Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/12/2024, revisão Estátua de Sal)


Aquilo que para efeitos de propaganda passou a ter a designação de Inteligência Artificial nada mais é que a aplicação de uma tecnologia para impor um domínio. Os nossos antepassados também utilizaram as suas capacidades físicas e intelectuais para afiar pedras de sílex porque estas lhes garantiam vantagens na luta contra os inimigos. Não por acaso, ao longo da história, os departamentos de guerra dedicaram tantos recursos a desenvolver meios tecnológicos que lhes permitissem ganhar vantagem sobre o inimigo. Um mero exemplo: o GPS é gerido pelo Departamento de Defesa dos EUA; não é a voz de Inteligência Artificial que nos diz para viráramos à esquerda e direita num cruzamento é um instrumento de domínio político e social. É uma arma real, operada por dirigentes políticos reais, para atingir objetivos políticos reais pela força.

No caso dos seres humanos, que têm a perversidade como o pilar da ação para impor um domínio, o que atualmente se designa por inteligência artificial, é a versão atual da perversidade natural do homem que o leva a cumprir o seu desígnio: dominar, seja os seres da sua espécie, os das outras e o meio onde existem.

A descoberta da pólvora, da roda, do ábaco, da escrita, da bussola, do radar e do computador resultam de expansões das capacidades humanas. A fissão nuclear é uma expansão de capacidades existentes e coloca à humanidade o mesmo tipo de questão que já constava em quase todas as grandes religiões — os sistemas ideológicos: o Dilúvio, o Fogo devorador e destruidor, o Apocalipse, o Julgamento Final colocam, desde o início da sua história, como os humanos – enquanto espécie distinguível dos outros seres vivos -, se confrontam com os fenómenos naturais e que respostas lhes dão.

Darwin encontrou uma resposta para a questão: os seres humanos resultaram da evolução de outros que procuraram melhores soluções de sobrevivência e domínio. Melhores defesas, melhores locais de ataque. Houve seres que voaram para as alturas, outros que mergulharam nas profundezas das grutas ou dos oceanos. Uns protegeram-se com carapaças, outros com venenos, outros com a agilidade e a velocidade. Em todo o caso, a inteligência enquanto condição de sobrevivência.

Aristóteles defendia que as coisas naturais podiam produzir mudanças dentro de si mesmas, enquanto as coisas artificiais não se podiam autoproduzir, nem existencialmente nem em mudanças, porque apenas o natural possui uma essência; o artificial apenas possui apenas matéria da qual é feito. A propriedade gerativa do artificial está na alma do artesão. Não existe inteligência artificial. Ou então somos criaturas artificiais!

Decisivo, na história do mundo que conhecemos, é saber quem controla o saber que permite impor um poder. As religiões, com os seus Criadores do Universo, foram o mais poderoso e eficaz meio de domínio da humanidade com a crença na existência (artificial) de um ente super inteligente. O computador absoluto e omnipotente. O computador que se criou a si mesmo.

Cabe interrogar se os Dez Mandamentos, que segundo a narrativa bíblica foram entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai, são obra de inteligência dita natural ou artificial? Que razões levaram Deus a criar os Mandamentos, a não ser a ameaça da desobediência, ou do desprezo, ou da troca pelo Bezerro de Oiro? Deus, pela voz dos seus sacerdotes, recorreu à inteligência artificial para vencer uma ameaça e impor o seu domínio? Ou ao medo natural para obter a aceitação do seu domínio? Ou à perversidade para converter os infiéis, isto é, os que não o reconhecem?

O bem de maior valor no interior de um computador é o poder que a informação confere. Trata-se do domínio político do saber. Tão velho como o controlo do Oráculo de Delfos. Quem estava por detrás dele? Ou do espião que descobriu a brecha nas ameias do castelo, ou de Josué que com o seu exército conquistou toda a região do Negueve, da área das planícies costeiras e das montanhas escarpadas. Liquidaram toda a gente da terra, segundo a ordem do Senhor, Deus de Israel; desde Cades-Barneia até Gaza e desde a terra de Gosen até Gibeão. Tudo realizado numa só campanha, porque o Senhor, o Deus de Israel, estava a lutar pelo seu povo. Só depois disso é que as tropas de Israel, sob a chefia de Josué, regressaram ao seu acampamento em Gilgal.

