Os coletes amarelos na terra queimada de Macron

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

O aumento dos impostos sobre combustíveis tem sido apresentado como inevitabilidade política perante os desafios ambientais que a França tem pela frente. Depois de sucessivos aumentos, os franceses terão, em 2021, a mais alta percentagem de imposto sobre o gasóleo da Europa, depois do Reino Unido e da Itália – 60% (Portugal estava, em fevereiro, em 11º, abaixo da média europeia, com 56%). Em França, o gasóleo corresponde, ao contrário do que acontece na maioria dos países europeus, a uma larguíssima maioria dos carros em circulação. E o seu preço aumentou 23% em apenas um ano. Não é difícil imaginar o efeito económico que este súbito aumento teve nas carteiras dos cidadãos. Todos os dias, 17 milhões de franceses deslocam-se para fora das suas localidades para trabalhar e, destes, 80% usam o seu veículo pessoal (VER AQUI). As principais vítimas deste aumento não são os mais privilegiados. A indignação popular não vem do nada. Nem o apoio popular aos “coletes amarelos” que era, a 17 de novembro, de 70%.

Não preciso de dizer que considero a transição energética a primeira de todas as prioridades. Nenhuma outra faz sentido sem garantirmos a sobrevivência do planeta. E temos de estar disponíveis para todos os sacrifícios em nome deste objetivo. O cerco ao gasóleo acontece em toda a Europa e é inevitável. Mas para mobilizar todos para este sacrifício exige-se, do poder político, coerência, equidade e rigor. É por ser fundamental que tem de ganhar as pessoas e não pode ser feita de forma desigual. Ou o resultado será a eleição daqueles para quem as alterações climáticas são um mito urbano.

A tentativa de circunscrever a contestação dos coletes amarelos a um movimento de extrema-direita não é inocente. Macron quer manter todos os democratas como reféns: ou ele ou Le Pen. Tudo o que este homem tem deixado, à esquerda, à direita, no campo democrático e até na agenda ambiental, são quilómetros de terra queimada

Aquilo a que se assiste em França é, como de costume em Emmanuel Macron, uma fraude política. O pouco empenho do Governo na agenda ambientalista levou, aliás, à demissão do ministro do Ambiente, o ecologista Nicolas Hulot, por um “acumular de desapontamentos” perante a evidência de que esta não era uma área prioritária. Na realidade, Macron nunca fez qualquer combate ao diesel, tem dado toda a proteção fiscal à petrolífera Total, não investiu no transporte coletivo, espera suprimir 11 mil quilómetros de linha férrea, não tem qualquer plano para travar a expulsão dos mais pobres para cada vez mais longe dos centros das cidades. A ideia de que a política ambiental se pode resumir à punição fiscal dos cidadãos, sem que seja acompanhada por qualquer outra política pública urbana ou de transportes, é a repetição da desigualdade de sempre: pôr os mais pobres a pagar, sozinhos, o esforço de salvar o planeta.

Macron acredita que as nações se mudam à paulada. O seu autoritarismo e a sua agenda neoliberal têm-lhe garantido uma impopularidade arrasadora, que conseguiu o feito de ultrapassar a de François Hollande. Uma impopularidade que se compreende quando comparamos um aumento de 23% para o gasóleo com o fim do imposto sobre as fortunas e a taxa fixa sobre os rendimentos do capital, que garantiram um aumento considerável do poder de compra dos 1% mais ricos no mesmíssimo momento em que os 20% mais pobres perdem poder de compra e veem serviços públicos e apoios sociais reduzirem-se. É neste cenário que as manifestações dos “coletes amarelos” devem ser observadas. Há uma forte convicção, baseada em factos sólidos, de que o aumento de impostos sobre os combustíveis tem razões estritamente fiscais. E que se enquadram numa aviltante desigualdade fiscal.

O movimento dos “coletes amarelos” (assim denominado por os manifestantes usarem os coletes de emergência dos carros) nasceu inorgânico, nas redes sociais. Apanhou os sindicatos e os partidos desprevenidos. A simpatia dos Republicanos (direita) e do PSF (centro-esquerda) foi discreta, a da França Insubmissa (esquerda) e de movimentos da esquerda radical mais clara. As centrais sindicais não apoiaram, mas alguns sindicatos do sector dos transportes furaram este bloqueio político. O Rassemblement National, de Marine Le Pen, deu apoio explícito.

Totalmente desenquadrado, o movimento tornou-se violento, coisa que impressiona mais no estrangeiro do que os franceses. Mas é um movimento que capitaliza um descontentamento mais geral com o aumento do custo de vida. E a ele juntam-se muitos descontentes que os sindicatos e os partidos não conseguem organizar. O movimento tem uma força especial nas pequenas cidades e vilas da província, onde se acumula o descontentamento pelo desinvestimento público e pela crise da desindustrialização. Quem se manifesta é a “France Péripherique” de que fala Christophe Guilluy.

