Entrevista com o Diabo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 09/12/2016)

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Entrevistador: Olá, Diabo. Para começar, queríamos agradecer a sua disponibilidade para esta entrevista. Quando recebemos a notícia de que tinha dado o seu acordo, até dissemos: Graças a Deus!
Diabo: Eu é que agradeço a oportunidade que me dão de, finalmente, poder vir a público defender a minha honra. Uma coisa é dizer que eu personifico o Mal, outra é andar a fazer crer que eu nunca chego a horas.
E: Confirmo que combinámos esta entrevista para às nove e apareceu às nove em ponto. Só adiámos um bocadinho por causa do fumo do enxofre.
D: Não há coisa mais abominável do que as pessoas que não são pontuais. O inferno está cheio de pessoas que passaram a vida a fazer os outros esperar por elas. O resto são ditadores e pessoas que conversam à entrada, e saída, de escadas rolantes.
E: Portanto, acha que a sua honra foi posta em causa quando…
D: … quando o vosso ex-PM disse que eu chegava em Setembro! Fiquei chocado. Até telefonei ao Doutor Marques Mendes, que é o meu advogado. Atenção, isto não é pessoal. Eu até aprecio algumas decisões que ele tomou enquanto PM. Era o tipo de coisas que eu faria. Até posso revelar que aquela ideia de ir além da troika deu origem a um Parque de Horrores no Inferno. Mas dizer que eu vou aparecer em Setembro, quando não combinámos nada, acho de profundo mau gosto.
E: Quer dizer que nunca pensou aparecer em Portugal em Setembro?
D: Nunca. Eu, em Setembro, estive o mês todo na Síria, tirando o último fim- -de-semana, em que fui a uma reunião em Nova Iorque no Goldman Sachs. Em momento algum pensei aparecer em Portugal em Setembro. Nem faço planos para lá ir tão cedo. Eu não sou como Deus. Não sou omnipresente. Tenho um limite de milhas por ano.
E: Portanto, o Doutor Mefisto diz que Passos mente quando afirma, desde meados de Julho, que o senhor vai aparecer em Portugal?
D: Vamos lá ser claros. Eu até já podia ter aparecido em Portugal mas, para isso, era preciso termos chegado a um acordo. O Doutor Passos Coelho estava disposto a vender a alma ao Diabo para que a coisa corresse mal, e o inferno se abatesse sobre todos vocês, mas encarregou o Doutor Sérgio Monteiro de tratar da venda e andámos meses em negociações e não deu em nada.
E: Mas isso é um escândalo!
D: Não. Eu acho que os chineses tinham uma proposta melhor.
E: Quer dizer que os portugueses podem estar seguros de que o Diabo, tão cedo, não vai aparecer em Portugal?
D: Vocês já viram como está o mundo? Tenho o Brexit, a Le Pen nas eleições francesas, o Trump, nunca tive tanto trabalho. É a globalização. Para aí desde mil novecentos e trinta e tal que não tínhamos tantas encomendas.
Entrevistador: Portanto, não adianta o nosso ex-PM insistir?
Diabo: Acho muito complicado. Eu, em 2017, vou andar em “tournée” e única data disponível que tenho é o 13 de Maio, e o que me disseram é que nessa altura nem pensar porque têm os hotéis todos cheios por causa da visita do Papa. Eu não fico ofendido mas, no fundo, isto é não saber o que querem.


top 5

Dos infernos

1. Primeiro-ministro japonês visita Pearl Harbor – desde que não seja de surpresa.

2. Itália prepara sexagésimo quinto governo em 71 anos – o país da chicotada psicológica.

3. Assunção Cristas diz que Sá carneiro e Adelino Amaro da Costa “deram a vida, literalmente, pelo país”. – … iam chocar com as Torres Gémeas?!

4. O relatório de auditoria do TC acusa o Ministério das Finanças de falta de controlo na CGD entre 2013 e 2015 – isto é um eufemismo para preparar condições para a privatização.

