Dia de Portugal

(In Blog O Jumento, 10/06/2017)

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O Professor Manuel Sobrinho Simões fez hoje um dos melhores discursos que se ouviram até hoje nas cerimónias comemorativas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Não faço esta referência para menorizar o discurso do Presidente da República, ambos são professores catedráticos, mas de um lado temos uma tradição de rigor, alguém que fala quando é preciso, do outro temos uma cultura de selfies e nunca sabemos se vamos ouvir o comentador televisivo, o professor de direito, o político dos congressos do PSD ou o Presidente.
Quando se ouve Marcelo fica-se a rir, quando se ouve Sobrinho Simões fica-se a pensar, fica-se a pensar sobre quem somos,  quem poderíamos ser e sobre o que queremos ser. Estava ouvindo Sobrinho Simões e a câmara ia mostrando os rostos, percebia-se a curiosidade por detrás do rosto de circunstância dos soldados, via-se o sorriso de Costa, a altivez de Assunção Cristas e a cara de Pau de Marco António.
Mas enquanto ouvia Sobrinho Simões pensava sobre o fosso que existe entre o mundo das banalidades em que se transformou o debate político e o mundo de quem pensa com seriedade. Porque motivo não ouvimos mais vezes gente com a grandeza intelectual de Sobrinho Simões e passamos a vida a ouvir matracas falantes como Medina Carreira, José Gomes Ferreira, para não baixar o nível e passar aos que têm mais tempo de antena, como os anafados do João Guerra e Serrão e os paspalhos do Pina e do Ventura.
Que país é este onde os partidos da oposição tentam vir a ser governo procurando conflitos entre declarações de ministros e secretários de Estado? Dei o exemplo do que temos vindo a assistir na luta partidária, mas poderia eleger os discursos de muitas personalidades de todos os quadrantes partidários, sindicais ou empresariais.
Interrogo-mo como é que um país tão grande gera tanta pequenez, mas pior do que isso, porque razão neste país são os mais pequenos a dominar? Porque é que o nosso país está condenado a não ultrapassar os horizontes que lhe são impostos por tal gente, como se em vez das forças do universo por aqui imperasse uma das mais elementares regras da matemática, a do mínimo múltiplo comum?
PS: Alguém se lembra do que disse Marcelo Rebelo de Sousa?

Magnífico Pirro

(Francisco Louçã, in Público, 09/06/2017)

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Francisco Louçã

Tudo falhou na estratégia dos Tories e os resultados não deixam margem para dúvida. A aventura começou – e foi ontem – com uma vantagem de 20% nas sondagens e a certeza da maior vitória em cem anos, com Corbyn etiquetado como um “activo tóxico” que levaria os trabalhistas às catacumbas. À medida que a campanha decorria, apesar do reforço de gravitas que os atentados sempre permitem, Theresa May foi caindo e recorreu ao desespero, com a promessa de dinamitar os direitos humanos, facto significativo para demonstrar como a direita pensa ganhar uma eleição. Perdeu a maioria e agora só sobrevive com uma difícil aliança com os lealistas irlandeses (na Irlanda o partido que mais cresce é o Sinn Fein, que disputa a supremacia e que beneficiará desta aliança).

Mas engana-se quem pensa que ficará tudo na mesma, passado o nevoeiro eleitoral. Há pelo menos três grandes mudanças de que estas eleições são sintoma.

A primeira, e é irreversível, é que a Europa se tornou um remoinho destruidor dos partidos em que assentou o poder político tradicional. Isso não volta atrás. Veja bem, há uma regra que se aplica nos grandes países: os perdedores da globalização e da União desconfiam dos seus governantes e preferem trocá-los por quem estiver em condições de os substituir. É isso que leva alguns dos líderes europeus à vertigem da aventura, como os referendos no Reino Unido e em Itália. É isso que explica a derrota da UE na primeira volta das presidenciais francesas e o recurso a uma cesarismo de ocasião para reverter o resultado, o que conseguiu na segunda volta. Assim, o consenso neoliberal desabou, e era o suporte dos partidos governantes, em Itália desde que o Partido Comunista se transformou em Renzi, em França desde que o PS ficou Hollande, na Grã-Bretanha desde que Blair herdou o thatcherismo e Cameron lhe sucedeu. Hoje só sobrevive Merkel e a razão é evidente: a Alemanha é a única beneficiária da globalização e da UE. Portanto, cada eleição continuará a crise, excepto na Alemanha.

A minha segunda conclusão é que não vale a pena perguntar se a social-democracia pode renascer com Corbyn. Ela já morreu e é vítima do fim da hegemonia neoliberal. A Segunda Internacional é uma fantasmagoria, inclui o MPLA e os partidos ditatoriais que foram derrubados no norte de África e é presidida por Papandreou, lembra-se dele? Resta o Partido Socialista Europeu, que é de pouca valia. Isto não tem destino: define-se como centro, ou nos dias de festa como centro-esquerda, e faz por cumprir, veja as listas das portas giratórias entre os governantes e a finança ou as privatizações e ficamos conversados.

