O oitavo dia da semana

(José Manuel Mendes, in “Prelúdio de Outono”, 1988)

Eu estava lá. Posso-lhe dizer que não saberei como foi possível caber tanta gente numa só voz. Faço-me entender? Eram muitas as vozes, milhares e milhares, mas havia uma que vinha de todas elas e ficava a pairar. Uma revoada, uma música de mar. Cada um de nós a bouvia à sua maneira. Eu ouvia-a pensando no inverno de sessenta cinco, o meu tio preso, o meu tio tinha-se envolvido nas greves da margem sul, as nossas visitas a Caxias, o pavor e a revolta, imagine com que coração atravessávamos os portões!, o vento a varejar as árvores quando saíamos. Ouvia-a também por entre as imagens da guerra nas fotos dos amigos, contaram-me estórias de arrepiar, iguais decerto a todas as estórias de guerra, mas havia uma diferença, na Guiné ou em Angola morriam tipos do meu bairro, tipos que jogavam matraquilhos nos cafés onde ia tomar a bica, um desses foi abatido a meio de um sorriso, o horror a preto e branco, corpos desfeitos no capim, navios carregados largando o cais. E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio do luto.

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Estava lá, mesmo junto dos blindados. A barba por fazer, cigarro atrás de cigarro, duas maçãs nos bolsos. Vim para a rua a esfregar os olhos, cheio de sono, e corri para o Carmo. Como a cidade inteira, afinal. Ou antes, como os que esqueceram o medo. Porque a derrota ainda poderia surgir, claro. A ansiedade crescia, tornava-se clamor, tantas palavras inventávamos, nem calcula as palavras que acolá nasciam para andarem de boca em boca, a tropa nervosa, um braço no gatilho, outro na festa, uma festa com subterrâneos de dúvida, note que não faltavam agoiros, preces, gestos temerosos. E lágrimas, lágrimas. Lembro-me sempre da velhinha, atrás de mim, murmurando Jurem-me que é verdade, o rosário na mão, as contas
caindo dos dedos até serem apenas cruz, murmurando e chorando, Jurem-me, um homem cortava presunto à navalha, oferecia aos militares, já o osso brandia no ar das palmas, dos punhos, das cantigas, alguém assomou a uma janela e pôs balões a subir, balões de feira, pombas de várias cores em viagem por cima dos telhados.

E, a dada altura, os tiros. Segundos de respiração suspensa, barulho de água a precipitar-se, a multidão em sobressalto.

Os rostos fitando a entrada do Quartel. Que se passaria além daqueles muros onde estrebuchavam quarenta e oito anos de ditadura? Que se passa, nosso cabo? Alguma novidade, senhor jornalista? Nada, conjecturas, rumores. Nada. No fundo da alegria sentíamos charcos, essa coisa pegajosa chamada angústia. O tal receio de um desaire. Pequeno e imenso receio, acredite. Entoámos o Hino Nacional. Gritámos Liberdade, Fascismo Nunca Mais, desejos assim. Desejos ou certezas, tudo se confundia.

E Vitória, Vitória, quantos vês em movimento de onda sobre o dique entretanto derrubado?, chegou a notícia da rendição, chegavam cravos, vermelhos, brancos, cravos, cravos, na raiz do sangue e no cano das espingardas, pão, chouriço, cerveja, não te perguntarei o nome, soldado a quem estendo uma das maçãs camoesas, não te perguntarei por que caminhos irás, chegariam sustos e flores silvestres, transístores, ecos de um país amanhecendo, a História mudava de página, eu estava ali, percebe?, ali, uma criança trepara-me aos ombros para observar as varandas apinhadas, os carros de combate, o povo no Largo.

Creio que não, não chovia. De qualquer modo fazia sol, um sol de dentro, tão intenso como se o mundo começasse finalmente a conhecer a claridade. Sábado? Quarta-feira? Impossível recordar-me. Se calhar domingo, as pessoas desobrigadas do emprego, enchendo os passeios e as praças, Rossio, Chiado, Cais das Colunas. Os cacilheiros, as gaivotas do rio. E daí, deixe ver, os domingos são uma chatice, horas gastas de montra em montra, jardim em jardim, a remoer azedumes. Às vezes o cinema, sim. As praias na época do calor, o futebol. Domingo não, não podia ser. Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo. Por exemplo, um oleiro no Terreiro do Paço. Um oleiro a tirar do barro crescentes de lua, flautas, placas à espera dos sinais por aprender. E, à volta, grupos a dançar. Dia único, garanto-lhe. A legenda de uma vida.



