Achou o Governo que pescar à linha os apoios para o Orçamento seria uma forma de vida. Até muito hábil, sussurraram os estrategos, dados os alinhamentos de forças que resultam das eleições e a suprema vontade de fazer o funeral à ‘geringonça’, afinal o que determinou todas as bizarrias da campanha eleitoral contra os anteriores aliados. A esses génios da arrumação política faltou pensar nas coisas da vida real, a começar por essa evidência de que um quadro contratual com objetivos partilhados é estabilidade. Agora que avança a preparação do Orçamento, torna-se evidente que o Governo fez uma má escolha, depende do que outros decidirem.
UMA PRIORIDADE ANTES DE TODAS: SAÚDE
Como há que escolher prioridades, que o Orçamento não dá para tudo, noto que as duas mais relevantes que resultam das eleições são a habitação e a saúde. Deveriam ser os planos estratégicos mais ambiciosos e os pilares da reorientação do investimento para conduzir a soluções com resultados visíveis em poucos anos.
Da habitação já aqui tratei. Sobre a saúde quero acrescentar a evidência: o desgaste sofrido no SNS já alcançou o ponto de alarme. Há anos que sabemos que este tempo chegaria, pois mais de metade do pessoal médico passou os 50 anos e não sobra capacidade de garantir as urgências. Mas também se sabe que o envelhecimento da população agravará a pressão, que sobem os custos com novos medicamentos, que a concorrência dos privados reduz as disponibilidade de profissionais. Se registarmos as escolhas dos sucessivos governos, incluindo o último, fica uma enciclopédia de ligeirezas (“somos todos Centeno”), de medidas contraproducentes (uma maioria absoluta do PS acabou com a exclusividade dos médicos, que já só abrange 43% dos 13 mil médicos), de preconceito corporativo contra a especialização de enfermeiros e de desculpas que envergonham. Acrescentem-se anos e anos de subfinanciamento, de adiamento de investimentos essenciais, atrasando o reequipamento ou a construção de hospitais, e a permissividade em relação a grupos financeiros com a porta giratória para esse mundo (um governante do PS na saúde não é hoje o presidente da associação de hospitais privados?), e teremos o retrato da exasperação dos profissionais.
Entretanto, a direita percebeu a oportunidade e martela nas falhas do SNS. Como o espaço público está invadido pela vertigem das urgências que fecham, esta estratégia é eficaz. Por isso, César e Ana Catarina Mendes sentiram o toque, pediram orçamento para a saúde e Costa fez uma promessa misteriosa. Os partidos de esquerda não dizem outra coisa desde há anos: salve-se o SNS e a democracia respira. Veremos então se agora é a sério, se é restabelecida a exclusividade que o Governo recusou no verão passado e se é contratado o pessoal necessário.
O IVA E O INVESTIMENTO
Como sempre, o problema é que é preciso pagar isto tudo. Se, além da saúde e da habitação, em que deveria crescer a despesa, um bom orçamento reduzir o IVA da eletricidade e corrigir os escalões do IRS, também baixa a receita. Há várias formas de pagar estas diferenças: o englobamento dos rendimentos, que é justiça elementar, a tributação das rendas energéticas, usar o excedente orçamental. Note-se que o IVA da eletricidade custa ela por ela o que o Governo já perde com o IRS a zero dos pensionistas estrangeiros.
Mas o primeiro-ministro tem razão, o dinheiro deve ser usado por ordem de prioridades. Então a pergunta difícil é esta: podem as decisões essenciais ser resumidas num programa de investimento? Talvez. Mas há uma dificuldade na promessa de mais investimento, é que orçamentá-lo equivale a antecipar que não é cumprido. Nos últimos quatro anos o logro ficou em quase três mil milhões, ou cinco vezes o que o Governo promete para habitação nesta legislatura. Se, em contrapartida, houvesse um grande salto no esforço público na contratação de pessoal na saúde e no programa de habitação, a conta seria mais confiável. Ora, como o Governo não quis um contrato estável para medidas estruturais, percebo que haja quem queira que no Orçamento se tenha um pássaro na mão em vez de duas promessas a voar. O tempo da credulidade para um investimento orçamentado que depois será cortado já acabou, e a responsabilidade foi de Centeno.
Andam por aí em pose Bolso
Bolsonaro rompeu com o partido em que se elegeu (o oitavo de que fez parte) e formou um novo. Escolheu o número 38 para identificar o partido, aludindo a um revólver. Para que não restassem dúvidas sobre a interpretação, a imagem do partido é um cartucho de bala. Entretanto, Abraham Weintraub, o ministro da Educação, assinalou os 130 anos da proclamação da república como tendo sido uma “infâmia”. Alguém comentou no Twitter que “se voltarmos à monarquia, certamente você será nomeado o bobo da corte”. O ministro responde: “Uma pena. Eu prefiro cuidar dos estábulos. Ficaria mais perto da égua sarnenta e desdentada da sua mãe.”
