Sinais de fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 29/07/2017)

fogo

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

1 Portugal arde sem cessar. Arde visto de terra ou do ar, arde dia e noite, semana após semana, Verão após Verão, ano após ano. Se isto é uma guerra — e eu acho que é — estamos a perdê-la em toda a linha.

Mas Portugal arde também nas televisões, que dia a dia, incessantemente, nos bombardeiam com as imagens dos incêndios, substituindo com elas a falta de notícias da época, enchendo os ecrãs de labaredas de tragédia que potenciam audiências, fazendo dos jornalistas uma espécie de repórteres de guerra, sempre em busca da imagem mais dramática ou do drama humano mais pungente. Sentados no sofá, impotentes e silenciosos, assistimos a isto com a sensação de fatalidade de uma morte lenta e previsível.

2 Há muito que carrego comigo esta dúvida: será que as imagens televisivas dos incêndios não são elas próprias causadoras de incêndios? Que melhor pode desejar um incendiário do que transformar o seu gesto em tragédia e notícia de telejornal, ver o espectáculo do fogo por si ateado a passar nas televisões? Como o demonstraram as decapitações públicas filmadas e divulgadas pelo Daesh, que atraíam mais voluntários para as suas fileiras, a instantaneidade da partilha de tudo o que vimos ou fazemos acontecer não serve só para os inocentes devotos do Instagram.

3 Também há muito que carrego comigo a desconfiança de que praticamente todos os fogos sejam, como nos dizem, ateados voluntariamente. Desconfio que essa afirmada epidemia disseminada de loucura serve, bastas vezes, para que não se procure e não se reflicta sobre outras causas dos incêndios. Como quer que seja, uma coisa é a maneira como os fogos começam, outra é a maneira como se propagam e evoluem. E a nossa é devastadora e cada vez mais aparecem situações em que os fogos ficam fora de controlo. O que falha cada vez mais, sendo certo que não há falta de meios: a limpeza dos matos, a composição da floresta, o ordenamento, a falta de vigilância, a falta de um comando e de uma estratégia unificada, a descoordenação no terreno, o SIRESP? Parece que tudo. Tudo está a falhar e ainda faltam dois meses de Verão.

4 Enfim, também me pergunto muitas vezes quem ganha dinheiro com os incêndios, além dos que compram a madeira ardida a preços de saldo. Há muitos negócios e dinheiro a correr à volta dos fogos — dos meios envolvidos, do material, dos equipamentos, das comunicações, dos aviões, de todo aquele aparato que vemos. Não insinuo nada, mas gostava que se investigasse a sério quem está por trás dos fornecedores e dos contratados; como é que são feitos os concursos, se é que são feitos; quem tem poderes para contratar e mandar comprar, quem vende e quem vive disso.

5 Enquanto vemos arder dezenas de milhares de hectares de eucaliptos e pinheiros bravos, a Celpa, a Associação da indústria do papel, que se alimenta destas espécies, protesta, em comunicado, contra a aprovação da nova lei das floresta, que irá, talvez, limitar o crescimento da área plantada de eucalipto. E digo talvez, porque foi tamanha a resistência do Governo a essa medida imposta pelo BE e vai ser tamanha a resistência dos autarcas a quem o anterior Governo delegara competências para decidirem da eucaliptização dos seus concelhos, que uma coisa é a aprovação sofrida da lei, outra a sua real aplicação no terreno.

Há muito que carrego comigo esta dúvida: será que as imagens televisivas dos incêndios não são elas próprias causadoras de incêndios?

Diz a Celpa que a lei “reduz o rendimento dos pequenos proprietários com a única espécie florestal rentável num prazo de 10-20 anos”. É justamente aí que está o problema: a tentação do lucro rápido interrompendo o ciclo ancestral de plantar para a geração seguinte e assim sucessivamente. A tentação de pegar em terrenos abandonados pela agricultura e pela pastorícia e neles plantar eucaliptos para vender às celuloses, sem necessidade de qualquer manutenção: os terrenos continuam abandonados, o mato continua por limpar, mas se por sorte não acontecer algum incêndio enquanto as árvores crescem, valeu a pena. Se acontecer, paciência, os bombeiros apagam o fogo e o país paga a despesa. Isto, diz a Celpa, é uma riqueza que representa 5% do PIB. Para eles, talvez; para o país é um desastre — financeiro, humano, ambiental, sociológico. Mas eles têm amigos poderosos em todo o lado, como bem se viu no debate parlamentar em que, honra lhe seja feita, apenas o Bloco de Esquerda defendeu, de princípio a fim, o interesse público.