Os velhos

(José Soeiro, in Expresso Diário, 24/04/2020)

José Soeiro

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Uma “tragédia humana inimaginável”. Foi assim que Hans Kluge, director regional para a Europa da Organização Mundial de Saúde (OMS), classificou o que está a passar-se nos chamados “lares de idosos”. As palavras são fortes e não é caso para menos. Metade daqueles que morreram na Europa com Covid-19 eram residentes de estabelecimentos de cuidados continuados. Em Portugal, os números oficiais já se acercam perigosamente dessa proporção. Os 327 residentes em lares que morreram da infeção são cerca de 40% do total de óbitos no país, segundo a diretora-geral da Saúde.

Preocupados em reforçar os hospitais e encerrar as escolas, parece que só tardiamente acordámos para o que era preciso fazer nos lares. Proibiram-se visitas para conter a doença, mas não se acautelou desde logo a necessidade de separar áreas e garantir equipamentos de proteção para os profissionais, de realizar testes e reforçar o número de trabalhadores. Foi mais em socorro que em prevenção que começou a atuar-se.

Tinham já decorrido semanas desde o decretamento do isolamento quando os equipamentos começaram finalmente a chegar e se lançou um programa para que estudantes e desempregados se oferecessem para apoiar as “estruturas residenciais para idosos”. Quatro mil pessoas responderam ao apelo, cerca de 2200 candidaturas foram aprovadas. Mas, dizem os responsáveis das instituições, muitos voluntários desistem quando confrontados com a realidade dos lares. Por fazer está a requisição civil de equipamentos vazios – alguns hospitais privados, hotéis – que poderiam servir para os planos de contingência.

Foram os velhos, sobretudo esses 150 mil cujo confinamento em instituições tem décadas e antecede a pandemia, quem terá sofrido mais brutalmente o impacto da crise sanitária. Com as visitas proibidas, a solidão aumenta e o contacto com a família, por vezes já parco, desaparece. “Nem sei se a minha mãe já morreu”, dizia ao Público a familiar de uma utente do Lar do Comércio, em Matosinhos, onde residem 240 pessoas e sobre o qual se teme o pior. Em Portugal, há 2520 lares de idosos, a esmagadora maioria dos quais geridos por IPSS’s, informa o Governo. A esses há contudo que somar, acusa a associação das empresas privadas do setor, 3500 lares clandestinos, nos quais viverão 35 mil pessoas. O que se passará com elas nessas zonas de alto risco?

2.

Não é apenas nos lares que se sente o peso do abandono e da depressão. Os mais velhos, diz o Observatório da Solidão, sentem-se agora, mais do que nunca, a perder tempo de vida – e a alegria. O estudo sobre o modo como a pandemia está a ser vivida revela que é na faixa etária acima dos 70 anos que os efeitos psicológicos do confinamento e da pandemia são mais devastadores.

Não admira por isso que haja essas formas de resistência e de rebeldia – que Mariana Correia Pinto retratou no Público – dos velhos que, nos recantos dos jardins para onde escapam quando podem, explicavam à jornalista que não querem morrer nem da doença, nem da solidão. “Trago um sabão rosa, uma garrafa de água e vou lavando as mãos. Mas não me peçam para ficar em casa”, dizia um deles, numa tarde em que procurava na rua um pedaço de sol.

3.

Ao confinamento institucional e ao isolamento em casa, que retirou a muitos dos velhos o toque e esse contacto essencial com a vizinha, os filhos ou os netos, soma-se agora uma intolerável ameaça de discriminação. Quem começou por brandir oficialmente a possibilidade dessa condenação foi Ursula Von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia. Embrulhada numa retórica de “proteção dos idosos”, a sugestão atingiu muitos como uma faca apontada ao peito: as pessoas mais velhas, aventou aquela responsável, poderiam ter de ficar em confinamento até ao final do ano. Criar-se-ia assim, sem qualquer fundamento científico ou sanitário, uma espécie de terceiro grupo de pessoas, entre os infetados e os não infetados: os velhos. A esses, independentemente da sua saúde e de serem portadores ou não da infeção, haveria que manter fechados em casa muito para lá das medidas gerais de restrição dos movimentos da população.

A violência e a ilegitimidade de tal sentença foi denunciada, sonoramente, por Rosário Gama, da APRE. O apelo contra a estigmatização e a menorização dos mais velhos, como se estivessem sob tutela e não fossem dotados de autonomia, tem de ser ouvido por todos. O “regresso à vida” pós-emergência, que agora se perspetiva, será certamente diferente da vida que tínhamos antes de janeiro, porque com mais cuidados sanitários. Mas não pode significar, em caso nenhum, um apartamento dos mais velhos do espaço público e da vida social.