Vasco Pulido Valente, para insultar José Mário Branco, afirma que se enfadava com “uma palavra de ordem que se ouvia incessantemente na rádio entre baladas deste benemérito”, culpa dele. Maria Luís Albuquerque apresentou um livro de Mithá Ribeiro, uma das criaturas de extrema-direita no “Observador”, dedicado a Bolsonaro, a Trump e à nova direita europeia. Rui Ramos, outro dos arautos desse nicho ecológico, compila com Miguel Morgado um livro para erguer os valores radicais da direita. Algumas destas figuras repetem palavra por palavra os refrões de Bolsonaro, ansiando pelo renascimento da direita contra o “politicamente correto” e a “ideologia de género”, ou seja, contra os direitos das mulheres.
Nota-se em tudo isto um deslumbramento que enche estes corações puros. O facto é que chegam agora ao enlevo da extrema-direita alguns dos mais cerimoniosos dos ex-governantes troikistas, e é no PSD, mais do que no CDS apavorado com a imitação, que os recrutas exibem a sua genuína alegria com tal revelação identitária. Outros, neste novo clima, mergulham de cabeça no extremo da prosápia: quando aqui citei uma investigação do “Diário de Notícias” que confirma, pela voz dos próprios, que Ricciardi telefonou a Miguel Relvas e a Ângelo Correia para ameaçar o Governo de então com o corte de relações diplomáticas pela China se não lhe fosse entregue a EDP e a REN, o banqueiro, que não contestou o DN, brindou-me com uma salada de palavras em que não se adivinha uma frase coerente. O mesmo fez Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, que entendeu que uma chusma de insultos desconexos é uma resposta gira à crítica sobre a sua pose programática. São balas de brandos costumes, bem sei, mas o que une hoje Albuquerque, Ramos, Morgado, De Figueiredo e outros a Bolsonaro e Weintraub é este entusiasmo tribal de quem pensa que a virulência trivializada é a porta para uma carreira promissora.
Quem manda nas bolsas?
Os computadores instalaram-se nos mercados financeiros desde que surgiram como tecnologias de processamento intensivo de informação. Não podia ser de outra forma. Mas talvez não esperássemos que os algoritmos automatizados já decidissem hoje 80% da compra de ações e 90% da de futuros, ou que, dos 31 biliões de títulos que existem nos mercados, 35% estejam detidos por fundos geridos por computadores. Não é ainda o “2001, Odisseia no Espaço”, nem consta que estes Hal já tomem decisões que formulem regras diferentes das que os programadores inscreveram no seu código genético. No entanto, é isso que estão a aprender, com o desenvolvimento do machine-learning e a inteligência artificial. O que é também evidente é que, para as agências financeiras, não há como voltar atrás. Nos Estados Unidos, há sete mil milhões de transações de ações que mudam de mãos cada dia e metade dessas operações decorre em regime de alta frequência e, portanto, cada ação pode ser vendida muitas vezes por dia. Este sistema exige a velocidade do computador e, por isso, as máquinas, delicadamente chamadas de investidores baseados em regras, são dominantes e vão crescer. Chegamos portanto a um ponto novo, que é esse misto de certeza de riscos menores em erros triviais e de riscos desconhecidos de contágio de erros porventura maiores. Nalgum dia de efeito dominó se dirá que perdemos o controlo das bolsas. Fica a consolação de que, na realidade, nunca o tivemos.
És uma fraude. És preta. Não serves para nada, mesmo morta.” A mensagem surge no telemóvel de Joacine Katar Moreira com um aviso sonoro e a deputada do Livre mostra-a. É uma, mas há mais. Muitas mais, com ameaças mais ou menos veladas, outras de puro racismo, de ódio e de desprezo. Desde que foi eleita para o Parlamento que se habituou a lidar com estas “ondas de ódio”, que lhe invadem também as redes sociais e para as quais, confessa, “não estava preparada”. Mas não mostra medo nem sinais de desistir. “Aguento tudo”, diz ao Expresso.
A vida foi-lhe sempre difícil e agora que aceitou começar a desfiá-la a pedido de muitos jornalistas, torna-se óbvio que há muito se preparou para pisar terrenos minados. “Até o meu pai me diz: ‘Quem ouve as tuas entrevistas, acha que tiveste uma vida horrível.’ E eu digo: mas era horrível, pai. Era mesmo.”
