Eucaliptos, avozinhas e exibição dos foragidos capturados

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 23/10/2018)

LOUCA3

O novo normal tem destas coisas: tem duas faces como Janus, é simultaneamente apocalíptico e banalizador, não poderia ser uma coisa sem a outra. Tem que assustar e anestesiar, mostrando um mundo tremendo a que não podemos resistir e entretendo quem desvia o olhar. Esse mundo é ameaçador, Bolsonaro radicaliza a ameaça de prisão dos seus adversários no Brasil, Trump questiona trinta anos de contenção no desarmamento nuclear, um jornalista é assassinado de encomenda num consulado da Arábia Saudita, nada é hoje impossível ou sequer improvável. E o novo normal é ao mesmo tempo rasteirinho, parecendo até que, nestes últimos dias, essa banalidade tomou conta de Portugal: o que se discute é o transcendente assunto dos beijos dos avós, que já deu em prosas várias de tudólogos encartados, ou se o Presidente arruinou a pátria ao arrancar uns eucaliptos infestantes, o que suscitou uma reação magoada dos defensores do “petróleo verde”, ou se uma dirigente política tem um relógio de vinte e um milhões de euros, uma das mais delirantes efabulações de um aprendiz de fakista que, adorador de Bolsonaro, reconhece brejeiramente que nem sempre escreve “a verdade a 100%”. Não é fácil, mas é a vida, parafraseando um célebre dito, é melhor que nos habituemos.

Há nisto uma decadência de normas comuns de respeito pelo espaço público que parece irreversível. É aliás impulsionada por instituições que o deviam guardar: uma associação de polícias divulga fotografias forjadas para desse modo criticar um ministro, e a falsificação parece-lhes um ato legítimo. Aqui, o que é mais revelador é que são polícias e que têm por certo que o efeito da condenação pública da mentira é menos grave do que o ganho imediato com o insulto ao governante. Na mesma espiral, uma associação de militares da GNR sugere que os “criminosos” têm que ser tratados como se estivessem condenados e como se parte da pena ainda não lavrada fosse um antecipado enxovalhamento público e linchamento mediático.

Em todo este discurso catastrofista há um gosto pelo superlativo, uma vontade de chamar a atenção pelos propósitos mais extravagantes, uma forma de confrontação que adote o apoplético como norma, um culto do susto e, portanto, várias explorações dos sentimentos mais assustadores. O tremendismo é, em si próprio, uma linguagem. Um exemplo: um editorial de um jornal, esta segunda.feira, afirma que o acesso à aposentação “se tornou uma palhaçada”. Isto não acontece num jornal de escândalos. Uma “palhaçada”? No discurso político, aliás parente próximo deste jornalismo justiceiro, à medida que nos aproximamos das eleições de 2019 mais sobressairá a mesma atitude.

O ponto é este: a barreira das regras civilizadas, a tal da presunção de inocência, do predomínio da lei igual para todos, das obrigações que uma farda deve respeitar, o princípio da objetividade e contenção da comunicação social, tudo cede perante esta avalanche.

A banalidade, como o debate dos beijinhos ou dos eucaliptos, só narcotiza, o que já é grave, sobretudo quando a tensão está noutro lado, na ecologia do insulto e da mentira. No novo normal, a verdade não vai ser mesmo a 100%, como diz, feliz, o homem do relógio.

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3 pensamentos sobre “Eucaliptos, avozinhas e exibição dos foragidos capturados

  1. A menos de uma semana das eleições no Brasil, o candidato fascista continua à frente em todas as sondagens.

    Hoje já sabemos como é que o “messias” conseguiu ludibriar uma parte dos 30 milhões de brasileiros arrancados à pobreza extrema por 10 anos de social-democracia, como é que o neo-fascista captou votos no meio de estudantes, que só o são porque os governos petistas abriram 18 novas universidades estaduais, como é que pôs mulheres a votar pela misogenia, negros pelo racismo e gays pela homofobia.

    Hoje sabemos que o Capital esteve sempre do lado dele, sempre a dar-lhe dinheiro, propaganda e publicidade fácil. Hoje sabemos que o Capital, quando pôde escolher entre um democrata socialmente preocupado ou um fascista declarado, optou, hoje tal como em 1936, pelos fascistas declarados.

    Hoje já podemos dizer abertamente que as igrejas todas, as televisões todas, as das igrejas do capital e as do Capital com C maiúsculo, com a Record e a Globo à cabeça, fizeram tudo o que foi preciso para limpar o fascismo da cara do fascista e elevá-lo à categoria de messias com messias no nome.

    Hoje já sabemos como se processam as campanhas negras do século XXI: alimentam-se as ignorâncias com notícias falsas, aquecem-se as #FakeNews com o fogo dos medos e deixam-se destilar os ódios no alambique das redes sociais. O capital vai lá estar para pagar os milhões de pacotes de whatsapp necessários para difundir o veneno.

    Finalmente, cereja no topo do bolosonaro, os “democratas “, com d pequenino, vão falar em extremismoS, difusão de #fakeNews pelaS campanhaS dos candidatoS, corrupçõeS, tudo no plural, tudo bem embrulhado, para, no final, não escolherem o lado democrata da barricada anti-fascista e maquilharem com umas pinceladas de base os resquícios de fascismo ainda visíveis na cara do “esfaqueado”.

    O PT+PCdeB também tem culpas? O PT+PCdeB também errou? Também!

    Mas agora, a quente, vamos olhar para Portugal, vamos ver emergir o alimentar das ignorâncias a esconder a transferência, do Capital para o Trabalho, de 3 mil milhões de euros, operada nestes últimos três anos por um governo social-democrata apoiado na esquerda parlamentar.

    É a quente que temos de denunciar como inaceitável a propagação de fotografias de ladrões sentados no chão e já manietados, substituto contemporâneo dos autos de fé no Rossio, em que a turba podia satisfazer a violência da sua miséria arremessando excrementos, e propagar os medos com que os neofascistas aquecem a ignorância para destilar ódios.

    O dinheiro para propagar a peste já está a escorrer dos bolsos do capital para comprar os alambiques.
    😉
    (https://referenciasemmais.blogspot.com/2018/10/hoje-no-brasil-amanha-em-portugal.html)

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