Irmã de Marielle Franco intimidada, mestre de capoeira morto com 12 facadas por apoiar o PT: o Brasil depois da 1ª volta

(In Expresso Diário, 08/10/2018)

(Estas notícias são perturbadoras. O fascismo na Europa começou assim. Os seguidores de Bolsonaro usam impunemente a violência para atacar e condicionar os cidadãos de esquerda. É irónico que se diga que uma das causas do sucesso eleitoral de Bolsonaro é a falta de segurança nas ruas, quando os seus apoiantes são eles os causadores de insegurança e violência, que irá aumentar, quer Bolsonaro ganhe, quer perca na segunda volta.

Estátua de Sal, 10/10/2018)


Jair Bolsonaro não fez declarações sobre os atos de violência registados no dia seguinte à eleição, apesar de em declarações durante a campanha ter manifestado a sua vontade de ver todos os ‘petralhas fuzilados’. O candidato de esquerda, Fernando Haddad, manifestou esta segunda-feira o seu repúdio pelas situações de ódio que se vivem nas ruas.


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Nunca cutucar a onça, ou a virtude do medo

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 09/10/2018)

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Jair Bolsonaro segue na frente para a segunda volta das eleições presidenciais. Pode ganhar, se ampliar um pouco que seja a base do ódio – e os partidos e arautos do centro vão favorecê-lo, depois do colapso histórico que os tornou marginais na política nacional. Esperar por um assomo de vergonha de Fernando Henrique Cardoso ou de outros budas do centro-direita brasileiro, mesmo sabendo que fracassou a sua tentativa de reclamação fisiológica do poder e que alimentaram o monstro fascista quando endossaram o golpe palaciano contra a Presidente eleita, seria uma forma de esperar sentado pela vitória de Bolsonaro. Esta segunda volta não se pode ganhar com a direita civilizada, porque ela já não existe. Pode-se ganhar à esquerda no espaço da liberdade, se uma frente antifascista se erguer por entre os escombros de uma governação falhada e de alianças envergonhantes, e se essa frente for agora capaz de representar o nome da dignidade social e o sentido mais profundo da exigência de segurança para a população. Haddad só pode ganhar se for forte onde Bolsonaro cresceu e se o enfrentar.

Não tem pouco pela frente. A Bolsa brasileira comemorou o avanço de Bolsonaro com a maior subida dos últimos anos, o capital falou. E, se esta eleição está a comprovar alguma coisa, é que a burguesia brasileira é patrimonialista, oligárquica e escravocrata, não hesitando entre a democracia e qualquer forma de autoritarismo, se entender que assim protege melhor uma desigualdade tão extremada e por isso perigosamente evidente.

Para os donos do Brasil, pobre na universidade é sacrilégio, empregada doméstica com salário mínimo é afronta, respeito pelas pessoas é atrevimento. A indignação desta “elite” é uma lei da natureza, e os que se espantam com a passada vitória eleitoral de Hitler na pátria de Beethoven e Bach ainda não compreenderam a realidade da vida: em tempos de crise a disciplina social recorre sempre à força bruta para impor o silêncio.

Essa força é agora a política suja, a mentira como único argumento e o discurso do medo. A política mudou, já mudou com Modi, Duterte, Trump, Salvini e agora continua a mudar com Bolsonaro.

Mas já imagino a confusão à volta de Haddad. Uns querem o PT como sempre (mas isso traz a ganga do Mensalão e tutti quanti), para perder orgulhosamente. Outros, os que acreditam em milagres, querem uma plataforma moderada que namore o voto evangélico e tente acalmar os empresários que fazem piquete para obrigar os seus trabalhadores a votarem fascista. Outros proporão restabelecer as artimanhas de negociações de lugares de Governo, para atraírem partidos e caciques, a IURD, os interesses latifundiários e os magnatas de televisões que condicionam votos populares. De todos, no entanto, os mais perigosos, os conselheiros fatais, serão os que repetirem e insistirem na estratégia do medo, nunca cutuques a onça que ela morde.