Nasceu há 37 anos, em Bissau, de uns pais tão jovens que a chegada da bebé os apanhou de surpresa e lhes provocou um susto tamanho que ainda Joacine não tinha três anos e já cada um tinha decidido ir à sua vida. A avó paterna, enfermeira pediátrica e mulher de armas, sempre acumulou as tarefas de mãe com as de avó. Acolheu o filho, a nora e a neta na sua casa de matriarca e, na hora da separação do casal, implorou a todos os santos para que lhe deixassem a miúda e seguissem com a vida deles.
E eles seguiram. A mãe voltou a casar e teve mais quatro filhos. Vive agora na margem sul do Tejo, aguentando as contas da casa com o salário de ajudante de cozinha. “Nunca parei de ver a minha mãe a trabalhar”, diz, admirando a “força física” e a resistência de tocar a vida para a frente que a mãe sempre demonstrou. O pai e as quatro madrastas com quem, sucessivamente, foi casando deram mais sete irmãos a Joacine. Há dois anos, o pai seguiu para Londres atrás da última mulher, é varredor de ruas e entrou agora na universidade numa licenciatura em Gestão. Joacine, ao todo, soma agora 11 irmãos, sete raparigas e quatro rapazes, com quem se dá “lindamente” e faz questão de acompanhar nos seus progressos de vida. Os mais velhos têm 32 anos, a mais nova oito.
A arvore genealógica da deputada tem ramos de várias raças, credos e feitios. Entre altos funcionários da elite cabo-verdiana da era colonial portuguesa, mulheres de fibra guineense e um muçulmano de origem libanesa, a família foi-se formando com muitos casos de amor, mas também com traições. Muitos sucessos e falhanços rotundos, que são narrados ao pormenor como um património histórico que não se quer perder. Dos pais, Joacine fala com admiração, imensa ternura, mas também com um toque de paternalismo, como se os papéis da sua história tivessem sido criados ao contrário, dando-lhe a ela a tarefa de os encaminhar na vida.
“São duas pessoas extraordinárias, mas não tenho a pedalada deles.” Sempre os tratou pelo nome — Elsa e Quinzezinho — e não hesita em “dar-lhes na cabeça” quando acha que saem dos trilhos. Sobretudo ao pai, que sendo “dos homens mais inteligentes que alguma vez encontrei” optou por não lidar com a vida como se estivesse sempre num ringue de boxe. “Nunca mostrou ambição especial, não quer que o incomodem, porque o objetivo dele não é enriquecer.” Mas, a filha mais velha é diferente, não é de desistir. “Chateei-o imenso, andei a martelar e há um ano ele, finalmente, inscreveu-se na faculdade”, diz orgulhosa das boas notas do pai, da facilidade com que aprende e do muito que tem pela frente.
Joaquim cumpre o currículo, mas também não falta aos recreios. “Não há semana que não vá a uma discoteca”, diz Joacine com um sorriso aberto. Nesse ponto,tal pai tal mãe, que não desiste de organizar almoços, onde junta meio mundo, sabendo-se a que horas começam, mas não nunca a hora de acabarem. “Nunca consegui acompanhá-los, são muito divertidos e animados. Eu tenho alma de velhota”, diz Joacine, que desiste a meio da tarde das almoçaradas da família, deixando a mãe espantada pelo abandono da festa quando “isto vai começar a animar”. “A verdade, é que me sinto velha. Não tenho pedalada para tanta energia.”
ALMA DE VELHA
Esta “alma de velha” é, em Joacine, quase uma marca de nascença. Ainda andava na escola e já se derretia a ouvir os cantos chorosos de Chavela Vargas, quando os amigos lhe propunham hip-hop, estranhando a tendência para aquelas coisas melosas que a amiga revelava. Gostava de ler, de estar sozinha, de escrever poemas que enchiam os cadernos e cadernos que ainda guarda, mas não mostra.
“Estava sempre a fazer perguntas”, diz Ana Varela, sua colega do colégio interno para onde entrou com oito anos. Ana era mais velha e recorda-se da miúda “calma, muito observadora, que gostava de estudar e de estar na dela” e que, por vezes, tentava aproximar-se do grupo das crescidas para participar nas conversas. “Dizíamos-lhe que ela era muito política, porque quando nos juntávamos para falar de rapazes ou de mexericos de miúdas ela vinha com perguntas difíceis e a querer falar de coisas sérias.” As outras estranhavam as manias e enxotavam, delicadamente, a miúda para os lados da biblioteca.
