A Europa sem saber o que fazer com a carta de alforria

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 21/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O dilema europeu: o escravo alforriado, entre a escravidão e a liberdade.

Escravidão, vassalagem e opressão em contraponto com a coragem, a resistência e a autonomia, são as marcas dominantes da História. A luta pela liberdade e a igualdade contra o domínio aceite ou forçado determina o papel dos povos ao longo dos tempos.

Existem dois tipos de atitudes perante a opressão; a dos que a aceitam a obediência voluntária e a dos que não sabem o que fazer com a sua autonomia e livre arbítrio. Este dilema foi particularmente visível com o final da escravatura nos Estados Unidos e nas colónias francesas. Com o fim da escravatura, os escravos viveram o paradoxo de serem livres e não terem senhor ou dono que lhes garantisse a segurança e a sobrevivência.

A Europa está a viver o paradoxo do escravo alforriado. Os Estados Unidos dispensaram-na e a Europa deixou de ser necessária para a sua estratégia e passou a ser um empecilho.

A Europa, tal como os escravos alforriados, mantem-se na fazenda dos patrões, oferece-se para ser trabalhador sem salário, ou com um contrato de prestação de serviços, disposta a tudo, sem armas, sem aliados, para já à mercê da venda dos seus melhores ativos à China.

Quanto à relação com os EUA, o que tem a União Europeia a oferecer e que justifica a ida de Macron a Washington? Os Estados Unidos de Trump estão a impor um negócio leonino à Ucrânia de Zelenski: o pagamento da guerra que desencadearam com as matérias-primas ucranianas. A Europa, agora alforriada, isto é dispensada pelos senhores, vai oferecer-se para fazer o papel de guarda e gendarme para assegurar que o negócio entre os EUA e a Ucrânia seja feito em segurança.

9 pensamentos sobre “A Europa sem saber o que fazer com a carta de alforria

  1. Claro, havia quem se submetesse a tudo e quem fugisse. Os quilombos do Brasil eram a prova disso e ainda hoje há comunidades formadas em torno dos antigos quilombos.
    Que ainda houvesse gente a tentar fugir apesar da repressão cruel mostra que a ideia de ser escravo não agradava a maior parte das pessoas.
    Muitas vezes para absolver a barbaridade que foi a escravatura se vem com a conversa da treta de que a escravatura também existia naquelas sociedades.
    O que se esqueceu de dizer e que esta escravatura “industrializada” tinha uma agravante terrível: o exílio forçado.
    Gente que era arrancada do seu continente e levada para lá do sol posto em barcos negreiros, em condições terríveis.
    Calculasse que em alguns transportes metade dos desgraçados morriam pelo caminho.
    Antes de embarcarem eram baptizados a força e tornavam se oficialmente membros da religião dos seus captores sem que certamente percebessem alguma coisa do seu assunto.
    Chegados a uma terra que não conheciam eram despojados até da suas identidades. Eram lhes dados nomes diferentes e aí do desgraçado que não respondesse pelo novo nome.
    Se tivessem mulher e filhos eles seriam vendidos a um senhor e eles a outros e muitas vezes também os filhos eram divididos.
    Os escravagistas achavam uma verdadeira maçada terem de lidar com o desespero que acometia as mulheres a quem tiravam os filhos que muitas vezes lhes estragavam os negócios pois que a mãe muitas vezes ficava “estragada”.
    Ou seja, a depressão de porco que apanhava impedia a de render no trabalho e não raro eram as que simplesmente se deixavam morrer.
    Daí que não admirava que alguns se agarrassem a um senhor que parecesse um pouco melhor que outros sabendo se no meio de uma sociedade que os via como inferiores e lhes vedava o acesso a maior parte dos trabalhos “de brancos”.
    Era simplesmente uma questão de sobrevivência física, de escolha de um mal menor.
    Nada tem a ver com as razões pelas quais os dirigentes europeus optaram por ser vassalos de outra potência em vez de escolher uma política independente de blocos e capaz de negociar honestamente e com lisura.
    O problema e que a Europa nunca soube ou nunca quis fazer isso.
    E agora vê se metida num saco de gatos.
    Mas a cama onde se está a deitar foi a Europa que a fez quando achou boa ideia confrontar o vizinho do lado por vassalagem a uma gente que nunca foi de fiar e por querer continuar a tratar os vizinhos do lado como no tempo em que os compravam como escravos aos tártaros.
    E não venham com a treta que muita dessa gente era ucraniana pois que por esse tempo não havia Ucrânia e todos os desgraçados daquela região que cá batiam como escravos eram russos e como tal eram designados. Achando nos boa ideia dizer que os desgraçados eram pagãos, o que nos daria o direito a trata los como caes. Tratando os como inferiores, sub humanos, animais. A velha história dos “pretos da neve”.
    E como não fomos capazes de arrepiar caminho e continuamos a não ser, achamos boa ideia afundar ainda mais a nossa economia e comprar armas em vez de nos sentarmos com os dirigentes russos.
    Em vez de lhes passarmos atestados em psiquiatria e lhes colecionarmos cancros.
    Mas não me parece que esta gente queira ir por aí.

