Isto vai, meu dilecto, isto vai!

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 13/11/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Três séculos de Inquisição, de cantochão e de arrocho, de superstição e de fanatismo, com mais 50 anos de fascismo, fizeram dos portugueses um povo amedrontado e receoso do futuro.


A direita está lentamente a recompor-se do abanão que levou nas suas certezas. O velho tema do medo voltou aos jornais, à rádio e às televisões. O medo é uma arma insidiosa e terrível, tanto mais que a direita, como dispõe do dinheiro e de inúmeros meios de comunicação, que foi adquirindo, ao longo dos anos, utiliza-os, através de estipendiados, para manter o poder. Nesse extraordinário “O poema pouco original do medo”, Alexandre O’Neill recita que “o medo vai ter tudo” e faz a enumeração desse “tudo” com a vertiginosa criatividade que faz dele o grande e imparável poeta.

Nas notícias mais breves, nos comentários mais amenos, lá vem o medo. Se atentarmos nos programas de economia, logo o medo é imposto, através de insinuações acerca dos “mercados” e do seu “comportamento” com o novo quadro político.

O pobre Paulo Portas, apoplético e raivoso, fala da união de esquerda como se do apocalipse se tratasse. É uma criatura desprovida do mais módico resquício de respeitabilidade e o seu passado, neste aspecto, é de fazer corar o mais insensível. A verdade é que o acontecido é o que tinha de acontecer. E o Governo de Passos Coelho puxou a corda do enforcado até limites insuportáveis.

Durante quatro anos e meio, os portugueses mais débeis foram esmagados com uma ofensiva nunca vista em democracia. Esta ofensiva teve o respaldo de parte da imprensa e de uma televisão conformada com a vilania. Um milhão e meio de compatriotas nossos foram arredados, ostensivamente, dos mais simples actos de cidadania. O “arco do poder”, constituído pelo PSD e pelo PS (o CDS só conta como sobressalente), dominou, como quis e entendeu, a desgraça portuguesa. E os anos da coligação acentuaram esse infortúnio. Assisti, confrangido por eles, à triste manifestação em São Bento, dos que eram contra a rejeição do programa do Governo. Como é possível, 40 anos depois de Abril, haver gente tão tacanha, tão atrozmente reaccionária como esta; como é possível? Trata-se, sobretudo, de uma questão de mentalidade, de arejamento das células cinzentas, que me parecem afastadas daquela melancólica turma. É o medo que também os inspira.

O medo é uma componente da sociedade portuguesa. Três séculos de Inquisição, de cantochão e de arrocho, de superstição e de fanatismo, com mais 50 anos de fascismo, fizeram dos portugueses um povo amedrontado e receoso do futuro, tido como maléfico pelas forças mais conservadoras. Quando Pedro Passos Coelho, num cabisbaixo discurso, no dia do adeus, diz que não abandona Portugal, a frase morre pelo ridículo e pelo descaramento. Foram ele e os seus que empobreceram o país, que enviaram um milhão de miúdos para a fome e para a penúria, que desprezaram os velhos, que tentaram liquidar a escola pública, o Sistema Nacional de Saúde, e a Segurança Social para os fojos, que tornaram a pátria num protectorado alemão – e têm agora, suprema injúria!, o descoco de usar as frases do cordeiro.

O que espera o Governo da união das esquerdas exige dos seus protagonistas uma tenacidade enorme. A direita está disposta a tudo, e até se apoia, desavergonhadamente, nas organizações políticas estrangeiras para procurar manter os seus privilégios e desmandos. A mentira, o embuste, a cilada e a calúnia fazem parte do arsenal habitualmente utilizado. Mas o que foi já está. Um círculo vicioso de poder foi interrompido e, oxalá!, desmantelado. Não digo que uma nova era vai surgir instantaneamente. Não digo. Mas que muitas coisas vão mudar e para sempre, lá isso vão! “Ça ira!”

É preciso que nos não esqueçamos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 06/11/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.


Chega a ser comovente, por néscio e calamitoso, a gesticulação da direita e da direitinha, em vista de um governo de esquerda. Os preopinantes que, em pelo menos dois diários, choramingam a sua superior ignorância, fazem dó. Atribuem à esquerda todos os malefícios do mundo, desconhecendo (não fingem desconhecer: desconhecem mesmo) o percurso da História e as batalhas estabelecidas pelos homens para que a felicidade seja possível.

São aqueles que um velho jornalista de O Século chamava os “apedeutas”, escarmentando, com essa palavra antiga, aqueles que, sem saberem coisa alguma, punham-se sempre ao lado dos poderosos. Mas não vale a pena estrebuchar: as coisas vão mudar, porque as coisas mudam naturalmente em ciclos que nenhuma obstrução consegue evitar. Não sei se tudo vai melhorar; mas muita coisa vai ser outra.

Nesta união aparentemente espúria, entre o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda, o facto em si só o é porque António Costa, inopinadamente, decidiu interromper as derivas do seu partido, que sempre obedecera às cambiantes da política de apoio ao capitalismo, aliando-se umas vezes ao PSD, outras ao CDS. Há uma fatia larga das questões sociais que é comum àqueles partidos, embora no PS, essa fatia larga, chamada “socialismo” fora colocada na gaveta e esta zelosamente fechada à chave. Tão simples quanto isso. Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.