“É minha filha”, diz Maria Leonor Barbosa. Em Bissau, de onde nunca sequer pensou sair, a avó segue atentamente à distância os passos de Joacine, essa “criança muito bonita, muito inteligente e sempre pronta a aprender”que criou sem problemas, a par com os seus cinco filhos, noras, genros, netos e todos os que viessem para a sua grande casa de Bissau. Para a avó, que pontua cada frase com um riso ou mesmo uma gargalhada, a miúda sempre mostrou tendência para ir longe e o seu papel foi ‘apenas’ o de a deixar ir.
“Era muito fácil de lidar, obediente e muito curiosa”, e Leonor viu nela a promessa de um futuro cheio de coisas boas, que a terra africana nunca lhe poderia dar. Até hoje, é a ela que Joacine trata por mãe. “Uma mulher incrível”, diz Joacine. Com o avô Joaquim Tavares Moreira, ex-locutor de rádio e “um homem muito culto e sempre muito informado”, habituou-se a ouvir longas discussões e conversas intermináveis que ocupavam serões inteiros. “Na Guiné só se fala de política”, e não havendo propriamente um envolvimento direto nos assuntos da nação, o tema moldou a cabeça da miúda que, ainda não tinha idade para entrar na escola e já pedia para aprender. Leonor, mais uma vez, aceitou, e aos cinco anos Joacine passou a receber aulas em casa, aprendendo a ler e a escrever num instante. “Gostava muito e era mesmo uma criança muito inteligente”, diz a avó.
Aos oito anos, envia-a sozinha de avião para a Casa Mãe do Gradil, uma instituição de acolhimento de crianças, governado pelas freiras da congregação espanhola das Dominicanas da Anunciata. O pai já tinha vindo para Portugal e vivia em Alverca, mas a Maria Leonor nem lhe passou pela cabeça entregar a menina ao filho. “A minha avó não quis que eu ficasse com os meus pais. Na ótica dela, não queria ver nenhuma madrasta ou padrasto a interferir, nem na minha alegria nem no meu percurso.”
A ideia de que o futuro risonho passava pelo estudo tornou-se um farol guia. “Dei-lhe tudo para aproveitar o caminho certo”, diz Maria Leonor. E Joacine veio, sem medo, para Portugal. “Vim alegremente. Encarei o colégio como uma oportunidade única e adorei o espaço, os quartos monumentais e, claro, a biblioteca”, recorda. “Se era a minha avó que me estava a mandar, não podia haver problema.” A capacidade de Leonor em convencer a neta era tamanha que chegava mesmo para superar a dor do corte do cordão umbilical. Leonor preparou cuidadosamente a neta para todas as adversidades que, à distância de um continente, era impossível aplainar.
Desde logo, com a gaguez. A miúda sempre foi assim. “Os meus pais dizem que comecei a gaguejar na altura da separação deles”, diz Joacine. Mas a avó nega. “Sempre, mas sempre, foi assim. Desde que começou a falar” que se entupia nas frases, se atrapalhava nas consoantes e todo o seu corpo tolhia no esforço de voltar a articular os sons. A família habituou-se, e Joacine também. “Falar assim nunca a impediu de nada. Na escola sempre foi ótima aluna e não teve vergonha nenhuma”, lembra a avó.
Joacine também se recorda da conversa que teve com a avó antes da partida para a Casa do Gradil. “Era uma mulher muito inteligente e avisou-me de que iria para um espaço desconhecido, com pessoas desconhecidas, mas que não ia para ficar em Portugal. Ia só para estudar e depois regressava para contribuir para o desenvolvimento da Guiné.” A passagem pelo desconhecido tinha obstáculos à vista. “Avisou-me de que a minha maneira de falar era a minha e que eu me devia orgulhar por ser uma menina inteligente. Isso era o mais importante.”
RECUSAR A TERAPIA
“Não deixes de falar assim”, disse a avó, na despedida. E Joacine não deixou, tornando a gaguez uma parte de si, que os outros — todos os desconhecidos que lhe surgiram, surgem e vão surgir na vida — têm de aceitar. Tiago Lila, dos Fado Bicha, foi um deles. Da primeira vez que a viu, a agora deputada “gaguejou dramaticamente” e aquilo provocou-lhe “um desconforto e uma estranheza enormes”. Foi há cerca de dois anos, numa das “conversas às escuras” organizadas para promover a causa das mulheres africanas através da poesia e do debate que o cantor dos Fado Bicha contactou ao vivo com Joacine. “A primeira reação é de rejeição”, assume. Mas deu por ele a ir para casa a pensar naquilo, ao mesmo tempo que “ia ficando sensibilizado com a coragem e com a dignidade que ela punha naquela característica particular”. Ela é assim: “Não pede desculpa, não pede licença, não avisa”, diz Tiago, que passou da estranheza à admiração incondicional. Ao ponto de ter aceitado o convite para compor a letra do hino da campanha e de lhe emprestar a voz e a atitude para um dos vídeos mais vistos das últimas legislativas, com mais de 36 mil visualizações registadas, num partido onde nunca antes isso tinha sido sequer imaginado.