Aproveitemo-lo antes como uma ocasião para pensarmos como construir uma resposta pública de prestação de cuidados muito mais diversa e capaz de combater a galopante precarização da velhice. Façamos desse regresso, isso sim, uma forma de não voltar à normalidade do estigma e do idadismo, esse para o qual, como alertava Fernando Alves, os velhos não são “os que têm mais idade” mas os que têm “idade a mais”.


Um modelo que não nos serve

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/04/2020)

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Esta crise é uma tempestade perfeita para as economias periféricas do Sul da Europa. Para além de algumas delas se contarem entre os epicentros da epidemia, são economias altamente dependentes dos sectores do turismo, hotelaria, restauração, imobiliário e construção, que estão e vão continuar a ser afetados de forma especialmente intensa e duradoura pelas limitações adotadas em resposta à crise médico-sanitária e pelas alterações de padrões de consumo e estilo de vida que provavelmente se seguirão. São economias com tecidos produtivos muito pulverizados, com um peso das micro e pequenas empresas bastante superior à média europeia, e mercados de trabalho muito precarizados, com elevada prevalência de trabalhadores por conta própria e de modalidades atípicas e mais vulneráveis de contratação. Finalmente, têm muito pouca capacidade orçamental para responder à crise: em parte por desenho institucional, uma vez que não possuem soberania monetária; em parte por herança do passado, dado o fardo do endividamento que trazem da última crise.

Nas últimas semanas, pelo menos dois exercícios de medição e comparação internacional da vulnerabilidade das economias à crise do coronavírus ilustram isto mesmo. Em março, a agência alemã Scope Ratings publicou uma matriz de vulnerabilidade económica e dos sistemas de saúde que considerava, na parte económica, o peso do turismo no produto, o peso do emprego temporário e em micro-empresas, o peso da produção industrial e o grau de participação em cadeias de valor globais. Sem surpresa, as quatro economias europeias que surgem como mais vulneráveis são, por esta ordem, a Itália, a Grécia, Espanha e Portugal.

Há pouco dias, a The Economist elaborou o seu próprio ranking de vulnerabilidade, construído através da agregação de cinco indicadores: peso do emprego em pequenas empresas; percentagem de empregos que se estima não poderem ser realizados a partir de casa; peso dos sectores do lazer e restauração; dimensão do estímulo económico anunciado em resposta à crise; e medidas de proteção do emprego. A Grécia surge em primeiro lugar, a Espanha em terceiro e a Itália em quinto. O artigo não disponibiliza o ranking integral, não permitindo localizar Portugal ou perceber quais sejam o segundo e quarto classificados, mas parece bastante provável que um destes últimos seja o nosso país: as vulnerabilidades destas economias, incluindo a portuguesa, são bastante robustas à escolha de diferentes indicadores.

No meio de todos estes fatores de vulnerabilidade, há aspetos estruturais com raízes históricas profundas e especialmente difíceis de alterar. Mas há muito que decorre diretamente de escolhas políticas concretas. A estratégia de transformação de Portugal numa “Flórida da Europa”, especializada na exploração do turismo de sol e mar e na atração de reformados dos outros países europeus, foi afirmada em diversas ocasiões neste século e inspirou as decisões de mais do que um governante. Uma das origens intelectuais desta ideia é um artigo de 2006 do economista norte-americano Olivier Blanchard, em que se defendia explicitamente o “modelo Flórida” e a desvalorização interna como saídas para as dificuldades criadas pelo euro.

Terá ficado entretanto claro que uma tal sobre-especialização em segmentos do sector dos serviços caracterizados por salários baixos, empregos precários e baixa produtividade assenta numa visão estática e estreita das vantagens comparativas da nossa economia e introduz tendências para a desindustrialização, para a formação de bolhas de especulação imobiliária e para a vulnerabilização acrescida de uma boa parte da sociedade. Se essa aposta já comportava aspetos preocupantes mesmo em tempos de relativa bonança, revela-se realmente problemática perante uma crise como aquela com que estamos confrontados. Subitamente, tornam-se evidentes as desvantagens da excessiva dependência da monocultura do turismo e a importância da indústria nacional, não só para a economia como até para a segurança e para a capacidade de resposta médico-sanitária do nosso país.

É certo que não é e nunca foi possível converter instantaneamente a economia portuguesa numa economia altamente produtiva, maioritariamente assente em indústrias de alta tecnologia, serviços avançados e empregos de qualidade. Mas um longo período de apostas em sentido contrário, nalguns casos diretamente, noutros como consequência da dinâmica “natural” do mercado único quando se abdica de grande parte dos instrumentos de política económica, nomeadamente de politica industrial, não deixa de ter uma quota-parte importante da responsabilidade por trazer-nos até aqui. Esta crise está a deixar claro que este é um modelo que não nos serve; a discussão que se segue é como encetar o caminho para um modelo diferente.