O tempo, esse facilitador de mudança

(José António Ferreira, in Blog Insónias, 17/01/2017)

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Acreditem, receei que durante a vigência do anterior governo o retrocesso do Sistema Nacional de Saúde (SNS) ao tempo da beneficência/caridade pudesse voltar.


Declaração de interesses: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência” o de filantropia e sobretudo porque não proporcionam emprego real, também por servirem de bandeira a certo poder político para se desresponsabilizarem e desvirtuar da função do Estado Social uma das conquistas de abril.

Voltando ao tema a que me propus refletir:

Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, enquanto criança também o SNS passou por este estádio de pobreza. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, nomeadamente durante a vigência do último governo e devido às políticas liberais instituídas, não adquiriu a sua maior pujança. Atrevo-me a dizer que, caso se tivesse mantido o programado pelo mais liberal dos governos que o SNS conheceu, este nem chegaria à idade de velhice.

Quem mais utilizou o SNS foram os pobres que erradamente julgavam não pagar. O poder instituído fê-los acreditar que o Estado Social funcionava. Errado! Caso fosse verdade, há época, o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos. Sendo estes os principais consumidores dos hospitais do serviço público e devido a estarem abrangidos por isenções, o financiamento fugia para o lado privado por via de…

…quem menos utilizava o SNS, os ricos, utilizando os subsistemas ou seguros de saúde, recorriam a instituições convencionadas. Este dinheiro ia financiar os grandes grupos que controlavam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato os seus serviços: à custa da precariedade profissional e dos carentes cuidados em saúde prestados.

Ironicamente a saúde também não era para pobres, não no sentido da oferta/procura, mas de cuidados de excelência porque este bem não lhes era oferecido na sua plenitude, nem em recursos materiais, nem, sobretudo, em recursos humanos.

O facto de se trabalhar em condições miseráveis, felizmente agora menos, incomoda. Não é por causa da miséria que a natureza perspetiva, mas porque os donos das instituições que regulam os povos utilizam como slogan “um modo de viver não nos permitindo decidir se o queremos ou não viver”. Assim se ganham fortunas e se controla o valor dos seus bens, neste caso, o bem Saúde.

A palavra miserável caso não sobressai-a leva-nos a (não) pensar em pessoas frágeis, dependentes, não reativas, que após permanente contacto com esta realidade deixam-se ficar numa letargia tal que o modo sobreviver prevalece ao modo viver.

Nestes cerca de 40 anos do SNS, esta miséria tornou-se mais observável devido ao tempo facilitador de políticas em que os números prevaleciam em relação às pessoas, consequência das políticas de direita ter por prática não só do ponto de vista semântico, a palavra miséria engrandeceu ainda mais na sua “miséria”. Passou a ser um produto intencionalmente manipulado por essa sociedade liberal em que vivíamos, que utilizava esta artimanha para se impor perante os seus cidadãos.

Não sendo dogmático militante, antes pragmático praticante dentro do dogmatismo próprio das instituições, considero que ainda não estamos bem. Sabendo que a existência de ciclos é fundamental, por serem impulsores de términus e inícios de tempos de facilitador de mudança.

Atento e observador de factos provados, atrevo-me a dizer que atores políticos, em alguns países chamados de Sociais-Democratas em outros de Socialistas, têm mais em conta o Colectivo em prol do Individual contrariando assim os encenadores das grandes e complexas peças, os Liberais.

Dito isto, várias vezes me questiono, onde estão os valores dos “maios de 68” ou os mais globais e abrangentes do não menos importante “abril de 1974”? Onde está a reatividade que nos é inata? O nosso património genético está a ser amarrotado, amordaçado pelos valores adversos deste meio ambiente inóspito criado para que continuemos somente a estar em vez de ser. Permito-me responder, os valores estão nos poucos “Eu’s” que por aqui vadiam e vagabundeiam mas de forma já muito ténue.

Espero que o tempo da saúde para os pobres, com a indecência de que a sociedade nem sequer é pobre, comece a desmoronar-se, fruto do já notório bem-estar bio-psico-social e económico proporcionado pela atual maioria governativa.

É necessário tratar de desmistificar o Papão criado pelo anterior governo sob a égide de que estávamos num processo de resgate e que fez com que o SNS corresse um enorme risco de morrer, pois a falácia que esse Governo nos andava a vender, e que muitos de nós compramos, era perversa. O dinheiro que nos é muito caro estava a passar para as mãos dos privados. Nada contra se realmente usar o privado significar pagar com dinheiro individual.