No vídeo, Tiago aparece maquilhado, shorts curtos e salto alto, cantando “quero sem precedente, Joacine presente”. Enquanto todos dançam e um casal de homens se beija na boca, a letra fala que o “poder é da sista”, que pretende dar “um pontapé no estaminé” e ser “a vanguarda na nova casa grande”. “Transgredir a linha fixa” é um dos motes de um hino onde, Tiago declama em espanholês: “Ay insolente, impertinente Joacine! La sociedad va tener que aguentar-te, maricon.”
As críticas à candidata têm direitos de autor. “Era o que as freiras lhe diziam, quando estava no colégio”, diz Tiago Lila que para compor a letra, pediu a Joacine para lhe contar a sua vida, numa longa conversa à mesa de um café. A candidata a deputada aceitou e ele pegou “num caderninho como o seu e tomei notas”, depois, foi só juntar as peças e compor o hino com os pedaços da biografia.
Os Fado Bicha falam na cor da pele, na originalidade do nome (“Juricema? Jupilene? Que raio de nome”), mas nunca na gaguez. Talvez porque o que seria um problema, Joacine fez questão de tornar uma característica pessoal. Henrique Raposo, colunista do Expresso, lembra-se da sua colega do curso de História, do ISCTE, cheia de “fibra e muito ativa na discussão política e cívica”. “Era, obviamente, gaga”, diz ao Expresso, “e a graça dela era mesmo não se encolher por isso”. Nos antípodas políticos da deputada do Livre, Henrique Raposo não hesitou em defendê-la num artigo de opinião, quando as redes sociais explodiram com vídeos de intervenções escorreitas de Joacine, atirando com caçadeiras de canos serrados sobre a alegada mentira da deputada que dizia que era gaga só para captar votos.
“Não é fácil, claro. Mas fica mais difícil para todos, quando você não resolve o seu ‘problema’ e é preconceituoso”, respondeu Joacine no Twitter depois de centenas de mensagens acusatórias. “Esta é a minha forma de falar e o mais importante é que não gaguejo quando penso”, responde. Só tentou a terapia já adulta, com o curso de História acabado e quando, pela primeira vez, não conseguiu superar um teste. Tinha sido chamada a coordenar uma exposição internacional sobre os arquipélagos dos Bijagós que, vinda de Paris, se instalava em Lisboa. Mas quando chegou o momento de divulgar o evento, ficou nos bastidores. “A minha gaguez impediu que defendesse o meu trabalho, porque não tinha eficácia na comunicação.” Viu outras tomarem o seu lugar no palco e, aí sim, temeu continuar para o resto da vida a ser travada no acesso a um emprego que desejava e para o qual trabalhou a vida inteira.
Passou, de facto, muitos anos a acumular pequenos trabalhos, desde a apanha de tomate, à limpeza de quartos de hotel, até à promoção de produtos nos supermercados. Foi assim desde os 16 anos e sem nunca perder rendimento escolar ou falhar na universidade. “Muito empenhada e briosa”, tentava “ser perfeita em todos os trabalhos”, referia a professora de História do 6º ano. Na altura, ninguém referia a gaguez da miúda que fechou o básico com recordes de cinco na caderneta e chegou ao secundário com médias tão altas que teve direito, no final do 11º ano, a uma bolsa de 120 contos (€600), assinada pelo então ministro da Educação, Guilherme d’Oliveira Martins, “no âmbito das medidas de combate à exclusão social e de promoção da igualdade de oportunidades”, diz o despacho oficial.
Joacine mostrou sempre apetência para a História, onde várias vezes teve 19 nos testes, em que aproveitava para ir desfiando a sua veia poética e política. Na prova global do 11º ano (que guarda ainda como recordação) termina uma resposta sobre o Humanismo Renascentista imaginando “sociedades perfeitas onde as leis são em pequeno número e a vida surge colorida”. Outras vezes, não deixava de lado a sua opinião. No 8º ano, falava do Concílio de Trento e dos “senhores da Igreja que tomaram decisões que ainda hoje tendem a envergonhar a Igreja”. O professor achou a resposta “muito incompleta” e travou o esticanço da aluna. “Isto é a tua opinião, e numa resposta de História devemos ser mais objetivos”, escreveu a vermelho o docente.