Quando os atuais manipuladores da opinião colocam a metade da humanidade mais informada a discutir se existe uma inteligência natural dentro das caixas cranianas e uma artificial no interior de uma caixa de computador estão a desviar a atenção do essencial e que é o poder político e económico que a informação contida nas bases de dados confere.

O que se encontra por detrás do que o marketing designou como IA é o poder, é a essência da política: que grupo domina a sociedade. Todos os artefatos produzidos pela inteligência são artificiais e todos servem a imposição de um poder. Tecnologia ao serviço do poder. Política em estado puro. Nada mais do que a tecnologia resultado da inteligência se encontra embarcada num bombardeiro F35, mas também nada mais que inteligência se encontra na manobra da águia que leva o corvo até uma altitude em que ele não consegue respirar em vez de gastar energia a sacudi-lo.

A IA coloca em causa a nossa civilização. A Inteligência Artificial tem e deve ser tomada pelos cidadãos, pelos políticos e pelos atores sociais como um negócio sujeito às mesmas regras que podemos encontrar em qualquer outro em que um detentor de uma posição dominante corrompe um decisor para manter os seus privilégios. Elon Musk não é um génio da inteligência — seja natural ou artificial — é apenas um pirata que se estabeleceu num ponto dominante e o defende. Tal como George Rooke, um inglês, fez ao ocupar Gibraltar com forças anglo-holandesas em 1704. Ou como fez Afonso de Albuquerque com a estratégia de ocupação de estreitos no Índico.

Os construtores de opinião forçam-nos a acreditar que existe uma inteligência natural e uma outra artificial. A inteligência de Elon Musk ou do falecido Kissinger é natural ou artificial, e a de Trump, ou de Biden, ou de Putin, ou de Netanyahou ou de Xi Ji Ping? E que importância tem essa discussão a não ser a de nos cegar para o essencial que eles pretendem dos cidadãos: obediência e fé. Regressamos ao fundamentalismo da Idade Média.

E é obediência e fé que os humanos do século XXI pretendem que os seus sistemas políticos lhes ofereçam enquanto seres dotados de inteligência? É? Fica a interrogação para os eleitores e devoradores de telejornais.

Síria: É sobre dinheiro, dinheiro, dinheiro

(Martin Jay, in Strategic Culture Foundation, 13/12/2024, Trad. da Estátua)

Como é possível que os jihadistas apoiados pelo Ocidente no controle de Damasco tenham um chefe que está na lista de procurados nos EUA por ser terrorista?


Os políticos ocidentais estão a trabalhar o dobro para enganar o público crédulo, que está atordoado e confuso sobre a derrocada do regime de Assad, enquanto alguns membros mais astutos do público podem questionar como é possível que os jihadistas que agora controlam Damasco tenham, não só sido pagos com dinheiro dos impostos dos EUA, mas tenham também um chefe que está na lista de procurados nos EUA por ser terrorista..

Avance o deputado super idiota David Lammy, a versão negra e trapalhona de uma personagem de desenhos animados chamada Magoo. No entanto, o Sr. Lammy não é tão burro como parece, por isso, preste atenção às suas fortuitas intervenções no parlamento britânico para explicar tudo aos eleitores que ele supõe serem mais ou menos acéfalos.

Recentemente, o deputado Brendan O’Hara fez uma declaração justificando o bombardeamento israelita na Síria que coincidiu com a tomada de Damasco pelo grupo terrorista HTS, presumivelmente para garantir que a artilharia pesada, aviões e barcos não caiam nas mãos de um bando de barbudos sujos, que, Deus nos livre, podem usar isso contra os seus patrocinadores.

Os Estados Unidos aprenderam a lição com a estonteante operação estúpida no Afeganistão, onde soldados americanos deixaram veículos blindados, tanques e até aeronaves aos Talibãs antes que de fugirem? Possivelmente. Mas pode haver outras razões, como sejam poderem estar os americanos a considerar uma segunda operação pela qual eles – ou os seus representantes – quererão derrubar aqueles que agora estão no poder.