6 Se tudo isto já era suficientemente deprimente — o espectáculo diário de um país a ser destruído aos poucos por um inimigo que nos mostra indefesos e quase impotentes — a chicana política montada por PSD e CDS a propósito do número de mortos de Pedrógão tornou tudo ainda mais deprimente e sujo.

O ridículo ultimato com que o novo líder parlamentar do PSD se quis dar a conhecer ao país, devia tê-lo morto de vez — parlamentarmente e de ridículo. E se não se consegue entender por que razão o Ministério Público resolveu que os nomes dos mortos deviam estar em segredo de justiça, menos ainda se aceita que a oposição desconheça a separação de poderes entre o Executivo e o Judicial e, para efeitos de zaragata politica, transforme o segredo de justiça em censura governamental. Vão de férias, que bem precisam! Em Setembro vem aí o diabo!

PS: Também vou de férias, dando descanso a mim e aos leitores. E como nesta altura se costuma recomendar livros para levar de férias, eu atrevo-me, para os que desconheçam, a recomendar o livro cujo título é o deste texto: “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena — um romance de uma vida (infelizmente inacabado), passado num Verão dos anos 40, na Figueira da Foz, quando a Figueira da Foz era uma referência balnear de meio Portugal e Espanha. Para mim, o livro de Jorge Sena integra a trilogia dos meus romances portugueses preferidos, de qualquer época, juntamente com o “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio, e “A Selva”, de Ferreira de Castro. Só depois vêm Eça e aquele que, em minha opinião, foi o português que melhor escreveu nesta língua que nos serve: Camilo Castelo Branco.


(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

 

Carta do Belzebu ao diabete de Massamá

(In Blog O Jumento, 28/07/2017)
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Querido Diabrete Diabrete de Massamá,
Eu sei que deves andar zangado aqui com o teu tio Belzebu, prometi aparecer em Setembro de 2016 e atrasei-me quase um ano, mas para te compensar em vez de infernizar o Centeno optei por um incêndio em Pedrógão que fez lembrar o meu jardim. Ainda tive esperança de que entre os mortos, os falsos suicidas e a maluquinha dos cem ainda chegavas a primeiro-ministro, para não falar do roubo da sucata de Tancos.
Mas, ou ando em baixo ou o Costa é bem mais difícil de entalar do que o Sócrates; mas fica descansado, garanto-te que ele juntou-se ao PCP e ao BE, mas não tem nenhum pacto com o diabo, estou tanto ao teu lado como o Cavaco, outro diabrete levado da breca, ainda que já um pouco cansado. Mas quero ajudar-te a ganhar autarquias, não vá o Montenegro escurecer a tua carreira política, para não falar do afilhado do falecido Amorim que ainda não te deve ter perdoado não ter sido ministro e em vez dele teres escolhido o Lambretas para a pasta do Trabalho.
Mas diz-me o que queres, o que achas de uns mortos por pneumonia para te ajudarem a ganhares a Anadia, vê lá se queres mesmos mortos ou almas penadas por contabilizar, talvez as denúncias da maluqinha te ajudem a ganhar ponta Delgada. Mas se em vez de mortos vivos preferes mesmo finados devidamente selados pelo MP, então sempre se pode arranjar uma epidemia de sarampo, e talvez arranjes mortos para ganhares Vila Franca do Campo.
Se fosse o Menino Jesus recebia-te no meu regaço mais a devota da Assunção, mas deixa lá, sendo o Belzebu ainda te dou uns finados no próximo incêndio para ganhares a câmara do Tabuaço. Mas se não queres Tabuaço fica descansado, arranjo-te já uns quantos AVC e ganhas a freguesia das Mercês. Até pode ser que arranje umas vítimas de dores e ajudamos o diabrete que escolheste para Loures.
Conta comigo porque não faltarão mortos para te ajudar nas autárquicas e mesmo para chegares a São bento, morrem velhos e novos, na estrada e em casa, no hospital e no trabalho, novos e velhos, o que não faltarão em Portugal são mortos danadinhos para que voltes ao governo. Os articulistas do Observador, o diretor do Expresso, a maluquinha dos cem, o que não falta são mortinhos por te ver voltar ao poder.
Deixa de ler o Expresso e o Observador, escolhe antes jornais dignos da tua ambição, jornais com oblituário que é lá que estão aqueles que te elegerão, já que os vivos parecem preferir a Geringonça.

