Centeno, o Orçamento e o baile mandado

(Por Estátua de Sal, 23/10/2018)

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Estive a ver o debate na Assembleia da República onde Mário Centeno veio apresentar a proposta de Orçamento de Estado para 2019, (notícia aqui ).

Centeno defendeu a sua dama com o virtuosismo técnico que se lhe conhece, mas acrescentou a isso uma emoção calorosa que não se lhe conhecia. A oposição de direita veio a terreiro com a argumentação do costume (as empresas – coitadinhas, o crescimento – pigmeu, os serviços públicos  – anémicos, bla, bla, bla)  e , devo dizer-vos, que adorei ver como foram dizimados, uma autentica carnificina. Centeno, puxou dos seus galões, e parecia o Lucky Luke das finanças a disparar mais rápido do que a própria sombra.

Ou seja, o que é que acontece quando o PSD e o CDS, mandam os Duartes Pachecos e as Cecílias Meireles – no seu tempo de estudantes apenas alunos esforçados -,  discutir  finanças e minudências técnicas do orçamento com um doutorado em economia por Harvard?  Levam baile e são arrasados.

O que acontece quando os mesmos trazem para o debate as críticas de Bruxelas, da UTAO, da Dra. Teodora, à exequibilidade do orçamento? Centeno diz que essas entidades não acertam uma, que falharam sempre todos os avisos, e que ele é que sabe porque acertou sempre! Ou seja, mais uma vez levaram baile e foram arrasados.

O que acontece ainda, quando os únicos que podiam ter legitimidade para criticar o orçamento (BE e PCP) revelam uma postura mais de consenso e diálogo com o ministro, dando prioridade a esvaziar as críticas da direita em vez de empolarem as suas próprias críticas? Centeno sorri, pisca o olho à esquerda, dá mais uma vez baile e a oposição à direita sai arrasada.

Coitada da oposição. Bem pode o Rio vir dizer que o Orçamento é uma orgia e que o Centeno e o Costa são os réis do bacanal que ninguém acredita nem os leva a sério.

A arte dos orçamentos de Centeno é que não podem ser dizimados pelas críticas da esquerda – até porque só passam com o seu apoio e contém medidas que esta elogia -, e também resistem incólumes às críticas da direita porque continuam a prosseguir parte das políticas que ela própria prosseguiu.

Dizer que o orçamento não promove o crescimento económico é um dos argumentos mais falaciosos que a direita costuma usar. A falácia deriva do facto de não estarmos numa economia planificada e estatizada. Ou seja, a maior responsabilidade para os – supostamente baixos níveis de crescimento -, numa economia capitalista de mercado, nunca pode ser do Estado mas sim da iniciativa privada, a quem compete investir e ser dinâmica. Se o não é, a culpa não pode ser do orçamento. Logo, se acham que o crescimento é baixo exijam maior dinamismo aos empresários nacionais que, muitos deles, não investem e preferem colocar os lucros em offshores. 

Sobre a crítica dos serviços públicos definhados nem vale a pena comentar esses gritos panfletários da direita que, durante quatro anos de governação, pôs de rastos o SNS e tudo quanto é serviço público, querendo agora tomar as dores daquilo que porfiaram em destruir.

Assim, não é de estranhar que perante tanta incongruência argumentativa da direita, onde conseguem dizer tudo e o seu contrário com a mesma desfaçatez e falta de vergonha, Centeno arrase e dê baile.

É que, bem podem dizer que o Orçamento é uma orgia. Mas se é uma orgia, então os críticos da direita são as odaliscas a dançar a dança do ventre e Centeno é um sultão, reconfortado e prazenteiro com o baile que orquestrou e que ele próprio comanda.

4 pensamentos sobre “Centeno, o Orçamento e o baile mandado

  1. A geringonça que se ria e também os papalvos que acreditam nestas patranhas.
    O tempo o dirá.
    Já o Mário Soares, Guterres e Sócrates atiraram o País para a bancarrota.
    O próximo será o A. Costa e os seus mosqueteiros.
    Que venha a crise e depois serão os mesmos a tratar dela.

    • A propósito de bancarrota seria bom que se lembrasse que a divida cresceu no governo do Coelhito de La Suerte, como nunca se viu em Portugal. E foi o Mário Soares que pegou na “batuta” na 1ª bancarrota, que recebeu do governo do Balsemão. Sócrates foi vitima da queda da economia internacional e do maior estoiro de um banco da América de nome Lehman Brothers e que influenciou toda a economia mundial em 2008, . A bancarrota foi “pedida” pela direita ressabiada que queria o poder a qualquer preço e com a promiscuidade conhecida entre o Coelho, Cavaco e Catroga. E teve-o com os resultados que se conhecem, apesar de ter vendido tudo o que pôde a preço de saldo. E é bom lembrar que os “mosqueteiros” do BPN (laranja) deram uma ajuda preciosa para o descalabro e ainda nenhum foi preso pelos crimes cometidos. Nem o assassino da velha está preso!!

  2. O que é extraordinário é que a direita até acerta nalgumas coisas (a conjuntura externa, o estado do SNS, …) sem isso ser minimamente consistente com o seu programa e ideologia.
    Porque é que isso vende devia servir para ensinar aos auto-intitulados socialistas o quanto lhes vale fazer políticas neo-liberais a agradar aos “mercados”. Ao Centeno, já sabemos que a Goldman não o esquecerá, ao resto… perguntem ao Renzi.

    • Quanto ao SNS estamos conversados! A direita revanchista tudo fez para definhar o Serviço Nacional de Saúde, que, por mero acaso!! até foi concebido e posto em prática por um socialista. A direita ressabiada e aziada tudo fez para “dar” aos privados (hospitais particulares e companhias de Seguros) o SNS, e durante quatro longos anos descapitalizou os hospitais públicos, em meios humanos e económicos. Só os ceguinhos é que não conseguem ver a tamanha campanha que foi feita para tal acontecer. É bom recordar que o actual presidente da Associação dos Hospitais Privados e que foi secretário de Estado da Saúde do (des)governo do Coelho já afirmou que a intenção sempre foi privatizar a saúde. Tal como a Segurança Social, ou os Transportes riodoviários e ferroviários. Se o “gang” continuasse a “comer” tudo, bem podiam, agora, os portugueses virar os bolsos ao contrário que não encontravam mais do que os forros do mesmo. Haja um pouquinho de vergonha!!

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