O maior risco de António Costa

(David Dinis, in Expresso Diário, 21/11/2019)

Há quatro anos, quando formou o seu primeiro governo, António Costa entrou a todo o gás: tinha na mão uma estratégia clara, que passava por acelerar a saída das medidas mais restritivas da troika, dar gás à economia (por via da devolução de rendimentos) e comprometer a esquerda com a governação do país. Os primeiros meses, dois anos, foram assim. De alta intensidade.

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Esta segunda legislatura arrancou ao contrário, ao sabor das intendências. Com um programa eleitoral muito menos comprometido, sem medidas muito fechadas nem plano de ação para os primeiros 100 dias, com um orçamento de 2020 já bastante comprometido, com as reversões concluídas, em pleno comprometimento com a Europa, na sombra de uma desaceleração económica, o primeiro-ministro fez do dia 1 da nova legislatura o dia 1461 da segunda.

O problema? É que se não há agenda proativa, há problemas que não desapareceram. E passam a dominar a agenda. Dito de outra forma: à entrada do quinto ano de governação, Costa dá a sensação de ter perdido a iniciativa – deixando que esta seja dominada pelas más notícias que se acumulam. Quer ver como?

Na Saúde, as listas de espera para cirurgias não se resolvem, acumulam-se; a falta de profissionais nos hospitais adensa-se; os problemas dentro de cada serviço também, em consequência. Dia a dia, temos novas notícias disto mesmo.

Nas escolas continuam a faltar profissionais, agora com o problema adicional da dificuldade de deslocar docentes para as zonas do país onde as rendas se tornaram impraticáveis. Costa ainda ensaiou uma saída no Parlamento, dizendo que com a descentralização as câmaras tomariam conta dos processos; mas ‘esqueceu-se’ de dizer aos deputados que a lei continua a prever que as colocações continuarão a ser centralizadas no Ministério da Educação. Na prática, nada mudará.

Os polícias, entretanto, manifestam-se nas ruas. Cansados de assistir, sentados, ao fecho de negociações com outras carreiras; cansados das promessas de quatro anos sem que nada se resolva; cheios de esperar, até, pela integração na folha salarial de um suplemento que até os tribunais já condenaram o Estado a pagar. Para não falar da falta de meios. Agora, o que o ministro lhes promete é negociar em seis meses uma fórmula para resolver tudo… nos próximos quatro anos. Só que já passaram quatro.

E ainda poderíamos falar dos sem-abrigo, que têm um plano aprovado há três anos que não saiu do papel (apesar da pressão do Presidente). Como poderíamos falar do aeroporto do Montijo, do novo pacote de obras públicas, das pensões que se atrasam um ano até serem atribuídas, dos problemas na habitação, entre um sem fim de outros problemas que sempre se acumulam.

Não há nada de novo nisto, nem alguém espera que se resolvam todos os casos, como se houvesse milagres. Costa tem decisões em curso para alguns destes problemas. Mas sabe que não só tudo custa dinheiro (e precisa de prioridades definidas), como demora tempo a tirar do papel e pôr no terreno.

Mas o que também ninguém espera é que António Costa fique sentado, à espera dos resultados. A paciência de quem espera não é a mesma ao fim de cinco anos, de seis anos, que era no primeiro dia da primeira legislatura.

Atenção: ao contrário do que têm sido dito, não tenho dúvida que António Costa quer continuar primeiro-ministro para lá desta legislatura. Porque quer bater os 10 anos de Cavaco Silva. Porque se apresentou em 2015 com um programa para uma década. Porque sabe que só com tempo pode deixar uma marca – como lembrava, bem, Ascenço Simões no “Público”, um dos socialistas que o conhece melhor.

