Assis versus o Partido Socialista

(Julieta Sampaio, 23/05/2018)

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Convivi com Francisco de Assis, ainda este era um jovem, que começava a dar sinais de uma fulgurosa inteligência, muito culto e motivado para a carreira política. Coordenei, anos oitenta, um Projeto, na FDP, Conselhos Consultivos, em que ele Assis, coordenava o da Juventude. Confesso que gostei muito de ter trabalhado com ele e reconheço que em parceria ele realizou um trabalho de excelência.

Mais tarde, sem me admirar, vi Assis ser Presidente da Câmara de Amarante e do entusiasmo de muito socialistas, que não ficaram, nem podiam ficar, indiferentes, com a sua capacidade intelectual e cultural.

Terminado o mandato na Câmara de Amarante, Assis viu, que tinha as portas abertas, numa carreira política e muito em especial no Partido Socialista. Foi tudo o que desejou. Apreciei a sua ação como Líder Parlamentar, embora muitas vezes ficasse com sérias dúvidas, sobre o posicionamento político de Assis.

Um dia, um grande Senhor da política nacional e do Partido Socialista, abriu as minhas primeiras dúvidas. O que me disse, exigiu reflexão, que fiz, e talvez por isso, não me espantei tanto, quando se verificaram as primeiras reações que espantaram muitos. Assis ambicionava liderar um PS, que abrisse a um Bloco Central, mas ele sabia que António Costa, seria sempre oposição a esse caminho para o PS.

Na campanha eleitoral de 2015, sentiu-se na rua, que o PS, não ganharia as eleições. Havia preocupação em alguns e a solução noutros, que passaria por António Costa se demitir nessa noite, e Assis voltar ao combate dentro do PS, ganhar a liderança e fazer o Bloco Central.

Confesso que estava muito apreensiva. Manifestei essa preocupação a quem de direito, tendo-me sido garantido, que o SG não se demitiria, fosse qual fosse o resultado. Começa então a desmoronar-se o idealismo de Assis, que reage como é conhecido. A intervalos, mais ou menos, compassados, liberta o seu descontentamento, para atingir a liderança de António Costa e desvalorizar o êxito do projeto “Geringonça” e da governação.

Assis ponderou mal o seu projeto e não soube ou não quis aceitar as evidencias. Ficou naturalmente frustrado. Agora, em fim de mandato, volta à tona para dizer mais meia dúzia de frases retóricas, em nada de acordo com a sua capacidade intelectual.

Assis filiou-se num Partido do Socialismo Democrático, cuja matriz é de esquerda. António Costa apresenta ao Congresso, uma Moção, em que reafirma os valores de esquerda e da ética republicana, em que Assis não se revê, de todo.

Prevejo que Assis, com o seu valor intelectual e cultural, se encoste ao PSD, mais perto do seu pensamento político, ideológico. Deve fazê-lo e a bem dele mesmo, deve sair do PS, como respeito pelo seu percurso, que reconhecemos e desejamos muito respeitar. A vida é assim. Nada é para sempre. Assis nada tem a ver, ideologicamente como o PS, mas tem o direito de procurar o seu espaço e deve fazê-lo.

O testamento político de Arnaut

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 21/05/2018)

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António Arnaut (1936-2018)

Quando se diz que António Arnaut foi o “pai” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não é preciso acrescentar que, para além disso, foi um político notável, um democrata exemplar, um socialista empenhado. As três coisas estão resumidas no seu legado político: Serviço Nacional de Saúde. Porque o nosso SNS resume, de forma quase perfeita, o projeto que o socialismo reformista representou para Portugal e para a Europa. No tempo em que se propunha mudar a vida das pessoas e não apenas gerir a contrarreforma para que fosse um pouco menos dolorosa. O que é trágico é que Arnaut morra quando o PS tem como ministro da saúde, num governo que ainda por cima só depende do apoio da esquerda, alguém que dedicou a sua tese de doutoramento às vantagens de privatização de sectores do SNS.

Sendo António Arnaut fundador do Partido Socialista e ex-Grão-Mestre da maçonaria, seria de esperar que nele se concentrassem, mesmo na hora da sua morte, os mesmos ódios insultuosos que ouvimos no dia da morte de Almeida Santos ou de Mário Soares. Isso não aconteceu pelas características pessoais de Arnaut, bastante diferentes dos dois outros socialistas, mas também por o seu nome estar associado ao nascimento de uma das maiores conquistas nacionais dos últimos cinquenta anos. De tal forma poderosa que ninguém se atreve a contestá-la de forma explícita. E por ele nunca o ter deixado de a defender de forma coerente.