A ideia de uma vida melhor poder ser alcançada através do estudo foi sempre o seu mantra. “Estudar, estudar, estudar. Era o meu foco. Tinha a certeza de que não tinha resistência física para aguentar uma vida tão dura como aquela que a minha mãe sempre teve.” Fez o curso de História sempre a trabalhar, e seguiu para mestrado. Mas a Academia foi um balde de água fria. “A universidade anulou completamente o meu ânimo. Foi horrível e milhares de vezes pensei em desistir”, diz. O ambiente fechado, burocrático, autoritário estava longe da Escola de Atenas com que sonhava nos tempos do colégio. E, no final, a saída para o mundo profissional, mesmo com um canudo na mão tornava-se mais difícil com a evidente dificuldade de comunicação. Só aí aceitou entrar em terapia da fala. “Desisti ao fim de mês e meio”, confessa. “Os exercícios à frente do espelho, as repetições de sons e a correção dos movimentos de boca”, em vez de ajudarem, causaram-lhe “mais ansiedade” e, sobretudo, retiravam “espontaneidade e alegria” “Rejeitei completamente a terapia. Precisava de entender a minha gaguez, mais do que de a resolver.” E nunca mais lá pôs os pés.
“UM MONSTRO”
“Negra, gaga e pobre.” Joacine Katar Moreira apresentou-se assim, sem “enganar ninguém”, no último comício de campanha eleitoral do Livre para as legislativas de outubro. Nessa noite, poucos acreditavam ainda que alcançaria um lugar em São Bento, e a candidata pôs logo as coisas em pratos limpos. “Não fui escolhida por uma direção partidária, mas por militantes e simpatizantes que acham que esta é a época de desconfortar. Ora, eu sou esse desconforto”, avisou.
Os dados estavam lançados. Joacine prometia uma “mudança”, assumia que “não ia ser fácil” e tornava claro que estava pronta para o combate. “Nós estamos à frente. No século XXI precisamos de um Parlamento para o século XXII e, no Livre, somos políticos do século XXII.” O partido que, até então tinha girado em torno do pacato Rui Tavares e das suas ideias de uma Europa para todos, estranhou a novidade. Mas gostou.
Rafael Esteves Martins estava entre os que olharam com espanto para o discurso da candidata. Doutorando em Londres, pela clássica universidade de Oxford, ainda estava longe de pensar que poderia vir a ser assessor, chefe de gabinete e braço-direito da primeira deputada do Livre e apresentado ao país como o ‘homem que vestiu saias’ no dia da tomada de posse. Naquela noite, três semanas antes da entrada no Parlamento, Joacine “falou durante mais de meia hora, sem teleponto, sem texto e com um discurso de grande rigor”, conta ao Expresso. O impacto em Rafael foi total.“Foi amor político à primeira vista”, garante.
Ele, que tinha sido fundador do Livre e se habituara a participar na vida do partido à distância e online, achou que tinha chegado a hora de mudar. Tinha participado na campanha, colado cartazes e seguido aquela mulher cheia “de garra”. Na primeira oportunidade que tem para falar com Joacine diz-lhe a sangue frio: “Tens noção de que és um monstro?” A candidata estremece perante tão estranha forma de elogiar o seu carisma, a capacidade de comunicação e, sobretudo, a coragem. “Etimologicamente, um monstro é uma coisa que se mostra, mas que não tem referente”, explica Rafael Martins. E Joacine, para ele, “concentra em si uma série de questões por resolver na sociedade portuguesa”. Dar-lhes corpo, voz e presença é “um momento histórico” a que decidiu não querer faltar.
O convite para integrar o gabinete da deputada surgiu em cima da hora e com surpresa total. Já eleita deputada, Joacine convidou Rafael Martins para almoçar. Precisamente no dia em que se reuniu com António Costa, nas primeiras negociações alguma vez tidas na sede do Livre com um primeiro-ministro, prestes a tomar posse. “Foi um bocado surreal porque estávamos à mesa no restaurante e as televisões só passavam imagens dela à saída do encontro”, relata Rafael. Joacine gaguejou muito, mas acabou em sintonia com o futuro Governo nas intenções de prosseguir o “diálogo que consideramos absolutamente necessário à esquerda”.
“Aceitei logo” e ainda a sobremesa não tinha chegado já se mudavam as agendas do professor de Oxford. A tese de doutoramento em Literatura Portuguesa do século XVIII será entregue em abril de 2021, mas será feita entre reuniões políticas, agendamentos parlamentares e tudo o que São Bento lhe vier a trazer. E há sempre muito. Logo no dia seguinte, a deputada estreou-se no “Programa da Cristina”. A seguir foi o Goucha e a TVI, entre perfis, entrevistas e muita polémica nas redes sociais. Ora porque a deputada gaguejava, ora porque o assessor usou saias, ora porque disparava a torto e a direito, a histeria passou a dominar nos comentários online sobre Joacine Katar Moreira.
