Debate Trump-Harris: Circo da Idiocracia Estadunidense

(Raphael Machado in Twitter 11/09/2024)


(Em Portugal, se se votasse para as eleições americanas, a Kamala ganhava com maior percentagem do que aquela que o Kim Jong-il consegue na Coreia do Norte. Para os “comentadeiros” a Kamala é uma espécie de Super Moça dos heróis da Marvel. E o Trump? Bom, o Trump é um deslavado da língua que perdeu o debate a milhas. E quem diz que ele perdeu? Ora, as sondagens é que o dizem. Uma sondagem apresentada ontem na TVI, e cujos resultados se podem ver na imagem acima, dava só 37% ao Trump e, pasme-se, 73% à Kamala! Ou seja, a soma dá 110% devido ao desempenho magistral da Kamala no debate… É obra.

Não julguem que a Estátua criou a imagem acima recorrendo à IA. Não. O Jornal da Noite da TVI, emitiu mesmo esta imagem e a Sandra Felgueiras deu, em concomitância, os 73% à Kamala.

Estátua de Sal, 12/09/2024)


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Do ponto de vista do entretenimento, o primeiro debate entre Donald Trump e Kamala Harris foi bem menos divertido do que o debate entre Trump e Biden. E eu comecei comentando sobre o valor “cômico” do debate porque esse é o único proveito que se pode tirar desse tipo de circo político-eleitoral.

Como temos apontado há muito tempo, debates não servem para absolutamente nada. São apenas arenas em que se tenta decidir quem é o melhor sofista. E os debates usualmente fracassam inclusive nisso, porque a tendência é sempre que os apoiadores de cada lado saiam cantando vitória.

De resto, em primeiro lugar, Trump não estava debatendo apenas com Kamala Harris. Não foi um debate entre duas pessoas. Foi um debate entre Trump, de um lado, e Harris e os apresentadores do outro. A cada tópico, os apresentadores interrompiam para contra-argumentar contra Trump, o que é um tanto ridículo e demonstra com clareza que as empresas de mídia não são meros “espaços informacionais”, tendo interesses políticos específicos nas eleições.

O conteúdo do debate propriamente dito foi medíocre. Ambos são palhaços de circo, de pouca amplitude intelectual e de péssima articulação discursiva. A classe política estadunidense só é comparável à brasileira em sua tosquice.

Por uma parte, ambos ficaram se acusando mutuamente de não servirem Israel o suficiente, demonstrando uma vez mais que a prioridade da elite estadunidense é Israel, e não o próprio povo. Foi quase na mesma linha o tema ucraniano, com Harris acusando Trump de ser putinista, e Trump acusando Harris de ser apoiada por Putin.

A única diferença aí é que Harris diz que se Trump estivesse na presidência Putin estaria já em Kiev, enquanto Trump acusa Harris de não estar interessada na paz. De fato, Harris deixou claro que ela considera a defesa da Ucrânia vital para os interesses dos EUA na Europa. Mas não se deve acreditar na noção de que sob Trump o conflito ucraniano acabaria rapidamente. Trump não cessaria as remessas de uma hora para a outra e tentaria fazer “jogo duro” diplomático com Putin pra mostrar que é um “bom negociador”.

A realidade é que mesmo que Trump reduza o nível de engajamento dos EUA na Ucrânia, as elites europeias tentarão compensar isso de outras formas, o que inclusive pode acelerar a escalada.

Outros tópicos estiveram permeados por previsibilidade. Trump mencionou o caso da inundação repentina de imigrantes haitianos em Springfield, Ohio, mencionando os boatos de que os imigrantes estariam comendo animais de estimação. Harris não tem nenhuma postura clara em relação à imigração, exceto de que ela é “boa”, se for “legal”. Quanto a Trump, ele esteve 4 anos no poder, mas não fez nada de significativo contra a imigração, então a sua abordagem desses temas não passa de populismo eleitoral.

