Os golpistas não terão a última palavra

(José Soeiro, in Expresso Diário, 06/04/2018)

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José Soeiro

A sequência de acontecimentos é macabra, e é já difícil retomar o fio da história. Começou com o golpe e com a destituição da Presidenta eleita, para substituí-la por um gang de corruptos. Depois, instalou-se uma imparável espiral de regressão social e autoritarismo político, de violência contra os pobres, os negros as mulheres. Menos democracia, menos justiça social, mais corrupção. Um ataque sistemático aos direitos humanos, militarização de zonas das cidades brasileiras. Ataques de milícias fascistas aos partidos de esquerda. Assassinatos políticos como o de Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Agora, como parte da farsa obscena montada pelas elites políticas servindo-se do poder judicial, a perseguição a Lula, o candidato preferido de todas as sondagens, que ameaçou interromper o golpe através do voto popular.

  • mandado de prisão de Lula, depois de um polémico julgamento onde não houve provas mas abundaram irregularidades, surge na sequência de uma reunião do Supremo Tribunal que foi precedida por uma ameaça velada de golpe militar, feita pelo responsável máximo do Exército. O objetivo é claro: instalar o medo e evitar que Lula participe nas eleições que provavelmente ganharia.

Lula tem alguma responsabilidade naquilo de que o acusam? Não sei eu nem sabe ninguém, porque até agora não houve nenhuma prova material apresentada. E é por isso que esta operação judicial escancarada é um ato político e não é isolado. É um gesto de vingança contra um país onde os pobres, os negros, as mulheres, as favelados, os gays, os trans, os que nunca tiveram nada, tinham começado (e apenas começado) a falar, a existir, a olhar de igual para a igual.

Não se trata, no momento, de saber o que cada um pensa dos mandatos do PT, das alianças espúrias que fez com os representantes de interesses poderosos (dos patrões do agronegócio aos evangélicos conservadores), dos tiros no pé que deu, dos esquemas que alimentou. Neste momento, a etapa é outra e é nova. Há no Brasil um neofascismo com expressão popular, que faz do anti-petismo o seu mantra, tem as suas redes de comunicação, os seus candidatos, os seus militares, as suas milícias, que não se inibe de recorrer à violência política pura e dura, que tem saudades da ditadura militar – e que tem feito os seus mortos. Contra ele, há um campo que se organiza para resistir ao duríssimo golpe que foi ontem dado contra a democracia, contra a Constituição, contra as vozes que podem pôr em causa o sinistro processo iniciado com o impeachment. Nesse campo, cabem muitos, mais críticos ou menos críticos do ex-presidente. Cabem, na verdade, todos os democratas.

Tenho no Brasil alguns amigos. Um deles, de quem me sinto próximo como um irmão à distância, depois do choque e da tristeza com o novo golpe de ontem, dizia hoje sentir em si “uma certa alegria”. Porquê? É que hoje já foi dia de luta. “Hoje não vamos aceitar calados. Hoje já não jogaremos mais o jogo imposto pelo inimigo. Hoje, quem sabe, começa um novo dia”. Oxalá que comece, Julian. Há um Brasil imenso de dignidade e de justiça que se ergue e que, neste momento, já está na rua. Há um Brasil imenso que sabe que os golpistas não têm, não terão, a última palavra. É com esse Brasil que, cá e lá, está a minha cabeça e o meu coração.

CRISTAS E A AUSTERIDADE

(In Blog O Jumento, 06/04/2018)
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Há mais de dois anos que Assunção Cristas insiste que a austeridade não acabou, como se o fato de haver rigor orçamental, austeridade ou o que quer que seja pudesse justificar as canalhices que aprovou enquanto membro de um governo de que insiste ser a derradeira defensora. Esta birrinha idiota está a levá-la de forma sistemática ao desespero, ao ponto de já fazer o papel de imbecil.
Para a líder do CDS qualquer aumento da receita fiscal significa aumento da carga fiscal e isso prova que há agora mais austeridade. É um argumento que está entre o desonesto e o imbecil. Quando o seu governo tentou aumentar a TSU dos trabalhadores, reduzindo a dos patrões, pretendia reduzir os salários de todos os trabalhadores portugueses sem aumentar as receitas do Estado, neste caso da Segurança Social.
Quando decidiu reduzir o rendimento de todos os trabalhadores com um aumento brutal do IRS, através da sobretaxa, para financiar uma redução do IRC, medida com a qual Vítor Gaspar tentou substituir o golpe da TSU, não se pretendia um aumento da receita fiscal.
São dois exemplos de medidas brutais de austeridade que são neutras em relação à evolução das receitas fiscais. Esse fato mostra como a austeridade que deve ser a regra normal de governar, pode ser usada como instrumento político de um governo sem escrúpulos, que a coberto de uma crise nacional tentou promover uma brutal alteração na distribuição de rendimentos em favor dos mais pobres.
A esquerda cometeu o erro de referir-se a esta política como de austeridade, associando-as ao objetivo de redução do défice orçamental. Criou a ideia de que menos défice significa mais austeridade e que os défices são progressistas enquanto o rigor ou austeridade orçamental é um atributo das políticas de direita. Tudo isto é falso.
Na hora de distribuir o que conseguia tirar aos trabalhadores e pensionistas o governo da Assunção não era rigoroso, não foi rigoroso na forma como injetou dinheiro nos bancos, não foi rigoroso na forma como subsidiou os colégios privados, não foi rigoroso na pressa em descer o IRS a qualquer custo. Não admira que o governo da Crista tenha falhado sistematicamente nas previsões orçamentais, essa não era a sua preocupação.
É natural que agora o rigor do Estado tenha impacto nas contas públicas, ao contrário do que sucedeu com o governo da Cristas o aumento das receitas fiscais ou o que se poupa não se destina a financiar colégios privados ou a enriquecer os mais ricos. É também natural que com o crescimento económico e o aumento do consumo aumentem as receitas fiscais.
Há um par de meses a Assunção Cristas defendia que o crescimento se devia às exportações e não ao consumo, apontando isso como um falhanço da política do governo. Agora que o aumento do consumo se traduz num aumento das receitas fiscais, por via dos impostos sobre o consumo, Assunção Cristas em vez de aceitar que se enganou arma-se em burra e acusa o governo de promover mais austeridade.