Não creio que seja por acaso que, durante a campanha das legislativas, António Costa lembrou várias vezes o seu percurso na Câmara de Lisboa. Foi assim: começou em minoria, na Câmara e na Assembleia Municipal; foi reeleito com maioria apenas na Câmara; acabou com um terceiro mandato, em maioria nos dois órgãos. Já no Governo, Costa foi PM depois de perder eleições; e conseguiu agora novo mandato ganhando eleições, ficando mais perto de uma maioria e menos dependente dos partidos. O objetivo, claro, é provar agora que o sucesso da legislatura anterior não foi do Bloco e PCP, foi dele e do PS. Chegará à terceira etapa?

É aqui que entram os obstáculos. O primeiro é a autonomia: quando prescindiu de formar uma maioria parlamentar com o Bloco, António Costa assumiu o bom e o mau do que virá: nestes quatro anos, estará por sua conta – os resultados bons serão seus, os maus também. O segundo é a economia, que será determinante para a margem de manobra que terá: orçamental, para distribuir rendimentos e aumentar investimento; assim como política, para garantir a sobrevivência no Parlamento.

Mas há um terceiro, e com isto volto ao início: António Costa precisa de recuperar a iniciativa política. E não pode perder muito tempo nisso, sob pena de exasperar o eleitorado da geringonça (que é o seu alvo). O Orçamento que se segue, para isso, será determinante. Se for mais do mesmo, pode ser o princípio do declínio.Voltar ao topo

O lugar narrativo da mãe que abandonou o bebé

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/11/2019)

Daniel Oliveira

A história do bebé abandonado em Santa Apolónia é daquelas que não me puxa à escrita. Não é insensibilidade. É até o oposto. A forma como todos os o que procuram a aparência do bem aproveitam estes momentos para uma boa oportunidade fotográfica retira ao drama íntimo tudo o que ele tem de íntimo, transformando cada um dos envolvidos em personagens de narrativas políticas.

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O herói acidental com que Marcelo se fez filmar, para sua própria glória, encarregou-se de estragar a banda desenhada simplista, obliterando todos os que, na realidade, salvaram a criança. Isso não faz dele nem bom nem mau, apenas nos recorda que as pessoas não se encaixam apenas nas categorias sociais com que as vemos: o sem-abrigo capaz de um gesto extraordinário.

O espanto, como se um sem-abrigo não fizesse o que qualquer um de nós faria no seu lugar, deu lugar à desilusão – afinal um sem-abrigo pode ser tão mesquinho e vaidoso como nós e, depois, à desculpabilização paternalista. Tudo o que acontece quando transformamos pessoas em personagens em vez de serem o que são: pessoas. E quanto mais desestruturadas forem as suas vidas, mais contraditórias elas tendem a ser. Porque não há nada de belo e puro na miséria.

Mas foi em torno da mãe de 22 anos que se gerou um debate caricatural. Daqueles onde as narrativas políticas moldam as pessoas às personagens-tipo que precisam, alienando-as de toda a individualidade. O ato extremo e inqualificável (no sentido em que não se pode qualificar) de uma mãe (ou pai) abandonar o seu filho à sua sorte não tem nada de antinatural, ao contrário do que se pensa. Mas é de uma violência primitiva que desafia tudo o que temos, por milénios de desenvolvimento, como certo. E perante a incompreensão desse ato geram-se duas narrativas: a da mãe agressora e a da mulher vítima.

A tese da agressora trata a miserável sem-abrigo como alguém que, independentemente do seu estado, sabe distinguir o bem do mal e escolheu o mal. Apesar de, segundo o psicólogo clínico forense, ela ser imputável, porque tem consciência do que fez, o seu comportamento evidencia perturbações de personalidade causadas pela “instabilidade emocional e baixa autoestima”. Não é relativismo moral, é análise técnica. Para não parecer socialmente insensível, o retrato precisa de heróis igualmente pobres, que contrastem com ela. Que confirmam, eles mesmos, a possibilidade de escolher o caminho da bondade. No caso, o sem-abrigo que salvou a criança. Tudo se resume ao confronto eterno entre o bem e o mal.