Trump, aliás, enfatizou que no seu governo ele pretende erguer barreiras protecionistas contra bens importados. Isso é interessante porque significa que sob Trump, o “desacoplamento” econômico tende a acelerar. Ele também parece querer impor barreiras alfandegárias a países que se desdolarizem, o que também é ótimo. Quanto a Harris, não há nenhum projeto claro e específico exceto dar continuidade à “Bidenomics”, que fracassou (e fracassou inclusive por causa da péssima política externa).

O resto foram acusações mútuas bastante toscas e sem sentido.

A insignificante morte de um pobre

(Tiago Franco, in Facebook, 10/09/2024)

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Uma das coisas que me intriga na guerra da Ucrânia é este rapaz, o Peskov. Não é propriamente uma figura que necessite de grande secretismo, já que é apenas o porta-voz do Kremlin (portanto, o papagaio de serviço) mas acho que não lhe vejo a boca a mexer há dois anos. Todas as declarações chegam assim, de imagem fixa, como se o homem estivesse preso num buraco qualquer e um imitador de vozes a ler o guião. É um, dos vários de ambos os lados que se dedicam à propaganda, mas parece-me ser o único em paradeiro incerto.

Já a Diana Soler, o Seixas da Costa e o Agostinho Costa mexem, e muito, os lábios, enquanto analisam o que se vai passando em Kursk. As posições do general “sôtor” são mais ou menos conhecidas e, à parte o seu entusiasmo pelo lado russo, por norma as suas análises batem certo com o que se passou (e passará) no terreno. Nesta temática, já o escrevi várias vezes, gosto de pragmatismo. Não me interessa quem tatua Putin nas nádegas ou quem adormece com um peluche do Zelensky. Interessa-me saber o que se passa e perceber, por imagens de satélite, sinais de fumo, código morse ou qualquer outro meio, o que se passa no terreno. Com Rogeiro, Milhazes, Isidros, Helenas e Ribeiros (da Visão) tenho sempre a sensação que estou a ouvir aquele famoso ministro da propaganda do Iraque (não é preciso contar a história porque vocês são todos velhos como eu e lembram-se dele).

Com a Soler, a Sénica, o Seixas da Costa, o Tiago Lopes, o Carlos Dias e outros do género, já fico ali com a sensação que o bom senso e a realidade ganham à ideologia. Isso é importante, pelo menos para mim, que tenho pouca paciência para narrativas sobre Nárnia e mundos paralelos (daí este carinho especial por liberais).

Ora, depois de algumas semanas a ouvir falar maravilhas sobre a invasão de Kursk (o Ribeiro até falou em “humilhação russa”), dei comigo a pensar: que raio andarão a fazer os russos para não ligarem à humilhação que todo o mundo parece ver? Ontem ouvi o embaixador Seixas da Costa e a Diana Soler dizerem, ambos, que Kursk não tinha gerado propriamente os resultados desejados.

O que é que aconteceu afinal? Os ucranianos entraram naquelas aldeias perto de Kursk com as suas melhores brigadas (desguarnecendo o Donbass) e os russos, que tinham por ali uns mancebos, bateram em retirada (uma versão mais sangrenta da invasão inicial das Malvinas por parte dos argentinos).

Mais uns camiões de mortos e, aparentemente, os russos não abrandaram nem retiraram tropas do Donbass (que seria o principal objetivo da Ucrânia). Em vez disso, foram buscar mais uns rapazes à Chechénia, e outros (da Wagner) ao Burkina Faso, e lá os deixaram para morrer ou estancar a ofensiva ucraniana. Para o comando militar, tanto faz. Quando estes morrerem logo se arranjam mais uns gajos lá na ponta da Sibéria.

Ao mesmo tempo, vendo as perdas no Donbass, os ucranianos deixaram em Kursk os antigos empregados de escritório a segurar a coisa e recambiaram as tropas de elite (sem o capitão Nascimento) novamente para o sul.

Portanto…em que resultou afinal a “humilhação russa”? Mais uns mortos de parte a parte, uns quantos prisioneiros de guerra, mais terreno papado no Donbass e umas aldeias russas – que a Ucrânia não conseguirá segurar quando ali chegar a cavalaria.