NO MEIO “DOS BRANCOS TODOS”
Com Daniel Oliveira, o caso azedou mesmo para os lados da esquerda. Bastaram as duas primeiras intervenções de Joacine no Parlamento para o colunista e ex-bloquista vislumbrar uma “conversão súbita do Livre à agenda identitária”. “Onde está o partido de Rui Tavares?”, questionava, concluindo que o partido se radicalizava a olhos vistos e correndo “desembestado e sem direção política por um campo de minas”.
Joacine não aguentou. “Andei a suportar as ondas do Daniel Oliveira, de que a minha candidatura era um tiro no pé, que não servia para nada, etc., etc. Ainda não tinha aberto a boca e já estava a apanhar com críticas”, diz. Desta vez não fica calada e responde, também no Twitter: “Daniel, a sua postura, embora mais polida e mascarada de bom senso, não tem sido muito diferente da de muitos associados à direita e sua extrema na procura de descredibilização constante do Livre e da minha escolha.”
Daniel Oliveira reage com um misto de paternalismo: “Nem comento comparar-me com a extrema-direita. Prefiro acreditar que isto foi fruto do imediatismo das redes.” E Joacine não se fica. “Não foi imediatismo das redes. Nem amadorismo. Inaptidão ou deriva de qualquer coisa. Bom feriado”, responde.
Por vezes, das redes sociais para o mundo real vai um passo de anão. E das críticas anónimas ou de frequentadores habituais de Facebook ou Twitter, as acusações passaram a surgir do interior do próprio partido, com vozes a começarem a levantar-se contra a conduta da deputada. No Parlamento, Joacine forma um núcleo duro com Rafael Martins e Ana Lobato, escolhidos por ela, entre militantes e apoiantes do Livre mas, acima de tudo, da sua confiança pessoal. E começam a surgir os primeiros melindres internos. O partido é novo, não tem aparelho, nem quadros, nem experiência. É como um sapato ainda sem terreno pisado: cria bolhas e mal-estar nos primeiros tempos de utilização.
A deputada faz parte do ‘grupo de contacto’ do Livre, essa direção colegial de 15 elementos, eleitos em primárias diretas por militantes e simpatizantes. Rui Tavares saiu no último congresso das tarefas partidárias executivas e falhou a candidatura a eurodeputado nas últimas europeias. O caminho ficou aberto para uma nova liderança oficial. E Joacine, porque estava no lugar certo e com os holofotes todos ligados sobre si, tornou-se a sucessora natural.
A subida no partido foi meteórica. Ela, que se filiou apenas há três anos, foi convidada no início deste ano a apresentar uma candidatura às diretas do partido que iriam definir os candidatos às eleições que se avizinhavam. Rui Tavares “falou comigo e não tive como dizer que não”. Ela que tinha sempre defendido a necessidade de as comunidades africanas se chegarem à frente e avançar na participação política e cívica, não tinha agora margem de recuo. “A verdade é que sempre considerei a política partidária uma arena perigosíssima. Preferia mil vezes mais ser analista política”, confessa. “Nem sei como vim aqui parar.”
A verdade é que a sorte trocou-lhe as voltas. Quando saíram os resultados das primárias do Livre, Joacine surge em primeiro lugar na corrida às legislativas. “Não estava à espera”, garante, “mas só me restou arregaçar as mangas, interiorizar isto e seguir em frente”. Com um orçamento de 10 mil euros e um microaparelho partidário a suportar a campanha, inventou quanto pôde e rodeou-se de amigos.
A família “achou natural” o que estava a acontecer-lhe. E quando foi eleita e ganhou um lugar de quatro anos no Parlamento só Maria Leonor “ficou muito apreensiva”. Quando a filha/neta lhe ligou a contar que tinha sido eleita, foi dia de festa na Guiné-Bissau. Mas a avó temeu o pior. “Tu aí, sozinha, no meio daqueles brancos todos”, disse a Joacine, avisando-a do perigo. “Eles não se traem uns aos outros.” E, na verdade, ainda não tinha visto nada. Um mês e meio depois de chegar ao Parlamento, o Livre choca de frente com a sua dirigente e primeira deputada eleita. A abstenção de Joacine num voto de condenação dos ataques israelitas sobre a Palestina apresentado pelo PCP leva o partido a explodir em acusações de “contrassenso”, de “falha no trilho” sempre seguido pelo Livre e de quebra de comunicação e de lealdade. Rui Tavares confessa-se “perplexo” e Joacine responde com um “fui eleita sozinha, a direção do Livre nunca me apoiou”, ficando de pé no lugar que conquistou a pulso. Afinal, foi toda a vida assim.
