Preparado o teatro – quem atuará melhor?

(João Gomes, in Facebook, 20/02/2026)


O Médio Oriente volta a ser palco de um teatro de sombras e poder, e os Estados Unidos não se fazem esperar na construção do cenário. Enquanto a retórica política pinta o Irão como ameaça imediata, a realidade no terreno é mais complexa: porta-aviões, caças stealth, destroyers e sistemas de defesa formam um espetáculo de força que impressiona mais pelo apelo visual e psicológico do que pela certeza de um conflito declarado.

O que foi deslocado para a região é impressionante: o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford com seus grupos de ataque, dezenas de aeronaves F‑22 e F‑35, reabastecedores, AWACS, sistemas Patriot e THAAD, e milhares de soldados em prontidão. Em termos estratégicos, isso representa uma combinação de poder ofensivo real e capacidade de dissuasão elevada. Cada movimento é calculado, cada base ocupada transmite a mensagem: “Estamos prontos, mas não queremos disparar primeiro.”

Mas o teatro não se limita aos EUA. O Irão observa, calcula e responde com as suas próprias cartas: mísseis de longo alcance, drones, forças regionais e alianças estratégicas que podem infligir custos reais ao adversário. O equilíbrio é delicado, e cada ato de “preparação” cria repercussões imediatas nos mercados globais, no preço do petróleo e na economia mundial.

O espetáculo, porém, tem vítimas reais: civis que vivem sob a ameaça constante de escalada, populações regionais que veem o custo humano e material aumentar, e até mesmo aliados que sustentam a logística e os custos financeiros dessa “encenação de poder”. A plateia internacional assiste, fascinada, enquanto a política de dissuasão se mistura com interesses estratégicos e económicos, deixando no ar a pergunta inevitável: quem atuará melhor?

O teatro está montado. O palco é o Golfo Pérsico, as luzes iluminam porta-aviões e bases militares, e os protagonistas ensaiam movimentos que podem ser tanto gestos de intimidação quanto preparações para combate real. Neste espetáculo, o poder mede-se tanto em capacidade militar quanto na habilidade de controlar percepções, e os efeitos colaterais recaem sobre aqueles que nunca subiram ao palco: civis, economias e a própria estabilidade regional.

Enquanto os governos calibram cada ato, os espectadores mais atentos percebem que a guerra não começa necessariamente com disparos, mas com movimentos estratégicos, negociações e demonstrações de força cuidadosamente coreografadas. O teatro está pronto, e resta saber quem atuará melhor – se a dissuasão, se a ação, ou se, como muitas vezes acontece, a plateia paga o preço dos ensaios e das interpretações falhadas.

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Transformar agressores em vítimas: A caça aos antifascistas em França

(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/02/2026, Revisão da Estátua)


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Não é assim que a história está a ser contada pelos órgãos de comunicação social mas há cinco dias um elemento fascista, Quentin Deranque, acabou morto, em Lyon, depois de uma tentativa de boicote contra uma conferência de esquerda. De seguida, a presidente do parlamento francês, Yael Braun-Pivet, proibiu a entrada no edifício de Jacques-Elie Favrot assessor parlamentar de Raphael Arnault, deputado da França Insubmissa, para quem o próprio governo pede também a perda de mandato, apenas porque no passado militaram na Jeune Garde, organização antifascista acusada agora de matar Deranque. 

Entretanto, grupos neonazis anunciam caçadas contra os “vermelhos”. No domingo, em Lyon, vários fascistas atacaram com barras de ferro membros do comité de solidariedade com a Palestina. Sucedem-se os ataques contra espaços de esquerda, com a sede da França Insubmissa, em Paris, a ser alvo de uma ameaça de bomba esta quarta-feira, num contexto em que a extrema-direita pede a proibição deste partido que, integrado na Nova Frente Popular, ficou à frente nas últimas eleições legislativas. A narrativa agora é a de que a “extrema-esquerda violenta” atacou “jovens católicos pacíficos”.

Para se perceber o grau de manipulação mediática e política é preciso recuar até sábado, 14 de Fevereiro, quando um grupo de mulheres de extrema-direita do Colectivo Nemésis se dirigiu de forma premeditada ao Instituto de Estudos Políticos, onde falava a franco-palestiniana Rima Hassan, eurodeputada pela França Insubmissa, com o objectivo de destabilizar a iniciativa. Quando alguns militantes de esquerda que estavam destacados para garantir a segurança da iniciativa tratou de afastar estas mulheres, apareceu um grupo de homens fascistas para se juntar à provocação e começaram as agressões.
É então que chegam mais antifascistas em socorro dos organizadores da conferência e conseguem fazer fugir os provocadores. É só a centenas de metros do local da iniciativa que, já sem a participação da França Insubmissa, se dão os confrontos mais duros, de que estão acusados alegados membros da Jeune Garde, e é nesse lugar que morre Quentin Deranque. Não num assassinato premeditado, mas como agressor num combate de rua com os agredidos. Não como um ordeiro jovem católico mas como alguém que começou os desacatos contra uma iniciativa política pacífica.

Há que recordar que Lyon tem uma longa história antifascista e que é conhecida como a capital da resistência pelo seu papel central na organização da luta contra a ocupação nazi.  Foi nesta cidade que Klaus Barbie instalou a sede da Gestapo e ficou conhecido como o carniceiro de Lyon. A filha de um dos líderes da resistência descreveu a história arrepiante do seu pai, a quem espancaram, arrancaram pedaços de pele ao seu corpo, mergulharam a cabeça em amoníaco e o queimaram vivo até acabar morto. Outras mulheres denunciaram que os alemães treinavam pastores alemães para morder e violar mulheres. Klaus Barbie foi directamente responsável por enviar 14 mil judeus e membros da resistência para campos de extermínio.