Esses conselheiros já se levantaram quando as mulheres, sobretudo as mulheres, se manifestaram nas praças com o #EleNão. Foram centenas de milhares, mas que é isso comparado com os 49 milhões de votos bolsonaristas, dirão agora (em Portugal, mais original, Manuela Moura Guedes compara as grandes manifestações a uma “reunião tupperware” e um dirigente de esquerda, adepto da teoria da conspiração, assegura que foi “um golpe de mestre da campanha de Bolsonaro”). Não cutuques a onça, nada de criticar o fascista, muito menos na rua, muito menos se forem mulheres. Já se ouvira o mesmo a propósito do programa eleitoral de Haddad, afastando quem à esquerda quisera propor ideias novas, fulgor consistente e mobilização popular. Nunca cutucar a onça, que ela se pode aborrecer.

Esta narrativa, como se diz, tem uma causa e uma consequência. A causa é o sentimento de perda, que alimentou o adaptacionismo aos poderes: Dilma tinha escolhido Temer para vice e Meirelles para o mando financeiro, uma latifundiária para o Ministério da Agricultura e outros personagens inapresentáveis para o seu Governo, incluindo Crivella, o genro do guru da IURD, que agora dirige o Rio de Janeiro e que, naturalmente, foi atrás de Bolsonaro. O PT experimentou todas as formas de sedução da onça, alimentou-a e seguiu as suas pisadas, imitou-a mesmo nas práticas políticas e, por isso, há quem aí se assuste com a simples ideia da vara curta e trema perante a possibilidade de olhar a onça. A estratégia do não-cutucar baseia-se numa regra: se Bolsonaro insulta as mulheres, tratar o assunto como se fosse graçola de boteco; se ameaça os homossexuais, esquecer, que é problema dessa gente; se quer esterilizar os pobres, fazer a conta, que o dinheiro é pouco e ele vai desistir; se quer matar os opositores, ainda bem que não pensou em mim. Ora, o problema desta narrativa medrosa é que reforça Bolsonaro e, por isso, para que Haddad dispute a eleição, terá que fazer o contrário do que o não-cutucanço lhe sugere e que o PT fez nos seus Governos.

A consequência é, no entanto, mais profunda. Os tempos brasileiros, e não é só por lá, têm promovido uma classe especial de políticos da mediocridade, de conselheiros acácios pastosos, videirinhos que singram nas instituições e nos favores, que aprenderam a estratégia do medo e a cultivam temendo mais a onça do que a incoerência ou o abandono dos compromissos eleitorais. Ficaram por isso atemorizados com as vozes das mulheres do #EleNão, acharam que era um exagero, que nada justifica esta polarização e que o adversário é, afinal, no fundo, um dos nossos, todos remamos para o destino iluminado da nação. A consequência é, então, uma doutrina, nem pensar em cutucar a onça.

Haddad terá que escolher e dessa decisão depende toda a política brasileira. Bolsonaro não mudará nada no estilo e na campanha, só fará o que já sabemos, fugirá do debate, em que é lastimável, evitará ideias, que assustam, refugiar-se-á no estilo rufia, que é a sua praia. Em contrapartida, Haddad é o único que tem a possibilidade de escolher. Se escolher a rua da democracia, a coragem da voz clara, ganhará sempre, quaisquer que sejam os votos que o ódio venha a contar a 28 de outubro. Estará no único lugar onde pode pesar, mostrando que a democracia não é só um debate de televisão, mas um povo na praça, gente que sabe o que quer, que quem vem de baixo tem a dignidade de querer o que é seu.

