De Bagdade a Caracas

(Daniel Oliveira, in Expresso, 02/03/2019)

Daniel Oliveira

Corria 2003 e o debate fazia-se nos jornais. Os que se opunham à intervenção militar eram acusados de ser novos Chamberlain ou até aliados de Saddam, um terrível ditador (mesmo) que punha em causa a segurança do mundo com as suas armas de destruição em massa. Colin Powell foi à ONU mostrar as provas, Tony Blair garantiu que as tinha visto. Em Portugal, o então diretor do “Público”, agora no “Observador”, escrevia que tinha deixado cair uma lágrima furtiva à chegada dos tanques de Bush a Bagdade. Era o 25 de Abril iraquiano.

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Sabemos o que aconteceu depois. O ISIS nasceu do caos do Iraque, a Síria foi devastada, centenas de milhares de refugiados chegaram à costa europeia do Mediterrâneo, aumentaram os atentados terroristas, a extrema-direita ganhou argumentos no Ocidente. O mais grave não foi a mentira, foi tantos terem decidido ignorar a evidência: que a única motivação dos EUA estava debaixo do solo iraquiano.

Das sucessivas intervenções norte-americanas no exterior, poucas terão sido motivadas pela defesa da democracia. Na América Latina, nenhuma. Do Chile de Allende às Honduras de Zelaya, Presidente democraticamente eleito e deposto há 10 anos por um golpe militar apoiado pela Casa Branca, passando pelo apoio a dezenas de ditadores amigos, a motivação nunca foi a defesa de valores democráticos. Nem a resolução de dramas humanitários como os que, nas Honduras, levaram a que de lá partisse a caravana de imigrantes que esbarrou com o muro entre os EUA e México. Sejam democratas ou ditadores, o que interessa é a sua lealdade e obediência. Se são, como Roosevelt terá dito sobre Somoza ou Trujillo, os seus “filhos da puta”. Nada mudou com Donald Trump.

Como no passado, a “ajuda humanitária” à Venezuela é apenas uma arma política. Desta vez, com o espalhafato hollywoodesco de vir acompanhada de espetáculos musicais na fronteira, abrilhantados pela presença do intrépido combatente pelos direitos humanos, Mike Pence. Nicolás Maduro não tem razão em coisa alguma, a começar em não ter reconhecido um parlamento eleito e a acabar na recusa em marcar eleições presidenciais que façam o país sair do impasse, passando pelo desastre económico e social que impõe ao seu povo. Mas tem razão quando aponta o cinismo desta ajuda “humanitária”. Como explicou a Amnistia Internacional, o levantamento do bloqueio à compra do petróleo e à venda de material de refinaria, assim como o descongelamento de contas do país, é a ajuda que a Venezuela precisa. Cercar economicamente um país para o obrigar a receber em esmola o que pode pagar com o que é seu é o oposto de uma ajuda humanitária. A ajuda oferecida pelos EUA e pela Europa é tão humanitária como a da Rússia. Como se vê pelo regresso do sinistro John Bolton, os que usam a fome dos venezuelanos para o seu cinismo “humanitário” são mais ou menos os mesmos que prometiam espalhar a democracia pelo Iraque e seus vizinhos. E o que os movia então é o que os move agora. Se desta vez chegarão à guerra, o futuro dirá. Que Trump está a sentir falta duma, não tenho dúvidas. Depois de Michael Cohen ainda mais. Como sempre, a propaganda fará o seu caminho, acusando os que não a engolem de cumplicidade com o ditador. Mas mal estaria o mundo se a democracia dependesse de um braço de ferro entre Maduro e Putin, de um lado, e Trump e Bolsonaro, do outro. O assunto é o de sempre. Em Bagdade ou em Caracas.

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