  2. Alguns escravos que fugiam dos seus senhores nas Américas, incluindo os escravos na América do Sul dos portugueses, holandeses, espanhóis, etc rumavam para os territórios desabitados, ou ainda não colonizados, onde encontravam os indígenas. Por vezes conseguiam coexistir, e até colaboravam ou entreajudavam-se, e até se uniam (os cafuzos e caborés). Os escravos sentiam-se mais seguros quanto mais longe dos colonos europeus, sobretudo nas fases iniciais da colonização, onde não tinham direitos, mesmo que arriscassem a vida por zonas selvagens com os perigos inerentes, quer dos autóctones quer da fauna (e flora) selvagem, que desconheciam ou não estavam familiarizados.
    Agora, como escravos libertos no meio da sociedade colonial e pós-colonial, corriam vários riscos, e só em alguns sítios conseguiam integrar-se minimamente.

  3. Alias, o 12 anos escravo é baseado na história real de Solomon Nordhupp, um músico que vivia descansado num estado do Norte, era músico, tinha mulher e filhos e que foi raptado por gangster e forcado sob tortura a dizer que era um escravo fugido da Georgia, sítio onde nunca tinha ido.
    A escravatura sempre foi um tema que me interessou mas mesmo assim não tinha grande conhecimento dessa vertente da escravatura.
    De alguém livre poder ser raptado e levado para lá do Sol posto tendo de fazer trabalhos que nunca tinha feito e ser tratado como um animal.
    Mas era realmente possível tendo em conta que o tráfico negreiro era caa vez mais perseguido e a renovação da mão de obra não era fácil ate porque as condições brutais impostas aos escravos não deviam favorecer uma reprodução prolífica.
    Foram mesmo preciso 12 anos para sair dali e voltar a ver a familia, a filha mais velha já lhe dera um neto.
    E, claro, durante aqueles anos deram no como morto ou tendo abandonado a família de livre vontade.
    E, claro, gente mantida na ignorância, tratada como animais acabava por desenvolver uma verdadeira dependência de quem os maltratava tal como as mulheres vítimas de violência acabam por achar que não conseguem sobreviver sem o seu carrasco.
    Agora o que fez os europeus ser vassalos dos americanos sempre foi o pensar que poderiam contar com eles para impor novas formas de exploração a outros povos. Não teve nada a ver com ignorância mas com canalhice.
    Nunca pensaram e que um dia se levantaria do outro lado do mar alguém que acha que não precisa de nós para nada.

  4. Pois é, não há almoços (refeições) grátis, muito menos guerras…
    Se bem que os “grandes líderes” que têm aparecido muito na televisão ocidental, frequentemente pelos piores motivos ou a fazerem fracas figuras, manjam sempre bem, à grande e à francesa, quem passa a fome, miséria e as dificuldades da guerra são os milhões de civis e “soldadinhos de chumbo”. As migalhas vão na totalidade para esses, que são a esmagadora maioria, enquanto o bolo e as suas grandes fatias ficam com os senhores da guerra, os financiadores, os mecenas do equipamento bélico, dos grandes interesses instalados e em disputa, e para os seus testas-de-ferro que se sentam à mesa da negociações (que são negociatas de grande escala, quase sempre).
    Já agora, convém referir que não era só “segurança” e “protecção” que os esclavagistas davam aos escravos, muitos deles também eram oprimidos, maltratados, torturados e assassinados pelos seus “senhores”. Se alguns tiveram reticências em ir-se embora quando foram alforriados, foi por temerem que qualquer outro “senhor” os apanhasse e os tratasse ainda pior, ou serem vitímas de assédio, rapto ou sequestro de gangues de bandidos.
    Ontem estava a dar no TeleCine o filme O Nascimento de uma Nação, precisamente sobre a escravatura. Há também um filme muito conhecido, 12 anos escravo. Qualquer um deles não deve andar muito longe da realidade, se calhar até pecam por serem lisongeiros para os tempos da escravatura.

      • Bom, cada um interpreta o filme como entende. Eu não vi o filme por inteiro, e confesso que as partes mais degradantes e violentas não quis ver (não estava a ver de início nem estava com a disposição para tal).
        Se o filme é um panfleto de propaganda, não sei dizer. Talvez seja, talvez não. Mostrar alguns tipos de violência que eram infligidos nos escravos, e o tratamento que lhes davam alguns esclavagistas, não é em si mesmo um panfleto de propaganda. O filme é degradante e não só para os escravos, se bem que em graus diferentes. Se alguém se revê naqueles comportamentos, isso é subjectivo. A sensação que me deu é que qualquer ser humano decente repudiaria o que é mostrado.

