Otelo e a revolução

(António Guerreiro, in Público, 30/07/2021)

António Guerreiro

Lendo o que foi dito e escrito pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, uma pergunta ganha forma, pronta a ser formulada: o que resta daquilo em que se acreditou quando já não se acredita? Fim de uma história.

A revolução, que hoje é sinónimo do impossível, foi aquilo em que muitos acreditaram. Apesar dos entusiasmos serôdios erguidos sobre escombros de uma história ainda mais serôdia, por todo o lado onde os relógios políticos estavam mais sincronizados com a tonalidade da época, o tempo dos reencantamentos revolucionários já tinha passado. E hoje, como acabámos de comprovar, os assomos violentos de um desejo insensato e intempestivo de revolução (ou, pelo menos, o que procurava legitimar-se enquanto tal) tornaram-se muito menos desculpáveis do que o uso de todos os meios violentos para os impedir. Nos códigos oficiais das nossas sociedades, está adquirido que toda a violência, excepto a do Estado, é ilegítima. E nem sequer devemos procurar subterfúgios, lembrando, por exemplo, que a fundação de todos os Estados ocorre numa situação que se pode chamar revolucionária, na media em que inaugura violentamente um novo direito.

Vivemos num tempo “pós”, depois da revolução. É difícil pensar que há menos cinquenta anos ainda se tinha uma vista do horizonte como revolução. Hoje, a não ser os que conhecem bem os arquivos e a história política, já nem nos lembramos que foram numerosos os que no século XX viveram na ideia de que o mundo esperava a sua revolução. Mesmo para aqueles que achavam que ela tinha acontecido em 1917, permanecia ainda como horizonte a transmutação dessa revolução em “revolução mundial”, através da passagem do “socialismo” ao “comunismo”. O esquema desta implicação, de uma segunda revolução implicada na primeira, era fornecido pelo conceito de revolução permanente.

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 Uma coisa é certa: já não há ninguém a reclamar a revolução, isto é, a violência revolucionária (e não devemos confundir revolta — essa sim, sempre actual e conhecendo sempre novas formas — com revolução). A palavra e a coisa foram banidas de uma vez por todas. Um dos escritos mais revolucionários dos últimos anos (assinado por um denominado “Comité Invisible”) , garantia que a democracia não passa de “governo em estado puro”, isto é, de poder gestionário, e lembrava uma frase cínica de Rivarol: “Há duas verdades que neste mundo não devem nunca ser separadas: 1) que a soberania reside no povo; 2) que ele nunca deve exercê-la”. Seguindo este preceito, o “comité invisible” proclamava: “Eles querem obrigar-nos a governar, nós não cedermos a esta provocação”.

Se aos olhos da grande maioria, ou mesmo de todos, a violência revolucionária já não é possível nem permitida (e esta consciência tem quase sempre efeitos retroactivos até à Revolução Francesa, não há revolução à qual não se queira regressar: esse é o princípio da contra-revolução), é porque não existe outro mundo senão este, a regra única em que vivemos. Na verdade, a violência revolucionária foi possível e permitida enquanto houve a hipótese de um mundo alternativo. Ora, esse mundo alternativo, projectado de muitas maneiras, mas sempre com a convicção de que havia um outro horizonte do nosso tempo, já não existe. Já não há ninguém a deixar-se tentar pela revolução, ao ponto de pensar que ela deva passar pela violência. A decisão de Mário Soares, aprovada na Assembleia da República, de amnistiar Otelo, trazia consigo o selo de uma visão da história. Foi uma maneira de encerrar um ciclo, de tentar fazer tábua rasa desse passado, de maneira a evitar que ele continuasse a assombrar o presente. Como sabemos, Mário Soares não era um homem do luto nem da melancolia. E sabia bem que ilegítima, como a violência, é também a origem do poder.

O fim de uma história não é o fim da história. Mas esta história da revolução que chegou ao seu fim fala-nos também de uma outra triste história: o fim da política. A política morreu, é o seu destino. A revolução foi um sonho que terá resultado em pesadelos (não há, em si, boas revoluções), mas foi o sonho que a política pôde parir. A que parto nos faz ela hoje aceder?



