O Lago dos Cisnes da política portuguesa

(Luis Rocha, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)


“António Leitão Amaro, ministro da Presidência e um dos braços direitos do primeiro ministro, publicou ontem nas suas redes sociais um vídeo em que o próprio aparece a ser filmado de vários ângulos e em várias situações aparentemente a gerir a situação de calamidade que se vive no país devido à depressão Kristin..”, in revista Sábado. Ver aqui.


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Temos um novo trend na política portuguesa que é transversal às ideologias e atravessa com entusiasmo militante todo o espectro partidário, da esquerda piedosa à extrema-direita ressabiada. Chama-se Síndrome de Prima Ballerina. É aquela pulsão incontrolável para subir às pontas dos pés, esticar o pescoço e tentar parecer um bocadinho mais alto, mais importante, mais indispensável, enquanto o palco arde, o público está em pânico e o cenário desaba.

Enquanto milhares de pessoas enfrentavam um Inverno sem eletricidade, sem aquecimento, sem água potável e a viver no meio de destroços, tivemos o Ministro da Presidência a fazer filmes promocionais. Não filmes informativos, não comunicados sóbrios, mas pequenos trailers de vaidade com mangas arregaçadas, ar compenetrado, telefone colado à orelha, música invisível de fundo e aquele olhar treinado de quem quer parecer ocupado mesmo quando não está a fazer a ponta de um corno. Tudo pago, como sempre, pelo dinheiro dos contribuintes.

Não é preciso possuir uma mentalidade escandinava, ou ter frequentado seminários de ética pública em Helsínquia, para perceber os vários níveis de rusticidade transpostos neste ato. Basta um mínimo de decência. Em qualquer sociedade civicamente adulta, este pateta estaria, à hora a que escrevo, a despejar as gavetas do gabinete para uma caixa de cartão, escoltado por um segurança que lhe diria, com ternura: “é por aqui Sr. Leitão”.

Mas no entanto estes pliés, croisés e effacés não são exclusividade de ministros. Nada disso. A estranha dança também acontece na política de proximidade, na politicagem autárquica, essa incubadora de vaidades em ponto grande. Por motivos que não vêm ao caso e que não interessam rigorosamente nada, sigo dezenas, talvez centenas, de páginas de câmaras municipais e juntas de freguesia nas redes sociais. E garanto que o número de bailarinas em pontas daria para um recenseamento nacional da vaidade.

Autarcas que gerem páginas institucionais onde publicam loas à sua pessoa, com fotografias cuidadosamente enquadradas, frases ocas sobre “trabalho incansável” e “proximidade às populações”. Depois, num momento de puro narcisismo sem pudor, repostam nos seus perfis pessoais essas mesmas loas, escritas por eles próprios enquanto vestiam o chapéu institucional. É uma espécie de ato masturbatório político permanente, uma campanha eleitoral contínua disfarçada de serviço público. Tudo normal. Tudo aceitável. Tudo feito com dinheiro público e com um sorriso de missão cumprida.

E depois há ainda uma ala mais rançosa, aquela que cheira a naftalina ideológica e a ressentimento social. Os politiquinhos e politiquinhas da extrema-direita, especialistas em fotos em pose de estado, ou, como gosto de lhes chamar, poses de Agência Funerária. Fotografias solenes, olhares vazios, braços cruzados, acompanhadas de textos que exaltam o seu “bom coração”, a sua “alma gentil” e o seu “amor à pátria”. Intercalam estas pérolas com posts racistas, xenófobos e fascistas, como quem muda de passo numa coreografia mal ensaiada. O cisne branco de manhã, o corvo negro à tarde.

Tudo isto acontece sob o olhar complacente de uma população cansada e de uma cidadania anestesiada, que já aceita como normal que um cargo público seja usado como palco pessoal. A política transformou-se num casting permanente, onde quem não aparece, não existe, e quem aparece demais acha que governa melhor.

Ou eu estou a atravessar uma crise de meia-idade, hipótese que não excluo, ou este mundo ensandeceu de vez. Talvez as duas coisas.

