Os palhaços assassinos e os políticos irresponsáveis

(Alfredo Barroso, in Facebook, 20/11/2025, revisão da Estátua)


Cristiano Ronaldo, futebolista vetusto e politicamente ignorante, que já foi grande a dar pontapés na bola, e já não é, mas pensa que, por ser famoso e multimilionário, está acima de tudo e de todos no futebol e na vida, foi à Casa Branca, em Washington, integrado na comitiva de um ditador saudita acusado dos piores crimes, dar um tristíssimo espetáculo de sabujice e saloiice lusitanas fascinado por um ogre ultrarreacionário, racista e neofascista que foi eleito presidente dos Estados Unidos da América.

Esse triste espetáculo de um futebolista arrogante e obsoleto, foi altamente elogiado na ‘Televisão Que Temos’ (TQT) pelo político racista e neofascista André Ventura – saudoso de um tempo que nem sequer conheceu e de uma guerra colonial em que não participou – que também anseia conquistar o poder pelo voto – como o conseguiu Adolf Hitler -, e então mandar a democracia às malvas e os críticos atrevidos como eu para a cadeia ou para o cemitério.

Vale a pena salientar como – já lá vai quase um século -, entre Março de 1930 e Janeiro de 1933, Hitler chegou ao poder na Alemanha, história que é admiravelmente narrada por Johann Chapoutot, professor de História Contemporânea na Sorbonne, no livro «Les irresponsables – Qui a porté Hitler au pouvoir?» (Gallimard, 2025), e que aqui cabe tão só sintetizar em não muitas palavras.

Um consórcio liberal-autoritário, tecido de solidariedades e fortes ligações ao mundo dos negócios, com os partidos conservadores, nacionalistas e liberais, com os órgãos de informação reacionários e com as elites tradicionais, foi perdendo gradualmente o apoio popular em sucessivas eleições, passando de quase 50 % dos votos a menos de 10 % – e interroga-se como conservar então o poder, sem maioria no Parlamento, e mesmo sem Democracia.

Quando as forças da repressão, guarda pretoriana do poder, o avisam que já não estão em condições de enfrentar e reprimir uma sublevação generalizada, esse poder, que já perdeu a sua antiga base eleitoral, decide aliar-se com a extrema-direita, com a qual partilha, no fundo, praticamente quase tudo, permitindo que os nazis se instalem no poder com o seu aval, mas julgando ingenuamente que será fácil dominar e controlar Hitler.

Foi com o pavor dos comunistas que os grandes industriais germânicos começaram a financiar o partido nazi, NSDAP, e foi sob a pressão dos meios capitalistas e ultraconservadores que o Marechal-Presidente Hindenburg, eleito em 1925, decidiu chamar Adolf Hitler ao poder, em 10 de Janeiro de 1933, nomeando-o chanceler de um governo de coligação com os partidos de direita, o Governo Hitler-von Papen. Seguiu-se o terror, o holocausto e a II Guerra Mundial, com 50 milhões de mortos, 27 milhões dos quais russos, que venceram as batalhas decisivas de Estalinegrado e de Kursk.

Regressando ao século XXI, com George Monbiot e Peter Hutchinson, que escreveram «A História Secreta do Neoliberalismo» sob o título «A Doutrina Invisível» (Presença, 2025) – que explica como a ideologia neoliberal controla as nossas vidas –, deparamo-nos com o que aqueles autores designam por «palhaços assassinos» que atacam as democracias. Eles Identificam uma quantidade de políticos «exibicionistas, escandalosos e absurdos», «seres humanos profundamente falhos de carácter, com egos desmedidos e elevados níveis patológicos de insegurança» que ascenderam ao poder e «estão a dominar a arena política em várias democracias» abrindo a «era dos palhaços assassinos».