A tese da vítima trata a mulher que abandonou o bebé como alguém que foi empurrada pelo desespero, incapaz de fazer escolhas. Uma mulher pobre a quem o Estado não deu resposta – saíram artigos sobre as falhas no acompanhamento aos sem-abrigo –, que se entregou à prostituição e engravidou porque “os homens pagavam mais quando o sexo era sem proteção”. Toda a responsabilidade lhe é exterior.

Num e noutro caso a personagem cumpre um papel determinado numa narrativa ideológica que a ultrapassa. A indignação ou a compaixão são, na maioria dos casos, recursos estilísticos.

Claro que as personagens, que não foram criadas por nenhum guionista omnipotente, pregam partidas. O sem-abrigo bom afinal aldrabou toda a gente e queria era aparecer e contar os seus próprios dramas. “Toda a gente que aqui esteve foi Deus que pôs aqui”, resolveu Marcelo Rebelo de Sousa, unificando assim as narrativas possíveis na mais reconfortante e inútil de todas. A mãe soube que estava grávida muito antes, não quis abortar e não quis que o bebé fosse encontrado. Os nacos desta história são disputados num campo de batalha, porque cada pedaço serve a história-tipo que se quer construir.

Há uma conclusão que todos podemos tirar, se quisermos ser honestos connosco mesmos: que a miséria em que estas pessoas se encontram tem responsabilidades sociais repartidas e que dela resulta, como todos sabemos, a miséria moral. Repito: não há nada de belo e puro no fim da linha.

Quando as coisas entram no espaço público são sempre despidas da sua complexidade. Notem que não nego a dimensão social e política do drama pessoal. Se o negasse, atiraria todas as narrativas políticas para o espaço da não existência concreta. Digo só que não chega. Que as pessoas são contraditórias. Que há pobres maus, que há mães más, que a maldade tem razões profundas e contraditórias, de responsabilidades da sociedade e dos próprios. Que as vítimas são agressores e os agressores foram vítimas. Que esse debate se faz, quando o queremos mesmo fazer, no campo das políticas públicas, sociais e económicas, para tentar que as pessoas possam ser um pouco mais aquilo que queriam mesmo ser. Cada drama individual não pode ser explicado por equações simples. Porque, parecendo muitas vezes generosas, elas roubam cada indivíduo concreto da sua própria história.

Talvez tenhamos de ter a humildade de dizer, sobre esta e muitas outras histórias pessoais: não sei o que ali se passou. Talvez, com muita sorte e trabalho, quem se aproxime dela e a oiça consiga vir a perceber. Não enquanto personagem social, mas como uma pessoa concreta.

É também com esta humildade coletiva que devemos debater a forma como a Justiça se deve comportar. Este caso não será o único em que o agressor – abandonar uma criança num ecoponto é obviamente uma brutal agressão – é vítima das suas circunstâncias e do abandono social extremo. Sabemos que os abusadores sexuais foram muitas vezes abusados, que as pessoas mais violentas cresceram muitas vezes em ambientes violentos e têm graves distúrbios de personalidade e falta de autoestima, que quem exerce a mais abjeta violência doméstica cresceu muitas vezes no meio dessa violência… Isso não pode implicar que todas estas pessoas se tornam inimputáveis. Quer apenas dizer que partilhamos com eles a culpa. Resumir o agressor-vítima a vítima é tão injusto como reduzi-lo a agressor. E é retirar às suas vítimas o direito à justiça, abandonando-as duas vezes. Partilhar a culpa implica identificar as causas, assumir responsabilidades e fazer um pouco mais do que as frases caridosas e já um pouco repetitivas que o Presidente dá em nome do Estado. É mesmo aqui que deve entrar a política. Não implica deixar de julgar e punir.

Defender, perante crimes graves, a punição sem reintegração é tão estéril como defender a reintegração sem a punição. Depois, há a vida concreta das pessoas. E essa baralha quase sempre as narrativas fáceis. Tanto as que isolam o indivíduo das suas circunstâncias, acreditando que somos apenas fruto das nossas próprias escolhas; como as que esvaziam o indivíduo da sua capacidade de escolher, transformando-o em simples marioneta do que a sociedade, essa entidade vazia de pessoas, fez dele. Todos sabemos, instintivamente, que algures, no meio disto, está a verdade. Mas quando contamos histórias que puxam para o equilíbrio que desejamos, apagamos a complexidade das coisas.

