Dispensar a “ajuda” de Marcelo

(In Blog O Jumento, 14/03/2017)
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Por aquilo que se vai lendo na comunicação social e a crer nos ataques mais recentes de personalidades da direita ao Presidente da República, o governo de António Costa estará a ser levado ao colo por Marcelo Rebelo de Sousa. Como estas posições surgiram quando as sondagens do PSD entraram no vermelho, é de supor que partem do pressuposto de que o PS pode beneficiar eleitoralmente das posições públicas de Marcelo.

Se António Costa beneficia da boa relação com o Presidente da República, este também beneficia do bom relacionamento que Costa proporciona e da sua lealdade e simpatia. Tanto quanto se sabe a perigosa geringonça nunca lhe propôs para homologação presidencial qualquer diploma com normas inconstitucionais, mesmo nas chamadas questões fracturantes, pelo que não se pode afirmar que o parlamento tenha decidido algo que faça corar o Papa Francisco.

António Costa e o seu governo nada devem a Marcelo Rebelo de Sousa; nenhuma proposta parlamentar beneficiou do apoio da oposição graças à sua intervenção, o défice de 2016 não foi conseguido por medidas sugeridas pela presidência, as medidas mais duras do OE não beneficiaram de um apoio público de Marcelo e, tanto quanto se sabe, se Marcelo não sujeitou diplomas ao Tribunal Constitucional isso não se deveu a um fechar de olhos às diatribes de um governo extremista, mas simplesmente ao facto de este ser um dos governos que mais respeitou a Constituição desde que esta foi promulgada.
Quanto aos pobres que tanto parecem preocupar Marcelo de Sousa, ao ponto de o antigo conviva dos jantares nos palacetes de banqueiros famosos, de aquém e além-Mancha ter passado a ser a visita assídua dos manjares dos nossos sem-abrigo, incluindo as receitas de atum daqueles que deixaram a rua, é bom recordar que até têm beneficiado de algumas medidas deste governo, adoptadas por sua iniciativa e, nalguns casos, por pressão do PCP e do BE, sem que António Costa ande por aí a gabar-se do seu franciscanismo, a distribuir papo-secos durante a noite.
Começa a ser tempo de começar a meter os pontos nos is pois a democracia nada tem a ganhar com esta confusão a que a estratégia pessoal de Marcelo nos está a conduzir. Os governos só precisam dos presidentes quando dependem dos seus fretes, foi isso que sucedeu na relação entre Passos Coelho e Cavaco; se o Presidente e o Governo fizerem o que lhes cabe fazer, ambos têm a ganhar e acima deles o próprio país. Se os presidentes colaboram com os governos e se os governos respeitam os presidentes, mais não fazem do que cumprir com a sua obrigação, é para isso que são eleitos. É isto o normal e não andar a ver vacas a rir ou a mandar a comunicação social noticiar escutas a Belém, e não é Marcelo que é fora de série, foi Cavaco que foi mau demais.
A esquerda não precisa de “fretes” por parte de Marcelo e ninguém tem dúvidas de que se as coisas correrem mal o Presidente será o primeiro a demarcar-se do governo. Ao contrário do Presidente da República o governo tem um programa que apresentou aos eleitores e que submeteu ao parlamento e é pela forma e pela competência com que o cumpre que será avaliado pelos eleitores, tudo é mais transparente sem elogios num dia e porradinhas presidenciais no outro.
Não é saudável para a democracia, até se pode questionar se reflecte valores democráticos, ter uma oposição condicionada por um Presidente da República de quem se diz que não gosta do líder da oposição ou que esteja condicionado por alcunhas menos dignas como o “cata-vento”. Pode parecer simpático para o governo, mas se um governo é competente deve dispensar estes jogos. Em democracia um presidente não pode andar a escolher ou a derrubar governos e muito menos a condicionar lideranças partidárias. Se assim for teremos uma democracia de opereta com Marcelo armado em maestro.