5. Cientistas pedem a Donald Trump para combater alterações climáticas – Não sei se combater é o termo certo, tenho receio que Trump mande bombardear a camada de ozono.

Uma Caixa vazia

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 02/12/2016)

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Gostei muito do “Prós e Contras” de segunda-feira. Foi muito elucidativo. O programa era para ser sobre a morte de Fidel de Castro mas, de repente, mudou para o tema: A demissão na Caixa. Percebe-se a troca e a urgência: um já está morto, o outro ainda estrebucha.


Vou tentar situar o leitor nesta novela da Caixa. Recordo que tudo começou com a polémica dos ordenados milionários da nova gestão da Caixa e se agravou com a recusa do Presidente, António Domingues, e da nova equipa de gestão CGD em mostrar a declaração de rendimentos. Que gente tão envergonhada. Nos dias de hoje, todos revelam tudo, há redes sociais para isso. Ao menos uma “selfie” do Domingues com a sua declaração de rendimentos tirada na casa de banho em frente ao espelho. A culpa disto é bem capaz de ser dos salários. É sabido que os milionários são, em grande percentagem, uns excêntricos.

Na passada segunda-feira, a novela teve mais um capítulo dramático, o Governo foi informado pelo Presidente do Conselho Fiscal da Caixa Geral de Depósitos da renúncia apresentada pelo Presidente do Conselho de Administração, António Domingues juntamente com seis gestores. Em termos de currículo, isto é bom para a ex-nova equipa de gestão da CGD, porque agora fica bem dizer que se está fora da caixa. No fundo, é empreendedorismo. Segundo a carta de demissão, António Domingues considera que foi vítima de um “turbilhão mediático”. No fundo, é mais ou menos o que disse o fugitivo de Aguiar da Beira.

Na minha histérica opinião de pessoa desconfiada, isto quer dizer que o António Domingues andou dois meses a coscuvilhar na Caixa e agora volta para o BPI?! Palpita-me que a declaração de rendimentos vai aumentar. Que maravilha – “Vou ali para concorrência dois meses. Faço para lá barafunda, ainda dou mais mau nome àquilo e depois volto e trago clientes e esferográficas.”

O mais curioso é que o Ministério das Finanças confirmou a decisão num comunicado, em que indica que Domingues se manterá no cargo até ao final do ano e será ainda o responsável pela definição dos critérios e da estratégia de provisões do banco público. E pelos lucros do BPI?

Agora, o accionista Estado tem de nomear um novo líder para o banco público. O Governo procura um substituto para Domingues. Só espero que não vão buscar o ex-ministro Paulo Macedo porque, depois do que ele fez na Saúde, (perdoem o trocadilho, se puderem) vamos ter um Caixão Geral de Depósitos.

Em termos de escolhas para a gestão da Caixa, não sei se não era altura de dar uma segunda oportunidade ao Salgado. As pessoas mudam muito depois de estarem presas. Mesmo que tenham sido só presas em casa. Tenho um amigo que passou a ser outra pessoa depois de ter estado fechado oito horas num elevador.


top 5

Caixote geral

1. João Miguel Tavares (sobre morte de Fidel): “Porque não começar também a elogiar Salazar ou Pinochet…” – Começar a elogiar?! Mas o Salazar não ganhou o concurso do melhor português de sempre?!

2. Cristas diz que o Governo é “campeão do calote” e bom na propaganda como “regimes ditatoriais” – preferia aquela Cristas que pregava o amor e era contra o discurso populista.

3. Portugal está “falido”, diz ex-economista-chefe do Deutsche Bank – diz o nu ao roto.

4. Trump diz que houve “milhões de votos ilegais”. Afinal, parece que as eleições nos EUA não valeram. Mais uma directa da minha vida que foi em vão. Um clássico desde os exames da faculdade.

5. Francisco Assis: “Assistimos ao primeiro momento de uma desagregação grave da maioria” – embora marcar um almoço de Natal com leitão. O abutre está a ficar com reumático nas asas.

