Estamos todos em perigo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 02/10/2015)

Baptista Bastos

  Baptista Bastos

A partir de domingo vamos saber os caminhos que a pátria vai tomar. Os presságios não me parecem bons, mas este povo, apesar de amargurado e cercado e sovado ainda dispõe de forças para se reerguer. Duas alternativas se nos propõem: um projecto neoliberal (que está a caminho) com a supressão das responsabilidades do Estado no enquadramento social dos cidadãos ou a manutenção do Estado social, tal como foi construído no imediato pós-guerra. A primeira hipótese supõe a organização do Estado como um imenso condomínio privado, no qual cada «inquilino» trata de si, ignorando e até desprezando o sentido de comunidade, afecto à condição humana. O homem é, por natureza, um ser gregário, e os princípios filosóficos do neoliberalismo defendem e cultivam o individualismo mais exacerbado.

A defesa do Estado social é, pois antagonista daquela tese, tida e havida como um conceito de desumanização. Temos, em Portugal, exemplos pavorosos dessa ideologia: ataque ao Serviço Nacional de Saúde, à Segurança Social, à escola pública, a tudo em que o Estado tenha, minimamente, uma posição clara. O estribilho: “Menos Estado, melhor Estado” tem sido o respaldo deste embuste, apoiado. Aliás, por uma Imprensa acrítica, por uma televisão emasculada e por uma rádio cada vez mais obediente, salvo nos casos em que as excepções confirmam a regra.

Nada destes pormenores tenebrosos tem sido apresentado ao público. Tudo tem sido camuflado com números e estatísticas destinados a confundir a verdade dos factos. O pior é que jornalistas pagos pelo pouco escrúpulo servem estes amos tripudiando sobre os legados honrados de uma Imprensa que, mesmo nos tempos mais ominosos, manteve a dignidade operosa. Com mágoa e desalento indico a SIC como a estação que mais fretes tem feito ao poder. Digo-o com pena: trabalhei lá, nos tempos de Emílio Rangel, e senti a chama que só existe no contentamento e o ímpeto que só nasce da satisfação do trabalho que realizamos. Um equilíbrio que se perdeu e uma nebulosa que pretende confundir-nos com números e estatísticas, em detrimento do calor humano exigido e exigível. Perdeu a combatividade e a frescura determinada pela variedade dos preopinantes; agora, já sabemos, de antemão, o que vão dizer aqueles que aparecem. Uns chatos e uma chatice.

Nenhum órgão de comunicação nos adverte dos perigos que corremos, no caso de a candidatura de direita vencer. E mais acentuam as debilidades evidentes de António Costa, alvo e objecto de um cerco que também se ergue no seu próprio partido. Repare-se que só agora começaram a aparecer, nos comícios e nas “arruadas”, alguns dos próceres do PS, e que a Imprensa é extremamente hostil a António Costa. Seria bom que, no final da contenda, houvesse um estudo sociológico desta campanha, a fim de se aferir a integridade dos protagonistas. E, também, das alterações registadas em órgãos de comunicação; os saneamentos, as trocas de lugares e de funções.

A perturbadora manipulação a que temos sido submetidos faz lembrar, e não muito tenuemente, tempos antigos, de que muitos de nós ainda se lembram. Há uma poderosa ofensiva contra a inteligência e contra a revelação dos factos. Os programas das televisões parecem tratados de bestificação. O futebol, esse, está a todas as horas e a todos os instantes: antes, durante, antes e depois. E provoca comiseração ver jornalistas que nos habituámos a admirar e a respeitar predispostos a colaborar na infâmia, a troco de uns tostões miseráveis. Não esclarecem, não criticam, não advertem.

O que está por detrás de tudo isto é algo de tenebroso e de maléfico. É preciso e é urgente sacudir a ignomínia do nosso círculo. Estamos todos em perigo.

9 pensamentos sobre “Estamos todos em perigo

  1. Excelente como habitualmente, lê-se, relê-se e dá para pensar, como um povo pouco educado embalado por falsas promessas e apoiadas por jornalistas pouco escrupulosos podem danificar, destruir um país até à morte.
    O grande escritor americano disse: “We have The best Government that money can boy” boca santa.
    Desde San Diego, CA Joe Baptista

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  2. O MEU VOTO

    Era uma vez um povo que nasceu de uma guerra entre mãe e filho há cerca de 900 anos e viveu sempre em guerra até 1974.

    Apesar de ser um dos países mais pequenos do mundo, sentiam-se grandes , assinando um tratado com um pais vizinho pouco maior que o seu, em que o mundo seria dividido entre os dois.

    Apesar de ser católico, em que todos os seres humanos são filhos de um Deus, por séculos viveu do comércio de escravos e manteve-se até há quatro décadas como um estado colonial.

    Hoje para além de escravizado, está a ser colonizado não por outro país mas por um bando de agiotas, mais conhecidos por Troyka-tintas.

    Mesmo sendo um pequeno país ainda há pouco tempo era dos maiores exportadores de cortiça, azeite e vinho, mas hoje o que mais exporta são jovens licenciados.

    Hoje, dia 4 de Outubro de 2015, esse povo vai brincar ao que chamam de, eleições livres, para fingir que ainda vivem em Liberdade, desconhecendo que os agiotas e a comunicação social lhes manietaram (qual chip em cada cabeça) para que votem apenas nos corruptos e mafiosos que os desgovernam há 39 anos.

    Ah, o meu voto, não será com certeza nessa canalha que o que mais fez nestes 39 anos, foi governar-se, roubar, mentir, trazendo de novo a fome, o desemprego e a miséria.

    Divirtam-se e não se esqueçam de lutar pela liberdade, pela paz, pelo amor e pela felicidade.

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  3. Uma análise bastante lúcida,caro Baptista Bastos.
    É um tema que,devidamente aprofundado daria por certo horas de conversa.
    É uma luta tremenda que se trava quotidianamente, de quem vai contra esta “maldita corrente” ou, de quem ainda tem consciência, contra esta manipulação e espírito de mediocridade.

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