MENDES, o “CENADOR”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 14/03/2017)

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Para que fique desde já bem claro, o “cenador” não é aquele que ceia, assim ao modo espanhol, mas aquele que anseia a que a palavra, em vez de um “C” no começo, tenha aí um “S”. É que aí tudo muda, de repente!

Sei que já estão a adivinhar de quem eu estou a falar! É desse mesmo, do Mendinhos, o tal que, como uma vez escrevi, aqui vai o link para que, se entenderem, recordarem , tem um dedo mindinho, para cuscar o olhinho, desentupir o narizinho e também coçar o rabinho! Mas adivinho…

Eu não costumo assistir à sua “missa” semanal, ele nem acólito é que fará padre, mas como li uns remendos da sua prédica, eu fiz um “rewind” e fui ouvir. E fiquei assim a modos que siderado com a sua evolução e com a seriedade com que se leva.

Em primeiro lugar, e metade da prédica foi consumida com isto, com os louvores a Marcelo! E as suas loas e hossanas foram tais e de tal monta, desde a coerência e à independência, iguais às da campanha, à cooperação com todos os órgãos institucionais, à descrispação da sociedade por ele promovida, ao entendimento com o governo, à bonomia, à descompressão, ao alívio da pressão, aos afectos, à comunicação e não sei que mais adjectivos, que nada faltou…

De modo que eu de imediato, e vocês já sabem como eu sou imediato a retirar conclusões, ou melhor, a elucubrar cenários, logo pensei: das duas uma! Ou quer ocupar o seu lugar deixado vago como comentador mor do reino e, daqui a quatro anos, se o Marcelo se cansar, abalançar-se ao seu alto cargo, convencido de que, com o lastro deixado e a aceitação conseguida, tal desígnio não passe de uma miragem. Este o primeiro “supônhamos”.

O segundo é o tal passar do “C” de “Cenador”, um indivíduo que “cena” mas que também faz cenários e “cenas” com cenas, para o “S” de SENADOR! E aqui sim, aqui seria atingir o tecto da montanha. Mas, há sempre um ou muitos “mas”…

É certo que ele já fez o tirocínio, há muito que o fez pois, como em tudo na vida, tem que se começar por baixo, por trabalhos de actor secundário, e tirou um curso de alcoviteiro. Depois passou a ter aulas de aprendiz de feiticeiro (com a quele seu conterrâneo, só podia ser), fez “workshops” com tarólogas, estagiou com o Zandinga, aqui por telepatia, até chegar ao ambicionado lugar de “mensageiro do reino”.

De igual modo como antigamente nas Revistas do Parque Mayer: antes de se chegar a Artista, tinha que se começar por Corista! Todos sabem…

Mas, meu caro ex mensageiro real: você tem a suprema ousadia de ambicionar vir a ocupar o lugar do Marcelo? Nem que seja o de comentador mor do reino? Dizer a prédica assim direitinho como o Marcelo fazia? Mas você nem acólito é! O Marcelo, esse sim. Repare só: ele já anunciou que agora em Maio vai receber o Papa Francisco na sua dupla condição: de Presidente e de Católico! Mas um Católico dos que rezam. Ele reza no mar, quando toma banho, nas vezes em que almoça, no trânsito e mesmo quando recebe o Passos! Como algum dia lhe lavar sequer os pés?

Mas depois há um outro pormenor, um pequeno, mas grande pormenor, e aqui meu caro, aqui é um “handicap” e daqueles inultrapassáveis: Os LIVROS! Onde os livros, Mendes? Sem eles só lhe restam segredos de polichinelo, Mendes! É assim como ter cultura e ler a Maria e a Nova Gente, Mendes? Nunca lhe disseram assim uma coisa destas, que quem quer ser comentador a sério tem que levar livros? Nem que sejam policiais? Eu até dou uma sugestão: leve os do Viegas!