A minha pergunta é, novamente, para quê? Quantos mais destes desgraçados é que precisam de morrer, anónimos, em valetas, para que os contendores se sentem a uma mesa a discutir sobre territórios que, até há uns anos, ninguém sabia sequer apontar num mapa? Esta coisa da morte de pobres para o enriquecimento das elites e expansão dos impérios é algo que, decididamente, nunca me entrou na cabeça.

A História documentará o erro e o engodo que os ucranianos morderam quando os EUA, Reino Unido e NATO os empurraram para esta guerra. E claro, não deixará de registar o crescimento russo no meio desta chacina toda.

É preciso perceber quem é o adversário que se tem pela frente e simplesmente deixar de ouvir os idiotas úteis da propaganda. Em 2022 disseram-nos que o exército russo colapsaria antes do Natal. Em 2023 garantiram-nos que o garrote financeiro os deixaria de joelhos. Em 2024 percebemos que temos pela frente um dos exércitos mais poderosos do mundo, assente num mar de gente, suportado por uma economia de guerra, com produção própria e apoiado por algumas das maiores economias do mundo (com a China à cabeça).

Em que momento é que a Europa, o parente triste deste conflito, o Durão Barroso destas Lages, vai perceber que ajudar a Ucrânia já não passa pelo envio de mais armas mas sim pela imperiosa necessidade de fechar a torneira dos milhões, roubados a todos nós, e dar espaço à diplomacia?

Quantos pobres mais, é que precisam de morrer no campo de batalha, para acalmar a ânsia de poder dos burocratas e saciar a ganância de riqueza dos abutres do armamento?


Do rio ao mar a Palestina será livre

(Whale project, in Estátua de Sal, 11/09/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Hugo Dionísio, sobre o neoliberalismo e o fascismo, (ver aqui). Pela sua demonstração de que o fascismo – na sua vertente de cerceamento da liberdade de expressão -, já está instalado na Europa, resolvi dar-lhe o apropriado destaque.

Estátua de Sal, 11/09/2024)


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Um sírio a viver em Portugal há 25 anos – não foi daqueles que de lá saíram em 2014 -, diz que gosta de viver em Portugal. E diz que nos últimos tempos gosta mais ainda.

Diz ele que, Portugal é hoje o único país da Europa Ocidental, onde se pode dizer “Palestina Livre” sem ser preso. E as notícias que nos chegam da França ou da Alemanha confirmam isso mesmo. O simples uso de um keffieh pode valer multa em França e grosso espancamento pela polícia na Alemanha.

O antissemitismo é um saco enorme onde cabe tudo, todas as dissidências, todas as condenações ao estado genocida de Israel e à sua soldadesca sodomita.

Nessa Europa que aprendemos a admirar – muitas vezes com mentalidade de autoflagelação -, a democracia está a morrer, como que sepultada debaixo das bombas que destroem o povo de Gaza ou das balas e bulldozers que destroem a Cisjordânia.

Alguém disse um dia que Portugal era um oásis. Era mentira, mas agora é, infelizmente, verdade. Portugal é um oásis onde se refugia a liberdade de expressão na Europa Ocidental.

A vaca da Van der Pfizer disse a manifestantes no Porto que tinham sorte em não estar em Moscovo, porque logo seriam presos. A vaca sabia que estava a mentir pois, dificilmente, alguém seria preso na Rússia por criticar apoiantes do genocídio em Gaza.

Mas, no seu país, na Alemanha, seriam imediatamente presos e levariam logo ali umas bastonadas por conta. Porque é assim que têm acabado todas as manifestações contra o genocídio em Gaza, naquela terra que nunca foi desnazificada.

Alguma vez pensei que o meu país, martirizado por uma ditadura de 48 anos, seria o único país europeu onde ainda é possível escrever o que escrevemos aqui sem ser presos? Decididamente não. E esperemos que se mantenha assim. Que a Europa não apague aqui a luz da liberdade.

Do rio ao mar a Palestina será livre. É uma frase pela qual muita gente já foi presa ou apanhou da polícia por essa Europa que se diz um livre jardim.

Vão ver se o mar dá choco.