Mas enquanto continuarmos a confundir serviço público com performance, governação com branding pessoal e crise real com oportunidade de storytelling, o Lago dos Cisnes da política portuguesa continuará cheio de primas bailarinas em pontas, convencidas de que estão a fazer arte quando, na verdade, só estão a fazer figurinhas.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://sicnoticias.pt/…/2026-01-30-ministro-leitao…

https://rr.pt/…/nao-era-o-objetivo-desejado…/457467

https://www.cmjornal.pt/…/leitao-amaro-apaga-video-de…

A ventania de socialismo

(Tiago Franco, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)

Uma frota de ministros bem “montados”. Imagem roubada ao processado servidor público, Volksvargas

Se há coisa que António José Seguro (AJS) teve mérito, nesta campanha presidencial, foi o de trazer a palavra “socialismo” para o debate. Para a extrema-direita essa palavra está associada a pobreza e corrupção. Para a esquerda, em princípio, era palavra que não fazia parte do programa do PS há muito tempo.

Depois de um ano aflitivo para o PS, o António acabou por ser o Trubin do Largo do Rato. As voltas que a vida dá e, é por isso, que ela não deixa de ser bela. Maravilhosa ironia.

Não há socialismo em Portugal desde que as linhas ideológicas do PS e do PSD se fundiram, com ligeiras diferenças nas parcerias público-privadas (PPPs). Mas, no essencial, são iguais. E é por isso um enorme favor à esquerda, e ao PS, quando estes são associados com o socialismo. Os estrategas do Ventura, também eles, deviam ganhar um prémio da FIFA, ou algo do género.

Desde que a direita assumiu o controlo do Parlamento que somos bombardeados, diariamente, com ataques ao estado social. Venha pelo lado da imigração ou pelos utentes do SNS. Seja pela tributação fiscal ou pelas obrigações dos grandes grupos empresariais. Seja pelo pacote laboral ou pela descativação de serviços públicos.

Todos os dias. Todo o santo dia, nos martelam com a necessidade de entregar a saúde a privados e fazermos mais “medicares”. Ou de reduzir a carga fiscal das empresas para que estas paguem melhor (sem qualquer certeza). Ou garantir que o Estado sai do mercado da habitação (como se lá estivesse a fazer algo) para que se construam cidades sem fim. Ou que não podemos meter dinheiro na escola pública porque temos que comprar armas e fazer o que a Nato manda. Ou que precisamos de reduzir a função pública, cortar serviços, ser mais eficientes. “Eficiente” é sempre a palavra que um político, sem currículo e com um bom salário, usa quando quer justificar cortes cegos.

Quem vive, e é faustosamente pago pelo erário público, enche diariamente os estúdios de televisão, as bancadas do Parlamento ou as redes sociais, para te avisar que é preciso acabar com o socialismo. Mesmo que não te expliquem o que é o socialismo, ou que tu saibas que muitas das tuas regalias, que hoje usas sem saber como, foram conseguidas por lutas de sociedades solidárias, organizadas e socialistas.

Depois, acontecem os azares. Um cabo parte-se num elétrico, as labaredas que invadem a aldeia, umas rajadas que levantam uns telhados, a chuva que não dá tréguas por uns dias, a intempérie que leva umas árvores ou carros ou tapumes de obras. E aí tu percebes que vives num país de Terceiro Mundo, gritas e ninguém aparece. Nessa altura queres resposta pronta, serviços públicos e proteção civil. Os tais que nos custam impostos e que nos dias de sol estão a mamar. Ora isso é uma parte do tal Socialismo que te dizem ser mau.

O que tens, na realidade, é um país pouco preparado para tudo o que requer planeamento. Ninguém pode evitar o vento (talvez os gajos do ADN que acham o clima uma invenção dos jornais), mas pode-se ter sistemas de apoio às populações e, já agora, as próprias populações com noções básicas do que fazer. A forma como se organiza a sociedade começa na escola, a tal escola de que governo algum quer saber há décadas.

E é por isso que, com alguma certeza, verás os teus governantes a reagirem sempre tarde, meio perdidos, e mais preocupados com vídeos de autopromoção do que propriamente com o trabalho real.

Quem vota, repetidamente, em gente como o CEO da Spinumviva para liderar a Nação, não pode esperar grande coisa. Alguém que defende a inenarrável ministra da saúde ou dá espaço a um subserviente, que nos envergonha diariamente, como Paulo Rangel, não pode saber o que fazer num momento de crise. Alguém que se rodeia de um inútil como Nuno Melo ou que permite que Leitão Amaro seja, na prática, o porta-voz para a imigração do Chega no governo, não percebe sequer a velocidade do vento ou porque se entopem as ruas.

Se quem lidera o país tem a curta visão que as suas próprias limitações impõem e, em simultâneo, defende interesses que não se cruzam com os da população, como é que alguém pode imaginar que, em caso de necessidade, o país pode contar com esta trupe de incompetentes?