Mas que um partido com tradições populares possa ter 40% de votos com um programa de nacionalizações, isso já tem muito significado. Corbyn está fora desse triângulo das Bermudas que é o centro e foi por isso que venceu Blair, os tabloides e as sondagens.

Finalmente, há uma derradeira resposta a esta crise europeia com a fragilização do centro e dos partidos neoliberais, que é manipular as leis eleitorais. Cuidado com ela. Em alguns casos, isso ainda funciona: no domingo, em França, Macron com um terço dos votos pode eleger dois terços dos deputados. Em Itália fracassou. Em Portugal é a confusão: Montenegro tanto propõe um sistema brasileiro, que poucos acharão um caso de sucesso, quanto se distancia dos círculos uninominais, que por sua vez o PS deseja mas não consegue aprovar (estava no seu programa, ao cuidado dos que aplaudem o desejo de uma maioria absoluta). Mas, como se viu, leis eleitorais manipulatórias podem tornar-se um factor de exasperação popular. E agravar a crise retirando-lhes legitimidade não é solução para a crise dos governos, pois não? Pois é nisso que estamos. No topo ninguém sabe o que fazer. Excepto a Alemanha.

The new old Labour

(Daniel Oliveira, in Expresso, 10/06/2017)

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Em Cambridge, Bernie Sanders fez dois paralelos entre a sua candidatura e a de Jeremy Corbyn: os dois abalaram estruturas partidárias através da entrada de mais cidadãos na participação política e os dois concentraram a sua mensagem no combate à desigualdade social. Combate a que associaram a denúncia do sequestro dos governos por interesses económicos. Este tipo de discurso costuma ser caracterizado como “populista”. Não vou contestar, apesar da caracterização pretender deslegitimar a mais elementar exigência democrática resumida por Lincoln — “um governo do povo, pelo povo e para o povo”. Para a esquerda, a questão é a que sempre foi: porque a desigualdade social se traduz em desigualdade política, não há verdadeira democracia sem os mínimos de igualdade. E por saberem isso, Bernie e Corbyn regressaram aos valores matriciais dos seus espaços políticos. Sanders recuperou Roosevelt, Corbyn renovou o “espírito de 45”, que marcou o início do mais longo período de paz e prosperidade que a Europa conheceu. Apesar da marca vintage, Corbyn, tal como Sanders, mobilizou os jovens como nunca se vira. Não contra as pensões dos seus avós ou os empregos supostamente mais seguros dos seus pais, como a direita liberal sempre tentou que acontecesse, mas pelo resgate do que os seus avós conquistaram e os seus pais deixaram que se perdesse.

Há um mês, quando todos davam Corbyn como morto, Tony Blair escreveu um artigo no “The Guardian” em que explicava que o ‘Brexit’ era o único tema para os trabalhistas nesta campanha. Que não resultaria apelar ao voto para salvar o Serviço Nacional de Saúde e travar os cortes nas escolas. Blair sabia que se dirigia a uma minoria. 45% dos britânicos continuam a defender o “hard Brexit”, 25% votaram “remain” mas querem que a decisão do referendo seja cumprida e apenas 22% ainda desejam travar a saída da UE. Sendo o tema central deste mandato, seria evidentemente fraco para Corbyn, que ainda por cima está longe de ser um europeísta militante. Felizmente, o candidato não insistiu na dicotomia entre nacionalistas e europeístas. Apresentou um programa que a imprensa apelidou de suicidário: renacionalização dos correios e caminhos de ferro, defesa do Serviço Nacional de Saúde, reforço da Escola Pública, ensino superior gratuito, investimento na habitação e um sistema fiscal mais progressivo. E foi isso que fez a diferença. Num dos países mais desiguais da Europa, Corbyn regressou à agenda pré-blairista. O espírito do old Labour foi refundado por um velho apoiado por jovens.

É verdade que não chegou para ganhar as eleições. Mas, ainda há um mês, os conservadores esperavam ter a mais esmagadora vitória da sua história e todo o establishment do Labour preparava as exéquias de um líder que punha em causa a sua acomodada sonolência. Imaginem como teria corrido se os deputados trabalhistas não tivessem feito campanha contra ele? Mas talvez este tenha sido o melhor resultado para Corbyn. Depois da amarga vitória dos conservadores, terão de ser eles, no meio do seu próprio caos, a resolver os problemas que criaram.

 

Corbyn reforça a sua liderança matando, de uma vez por todas, o blairismo e a sua terceira via. O Labour virou mesmo à esquerda e as clivagens políticas que contam estão de volta. Precipitou-se quem suspirou de alívio com o centrismo radical e liberal de Macron. A história está sempre por contar.