Como nem questionamos a qualidade em cuidados de saúde, não é que erradamente acreditamos no que nos dizem?

Gostaria de vincular ao meu texto o que ouvi e posteriormente li do atual ministro Dr. Adalberto Campos Fernandes em setembro de 2015, “Nos países desenvolvidos, de uma forma geral, os Estados desenvolveram diferentes modelos com o objetivo de garantir as respostas em saúde mais adequadas aos cidadãos.


Fonte aqui

 

MODERNISMOS…

(In Blog O Jumento, 28/12/2017)
PÚBLICO-28-Dezº
A primeira página do Público de hoje merece ser vista e revista, lida e relida, pensada e repensada; os jornalistas do Público dizem num único título o estado a que a democracia portuguesa chegou, dizem-no de forma espontânea, como se alguém tivesse adotado um artigo 1.ºA da Constituição no rescaldo das imensas sessões de beijinhos, desde os beijinhos a crianças ao beijinho no anel do arcebispo à saída da missa. Um artigo a dizer que no país nada pode ser feito e decidido sem o conhecimento prévio de Marcelo.
 
“Partidos aprovaram bónus de milhões sem dizer nada a Marcelo”, ao que isto chegou! Quem poderia imaginar que um dia os partidos deste país tivessem a coragem de alguma vez fazerem a este Marcelo o que nem a ANP, nem mesmo os deputados da ala liberal, alguma vez ousaram fazer ao outro Marcelo, por coincidência o padrinho deste. Ao que isso chegou, os partidos andarem a decidir coisas no parlamento sem dizerem, isto é, sem pedirem autorização a Marcelo!
Ao que isto chegou! Será que estes borra-botas dos nossos deputados já pensam que são arcebispos e estão convencidos de que o Presidente vai começar a reproduzir as suas homilias à saída do parlamento como se fossem os seus guias espirituais? Já não há respeitinho, os deputados já se dão ao luxo de decidirem coisas no parlamento sem que Marcelo seja avisado com a devida antecedência.
Os partidos ainda parece não terem percebido que antes de decidirem qualquer coisa no parlamento devem pedir uma audiência em Belém e meterem-se na bicha como fazem todos os bons portugueses, as senhoras das Raríssimas – antes de caírem em desgraça -, o sindicato que nos tempos em que Marcelo ia ao Ténis com o Ricardo era patrocinado pelo BES, os provedores das santas casas, os mais variados representantes do clero, a seleção de futebol e todas as outras forças vivas da sociedade.
Um dia destes compramos o Público e vemos lá escarrapachado que a Junta Freguesia da Messejana decidiu mudar a torneira do fontanário sem primeiro fazer o devido aviso a Marcelo, para que o Presidente não fosse apanhado de surpresa por uma torneira nova. Ao que a pouca vergonha do nosso parlamento chegou, decidir coisas sem avisar primeiro Marcelo! Enfim, é como o compadre que apanhou a mulher com o amigo e exclamou com grande indignação “com estes modernismos ainda vais fumar para a cama!”.
Haja respeitinho, Marcelo quer saber de tudo e nada se deve fazer sem que Marcelo seja devidamente informado; a Marcelo cabe decidir semanalmente quais as prioridades do governo para os próximos anos, acompanhar as obras de Pedrógão, certificar-se de que os anéis dos bispos estão bem lavados, enfim, tudo o que de importante suceder no país tem de ter o seu visto prévio.

Politica – A grande porca!

(Por Jacinto Furtado, in Noticias Online, 27/12/2017)

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Certamente não passaria pela cabeça do Mestre Rafael Bordalo Pinheiro que a capa do número 1 da Paródia, publicado no dia 17 de Janeiro de 1900 fosse duma actualidade acutilante e preocupante passados 117 anos, provavelmente ainda mais acutilante e preocupante do que na data da sua publicação.

Politica, a grande porca!

Tal como raposas no galinheiro, os partidos políticos com assento parlamentar, atacaram pela calada da noite, reuniram-se de forma quase secreta usando e abusando do poder que lhes foi conferido pelo Povo, a casa da democracia foi convertida num galinheiro para repasto das traiçoeiras raposas.

Nove reuniões, todas à porta fechada, sem registos, sem actas, apenas com a presença de representantes dos partidos políticos com assento parlamentar. Uma vergonha para a democracia, um caso de policia, uma atitude “para lamentar”. Cada um puxa a brasa à sua sardinha mas, no final, todos ficam com as sardinhas bem assadas.

