Vaidade e leviandade

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/06/2020)

Miguel Sousa Tavares

Levo tantos anos a olhar para a política portuguesa quantos ela tem de existência democrática. E em todos estes anos vi, como em todas as outras áreas, políticos bons, maus ou péssimos, honestos e desonestos, verdadeiros servidores públicos ou servidores de si mesmos. Avaliando-os não apenas ou necessariamente pelas suas características pessoais mas também pelos resultados da sua acção, coloco à cabeça do ranking daqueles que em minha opinião foram os piores de sempre dois nomes: Aníbal Cavaco Silva e José Manuel Durão Barroso.

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Ambos têm algumas coisas em comum, além de terem pertencido ao PSD e terem sido primeiros-ministros. O principal em comum foi o facto de se terem elevado, por um conjunto excepcional de circunstâncias, até onde os seus dotes jamais fariam prever, e de o terem feito tudo devendo à democracia e nada tendo contribuído para ela, antes pelo contrário. Mas uma coisa, em minha opinião, os distingue de forma clara: enquanto Cavaco Silva, embora nunca tendo sido propriamente alguém desinteressado da sua sorte, tinha, apesar disso, uma ideia, certa ou errada, de missão para o país, Durão Barroso passou sempre os seus interesses próprios à frente de tudo o resto. Como exuberantemente se provou quando a meio do mandato como primeiro-ministro e após uma derrota nas europeias, tendo acabado de prometer solenemente aos portugueses que entendera a mensagem, não hesitou em abandonar o barco mal lhe caiu do céu o convite para presidir à Comissão Europeia — o que até o primeiro-ministro de um país tão irrelevante como o Luxemburgo, convidado antes dele, tinha recusado, exactamente porque entendeu que o seu dever era o de cumprir o mandato que lhe haviam confiado os seus eleitores nacionais.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

A propósito da célebre Cimeira das Lajes, que deu luz verde à segunda guerra do Iraque, e que deve ficar a constar dos anais como um dos episódios mais vergonhosos da nossa diplomacia, veio agora Durão Barroso, ressalvando que “não gosta de julgamentos retroactivos”, reconhecer que se fosse hoje, com o que se sabe, “provavelmente, teria feito diferente”. Mente: o que se sabe hoje já se sabia na altura. Ou, pelo menos, o que Durão Barroso garantiu na altura que sabia — que tinha visto com os seus olhos as “provas” da existência de armas de destruição maciça no Iraque — era mentira. Não havia provas algumas, porque não havia armas. No Conselho de Segurança da ONU, o MNE francês, Dominique de Villepin, desfez na cara do secretário de Estado, Colin Powell, as supostas provas, em termos que se tornaram humilhantes para os americanos e evidentes para quem quer que não fosse idiota ou desonesto. E, no terreno, a Agência de Energia Atómica, por mais que procurasse, não encontrava quaisquer vestígios do tal armamento nuclear que Washington e Barroso garantiam existir. Foi então, exactamente porque se estava a tornar óbvio para todos que não tinha provas, que George W. Bush tomou a decisão de invadir. Ou, citando as inesquecíveis palavras do ex-director do Expresso, José António Saraiva, porque só invadindo é que se podia saber se havia ou não armas. Sem provas que não umas ridículas montagens fotográficas, com a oposição do Conselho de Segurança e da maioria dos seus aliados, restava a Bush o apoio dos Governos de Aznar e de Tony Blair. Mas chamá-los a Washington para decidir a guerra numa cimeira a três pareceria às divididas opiniões públicas de Espanha e Inglaterra um acto de vassalagem, e pior ainda se fosse em Espanha ou no Reino Unido. E foi então que Barroso cheirou a oportunidade e ofereceu o apoio de Portugal e a Base das Lajes, com a justificação simplista de que “não podíamos ficar neutros” quando o nosso “aliado” resolvia invadir um país só para satisfazer o desejo pavloviano de glória militar do seu Presidente. É claro que Bush teria invadido o Iraque com ou sem a Cimeira das Lajes, pois tinha isso decidido desde o primeiro dia em que tomou posse. Portugal é que não precisava de ficar ligado a esse triste episódio de uma mentira orquestrada que conduziu a uma guerra que custou directamente 100 mil mortos, fora os que resultaram e ainda resultam indirectamente do terrorismo do Daesh, nascido dessa invasão. Hoje, George W. Bush dedica-se à pintura no seu rancho do Texas, e Durão Barroso, além de trabalhar para o Goldman Sachs — os consultores que aconselharam os gregos a ocultarem dívida da UE, cuja implacável cobrança a UE, depois presidida por Durão Barroso, exigiria —, dedica-se também a conferências ou palestras onde deixa cair, em tom sábio e diletante, tiradas como as que acima citei. Não gosta de julgamentos retroactivos. Eu também não, mas não estamos a falar do século XVII nem do padre António Vieira. Estamos a falar de 100 mil mortos, há 17 anos. Em nome de uma mentira.