Desemprego nos 9%? O que é que isso interessa?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 28/07/2017)

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A taxa de desemprego foi revista em baixa para 9,2% em Maio e, de acordo com valores provisórios, deverá ter voltado a cair para 9% em Junho, revelou hoje o INE. A confirmar-se será o valor mais baixo desde há quase nove anos (8,9%, Novembro de 2008) e ameaça mesmo chegar ao final do ano abaixo da taxa de desemprego que se verificava antes da grande crise mundial.

É nesta altura que alguém dirá: mas o que é que isso interessa? O que interessa é que o Governo andou a esconder a lista dos mortos de Pedrógão. Não foi o Governo mas o Ministério Público? Não interessa. E não são 64 mortos, mas 65 ou 66. O Ministério Público diz que são 64? Não interessa. O que interessa é que não chegou um euro às vítimas dos incêndios. Isso é que é uma ignomínia. E o SIRESP, sim, o SIRESP? Não funciona. Quem o comprou? Foi o Costa, claro. E como baixou o preço, o SIRESP ainda ficou a funcionar pior. E Tancos, e Tancos? Uma vergonha! O Costa fez cativações e por causa disso a vedação não estava reparada e o sistema de vigilância não funcionava. Ah, não houve cortes na Lei da Programação Militar? Não interessa. Houve ou não roubo? Houve. Um roubo de material de guerra que nos achincalha perante o mundo e coloca as nossas Forças Armadas de joelhos junto dos nossos parceiros da NATO. E isso é culpa do Costa. O espaço entre rondas foi de 20 horas? É culpa do Costa que cortou no orçamento do Ministério da Defesa e das Forças Armadas. Nunca se viu tantos cortes como com o Costa. Ah, são cativações? O que é que isso interessa? É tudo a mesma coisa: cortes, cativações… A culpa é do Costa. O desemprego em 9%? O que é que isso interessa? Nada. O Costa não tem nada a ver com isto. O desemprego já tinha começado a descer no tempo do Passos Coelho. Aliás, também o défice desceu com o Passos, muito mais do que com o Costa. E a economia já estava a crescer. Este governo só está a aproveitar a boleia e a estragar o que Passos fez. Não tarda nada estamos outra vez na bancarrota e a pedir ajuda internacional. Com o Costa, é tão certo como dois e dois serem quatro: vamos outra vez pedir apoio aos nossos parceiros.

(Está na altura de recuarmos dois anos e irmos buscar as doutas explicações de inúmeros economistas, abalizados comentadores, jornalistas especializados que garantiam várias coisas: 1) que a subida do salário mínimo iria levar ao aumento do desemprego; 2) que a devolução de salários e pensões implicaria a subida do défice orçamental e o regresso dos desequilíbrios externos; 3) que a reversão de várias políticas do tempo da troika desaguaria na estagnação económica ou num crescimento agónico; 4) que a descida do IVA na restauração não teria qualquer efeito no sector. Bom, os índices de confiança dos consumidores são os mais elevados do século, o clima económico está em níveis pré-crise, o desemprego desceu abaixo da barreira psicológica dos 10%, o défice foi o mais baixo em 42 anos de democracia e este ano deve voltar a descer, continuam a verificar-se excedentes orçamentais primários, os desequilíbrios externos não regressaram…)

Sim, mas o que é que isso interessa? E os mortos de Pedrógão que o Governo escondeu? E o dinheiro que não chega às vítimas? E o roubo de Tancos? Sim, o roubo de Tancos? Pois, isso não lhes interessa. Só querem falar da taxa de desemprego, uma coisa sem importância nenhuma e que, aliás, se deve ao Passos. Essa é que é essa.


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