Isso não é tão absurdo quanto parece, dada a quantidade de mentiras descaradas que estão agora a ser inventadas e devidamente processadas por uma liga de jornalistas de call center que nem conseguem encontrar Homs num mapa da Síria. “O grupo que apoiámos para derrubar Assad acabou por não levar a sério a ideia de virar uma nova página. Não se pode confiar em Joulani, como você deve saber…” será o tipo de conversa oferecida a um grupo de jornalistas na conferência de imprensa da Casa Branca. A maioria das pessoas engolirá isso.

Entretanto, vale a pena dar uma espreitadela nas divagações dos parlamentares que defendem a destruição.

É correto entender que Israel tem preocupações legítimas de segurança num país que abriga o ISIS [ISIL] e a Al-Qaeda”, disse Lammy em resposta a uma pergunta parlamentar do deputado Brendan O’Hara, acrescentando que havia falado com um seu colega israelita.

“É por todas essas razões que queremos uma sociedade inclusiva que apoie a todos, mas nenhum de nós pode ter relações com grupos terroristas”, disse ele.

Estranho que ele tenha esquecido de mencionar que os mesmos grupos terroristas aos quais ele se referiu estão na folha de pagamento dos EUA e alinhados tanto com o Reino Unido como com os EUA. Ou isso significa que agora que os terroristas entregaram o regime de Assad aos EUA e a Israel, o seu papel não é mais relevante e, portanto, eles precisam de ser eliminados?

É difícil entender a conversa fiada de Lammy quando, evidentemente, o homem mal entende a imagem da Síria e parece estar lendo um roteiro. Lammy, afinal, foi recentemente apontado por uma investigação independente no Reino Unido que identificou uma dúzia de parlamentares que receberam dinheiro de Israel.

A história da Síria é de traição, traição e asneiras em grande escala, pelo que, afinal, não deixa de ser expectável, que os parlamentares britânicos que estão aproveitando o dinheiro de Israel também adotem os pontos de discussão preparados pelas IDF.

 No final das contas, foi o dinheiro que desempenhou um grande papel no golpe sem derramamento de sangue provocando um sucesso estrondoso, então talvez seja o dinheiro que agora está a ditar a narrativa no Reino Unido? Claro, o enfraquecimento do Hezbollah no Líbano e a Rússia não apoiar mais Assad também foram fatores. Mas o dinheiro fez o seu trabalho.

Atualmente, um capanga médio com barba e uma AK no HTS ganha cerca de 2.000 dólares por mês. Não é uma grande quantia, pode você pensar. Mas na Síria, um dos países mais pobres do mundo, com uma moeda local constantemente desvalorizada, essa quantia é significativa para um soldado do exército sírio que ganha apenas 7 dólares por mês.

Foi feito um acordo, e é por isso que os soldados do regime não resistiram. Esses eram os mesmos soldados que tiveram que recorrer à fabricação e venda de pílulas Captagon, simplesmente para ganhar alguns dólares para pagar as suas contas mensais de comida. Assim como em 2003, quando o governo dos EUA se recusou a pagar os salários atrasados ​​dos soldados de Saddam – que fugiram dos seus postos com as suas armas e criaram o que mais tarde ficou conhecido como ISIS ou ISIL – hoje, a mesma história repete-se.

Assad poderia ter permanecido no poder até à sua velhice se tivesse pago melhor aos seus soldados e permitido que a Rússia os treinasse. Por alguns dólares a mais.

Soldados do regime sírio ou políticos britânicos. Todos eles têm seu preço. Tente não pensar no hit pop dos anos 90 de Jessie J chamado ‘Price Tag’ que saiu no mesmo ano em que a guerra na Síria começou.

Não é sobre dinheiro, dinheiro, dinheiro

Não precisamos do seu dinheiro, dinheiro, dinheiro

Só queremos fazer o mundo dançar

Esqueça o preço

Fonte aqui.


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(Estátua de Sal, 16/12/2024)

 

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