Suponho que para os playmakers do mundo esses mortos sejam uma abstracção. “Danos colaterais” que apenas se tornam um pouco mais visíveis quando vemos os corpos mutilados dos clientes do Bataclan parisiense mortos num atentado do Daesh. Mas aí Durão Barroso poderá justificar-se garantindo que perguntou várias vezes a Bush: “E o after?” Ele não terá respondido, porque não fazia ideia, mas tal não impediu o primeiro-ministro português de dividir o palco de guerra com ele, por um breve e intenso momento de vaidade planetária. Os mortos, se acontecessem, viriam depois, num after que já seria história acessória.

As Lajes, o silêncio sobre o massacre de Luanda, a diplomacia conivente com a Indonésia são três episódios da nossa política externa de que devemos ter sincera vergonha. E todos eles tiveram a assinatura de Durão Barroso

Hoje, somos muitos rápidos e muito voluntaristas a julgar os responsáveis de séculos passados ou a julgar estrangeiros, mas muito cerimoniosos com os nossos e actuais responsáveis. Desfilamos indignados com o assassínio do negro George Floyd, asfixiado às mãos de um polícia americano, que está preso, mas ninguém se manifesta contra o assassínio à pancada durante dois dias de um emigrante ucraniano às mãos de três agentes do SEF, os quais a juíza de instrução manteve em liberdade e cujos nomes nem sequer foram revelados. Estamos ansiosos para não ficar atrás de outros que derrubam estátuas de descobridores ou missionários que dizem que afinal não passavam de esclavagistas, mas assistimos tranquilamente às palestras de Durão Barroso, no seu papel de sábio da política internacional, sem lhe perguntar nada sobre o Iraque ou sobre o massacre de Luanda, quando os responsáveis da UNITA que lá estavam ao abrigo dos Acordos de Bicesse, negociados por Durão Barroso, foram chacinados e perseguidos sem aviso pelo Governo do MPLA, perante o silêncio absoluto do Governo português e do seu MNE (Durão Barroso), a quem cabia a responsabilidade moral da sua protecção, ou, ao menos, da denúncia do que se tinha passado. Ou sobre Timor, quando o mesmo Durão Barroso, como MNE, se encontrava, ano após ano na ONU, com o MNE indonésio, Ali Alatas, e gentilmente, com um ar de quem tinha despachado o frete constitucional, dizia infalivelmente: “Concordámos em continuar a discordar e em encontrarmo-nos outra vez para o ano.” Entretanto, Portugal perdia cada vez mais apoios internacionais para a questão, e os timorenses continuavam a ser ocupados e esmagados pelos indonésios. No espírito de Barroso, o assunto estava resolvido por si, de facto, e não havia nada a fazer, era um aborrecimento todos os anos ter de pedir um encontro com Alatas. Mas Guterres e Bill Clinton provaram depois que não era assim: era só uma questão de acreditar que na política externa também é possível bater-se por princípios. (Mas como a hipocrisia dos políticos pode ser infinita, anos depois e já independente graças a Guterres, quando Barroso era presidente da Comissão Europeia e Timor ansiava por dinheiros europeus, o Governo de Timor propôs e Barroso aceitou ser condecorado pelos serviços prestados à independência do país.)