Acabou-se a limitação que não permitia que os partidos políticos recebessem mais de 630 mil euros em donativos por ano, agora é à grande, é o que se queira. Acabou-se o IVA, tudo o que os partidos políticos adquiram tem direito a reembolso de IVA porque tudo passa a ser considerado actividade política, até a compra de papel higiénico. Realmente esta última até faz sentido, os políticos da actualidade estão ao nível da utilidade primária do referido papel.

Os partidos políticos não pagam IVA, os partidos políticos não pagam IMI, os partidos políticos não têm limite para os donativos que recebem. A cereja no topo do bolo é o facto de que, esta legislação aprovada à traição, “pela calada da noite” consegue ter algo que viola a Constituição da  República Portuguesa, tem efeitos retroactivos!

Entre Abril e Outubro de 2017, os partidos políticos que fazem no plenário e na comunicação social aquelas cenas tristes e pouco dignificantes de se insultarem uns aos outros, conseguiram a suprema habilidade de estarem de acordo e encontrarem consenso para gáudio dos seus cofres. Agora já não é necessário que os DDT’s façam “doações” usando para isso toda a família, nem sequer a necessidade de que alguns partidos tenham guardado no cofre mais de um milhão de euros em numerário. Agora é à grande!

A CDU fica com o problema resolvido em relação à Festa do Avante, não tem de se preocupar com IVA’s e afins;

O PSD fica com o problema resolvido em relação às festas do Pontal e do Pontão, não tem de se preocupar com os donativos, jantares e IVA’s;

O PS fica com o problema resolvido em relação aos processos que tem em tribunal porque, cirurgicamente, a nova lei prevê que os processos sejam terminados beneficiando do direito à restituição do IVA;

O CDS fica com um problema porque não vai voltar a conseguir depositar à pressa 1 milhão de euros em numerário, mas em compensação pode pedir que lhe façam transferência.

Nós, o povo otário e crédulo, continuamos a pagar IVA, continuamos a pagar IMI e não podemos sequer receber uma doação dum familiar de forma clara e transparente sem que os tubarões nos caiam em cima.

Esta história tem moral? Tem! Tem moral e tem lição. A moral “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte”; A lição: Se queres leis à tua medida e que defendam os teus interesses forma um partido político.

Os partidos políticos devem pagar IVA? Devem sim! Independentemente da despesa estar ou não relacionada com a actividade partidária (política) devem pagar IVA como todos os restantes cidadãos!

Os partidos políticos devem pagar IMI? Devem sim! Tal como todos os cidadãos o fazem em relação ao seu património imobiliário. É simples se não têm capacidade para suportar e sustentar o património imobiliário que têm vendam-no. É o mesmo que acontece ao comum mortal, ou paga ou vende ou corre o risco de ser penhorado e ver o seu património vendido ao desbarato.

Os partidos devem ter donativos limitados? Devem sim! Limitados e escrutinados de forma exaustiva. O financiamento dos partidos não pode ir além do que pagam os seus militantes, donativos particulares MUITO limitados e eventuais subvenções estatais atribuídas de forma justa a todos os partidos, de acordo com os resultados eleitorais, e não apenas aqueles que tem a faca e o queijo na mão.

É caso para se dizer que “À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer séria!”(*)

Os partidos políticos são uma necessidade democrática? São! Seguramente, o caminho que está a ser percorrido por estes partidos não é o da democracia mas sim o caminho da cartelização da política em que o contraditório não passa dum ordinário reality show para entreter o povinho enquanto no recato dos gabinetes cozinham suculentas leis para que comam todos da mesma gamela.

É urgente tomar medidas que acabem com o estado a que estamos a chegar (alguns dirão que já chegámos), Esta lei tem de ser vetada e não podem ser dadas condições para se continuar com o tráfico de influências. Os partidos políticos não podem ser juizes em causa própria. É necessário reverter todos os privilégios dados actualmente aos partidos políticos, têm de ter o mesmo tratamento dado à restante sociedade.

(*) Nota do autor: A referência à “mulher de César” não tem nenhuma relação com a conjugue do presidente do PS nem com qualquer outro familiar de algum membro desde governo, ou de governos anteriores, ou de altos dirigentes em funções ou já não que tenham sido nomeados por mérito (ou demérito) para cargos públicos ou privados, sendo que os privados podem, eventualmente, ser considerados “donativos”.


Fonte aqui