Um país que resolveu entregar sectores estratégicos a multinacionais estrangeiras, numa altura de crise, sem comunicações ou eletricidade, agarra-se a quê? Eu sei, vocês também sabem. Mantenhamos o nível, pois. Na melhor das hipóteses arranjam-se uns vídeos de ministros de mangas arregaçadas e unhas roídas e, quiçá, uma chegada em força, numa longa frota de BMWs para ver como está a plebe.

Por mais que te convençam que o socialismo é um bicho papão e, por pior que seja o governante em cada momento, quando as lágrimas te escorrem pela cara e o teu momento de aflição chega, tudo o que queres é alguém, por perto, com meios para ajudar, não é? É como Deus para mim. Não sou grande fã mas quando a turbulência bate naquelas asas, a 11 km do chão, até ao Buda vou.

Pensa nisso, então, da próxima vez que te venderem a lei da selva, as liberdades individuais e todas as metáforas de merda que significam, no fundo, que terás o que conseguires pagar. Não há como uma boa ventania para que percebas que o socialismo verdadeiro, das sociedades organizadas e solidárias, não só funciona como é realmente preciso. Especialmente quando o telhado que voa, é o teu.

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Na hora dos monstros

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 21/01/2026)


Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.


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O primeiro-ministro canadiano tratou de assinar acordos com a China e o Catar e fez um discurso em Davos que, a ser feito por qualquer um de nós há poucos anos, levaria o carimbo de marxista. Ontem, Mark Carney anunciou que o mundo baseado em regras acabou e fez mea culpa assumindo algo que muitos de nós vínhamos denunciando desde sempre.

Em primeiro lugar, que a história da ordem internacional baseada em regras “era parcialmente falsa” e que os mais fortes se “isentariam quando lhes fosse conveniente”, que as regras comerciais eram aplicadas “de forma assimétrica” e que o direito internacional “era aplicado com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima”.

No mesmo dia, o primeiro-ministro belga citou o líder comunista italiano Antonio Gramsci com a mesma frase que o Professor António Avelãs Nunes cunhou o título do seu livro: “O mundo velho está a morrer, o novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros”.

O facto é que depois de múltiplas sanções, invasões, ocupações e um genocídio contra países terceiros só agora é que os líderes europeus parecem despertar. Não porque estejam preocupados com o mundo mas porque está em causa a sua própria sobrevivência. A União Europeia e os seus aliados regionais são vítimas das políticas de subordinação aos Estados Unidos e da relação supremacista com as antigas colónias.

Sejamos sinceros, os líderes europeus estão como aquele adolescente conhecido por fazer bullying aos colegas, sempre protegido pelo seu amigo mais alto e mais forte, e que agora se vê abandonado no recreio da escola sem qualquer proteção em frente às suas vítimas.

Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.

Por isso, neste prelúdio de um mundo em guerra, os povos europeus têm de fazer escolhas. Uma delas é lutar pela sua soberania e romper com o escolho que representa a União Europeia, um instrumento ao serviço de potências como a Alemanha e a França em detrimento de países como Portugal. Outra é estabelecer relações de igualdade e respeito mútuo entre países e procurar promover um mundo onde prevaleçam as regras e não a lei do mais forte.

Naturalmente, nada disto faz sentido sem governos que trabalhem para o bem-estar dos seus povos como um todo e não para alimentar as riquezas de elites que estão subordinadas a interesses externos. A guerra que nos espreita hoje é a mesma a que alguns fecharam os olhos quando acontecia noutras regiões do planeta. O general prussiano Carl von Clausewitz escreveu a frase que é ensinada em todas as escolas militares: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.

Nesta hora dos monstros, recordo que há muito que o Ocidente mergulhou o mundo na guerra e que muitas vezes rejeitámos os refugiados dos conflitos e das crises alimentares que o próprio Ocidente criou. Enquanto jornalista, assisti a todo o tipo de massacres que insistentemente tentaram ocultar porque eram obra daqueles que os nossos líderes financiam e apoiam. Por causa disso, prenderam e assassinaram jornalistas. Para que não pudéssemos ver o que acontecia em Gaza, assassinaram duas centenas de repórteres.

No Donbass ou no Líbano, as bombas tinham o carimbo das empresas norte-americanas e europeias. Eu vi-as, ninguém me contou. Debaixo delas morreu muita gente inocente. É este o destino que queremos para a Europa?