As Lajes, o silêncio sobre o massacre de Luanda, a diplomacia conivente com a Indonésia são três episódios da nossa política externa de que devemos ter sincera vergonha. Todos eles tiveram a assinatura de Durão Barroso e de todos escapou incólume ou melhor ainda. A sua vida política merecia uma biografia à maneira anglo-saxónica, sem contemplações. E começando logo pelo seu passado maoista na Faculdade de Direito, descartado como um fait-divers, como um arroubo dos 20 anos — como se o fosse. Como se aos 20 anos o jovem Durão Barroso não tivesse idade para saber o que era o maoismo, para conhecer a extensão inominável dos seus crimes e não soubesse o que fazia ao andar, feito um iluminado histérico, a gritar vivas a Estaline e a Mao. Eu aos 20 anos já sabia muito bem distinguir a liberdade da ditadura, um assassino psicopata de um líder nacional. Não, não foi um erro de juventude, foi um pecado original. Que, não sendo explicável pela psiquiatria, como em muitos casos semelhantes, deve ser analisado à luz de um defeito de carácter. E, a essa luz, analisada toda uma carreira política verdadeiramente notável. Notável pelo que alcançou, pelo que exigiu de contorcionismo para lá chegar e lá se manter e pelo infinito vazio e inutilidade final que deixou sempre à sua passagem. Tanto poder para nada!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


De Bagdade a Caracas

(Daniel Oliveira, in Expresso, 02/03/2019)

Daniel Oliveira

Corria 2003 e o debate fazia-se nos jornais. Os que se opunham à intervenção militar eram acusados de ser novos Chamberlain ou até aliados de Saddam, um terrível ditador (mesmo) que punha em causa a segurança do mundo com as suas armas de destruição em massa. Colin Powell foi à ONU mostrar as provas, Tony Blair garantiu que as tinha visto. Em Portugal, o então diretor do “Público”, agora no “Observador”, escrevia que tinha deixado cair uma lágrima furtiva à chegada dos tanques de Bush a Bagdade. Era o 25 de Abril iraquiano.

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Sabemos o que aconteceu depois. O ISIS nasceu do caos do Iraque, a Síria foi devastada, centenas de milhares de refugiados chegaram à costa europeia do Mediterrâneo, aumentaram os atentados terroristas, a extrema-direita ganhou argumentos no Ocidente. O mais grave não foi a mentira, foi tantos terem decidido ignorar a evidência: que a única motivação dos EUA estava debaixo do solo iraquiano.

Das sucessivas intervenções norte-americanas no exterior, poucas terão sido motivadas pela defesa da democracia. Na América Latina, nenhuma. Do Chile de Allende às Honduras de Zelaya, Presidente democraticamente eleito e deposto há 10 anos por um golpe militar apoiado pela Casa Branca, passando pelo apoio a dezenas de ditadores amigos, a motivação nunca foi a defesa de valores democráticos. Nem a resolução de dramas humanitários como os que, nas Honduras, levaram a que de lá partisse a caravana de imigrantes que esbarrou com o muro entre os EUA e México. Sejam democratas ou ditadores, o que interessa é a sua lealdade e obediência. Se são, como Roosevelt terá dito sobre Somoza ou Trujillo, os seus “filhos da puta”. Nada mudou com Donald Trump.

Como no passado, a “ajuda humanitária” à Venezuela é apenas uma arma política. Desta vez, com o espalhafato hollywoodesco de vir acompanhada de espetáculos musicais na fronteira, abrilhantados pela presença do intrépido combatente pelos direitos humanos, Mike Pence. Nicolás Maduro não tem razão em coisa alguma, a começar em não ter reconhecido um parlamento eleito e a acabar na recusa em marcar eleições presidenciais que façam o país sair do impasse, passando pelo desastre económico e social que impõe ao seu povo. Mas tem razão quando aponta o cinismo desta ajuda “humanitária”. Como explicou a Amnistia Internacional, o levantamento do bloqueio à compra do petróleo e à venda de material de refinaria, assim como o descongelamento de contas do país, é a ajuda que a Venezuela precisa. Cercar economicamente um país para o obrigar a receber em esmola o que pode pagar com o que é seu é o oposto de uma ajuda humanitária. A ajuda oferecida pelos EUA e pela Europa é tão humanitária como a da Rússia. Como se vê pelo regresso do sinistro John Bolton, os que usam a fome dos venezuelanos para o seu cinismo “humanitário” são mais ou menos os mesmos que prometiam espalhar a democracia pelo Iraque e seus vizinhos. E o que os movia então é o que os move agora. Se desta vez chegarão à guerra, o futuro dirá. Que Trump está a sentir falta duma, não tenho dúvidas. Depois de Michael Cohen ainda mais. Como sempre, a propaganda fará o seu caminho, acusando os que não a engolem de cumplicidade com o ditador. Mas mal estaria o mundo se a democracia dependesse de um braço de ferro entre Maduro e Putin, de um lado, e Trump e Bolsonaro, do outro. O assunto é o de sempre. Em Bagdade ou em Caracas.