Durante meio século, o repúdio contra a barbárie fascista fez crescer o apoio às forças comunistas e de esquerda, assim como ao movimento sindical, e quando voltaram a aparecer grupos neonazis nas cidades franceses a juventude nunca deixou de os combater. Nos anos 80 e 90, apareceram organizações antifascistas em todo o país, muitas delas compostas também por imigrantes, incluindo portugueses, que enfrentavam o neonazismo nas ruas. Em 2018, surgiu em Lyon a Jeune Garde, nome de uma canção histórica do movimento juvenil comunista, e depressa se espalhou a outras cidades francesas. Três anos depois, um dos seus membros, Raphael Arnault, agora deputado, foi agredido por neonazis. Em Fevereiro de 2022, uma conferência antifascistas em Estrasburgo, com a participação da Jeune Garde, foi atacada por hooligans fascistas. Apesar da violência cada vez maior da extrema-direita, em 2025, os tribunais franceses decretaram a ilegalização da Jeune Garde.

Num tempo em que  organizações fascistas aparecem como cogumelos perante a indiferença dos Estados capitalistas, não pode haver neutralidade perante quem defende a discriminação racial, para quem defende a retirada de direitos às mulheres, para quem agride actores e pede a proibição de livros, para quem defende leis que perseguem sindicatos e aumentam a exploração laboral, para quem aplaude a repressão policial contra os bairros de trabalhadores.

Fonte aqui.

Um crime coletivo

(Manuel Loff, in Público, 18/02/2026)

Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos Ocupados

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese.


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“Em vez de deter Israel, a maior parte do mundo armou-o, forneceu-lhe desculpas e abrigo político, apoio económico e financeiro (…) Nós, que não controlamos capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, como humanidade, temos um inimigo comum, e que as liberdades, o respeito pelas liberdades fundamentais, são a última via e ferramenta pacífica que temos para recuperar a nossa liberdade“.

Isto foi o que Francesca Albanese disse numa conferência da Al Jazeera no passado dia 7 falando dos dois anos e meio de “genocídio em grande escala” em “que agora se transformou a ocupação ilegal prolongada do território palestiniano por Israel”, como escreveu no último dos seus relatórios como relatora da ONU para os territórios ocupados da Palestina (O genocídio de Gaza: um crime coletivo).

Não disse nada que não tivesse dito no cumprimento das suas funções. Desde que, em 2023, o Comité dos Direitos Humanos da ONU a nomeou, Albanese tem feito um trabalho notável, não apenas na denúncia da limpeza étnica, do memoricídio e do genocídio de que Israel é culpado como potência ocupante, mas de fundamentação rigorosa, jurídica e cientificamente inatacável, de como a ocupação é um “projeto de mais de um século de colonialismo de aniquilamento” como se pode ler no seu impressionante relatório de 2024, Genocídio como apagamento colonial.

Face à coragem desta mulher, Israel move-lhe uma guerra sem quartel. Washington impôs-lhe as mesmas sanções que já tinha imposto a juízes e procuradores do Tribunal Penal Internacional por emitirem um mandado de captura contra Netanyahu. Que a juntem ao longo rol de personagens internacionais a que os israelitas chamam “antissemitas” – a abominável manipulação do conceito está a ter consequências irreversíveis no seu uso moral e político —, em que se incluem o Papa Francisco, António Guterres e a ONU, mais todas as ONGs humanitárias que operam na Palestina, não surpreende ninguém.

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese, considerando “ultrajantes” as suas declarações por acharem “que visam, não o Governo israelita mas Israel enquanto povo e nação”, replicando palavra por palavra o argumento de Netanyahu.

À França juntou-se ao grupo habitual na conivência com Israel: Alemanha e Áustria (onde governam, note-se, coligações da direita com social-democratas) e os governos italiano e checo, de ultradireita. Todos eles divulgaram nas redes oficiais um vídeo truncado da intervenção de Albanese. Como escreve a Amnistia Internacional, “tivessem ao menos sido tão veementes e contundentes a confrontar um Estado que comete genocídio, ocupação ilegal e apartheid quanto foram ao atacar uma especialista da ONU. A sua cobardia e recusa em responsabilizar Israel contrastam fortemente com o compromisso inabalável da relatora em dizer a verdade ao poder.

O trumpismo e o regresso às formas mais desaforadas do velho imperialismo estadunidense, que, depois da Venezuela, tem hoje na asfixia literal da vida em Cuba a sua última manifestação, têm procurado apagar definitivamente o Direito Internacional. E ajudam a que o desprezo da ONU como base de um mínimo de equidade no sistema internacional passe a ser a atitude de quase todos os Estados europeus.

O discurso do “respeito pelo Direito Internacional”, tão típico da retórica europeia, Portugal incluído, revela-se pura aparência. A Europa não aprende nada. Nem com a Gronelândia, nem com a ingerência direta dos EUA nos processos eleitorais – Marco Rubio acaba de apelar ao voto em Orbán na disputa eleitoral contra um ex-membro do governo deste. Imitando Trump e Netanyahu, a Europa cumpre obedientemente o modelo contra o qual, em Davos, o primeiro-ministro canadiano advertia: o da “simulação de soberania ao mesmo tempo que se aceita a subordinação”.

“O genocídio contínuo dos palestinianos deve ser entendido como um crime possibilitado internacionalmente”, escreve Albanese. Um crime coletivo. Não admira que quem o pratica a queira calar.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990