        Já agora, ter uma opinião formada sobre uma obra, neste caso de cinema, com base apenas em algumas críticas (provavelmente politizadas, ou com alguma “agenda”, não sei) é um pouco redutor, mas como não vi filme (não vi o início, não vi o fim, fui vendo uns pedaços pelo meio), não tenho opinião, digam o que disserem a britannica ou a wikipedia.

        É um filme que é preciso ter algum estômago e disposição para ver. O 12 Anos Escravo já vi algumas vezes, estou mais à vontade para poder falar sobre ele. Lá existe o branco bom e o branco mau, no Nascimento de uma Nação não vi um branco bom para os escravos nos pedaços que vi.

        Há ainda o romance ficcionado do Tarantino, Django Libertado, mais aí trata-se mais de um filme “pulp fiction”, apesar de também ter a escravatura na América do Norte como tema central. Não tem tanto valor histórico, mas também tem algum contexto histórico. Esse também vi, e apesar do estilo sangrento habitual nos filmes do Quentin, trata-se claramente de uma violência estilizada, de filme de acção.

        • Vi o filme NA ÍNTEGRA há muitos anos e a opinião que tenho não se baseia “apenas em algumas críticas”, ou aliás em crítica alguma, seja de quem for, mas apenas na minha própria apreciação. Lembro-me de o ter visto encorajado por uma crítica positiva num jornal português, que o referia como “um marco na história do cinema” ou coisa parecida, um fenómeno “a não perder”. Sê-lo-á porventura em termos de inovações técnicas, montagem, enquadramentos e outros aspectos, mas é, sem a mínima dúvida, um megapanfleto de propaganda descarada ao Ku Klux Klan, assumidamente racista e reaccionário, que apresenta os negros como animais estúpidos e desprezíveis, que merecem todas as malfeitorias que lhes façam e ainda mais. Não mostra apenas “alguns tipos de violência que eram infligidos nos escravos e o tratamento que lhes davam alguns esclavagistas”. Aplaude-os e justifica-os. O realizador terá sido um inovador, mas outro “mérito” teve também, absolutamente incontestável: foi um racista de merda, um filho de um comboio de putas desprezível, e o “marco na história do cinema” que pariu é, quanto a mim, um autêntico vómito!

          Sugiro que o vejas na íntegra, sem fast forwards, parando a imagem em eventuais intervalos para mijar, porque é muito comprido, e aposto que o juízo que farás não será diferente do meu.

          • O que percebi do enredo do filme: há um escravo que é cristão e sabe ler, cujo proprietário o usa como ajudante e tutor de outros escravos, às tantas o reverendo vai à quinta e sugerem que usem o escravo como pregador itinerante, ou pastor para que com a palavra de Deus suavize a revolta e atenue as misérias que os escravos de outros proprietários passam diariamente, sob os abusos mais severos e à lei do chicote, e sempre sob a alçada do patrono. Após se revoltar com o que vê nessas excursões, é confrontado e sob acusação e coacção de outros homens, é punido pelo seu proprietário, precisamente com inúmeras chicotadas.
            Comecei a ver quando ele e o patrão compram a escrava ao negreiro, que aparentemente cria uma relação intíma com o escravo pregador. Fui vendo uns pedaços, outros não, depois acabei a ver o filme com ele a ser acudido no dia seguinte a ter sido chicoteado, e pouco mais vi.
            Com o que vi não posso ter opinião, mas se me dizes que já viste na íntegra, que o realizador é um racista assumido (nem sei quem é, nem isso fui ver), acredito que assim seja. Mas se é assim, menos vontade tenho para ver o filme do princípio ao fim, mesmo que considere que qualquer pessoa sã da cabeça e com bom coração não deixa de ficar indignada com aquilo que é mostrado. Talvez seja uma forma de filme de propaganda brutalista… que é violento tanto psicologicamente como fisicamente, isso não tenho dúvidas, pelo pouco que vi.

            • No momento de tensão, quando está a ser confrontado pelo reverendo branco, o escravo pregador responde às frases bíblicas do acusador e defensor da escravatura com outras frases bíblicas que repudiam a escravatura, numa espécie de “duelo bíblico”, onde ficam expostas incongruências ou pelo menos divergências de interpretação e opinião. Claro que acaba mal para o escravo, que é então derrubado com uma coronhada e depois amarrado e chicoteado repetidamente “até o sol se pôr”. Enquanto isso ele transforma o sofrimento num sorriso de resistência e orgulho. Depois lá se endireita um pouco, e de manhã está de pé, mas assim que é desatado colapsa e é levado para os aposentos dos escravos, onde é tratado.
              A partir daqui, não sei… do que vi, a vida dos escravos era cheia de altos e baixos, uns chegam em estado miserável, como o caso da mulher que é comprada por sugestão do pregador itinerante, outros são punidos, torturados, etc… o subtexto destes acontecimentos, os desenvolvimentos, a mensagem por detrás do filme, não captei nisto que vi.

Leave a Reply to Albarda-mosCancel reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.