhões de utilizadores do Facebook tinham sido usados sem o consentimento pela Cambridge Analytica. Dias depois, o próprio Facebook rectificou a informação e passou a estimar em 87 milhões o número de pessoas atingidas.

Zuckerberg apareceu de fato e gravata na Comissão. Finalmente, teve a oportunidade de pôr aquela T-shirt cinzenta a lavar. Ver o Zuckerberg de fato e gravata causa uma sensação estranha, é o equivalente a ver o Lobo Xavier de fato-de-macaco.

É muita estranha a forma como Zuckerberg bebe água a seguir a uma pergunta. Há quem diga que ele bebe a água devagarinho antes de responder para ter tempo de pensar. Eu acho que aquilo é a pausa para entrada dos pop-ups de publicidade. O Zuckerberg bebe água como quem está com medo que aquilo esteja envenenado. Ou, então, é um robô e bebe só uns golinhos porque tem medo de entrar em curto-circuito. Aliás, pela cara e olhar, eu diria que é irmão da Sofia do anúncio com o CR7. Portanto, beber água como um pisco não me chega, preciso de o ver a comer uma dobrada com tinto para ver se é mesmo humano.

O que percebi, pelo que vi, é que há naquela Comissão senadores que nunca viram uma página de Facebook, por isso há momentos de desconforto entre Zuckerberg e alguns senadores que são muito semelhantes àqueles que tenho quando o meu pai me faz perguntas sobre a forma de funcionar do telemóvel, como por exemplo: “A Siri é mulher para que idade?”

Houve apenas um momento de alguma tensão quando um senador o questionou: “Estaria confortável em partilhar o nome do hotel onde passou a última noite?” Zuckerberg – “Não”. Senador – “Estaria confortável em partilhar o nome das pessoas com quem trocou mensagens na última semana?” Zuckerberg: – “… Não.” Pensei que ele iria acrescentar: “Mas, se continuas a fazer esse tipo de perguntas, vou ter de dizer os motéis onde ficaste nos últimos dois anos.”

Zuckerberg acabou por pedir desculpa e justificou-se dizendo que a Cambridge Analytica lhe disse que iria apagar toda a informação recolhida. Claro que ele acreditou.

Conclusão, o Zuckerberg esteve para a Cambridge Analytica como a maioria das pessoas está em relação à leitura dos termos de utilização e de privacidade do Facebook. Não há pachorra para ler aquilo, confiam neles e fazem “aceite” e siga. Bem-feita!


TOP-5

Face

1. “Crise no SCP. Relvas pode ser candidato ao lugar de Bruno de Carvalho” – Podia ser bom, para variar. Finalmente, o SCP deixaria de ter presidentes doutores.

2. Trump avisa Moscovo que vai disparar mísseis contra a Síria – E conta como acaba a série “La Casa de Papel”. Que falta de noção de suspense.

3. Rui Rio “já estava à espera” de tensões entre BE, PS e PCP – Mas não anteviu tanta tensão no PSD desde que foi eleito.

4. Centeno: “Não somos todos Centeno, somos todos Adalberto” – Este Governo tem mais heterónimos do que o Fernando Pessoa.

5. “Kwanza angolano com segunda depreciação no espaço de uma semana” – Álvaro Sobrinho pede uma AG no SCP por causa do presidente de Angola.

Somos todos Ronaldo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/04/2018)

ronaldo3

O golo de pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo no triunfo (3-0) do Real Madrid sobre a Juventus, nos quartos de final da Liga dos Campeões, tornou-se em poucos minutos, até graficamente, um ícone do futebol mundial. É um momento histórico. Afinal, Portugal tem meios aéreos que ninguém supunha. O golo foi de tal modo extraordinário que já há quem chame a Cristiano Ronaldo o Centeno da UEFA.

Confesso que ainda esperei pelo final do jogo e pelas análises “antidoping” porque estamos habituados a que sempre que alguém consegue um grande feito de bicicleta é porque estava dopado.

Como não tenho memória curta, não considero que este tenha sido o maior momento na carreira de Ronaldo, não nos podemos esquecer do que ele fez durante o último Europeu de Futebol. Aquela atitude, do nosso capitão, de atirar o microfone da CMTV para o lago foi uma obra-prima. Na altura, pensei: mesmo que CR não ganhe este ano a Bola de Ouro (ganhou), o Pulitzer do jornalismo já não lhe escapa.

Para mim, Cristiano é a verdadeira biblioteca de livros de auto-ajuda. Vale por mil palestras de empreendedorismo e motivação. Há quem viva da teoria do “bate punho” e há os que a praticam.

É muito estranha a relação de alguns portugueses com o Cristiano. Convivem mal com o sucesso do rapaz. Muitas vezes, pergunto-me: será que gostam mais do Messi porque julgam que ele é do Entroncamento? Há uma má vontade para com Ronaldo de alguns portugueses. Lembro-me de que quando CR andava com a Irina, nos programas de bola chegaram ao ponto de dizer que a miúda não era nada de especial. Só faltou dizer que era um bocado gorda e tinha mau hálito.

Uma das frases que mais vezes oiço é: “Eu não gosto do Ronaldo porque ele é um bocado bimbo” – e normalmente isto é dito por um indivíduo com calças de corsário, camisola de alças, óculos escuros no topo da cabeça e com “headphones” dourados nos ouvidos a ouvir D.A.M.A.

Tenho enorme orgulho no Cristiano, gostava de lhe dar um abraço, mas imagina que o despenteava?! Estava tramado, nunca mais teria dinheiro que chegasse para lhe pagar um penteado novo.

Já me questionei, independentemente do facto de ser português e, mais importante, sportinguista, qual é o melhor jogador do mundo. Cristiano ou Messi? A minha resposta é simples. A ter de viver num mundo em que só um deles exista, claramente optava por ter estado vivo para ver jogar Ronaldo. Por tudo o que significa e que vai muito além do futebol e da possibilidade de ver fotos das namoradas. Por mim, está resolvido o problema do dinheiro para as artes, vai tudo para o Cristiano.


TOP-5

Bicicleta

1. Fórmula americana de probabilidades diz que o Benfica tem o penta à vista – aposto que o Putin está metido nisto.
2. Garraiada sai definitivamente do programa da Queima das Fitas de Coimbra – é substituída por uma largada de Dux Veteranorum.
3. Secretário de Estado da Cultura diz: “Este é um momento sofrido para o sector artístico.” E que António Costa sabia de tudo – António Costa é Harvey Weinstein dos artistas portugueses: confiaram nele, até foram apoiá-lo ao hotel e acabaram por ser… papados.
4. O Ministério Públicoinformou que arquivou, na passada terça-feira, o inquérito contra Dias Loureiro e José de Oliveira e Costa relacionado com o caso BPN – não dá para prendê-los no Arquivo do Ministério Público? Às vezes, tenho a sensação de que há mais bandidos arquivados do que presos.
5. Cientistas britânicos não conseguem provar que veneno é russo – aposto que são os mesmos do caso Maddie. Lá vamos ter de expulsar cientistas britânicos.