Todos percebemos que confrontam narrativas que dão mais ou menos saliência às condições sociais que moldam escolhas ou à liberdade de escolha de cada indivíduo. É um confronto válido e útil. Mas os dois pontos de vista não são, com o risco de passarem a ser caricaturas de si mesmos, a negação um do outro. E é por isso que nenhum deles chegará para contar a história do bebé abandonado e da sua mãe. Nem sequer chegará para explicar a reação de muitas pessoas, sobretudo quem tem filhos, talvez ainda mais as mulheres, perante um ato que tudo em nós rejeita. Uns optarão pelo nojo, outro escolhem a narrativa da mulher vítima que torne a coisa mais fácil de digerir. Talvez tenham todos razão, o que quer dizer que ninguém a tem. Talvez o erro seja querer contar a história do mundo na história irrepetível de uma pessoa.


A escravatura legal

(Virgínia da Silva Veiga, 20/11/2019)

Virgínia da Silva Veiga

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O caso da Advogada com cancro que acaba de dar à luz um menino (Fonte aqui), sem assistência, sem direito a baixa médica, sem licença de maternidade ou direitos equivalentes, acaba de mostrar o que me não canso de assinalar: os advogados são milhares e os mais vivem em condições de precaridade extrema sem que o Governo tenha qualquer espécie de preocupação com milhares de cidadãos de uma classe a quem está entregue uma parte do exercício da Justiça.

Os advogados não são todos iguais e, já agora, não vivem todos em Lisboa ou no Porto.

Há os profissionais liberais, como era o caso desta advogada, com o seu escritório, e as inerentes despesas; há os sócios de sociedades de advogados e há os que trabalham para estas. Em qualquer das três circunstâncias, que o governo não manda estudar, onde a Inspecção do Trabalho não quer saber, todos, sem excepção, para poderem trabalhar estão sujeitos a duas obrigações cumulativas: pagar quotas à Ordem dos Advogados e descontar para a respectiva Caixa, tenham ou não rendimentos.

E todos podem pagar o mesmo, seja auferindo coisa nenhuma, seja ganhando milhares de euros por mês. Esta jovem advogada, doente, para ir podendo exercer, tem que pagar por mês o mesmo que esses advogados que todos conhecem, sócios de sociedades que auferem milhões.

Esta dupla obrigação de ter de pagar para exercer um trabalho não difere da escravatura e chega a ser mais ultrajante. Milhares de pessoas trabalham neste país, compelidas por terceiros a pagar-lhes para isso, sem que nada lhes seja dado de retorno. Apenas o abstracto direito a uma pensão, um dia, sem garantias de seriedade, tais os cortes feitos e nunca repostos.

Enquanto isso, os cidadãos, convencidos que todos os advogados são iguais, ricos e aldrabões do fisco, não se solidarizam. Os próprios? Os mais nem sabem do que eu estou a falar e os que sabem não lhes interessa ou teriam que passar a fazer descontos sobre o que em realidade auferem e a fazer contratos de acordo com uma convenção colectiva de trabalho que não existe.

Que horários têm, quantas horas trabalham, que ordenados auferem os advogados contratados pelas grandes sociedades de advocacia? Que carreira têm garantida? Ninguém sabe. Mas sabe-se que tudo isto existe.
Quantas sociedades de advogados foram inspecionadas?

Se os sucessivos Bastonários nada fazem, se os Presidentes da CPAS assim administram o dinheiro coercitivamente pago, há um Governo que não pode e não deve fazer de conta que não vê, que ignora ou a convicção que cria é a de que menospreza os mais pobres, para que acabem por desistir da concorrência que estão a fazer aos ricos, protegendo os exploradores.
E o mesmo se diga de milhares de Solicitadores.

Sandra Rocha deu corpo a este tema para que ninguém ignore.