A chave desta eleição, e ainda mais no Brasil, é por tudo isto trazer a alegria para a rua. Só se pode ganhar com a alegria e a cor do povo e é para isso que a mobilização polariza e junta. A emoção e a alegria são confiança. Como é preciso abrir uma página nova, mais vale então enfrentar a onça, romper com o passado e buscar essa confiança. É preciso saber merecer esse cheirinho de alecrim que tanta falta faz ao Brasil.

Tancos e o Roubo

(Dieter Dellinger, 09/10/2018)

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A questão de Tancos está a ser mal esquecida. Os órgãos de informação só falam no Ministro da Defesa como culpado de ter tido conhecimento que o material roubado foi em grande parte recuperado. Que imenso crime?

De acordo com as informações dadas pela Comunicação Social e não desmentidas parece ter acontecido o seguinte:

1) A Polícia Judiciária civil teve conhecimento através de uma escuta que algo iria ser feito em Tancos e que deveria ser um roubo de material de guerra.

2) A Polícia Judiciária civil não informou do que sabia o Ministro da Defesa, a PJ Militar nem os comandantes das unidades que guardavam os paióis. Isso foi um gravíssimo crime praticamente igual ao ROUBO. Até um simples cidadão tem a obrigação de informar as autoridades sobre uma dada ocorrência criminosa, quanto mais a própria Polícia Judiciária Civil que deverá ou deveria informar a Procuradoria Geral da República e todos deveriam ter-se empenhados em avisar o exército. Joana Marques Vidal pode ter sido informada, mas se o foi não deu a conhecer a quem tinha os meios de guardar os paióis.

3) No âmbito das investigações feitas pela PJ Militar houve uma informação que o roubo teria sido cometido por um tal Paulinho e os militares empenharam-se em primeiro lugar em conseguir recuperar o material dado a sua perigosidade, estando por aí livre para ser vendido ou aproveitado para um ou mais atentados em Portugal ou noutro país.

4) A troco de um silêncio da parte do PJM acerca do nome de quem teria organizado o roubo foi indicado que o material estaria na garagem da avó do Paulinho que combinou colocar o material num baldio perto da Chamusca, onde foi encontrado por via de um telefonema vindo de Loulé da parte de um GNR. Parece que a organização dessa recuperação se deve ao Major Brasão que atuou em conivência com o seu superior hierárquico Coronel Vieira. Depois podem ter ou não informado o chefe de gabinete do ministro que nada poderia fazer quando deveria ter sido informado antes do roubo pela PJ civil e pelo Ministério Público. Os órgãos do Estado não podem estar contra outros órgãos do Estado nem contra o Ministro da Defesa que tem a tutela do PJM. Nitidamente, a PJ Civil ainda sob a direção do anterior diretor e a Joana Marques Vidal não informaram o Ministro da Defesa, devendo tornarem-se arguidos de conivência com o ROUBO.

5) O chefe da PJM, Coronel Vieira, é preso às ordens da PGR e Juiz de Instrução, seguindo-se depois o major Brasão que estava então na RCA e o Paulinho.

6) Falta prender os agentes ou chefes da PJ que tiveram conhecimento antecipado do roubo e que poderiam ter evitado com um simples telefonema para o comandante da unidade de engenharia militar que tem a seu cargo os paióis e que de imediato reforçaria a vigilância e tentava bloquear as portas e as cercas.

7) O material roubado foi constituído por 120 granadas de mão, 44 lança-granadas foguetes e engenhos explosivos em lamina do tipo que foi muito utilizado na Argélia e França para atentados contra edifícios e que era designado por plastificar dado serem explosivos de plástico e 1.500 munições de pistolas Glock destinadas às 50 que foram roubadas na PSP sem que a PJ e a PGR tenham conseguido encontrar os criminosos que tudo indica serem agentes da própria PSP. Nada se sabe sobre isso, mas o crime não prescreveu, pelo que a PJ e a PGR têm o dever de encontrar o ou os ladrões. Essas munições não foram devolvidas e provavelmente já foram vendidas às pessoas que andam a vender as Glocks.