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Catástrofes e novas lutas de classe

(António Guerreiro, in Público, 23/07/2021)

António Guerreiro

Catástrofes naturais, sempre as houve, mas o modo como foi percebido e representado universalmente o dilúvio que devastou povoações inteiras, na Alemanha, revela que há hoje uma nova consciência, uma enorme sensibilidade à responsabilidade da acção humana na variação cosmológica em que nos encontramos. Até há pouco tempo, o problema era o da insensibilidade ecológica; agora, entrámos na fase da hipersensibilidade, de tal modo que temos a percepção de que estamos a assistir a uma aceleração desenfreada da história geológica.

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O problema — muito evidente — é que ninguém sabe o que fazer e todas as medidas programadas para diminuir as emissões de dióxido de carbono, ainda que bem-sucedidas, resolveriam apenas uma pequena parte do impacto ecológico do nosso modo de vida. E, como disse uma vez Bruno Latour (o sociólogo e filósofo mais lido e discutido internacionalmente nesta matéria), um Estado armado para a mutação ecológica não pode existir, era necessária a mobilização colectiva, universal, da sociedade civil. Devemos, aliás, duvidar seriamente da ligeireza com que os poderes políticos nos querem convencer de que possuem os instrumentos eficazes e um controlo do tempo certo para realizar uma mutação ecológica. 

Mas a dimensão colossal do desastre provocado pelas cheias, na Alemanha, causou espanto e pavor porque acontece num universo de classes geo-sociais privilegiadas e lançou assim o aviso de um perigo iminente que não tem o mesmo poder de alerta quando atinge territórios habitados por classes sociais desfavorecidas ou mesmo na miséria. Que repercussão têm sobre os grandes decisores políticos e sobre a opinião pública ocidental os milhões de deslocados em África e na Ásia por causa das secas e das cheias?

Esta nova categoria política, as classes geo-sociais, também da autoria de Bruno Latour, emerge a partir de uma mutação das lutas políticas, que o sociólogo francês explica desta maneira: o clássico conflito das classes sociais transformou-se numa luta de classes geo-sociais, a partir do momento em que já não são apenas as dimensões económicas que contam, mas outras dimensões ligadas à habitabilidade do planeta. A exploração e a desigualdade não deixaram de existir, mas elas exercem-se no interior das zonas de habitabilidade, que se tornam um grande motivo do conflito político. Não é que Bruno Latour não reconheça que as classes sociais não tenham sido sempre classes geo-sociais, mas agora, sob o efeito desta nova variação cosmológica em que ganhámos a consciência de que há a responsabilidade da acção humana sobre o clima e todas as condições que permitem a vida na Terra, acentuou-se enormemente o factor “geo” na definição de classe social.

A grande novidade do nosso tempo é que há meia dúzia de indivíduos no mundo para os quais não serve nenhuma definição de classe. São precisamente aqueles que fazem agora a experiência de se subtrair à “zona crítica” e passar para o exterior do nosso planeta, para fora de Gaia. A noção de “zona crítica” é também de Latour: designa a camada exterior da Terra, onde estão reunidas as condições de habitabilidade dos seres vivos (Critical Zones é precisamente o nome de uma grande exposição comissariada por Bruno Latour, em exibição desde Maio de 2020 em Karlsruhe, na Alemanha, no centro de arte ZKM, isto é, Zentrum für Kunt und Medien).

Face ao tamanho do nosso planeta, e ainda muito mais se passarmos para a escala do universo, esta zona é bastante reduzida. Por este dias, em que milhões de cidadãos estavam em confinamento, no mundo inteiro, foi a vez de Jeff Bezos, num gesto de soberania sobre todos os poderes e contingências terrenas, desconfinar absolutamente, fazendo uma incursão experimental para fora da “zona crítica” e, até, para fora da Terra, numa nave lançada de uma estação no deserto do Texas. Bezos deixa de ser geo-socialmente definível, está fora da luta de classes e aspira a situar-se acima de Gaia e não no interior dela, como todos nós. Olhará a Terra sem se sentir culpado de a degradar. Nós, por enquanto, só podemos ter essa mesma sensação, como diz Latour na abertura do seu último livro Où suis-je?, olhando para a lua, isto é, tornando-nos um pouco lunáticos.