É evidente que esta união não é vista com olhos amenos entre muitos militantes comunistas e socialistas. A cultura ideológica entre uns e outros tem sido sempre de hostilidade, animada, estimulada e tantas vezes provocada pelos próprios dirigentes dos dois partidos. Lançar gasolina para a fogueira nunca deu bom resultado. Mas também é evidente que esta situação de agressividade e, até, de desprezo pelo outro, não podia durar eternamente. A própria circunstância de o Muro de Berlim ter sido destruído e a União Soviética ter implodido explicam, talvez, o esmaecimento dos partidos obedientes àquela linha. Penso que a ideia difusa de “fortaleza cercada” e “inamovível” está historicamente ultrapassada. Na batalha dos dois sistemas, o capitalismo venceu, mas nada, em História tem carácter permanente. O que está a acontecer, em Portugal, como em outros países, é significante. Pode a direita e seus sequazes e estipendiados guinchar de susto e desespero, que nada evitará o desenrolar dos acontecimentos. Claro que este avanço das coisas, o chamado “processo histórico”, não será nunca linear e os obstáculos no caminho também pertencem à natureza dos factos. Mas foi aberta uma ruptura, com as decorrentes euforias e as consequentes traições e dissidências. Tudo está previsto.

O PS tem sido uma espécie de respaldo da direita. Os lugares são equilibradamente distribuídos. A “alternância” nunca foi “alternativa” e tudo corria no melhor dos mundos, tanto mais que, com o “socialismo na gaveta”, o caminho estava facilitado. Uns iam para lugares bem remunerados, na administração ou no privado; outros eram chutados para Bruxelas, quando o maná foi aberto; outros, ainda, entravam na “diplomacia”, enfim, o forrobadó. Nem tudo será arredado e a casa nunca ficará totalmente asseada. As raízes da miséria moral são fundas e estão bem regadas, e o silêncio cúmplice é, habitualmente, bem remunerado. No entanto, continuo a crer que a esperança tem muitas vezes razão, e que, neste sentimento, não estou sozinho: milhões e milhões de homens e mulheres caminham a meu lado.

Temos uma larga experiência do sofrimento, da dor e da repressão. E temos, igualmente, um conhecimento largo da luta e da resistência. O nosso património moral, cultural e intelectual é infinitamente superior ao “deles.” É preciso que nos não esqueçamos.

Estamos todos em perigo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 02/10/2015)

Baptista Bastos

  Baptista Bastos

A partir de domingo vamos saber os caminhos que a pátria vai tomar. Os presságios não me parecem bons, mas este povo, apesar de amargurado e cercado e sovado ainda dispõe de forças para se reerguer. Duas alternativas se nos propõem: um projecto neoliberal (que está a caminho) com a supressão das responsabilidades do Estado no enquadramento social dos cidadãos ou a manutenção do Estado social, tal como foi construído no imediato pós-guerra. A primeira hipótese supõe a organização do Estado como um imenso condomínio privado, no qual cada «inquilino» trata de si, ignorando e até desprezando o sentido de comunidade, afecto à condição humana. O homem é, por natureza, um ser gregário, e os princípios filosóficos do neoliberalismo defendem e cultivam o individualismo mais exacerbado.

A defesa do Estado social é, pois antagonista daquela tese, tida e havida como um conceito de desumanização. Temos, em Portugal, exemplos pavorosos dessa ideologia: ataque ao Serviço Nacional de Saúde, à Segurança Social, à escola pública, a tudo em que o Estado tenha, minimamente, uma posição clara. O estribilho: “Menos Estado, melhor Estado” tem sido o respaldo deste embuste, apoiado. Aliás, por uma Imprensa acrítica, por uma televisão emasculada e por uma rádio cada vez mais obediente, salvo nos casos em que as excepções confirmam a regra.

Nada destes pormenores tenebrosos tem sido apresentado ao público. Tudo tem sido camuflado com números e estatísticas destinados a confundir a verdade dos factos. O pior é que jornalistas pagos pelo pouco escrúpulo servem estes amos tripudiando sobre os legados honrados de uma Imprensa que, mesmo nos tempos mais ominosos, manteve a dignidade operosa. Com mágoa e desalento indico a SIC como a estação que mais fretes tem feito ao poder. Digo-o com pena: trabalhei lá, nos tempos de Emílio Rangel, e senti a chama que só existe no contentamento e o ímpeto que só nasce da satisfação do trabalho que realizamos. Um equilíbrio que se perdeu e uma nebulosa que pretende confundir-nos com números e estatísticas, em detrimento do calor humano exigido e exigível. Perdeu a combatividade e a frescura determinada pela variedade dos preopinantes; agora, já sabemos, de antemão, o que vão dizer aqueles que aparecem. Uns chatos e uma chatice.

Nenhum órgão de comunicação nos adverte dos perigos que corremos, no caso de a candidatura de direita vencer. E mais acentuam as debilidades evidentes de António Costa, alvo e objecto de um cerco que também se ergue no seu próprio partido. Repare-se que só agora começaram a aparecer, nos comícios e nas “arruadas”, alguns dos próceres do PS, e que a Imprensa é extremamente hostil a António Costa. Seria bom que, no final da contenda, houvesse um estudo sociológico desta campanha, a fim de se aferir a integridade dos protagonistas. E, também, das alterações registadas em órgãos de comunicação; os saneamentos, as trocas de lugares e de funções.

A perturbadora manipulação a que temos sido submetidos faz lembrar, e não muito tenuemente, tempos antigos, de que muitos de nós ainda se lembram. Há uma poderosa ofensiva contra a inteligência e contra a revelação dos factos. Os programas das televisões parecem tratados de bestificação. O futebol, esse, está a todas as horas e a todos os instantes: antes, durante, antes e depois. E provoca comiseração ver jornalistas que nos habituámos a admirar e a respeitar predispostos a colaborar na infâmia, a troco de uns tostões miseráveis. Não esclarecem, não criticam, não advertem.

O que está por detrás de tudo isto é algo de tenebroso e de maléfico. É preciso e é urgente sacudir a ignomínia do nosso círculo. Estamos todos em perigo.