Somos todos Ronaldo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/04/2018)

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O golo de pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo no triunfo (3-0) do Real Madrid sobre a Juventus, nos quartos de final da Liga dos Campeões, tornou-se em poucos minutos, até graficamente, um ícone do futebol mundial. É um momento histórico. Afinal, Portugal tem meios aéreos que ninguém supunha. O golo foi de tal modo extraordinário que já há quem chame a Cristiano Ronaldo o Centeno da UEFA.

Confesso que ainda esperei pelo final do jogo e pelas análises “antidoping” porque estamos habituados a que sempre que alguém consegue um grande feito de bicicleta é porque estava dopado.

Como não tenho memória curta, não considero que este tenha sido o maior momento na carreira de Ronaldo, não nos podemos esquecer do que ele fez durante o último Europeu de Futebol. Aquela atitude, do nosso capitão, de atirar o microfone da CMTV para o lago foi uma obra-prima. Na altura, pensei: mesmo que CR não ganhe este ano a Bola de Ouro (ganhou), o Pulitzer do jornalismo já não lhe escapa.

Para mim, Cristiano é a verdadeira biblioteca de livros de auto-ajuda. Vale por mil palestras de empreendedorismo e motivação. Há quem viva da teoria do “bate punho” e há os que a praticam.

É muito estranha a relação de alguns portugueses com o Cristiano. Convivem mal com o sucesso do rapaz. Muitas vezes, pergunto-me: será que gostam mais do Messi porque julgam que ele é do Entroncamento? Há uma má vontade para com Ronaldo de alguns portugueses. Lembro-me de que quando CR andava com a Irina, nos programas de bola chegaram ao ponto de dizer que a miúda não era nada de especial. Só faltou dizer que era um bocado gorda e tinha mau hálito.

Uma das frases que mais vezes oiço é: “Eu não gosto do Ronaldo porque ele é um bocado bimbo” – e normalmente isto é dito por um indivíduo com calças de corsário, camisola de alças, óculos escuros no topo da cabeça e com “headphones” dourados nos ouvidos a ouvir D.A.M.A.

Tenho enorme orgulho no Cristiano, gostava de lhe dar um abraço, mas imagina que o despenteava?! Estava tramado, nunca mais teria dinheiro que chegasse para lhe pagar um penteado novo.

Já me questionei, independentemente do facto de ser português e, mais importante, sportinguista, qual é o melhor jogador do mundo. Cristiano ou Messi? A minha resposta é simples. A ter de viver num mundo em que só um deles exista, claramente optava por ter estado vivo para ver jogar Ronaldo. Por tudo o que significa e que vai muito além do futebol e da possibilidade de ver fotos das namoradas. Por mim, está resolvido o problema do dinheiro para as artes, vai tudo para o Cristiano.


TOP-5

Bicicleta

1. Fórmula americana de probabilidades diz que o Benfica tem o penta à vista – aposto que o Putin está metido nisto.
2. Garraiada sai definitivamente do programa da Queima das Fitas de Coimbra – é substituída por uma largada de Dux Veteranorum.
3. Secretário de Estado da Cultura diz: “Este é um momento sofrido para o sector artístico.” E que António Costa sabia de tudo – António Costa é Harvey Weinstein dos artistas portugueses: confiaram nele, até foram apoiá-lo ao hotel e acabaram por ser… papados.
4. O Ministério Públicoinformou que arquivou, na passada terça-feira, o inquérito contra Dias Loureiro e José de Oliveira e Costa relacionado com o caso BPN – não dá para prendê-los no Arquivo do Ministério Público? Às vezes, tenho a sensação de que há mais bandidos arquivados do que presos.
5. Cientistas britânicos não conseguem provar que veneno é russo – aposto que são os mesmos do caso Maddie. Lá vamos ter de expulsar cientistas britânicos.