Jornalistas e professores

(António Guerreiro, in Público, 15/12/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

A profissão de professor encontra-se hoje tão deslegitimada e degradada como a profissão de jornalista.


O professor ficou assim submetido ao trabalho das classes proletárias, mas continua a recair sobre ele a imagem de que é um animal de luxo. E aí começa a caça ao professor. Há já algum tempo que começou a prosperar, por todo o lado, uma bibliografia que consiste em testemunhos desencantados de professores e ex-professores.

No princípio do século XX, a miséria espiritual da vida dos estudantes foi um tema filosófico que ganhou algum relevo: no princípio do século XXI é a miséria da vida espiritual dos professores que se tornou relevante.  Dir-se-ia que os professores integraram completamente um hábito muito próprio da escola, essa instituição que passa muito tempo a falar sobre si própria. Se recuarmos, talvez encontremos uma justificação para esta má relação entre jornalistas e  professores, que é mesmo uma inimizade se falarmos da relação entre o jornalismo e a universidade. Neste caso, trata-se de uma velha inimizade com uma história respeitável. Um eminente universitário italiano explicou-a em termos muito parciais, até um pouco arrogantes e demasiado marcados por uma pretensão de auto-legitimação: o discurso do jornalista situa-se na lógica da opinião; o poder dos professores, pelo contrário, legitima-se em termos de saber, isto é, o contrário da opinião. Pode ser que esta explicação tenha sido de algum préstimo, num passado já distante; hoje, dificilmente podemos dizer que o saber legitima qualquer poder dos professores. Há, no entanto, um princípio de competição entre jornalistas e professores que remonta ao Iluminismo, quando nasceu, em paralelo, tanto a universidade moderna como o jornalismo moderno. Ambos, o jornalismo e a universidade, tiveram a seu cargo uma missão crítica e de socialização do pensamento. Eles criavam uma cultura para a sociedade e uma sociedade para a cultura. Segundo a concepção iluminista dos jornais, eles deviam ser órgãos de formação colectiva de uma opinião pública racional. E deviam ser não tanto o instrumento de expressão de uma esfera pública pré-existente (como são hoje entendidos), mas mais o lugar de constituição dessa esfera pública. Ora, se os jornais tivessem hoje de assumir uma tal tarefa, já teriam desaparecido (e será que estão em risco de desaparecer precisamente porque não sabem que tarefa têm para cumprir?). De certo modo, a evolução da universidade e da escola (nalguns aspectos essenciais podemos amalgamar as duas instituições) foi paralela à do jornalismo e hoje todos têm de enfrentar um mundo que ameaça destituir a antiga função que detinham, sem que essa extinta função tenha sido substituída por outra. E a profissão de professor encontra-se hoje tão deslegitimada e degradada como a profissão de jornalista. Uns e outros perderam o privilégio da autonomia e reina sobre eles uma ordem gestionária.

 

Nicolau Santos deixa o “Expresso”

(In Jornal Económico, 15/12/2017, 20h)

(Nada que me espante. Nicolau era uma voz muitas vezes desalinhada com a inclinação para a direita que a linha ideológica do Expresso tem vindo a seguir. Há por lá outros plumitivos como o Monteiro, o mano Costa – e já nem falo do inenarrável Raposo -, que estarão de pedra e cal porque servem bem “a voz do dono”. Felicidades Nicolau, publico-te muitas vezes e espero continuar a fazê-lo, escrevas lá onde escrevas.

Estátua de Sal, 15/12/2017)


O jornalista manter-se-á como cronista do jornal, no seu espaço de opinião no caderno de Economia, no site e no “Expresso Diário”, bem como na “SIC Notícias”, como comentador e como moderador do “Expresso da Meia Noite”.


Continuar a ler aqui: Media: Nicolau Santos deixa o “Expresso” – O Jornal Económico

RARÍSSIMAS vezes…

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 15/12/2017)

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Raríssimas vezes a mãe de uma criança disforme e deficiente encontra forças para lutar por ele e, com ele, por outros como ele.

Raríssimas vezes a mãe, que trouxe no ventre um feto teratogénico, tem a sabedoria e a arte de conseguir, para a criança, a solidariedade de tantos, a simpatia geral e o apoio da Segurança Social, para fundar uma obra de cuidados modelares para crianças diferentes.

Raríssimas vezes a mágoa e o desespero que marcaram a tragédia de uma mulher foram tão criativos, e tiveram um final tão feliz para as crianças que nasceram diferentes num país que é solidário e tem o SNS que nasceu dos votos do PS, PCP, UDP e do deputado independente Brás Pinto.

Raríssimas vezes uma obra nasce tão bem e passa pelo sobressalto de ter à sua frente a mãe que, perdido o filho, canibalizou a obra para proveito próprio e alegadamente a usa para comprar vestidos caros, viagens mundanas e promover relações que atraem as tias de Cascais e a D. Maria Cavaco (equiparada), a rainha de Espanha e o PR português, os ministros da Segurança Social e outras altas personalidades, de Eanes a Leonor Beleza, de Maria de Belém a Fernando Ulrich.

E eis como a ambição da mulher mundana e venal, que eventualmente desviou dinheiros e cometeu peculato, se transforma, de um caso de polícia, num caso político. Um jornal confundiu a verba legítima que o atual governo transferiu com as comparticipações previstas no anterior para vários anos e, para denegrir um ministro competente, atribuiu-lhe a quadruplicação das verbas, o que é mentira; a TVI referiu-se a vestidos caros como sintoma do Governo que temos, quando comprados na vigência do anterior e como se isso fosse uma legítima arma política e não um caso de abuso pessoal.

Face à conspiração de silêncio perante os desmandos da direita e à necessidade desviar atenções sobre o desnorte do PSD e do CDS, é preciso criar casos para lançar suspeitas sobre o governo que procura a saída do buraco em que Passos Coelho e Portas lançaram o País, com a cumplicidade de Cavaco.

Bastam meias-verdades e grosseiras mentiras para adicionar à monotonia nauseante dos noticiários sobre os incêndios e atacar o Governo, mas não destruam a RARÍSSIMAS de cujo conselho fiscal não se ouviu falar.

Apostila – Sexta-feira, 15 de dezembro de 2017 – Agência Europeia de Doenças Raras suspende Raríssimas.