A eleição de um deputado do Chega, à qual se tem associado (precipitadamente) a mesma capacidade de expansão que o próprio Ventura julga ter, tem motivado uma discussão sobre a irrupção do “populismo” em Portugal. Começo por discordar do uso vulgar do conceito: o que há é um nacional-populismo com traços evidentes de neofascismo, uma cultura política ocidentalista contra as “ameaças” do Sul do mundo, vindas de minorias descritas como “anti-ocidentais”, presente na esfera política e cultural do Ocidente desde os anos 1990.
Não nasceu com Trump e Bolsonaro; é apenas o mais recente surto de uma cultura política reacionária que, desde o início da era das massas, perpassa o conjunto das direitas e que, em momentos como o atual, ganha autonomia face aos seus partidos tradicionais, mas que nunca deixou de estar dentro deles. Não foram descritos como “populistas” nem de extrema-direita os 85 deputados do PSD e do CDS (80% do total deles) que, em julho, denunciaram o “uso doutrinário e ideológico” das “questões da identidade de género” feito, segundo eles, pelo Ministério da Educação. E, contudo, o texto que assinaram é em tudo semelhante aos discursos de Bolsonaro e Salvini.
Esta vaga de extrema-direita, comodamente descrita como “populismo” para se poder dizer que o há de direita e de esquerda, ambos representando uma mesma ameaça para a democracia (descrita como se não fosse mais que uma fórmula UE+NATO+neoliberalismo), tem dado azo a um discurso elitista sobre a participação política das classes populares em que se integram expressões como os “deploráveis” que Hillary Clinton dizia apoiarem, na campanha de 2016, o candidato Donald Trump. (Discuti este tipo de discurso no capítulo “O antipopulismo reacionário em Portugal” do livro O espectro dos populismos, coordenado por Cecília Honório, 2018.)
Vem isto a propósito do artigo de sábado passado de Pacheco Pereira sobre o Chega e a manifestação dos polícias. Segundo ele, “os polícias vêm dos mesmos meios que hoje abandonam o Labour ou os democratas americanos”, e sentem-se abandonados por uma esquerda que era “tradicionalmente mais atenta à classe do que ao género, escolha sexual ou raça”. Isto explicaria como o Chega teria ido “buscar votos fora de Lisboa, em áreas que votavam à esquerda”. Pacheco admite que tenha “tirado votos ao CDS e ao PSD [mas] o seu potencial de crescimento não está na competição com esses partidos mas sim com o PCP, “o partido cujo eleitorado é mais sugado pelo Chega (…) porque ambos partilham de uma proximidade natural com aqueles que se sentem sem representação no sistema político”. Insiste-se aqui na tese, que também tenho contestado, da transferência direta de votos da esquerda (e dos comunistas em particular) para a extrema-direita em França e Itália, por exemplo.
Parece-me haver aqui haver um erro de análise e um preconceito. O primeiro é sobre o Chega ter “sugado” votos ao PCP. Dele tratarei agora. O segundo é esta ideia subterrânea de que os politicamente “ressentidos” podem ter votado CDU no passado (a “esquerda demagógica”, como lhe chama a direita e alguns socialistas) mas hoje o fazem na extrema-direita – e disto falarei na minha próxima crónica.
O mapa da concentração (ainda que raramente acima dos 5%) de votos da extrema-direita (Chega+PNR) é não o dos melhores resultados da CDU mas o da concentração de afrodescendentes e imigrantes (freguesias de Loures, Santa Iria de Azóia, Rio de Mouro, por exemplo) e o da maior presença de comunidades ciganas no Alentejo (Elvas, Mourão), concelhos onde a CDU obtém resultados abaixo da média. Na Margem Sul, pelo contrário, o Chega só atinge os 2% no Montijo ou na Moita, mas não em Setúbal, Almada ou no Barreiro, onde a CDU tem os seus melhores resultados. Procurar ex-votantes comunistas no Chega é partir da ilusão de que não havia direita em todos estes territórios. O que o Chega atrai é voto de onde o próprio Ventura saiu (PSD, talvez mais até do CDS) e de antigos abstencionistas, um eleitorado patriarcal zangado saído do armário do reacionarismo histórico dos últimos anos à volta de temas como os imigrantes inassimiláveis, a reivindicação da grandeza histórica e da tradição (caça, tourada…), a denúncia da ideologia de género.
O mapa eleitoral do Chega é, portanto, o do racismo e da xenofobia. Comecemos por reconhecer a existência destes e partamos daqui para explicar a sua nova articulação política.