A estratégia de Emmanuel Macron é a de entregar toda a contestação ao seu governo à extrema-direita. O trabalho não é difícil. Sendo a extrema-direita a força de oposição com maior implantação popular – Mélenchon está fragilizado depois de alguns escândalos –, terá sempre grande presença em movimentos inorgânicos de massas. Mas o forte apoio popular, da esquerda à direita, deixa claro que a tentativa de circunscrever a contestação a um movimento de extrema-direita – narrativa apoiada por alguns sindicatos irritados com a perda de protagonismo – não é inocente. Nem serve apenas para tentar circunscrever o impacto da contestação. Macron quer queimar todo o espaço democrático fora do seu próprio espaço de influência, entregando a oposição a Marine Le Pen. Tê-la como única adversária publicamente reconhecida é a forma de, apesar da impopularidade, manter todos os democratas como reféns. Sem ter de lhes fazer qualquer cedência. Ou ele ou Le Pen. É a única estratégia que tem.

Esta estratégia pode servir Macron, a curto-prazo, mas é um suicídio para a democracia francesa. Depois de esvaziar os socialistas, o presidente do centro autoritário quer esvaziar todo o campo democrático como alternativa a Le Pen. Se o conseguir fazer não demorará muito para que, cansada do seu governo, a maioria dos franceses acabe mesmo por escolher o que sobra: Marine Le Pen. Faz por isso muito bem Jean-Luc Mélenchon e entrar no terreiro onde Macron queria Le Pen sozinha.

Cada dia em que Macron consegue dar todo o povo a Le Pen é um dia mais próximo do colapso da democracia francesa. Porque este homem é um falsário perigoso. Tudo o que tem deixado, à esquerda, à direita, no campo democrático e até na agenda ambiental, são quilómetros de terra queimada.

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5 pensamentos sobre “Os coletes amarelos na terra queimada de Macron

  1. A mania da narrativa anti-diesel, por causa de um postulado problema de CO2 (?…) é capaz de ser síndrome de ignorância/desconhecimento e, se assim for, acaba por ser inconsequente… Ou melhor, as consequências são outras do que as esperadas… A «transição energética» terá mesmo que ser outra que não uma guerra aos motores de combustão interna…

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  2. Ninguém nasce com 40 anos. Aplicava-se ao Bruno de Carvalho e aos muitos incautos que o levaram ao colo. E aplica-se a Macron. Que nunca passou de um puto para a alta finança dispor.

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  3. O neoliberalismo, e mentalidade Randista, tão ceguinha está. já, que nem vê (será?) que segue como se num reizinho nu aos olhos de qualquer pessoa. Trazer para aqui como assunto alguém que não seja dirigente partidário, no caso português, e que foi eleito por vasta maioria, pelo que me é dado a conhecer, e é verificável,. como qualquer adepto do clube que tem terrenos certamente muito cobiçados, sabe, e me mostram, só nos dá um belo exemplo de alguém que certamente incomodou e ou incomoda tal tipo de coisa.
    Até está, por isso mesmo, dado um belo exemplo afinal. Nunca me ocorreria o trazer para aqui, ou quem o elegesse como presidente do seu clube, neste contexto. Muito bem visto, e bom exemplo.
    É bom então se lembrar de ele, sim. A tal ”alta finança”, que é como se sabe, dona da maior parte da CS, mostra-nos quem persegue de forma sistemática, e ao ponto de qualquer um desconfiar da virtude dela como fonte do que seja, sem ser mensagem de um qualquer Her Goebbels,

    Retomando o assunto, a França. e o ”anti-absolutismo” que lhes estará na psique pelas razões que se quiser, parece que o Macron se esquece, possivelmente, embora tenha – pelo que li algures, já cedido um pouco e baixado impostos nos combustíveis por exemplo, possivelmente achando ter sido fonte de contestação e cólera e por isso estar a levar com protestos de gente com coletes amarelos vestidos. Tem graça, mas, parece que os trabalhadores na Alemanha, onde chegou embarcação provinda do porto de Setúbal e encarregues de descarregar embarcação provinda do porto de Setúbal, vestiram coletes amarelos em solidariedade, e recusaram-se a descarregar.

    Mas lá está, no caso Francês (retomando o assunto), os anticorpos que eventualmente a população terá na psique, desde que tomou a Bastilha, pelo menos, pode não ser coisa apenas dos Gauleses. E mesmo por cá. parece-me que só houve os tais ”brandos costumes’, que saiba, na altura da segunda república e, por vezes ou de certa forma nesta ultima versão republicana, sobretudo após o cair do ”muro” (em Berlim).

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