Tudo terá começado com «o italiano Silvio Berlusconi – carismático, provocador e populista» – que «foi o pioneiro e o arquétipo do novo modelo político». E «logo vieram à tona outros personagens muito parecidos», como Donald Trump  (EUA), Boris Johnson (Reino Unido), Jair Bolsonaro (Brasil), Scott Morrison (Austrália), Narenda Modri (Índia), Benjamin Netanyhau (Israel), Rodrigo Duterte (Filipinas), Recep Erdogan (Turquia), Viktor Orbán (Hungria), Javier Milei (Argentina), Geert Wilders (Países Baixos).

Todos se distinguem pelo «comportamento burlesco», a «desfaçatez» e o «desprezo ostensivo que demonstram pela justiça, pelo Estado de Direito e pelos padrões de comportamento a manter no exercício de cargos políticos». «Chegam ao poder alimentando a indignação», e todos se comprometem «ruidosamente e em nome do povo» a abanar e mudar «a antiga e corrupta ordem política». Mas «invariavelmente, uma vez instalados no poder, a corrupção e o nepotismo prosperam como nunca».

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, altamente suspeito de corrupção, e escandalosamente rodeado por ela, encaixa-se como uma luva em todos os itens daquela definição.

Outro personagem que cabe perfeitamente na lista acima referida, e quotidianamente presente nos média lusitanos, sobretudo na TQT, é o neofascista do CHEGA, André Ventura, que odeia a democracia, o pluralismo, todas as esquerdas, as direitas adventícias (se é que ainda existem), invoca Salazar, aliás, três Salazares, e até terá, inclusive, conversado com Deus, que lhe terá ordenado que tome conta deste nosso Portugal (des)governado pelo Montenegro PM, que continua a fazer-lhe imensos tagatés e se parece cada vez mais com Franz von Papen…

Acho que perceberam o título que dei a esta crónica, não é verdade?!

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Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/12/2024, revisão Estátua de Sal)


Aquilo que para efeitos de propaganda passou a ter a designação de Inteligência Artificial nada mais é que a aplicação de uma tecnologia para impor um domínio. Os nossos antepassados também utilizaram as suas capacidades físicas e intelectuais para afiar pedras de sílex porque estas lhes garantiam vantagens na luta contra os inimigos. Não por acaso, ao longo da história, os departamentos de guerra dedicaram tantos recursos a desenvolver meios tecnológicos que lhes permitissem ganhar vantagem sobre o inimigo. Um mero exemplo: o GPS é gerido pelo Departamento de Defesa dos EUA; não é a voz de Inteligência Artificial que nos diz para viráramos à esquerda e direita num cruzamento é um instrumento de domínio político e social. É uma arma real, operada por dirigentes políticos reais, para atingir objetivos políticos reais pela força.

No caso dos seres humanos, que têm a perversidade como o pilar da ação para impor um domínio, o que atualmente se designa por inteligência artificial, é a versão atual da perversidade natural do homem que o leva a cumprir o seu desígnio: dominar, seja os seres da sua espécie, os das outras e o meio onde existem.

A descoberta da pólvora, da roda, do ábaco, da escrita, da bussola, do radar e do computador resultam de expansões das capacidades humanas. A fissão nuclear é uma expansão de capacidades existentes e coloca à humanidade o mesmo tipo de questão que já constava em quase todas as grandes religiões — os sistemas ideológicos: o Dilúvio, o Fogo devorador e destruidor, o Apocalipse, o Julgamento Final colocam, desde o início da sua história, como os humanos – enquanto espécie distinguível dos outros seres vivos -, se confrontam com os fenómenos naturais e que respostas lhes dão.

Darwin encontrou uma resposta para a questão: os seres humanos resultaram da evolução de outros que procuraram melhores soluções de sobrevivência e domínio. Melhores defesas, melhores locais de ataque. Houve seres que voaram para as alturas, outros que mergulharam nas profundezas das grutas ou dos oceanos. Uns protegeram-se com carapaças, outros com venenos, outros com a agilidade e a velocidade. Em todo o caso, a inteligência enquanto condição de sobrevivência.

Aristóteles defendia que as coisas naturais podiam produzir mudanças dentro de si mesmas, enquanto as coisas artificiais não se podiam autoproduzir, nem existencialmente nem em mudanças, porque apenas o natural possui uma essência; o artificial apenas possui apenas matéria da qual é feito. A propriedade gerativa do artificial está na alma do artesão. Não existe inteligência artificial. Ou então somos criaturas artificiais!