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A geração dos pais bastardos

(António Guerreiro, in Público, 16/07/2021)

António Guerreiro

O presidente francês anunciou no dia 12 de Julho um “revenu d’engagement” para jovens dos 16 aos 25 anos sem emprego, sem estudos e sem formação (em França são chamados “NEET”) que pode ir até cerca de 500 euros mensais. Como traduzir em português “revenu d’engagement”? Rendimento de compromisso? Rendimento mediante compromisso? Seja qual for a tradução, a palavra engagement significa que se estabelece um contrato – tem muito de simbólico, mas os simbolismos contam muito – que prescreve condições, sob a forma de deveres, aos beneficiários desse rendimento: eles têm de fazer um percurso de “inserção” na sociedade do trabalho. A preocupação de Emmanuel Macron com o léxico é muito evidente: o engagement expulsa a ideia de incondicionalidade e universalidade da allocation universelle, que em inglês se chama universal basic income  e em português é dito rendimento básico universal. Na verdade, uma primeira versão deste programa agora anunciado (e que só teve existência no discurso e no papel) até se chamava Garantie jeunes universelle,  mas a novilíngua macroniana actualizou uma novilíngua anterior, ainda do tempo de François Hollande.

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No discurso em que anunciou essa medida, Macron disse que ela se fundava numa lógica de instauração de “um novo pacto entre as gerações”. Devemos entender estas palavras como a tentativa de reconstruir um pacto geracional já quebrado ou em vias de se quebrar. Não é novidade para ninguém que está instalado desde há algum tempo, por todo o lado, e não apenas em França, um mal-estar intergeracional que está a acentuar-se com a pandemia e à mínima oportunidade pode transformar-se num acerto de contas entre jovens e velhos. Em França, a ruptura do pacto é ainda mais visível, não por causa da tradição francesa das contestações e manifestações de rua, mas também porque a geração do Maio de 68 ainda está viva e, em muitos casos, com um grande peso na vida pública. Essa geração da contestação que abandonou todas as utopias e se tornou mensageira e executora do novo realismo que é o da “política das coisas” nunca passou verdadeiramente o testemunho, é incapaz de conceber o seu declínio e, por um conjunto de factores sociais e políticos, conseguiu manter em condição de dependência os seus filhos legítimos. O pacto intergeracional manteve-se enquanto as transições puderam ser comandadas pelos mais velhos.

É o que se passa também em Portugal: o espaço público é preenchido por um discurso político que apenas sofre algum aggiornamento para se manter igual. Em nenhum outro domínio há uma inércia tão forte. A máquina da alternância geracional avariou e não se vislumbra qualquer hipótese de repará-la. Nalguns sectores, como a escola e a universidade, o desastre é colossal.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk, que tem um olhar agudíssimo para os fenómenos sociais, culturais, religiosos e políticos contemporâneos, inscrevendo-os em narrações de “longue durée”, publicou em 2014 um livro denso e de grande alcance (como é todo o seu pensamento) sobre os filhos “terríveis” da Modernidade. Segundo ele, a continuidade geracional que tinha estado na base do desenvolvimento cultural da nossa civilização deu lugar, na Modernidade, à revolta anti-genealógica, ou seja, à tentativa de emancipar o indivíduo da cadeia de continuidades que o ligava de maneira estável às gerações precedentes. A Modernidade teria então consistido na elevação e triunfo destes filhos terríveis, intratáveis, desobedientes, que não assumem as regras dos genitores e não se assumem como descendentes. São como que filhos ilegítimos ou “bastardos”, como lhes chama Sloterdijk, fazendo ao mesmo tempo um elogio do bastardismo. Foi assim a geração das rupturas. Transpondo esta narração com um âmbito cronológico de longa duração para um presente cada vez mais escandido em curtas durações, a categoria hoje determinante não é a dos filhos terríveis, os “enfants terribles”, assim baptizados numa novela de Cocteau, mas os pais terríveis que se imaginam sempre jovens. De tal modo que até a ideia de juventude acabou por ser conformada a esta aspiração dos mais velhos a uma eterna juventude. O pacto intergeracional que Macron quer restaurar foi enfraquecendo à medida que a geração dos filhos vive pior do que a dos pais, e até a dos pais já vive pior que a dos avós. Esta grande regressão arruína qualquer pacto.



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