Lobo amanteigado

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 25/11/2016)

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Antes da vitória de Trump nas eleições dos EUA, segundo sondagens, Portugal era o país do mundo onde o candidato republicano era mais rejeitado. Afinal, se calhar, as sondagens também não estavam correctas.


Alguns dos que antes diziam que Trump era um maluco, racista, misógino, etc., agora dizem: “Deixa lá ver o que é que ele vai ser. Se calhar, até é um tipo fixe.” Tudo o que Trump disse até agora leva uma esponja por cima e vamos partir do zero. É o tipo de proposta que a Melania pode aceitar, porque tem uma boa mesada, mas para mim não chega.

Basta olhar para os canais americanos de TV, e para alguma da nossa comunicação social, parece que deitaram um amaciador de nazis nos media.

É um momento estranho, este que atravessamos. Há um partido de extrema-direita, que apoia Trump, e que se sente à vontade para reclamar a supremacia branca (e que questiona se os judeus serão realmente seres humanos) e alguns media têm medo do politicamente correcto e chamam-lhes “alt-right” e nacionalistas em vez de lhe chamarem nazis, não vão eles ficar ofendidos. Como o lobo já nem se dá ao trabalho de se disfarçar de ovelha, resolvem amanteigar o lobo.

“Alt-right” é só um nome moderno para o mais feio que há no mundo desde que o mundo existe com gente. Se o Hitler aparecesse agora, diria que não era nazi – “Sou Jew-delete.”

Vamos lá ser claros. Quem é que faz manchete, como se fosse grande surpresa, “Extrema-direita celebra vitória de Trump com saudações nazis!”?! São nazis. Se festejassem com balões, é que era esquisito.

O jornal online Observador fez a melhor tradução de sempre de “Heil Trump” – “Avé Trump!” Fica meiguinho. Parece a procissão das velas.

Há neonazis a uns quarteirões da Casa Branca (e até há alguns lá dentro), mas a atitude de alguns media e comentadores perante as imagens de malta a festejar a vitória de Trump com saudações nazis, e outro tipo de manifestações xenófobas que temos visto, anda ali entre o “não é bem isso que ele queria dizer” (talvez por medo de enfrentar o horror) e o tentar justificar o injustificável.

Dá para imaginar um diálogo entre um desconfiado e um trumpista “bem intencionado” enquanto assistem às imagens do comício dos trogloditas do “Alt-right”:
– Mas eles estão a fazer a saudação nazi?!!
– Não, isto é o final, são alongamentos.
– Mas…, mas eles, agora, gritaram “Heil Trump!”
– O Lone Ranger também dizia “Heil Silver!”
– Acho que era “Hi-Yo”, Silver…
– É a mesma coisa.
– Ele disse: devemos questionar se os judeus são mesmo pessoas?!
– A que horas é o jogo?
– Eia, olha para aquilo! Eles estão a desenhar uma suástica!
– Parece, mas não é. É um jogo do galo para disléxicos.
– Mas está ali um busto do Hitler!
– É do Chaplin a fazer de Adolfo. São saudosistas do cinema mudo.
– Se calhar, tens razão, não são nazis. Vamos à festa dos anos 80?
– Não dá. Já tenho marcada uma dos anos 30.

top 5

Making America uber alles again

1. Ben Carson convidado para a Administração de Trump – mas tem de se maquilhar de mimo.

2. Wi-Fi gratuito em todos os autocarros e eléctricos de Lisboa no primeiro semestre 2017 – autocarros vão viajar no tempo, de modo a chegar a horas.

3. Terrorista detido em França tentou recrutar em Portugal para o Daesh – mas não conseguiu. Neste país, ninguém quer fazer nada. Até para arranjar quem apanhe azeitona é uma maçada.

4. Rampas de garagem pagam taxa em estradas nacionais – é pôr escadas e comprar um todo-o-terreno.

5. Restaurantes portugueses ganharam nove estrelas Michelin – antes isso que de Davi, que só iam trazer chatices.