Decisivo, na história do mundo que conhecemos, é saber quem controla o saber que permite impor um poder. As religiões, com os seus Criadores do Universo, foram o mais poderoso e eficaz meio de domínio da humanidade com a crença na existência (artificial) de um ente super inteligente. O computador absoluto e omnipotente. O computador que se criou a si mesmo.

Cabe interrogar se os Dez Mandamentos, que segundo a narrativa bíblica foram entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai, são obra de inteligência dita natural ou artificial? Que razões levaram Deus a criar os Mandamentos, a não ser a ameaça da desobediência, ou do desprezo, ou da troca pelo Bezerro de Oiro? Deus, pela voz dos seus sacerdotes, recorreu à inteligência artificial para vencer uma ameaça e impor o seu domínio? Ou ao medo natural para obter a aceitação do seu domínio? Ou à perversidade para converter os infiéis, isto é, os que não o reconhecem?

O bem de maior valor no interior de um computador é o poder que a informação confere. Trata-se do domínio político do saber. Tão velho como o controlo do Oráculo de Delfos. Quem estava por detrás dele? Ou do espião que descobriu a brecha nas ameias do castelo, ou de Josué que com o seu exército conquistou toda a região do Negueve, da área das planícies costeiras e das montanhas escarpadas. Liquidaram toda a gente da terra, segundo a ordem do Senhor, Deus de Israel; desde Cades-Barneia até Gaza e desde a terra de Gosen até Gibeão. Tudo realizado numa só campanha, porque o Senhor, o Deus de Israel, estava a lutar pelo seu povo. Só depois disso é que as tropas de Israel, sob a chefia de Josué, regressaram ao seu acampamento em Gilgal.

Quando os atuais manipuladores da opinião colocam a metade da humanidade mais informada a discutir se existe uma inteligência natural dentro das caixas cranianas e uma artificial no interior de uma caixa de computador estão a desviar a atenção do essencial e que é o poder político e económico que a informação contida nas bases de dados confere.

O que se encontra por detrás do que o marketing designou como IA é o poder, é a essência da política: que grupo domina a sociedade. Todos os artefatos produzidos pela inteligência são artificiais e todos servem a imposição de um poder. Tecnologia ao serviço do poder. Política em estado puro. Nada mais do que a tecnologia resultado da inteligência se encontra embarcada num bombardeiro F35, mas também nada mais que inteligência se encontra na manobra da águia que leva o corvo até uma altitude em que ele não consegue respirar em vez de gastar energia a sacudi-lo.

A IA coloca em causa a nossa civilização. A Inteligência Artificial tem e deve ser tomada pelos cidadãos, pelos políticos e pelos atores sociais como um negócio sujeito às mesmas regras que podemos encontrar em qualquer outro em que um detentor de uma posição dominante corrompe um decisor para manter os seus privilégios. Elon Musk não é um génio da inteligência — seja natural ou artificial — é apenas um pirata que se estabeleceu num ponto dominante e o defende. Tal como George Rooke, um inglês, fez ao ocupar Gibraltar com forças anglo-holandesas em 1704. Ou como fez Afonso de Albuquerque com a estratégia de ocupação de estreitos no Índico.

Os construtores de opinião forçam-nos a acreditar que existe uma inteligência natural e uma outra artificial. A inteligência de Elon Musk ou do falecido Kissinger é natural ou artificial, e a de Trump, ou de Biden, ou de Putin, ou de Netanyahou ou de Xi Ji Ping? E que importância tem essa discussão a não ser a de nos cegar para o essencial que eles pretendem dos cidadãos: obediência e fé. Regressamos ao fundamentalismo da Idade Média.

E é obediência e fé que os humanos do século XXI pretendem que os seus sistemas políticos lhes ofereçam enquanto seres dotados de inteligência? É? Fica a interrogação para os eleitores e devoradores de telejornais.