Com a Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde, propostas por Arnaut e aprovada, em 1979, com os votos favoráveis do PS, PCP e UDP e os votos contra do PSD e do CDS, António Arnaut resumiu, no que é uma das maiores conquistas da democratização do país, uma aliança política que só muito recentemente teve tradução numa maioria parlamentar de governo. Essa aliança em torno do SNS existiu porque correspondia ao PS que responde mais à sua base popular de apoio do que aos interesses que, nos últimos anos, com a cumplicidade do PS, PSD e CDS, abocanharam partes do SNS com prejuízo para as contas públicas e para os interesses dos utentes.

Mais do que elogios, mais do que palavras, mais do que bandeiras a meia-haste, António Arnaut deixou um testamento: um documento sobre os grandes desafios para o Serviço Nacional de Saúde, elaborado com o antigo líder do Bloco de Esquerda João Semedo. Ele não é um dogma e não é por a sua vida exemplar ter chegado ao fim que Arnaut tem razão em tudo o que defendia. Mas o PS tem o dever de não ignorar esse documento. Depois de Semedo e Arnaut terem dado o pontapé de saída para a aprovação de uma nova Lei de Bases da Saúde, o governo nomeou uma comissão liderada por Maria de Belém Roseira. Sem qualquer desrespeito numa hora que é para prestar homenagem a quem parte, não me ocorre ninguém que esteja, dentro do PS, mais distante da vida política e da perspectiva que Arnaut tinha do SNS.

 

A melhor forma de o PS prestar homenagem a Arnaut não é enfiar o seu retrato num corredor do partido, é pegar no seu testamento político e fazer disso uma proposta política. E pegar no seu exemplo de entrega ao serviço púbico sem promiscuidade com interesses privados e fazer dele prática política quotidiana. Arnaut é a parte melhor do PS. Usem-na e terão a eterna gratidão a que Arnaut tem hoje direito.

Não me venham com esses argumentos…

(Carlos Esperança, 21/05/2018)

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Estou farto de que me rebatam com as agressões imperialistas a países islâmicos, com o saque de que são vítimas, as malfeitorias dos EUA e de Israel, a cumplicidade europeia e muito mais, para tolerar uma ideologia totalitária e criminosa – o Islão político.

Tenho denunciado esses crimes, mas não os aceito como argumentos para um cómodo silêncio sobre o mais implacável dos monoteísmos e a sua demencial fúria prosélita.

Aliás, gosto da Constituição dos EUA e em Israel aprecio a igualdade de género que não existe em nenhuma outra teocracia, seja o Vaticano, a teocracia monástica ortodoxa do Monte Athos e as islâmicas e não preciso de censurar tais países para denunciar o perigo muçulmano.

Exijo a todas os devotos o respeito pela laicidade. Sei da História o suficiente para ter o dever de combater a influência das religiões nos aparelhos de Estado, num regresso em que o oportunismo dos políticos europeus trai a laicidade e compromete a democracia.

Há um maniqueísmo intolerável que leva pessoas de esquerda a conformarem-se com a deriva totalitária do Islão, leviandade e masoquismo de quem vê amigos nos inimigos dos seus inimigos e cala atrocidades contra inocentes, os tiques patriarcais, a violência tribal e a eterna humilhação da mulher.

O dever que a Europa tem de receber refugiados é incompatível com a condescendência no desprezo pelo seu ethos civilizacional. Os direitos humanos, a igualdade de género e a liberdade de expressão não podem ficar à mercê de idiossincrasias religiosas.

A Europa, depois de derramado demasiado sangue, conquistou o direito às crenças, não-crenças e anti-crenças, através da repressão ao clero. Não pode agora consentir crimes, chantagem ou violência de qualquer religião, sob pena de permitir retaliações de outras, autóctones, numa espiral de violência que foi apanágio de épocas passadas.

Proteger os crentes não é aceitar as crenças. O Islão político e os dignitários devem estar sob vigilância, para não sermos imolados, e, em vez de combatermos as crenças, sermos obrigados a enfrentar os crentes.

O ressurgimento de um catolicismo agressivo, ligado a partidos fascizantes, já anda aí a governar na Europa, em vários países, talvez vingando a indiferença com que deixamos bramir ulemás, xeques, mulás e outros marginais, contra os infiéis, na conceção desses trogloditas, homens e mulheres cosmopolitas e livres-pensadores. Nós.