O Marcelo era às carradas, Mendes! Ele até podia não os ler todos mas tem-nos! E vou-lhe até contar um segredo: ele é Bibliógrafo! Não sabe o que é? Eu digo-lhe: tem toneladas de livros! E é segredo de fonte segura. Peça-lhe alguns emprestados que ele, ele é um mãos largas…

Quanto ao “S” Mendes, aí meu caro amigo, aí a coisa está difícil. Já temos o Santana Lopes, o Vitorino, o Felix, o Mourinho que também é Felix, o Freitas mais o Mira que são ambos Amaral, o Balsemão, o Sampaio, o Eanes, a Maria Cavaco (ele não porque está a reescrever as memórias, nova versão, está a ver, pois a anterior para Senador não dá…), e falta-lhe estatura! Não a altura, mas o conhecimento global que têm, por exemplo, o Santana e o Vitorino. O Louçã e o Júdice, para não falar do Coelho e do Xavier, porque o Pacheco, esse é de outra galáxia!

E, por fim, falta-lhe um cargo de relevo. Um onde possa demonstrar, na realidade, mas uma realidade para além das anónimas em que participa (sociedades), toda a gama das suas potencialidades e que sirva de trampolim para esses desígnios. Qual? Candidato Independente pelo PSD à Câmara de Lisboa! Com o argumento do José Eduardo Martins? Tanto dá. Prestava, como Independente, um grande serviço ao seu Partido!

Isso é que era…Sem isso, nunca será! Vá por mim ou diga comigo Amen, que em Português quer dizer, vou pensar nisso!


Fonte aqui

O dia em que fui enganado por Jaime Nogueira Pinto

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/03/2017)

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                           Daniel Oliveira

O que todos soubemos pelos jornais foi isto: a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa não queria que um grupo de extrema-direita organizasse um debate sobre Donald Trump, o Brexit e Marine Le Pen, de que Jaime Nogueira Pinto era o convidado, e, pressionada a direção da FCSH, esta decidiu, por razões de segurança, cancelar a conferência. Os jornais mais rigorosos explicaram que a decisão vinha de uma Reunião Geral de Alunos (RGA) que os estatutos da Associação de Estudantes obrigam a cumprir. A decisão não foi dela, como a própria direção da Faculdade veio sublinhar no seu comunicado.

Com base nesta informação, e em mais alguma, segui um automatismo que, podendo ser arriscado, me tem levado geralmente a posições corretas: o direito de todos falarem nos fóruns que eles próprios organizem é sagrado. Este direito não implica o direito de falarem em espaços virtuais ou eventos que sejam da responsabilidade de outros, mas dá a todos o direito de se juntarem para discutirem, sem limitações, as suas opiniões. A condição é que cumpram a lei e a Constituição da República. Sou, devo dizer, até mais libertário do que a nossa Constituição e oponho-me à proibição de organizações fascistas. Em contrapartida, arrepia-me a complacência que existe para com partidos de extrema-direita que albergam e beneficiam da participação de indivíduos que usam a violência e a coação sobre opositores como armas políticas. Em resumo, defendo mais liberdade de expressão e mais vigilância para com comportamentos criminais.

Este automatismo leva-me a ser especialmente claro na condenação de qualquer tentativa de censura (estou a falar de censura mesmo, não da limitação a um suposto direito ao insulto anónimo nas redes sociais) quando esta vem de áreas políticas mais próximas de mim. Sinto que tenho esse dever de coerência. Foi o que fiz no caso de Nogueira Pinto. É com aqueles de que mais discordamos que testamos de forma sincera os nossos valores democráticos.

Depois de ter escrito o meu texto de quinta-feira, várias pessoas anónimas e minhas conhecidas me chamaram a atenção para coisas que estavam, em toda esta história, mal explicadas. Tomei, devo confessar, os avisos como um sinal da velha cultura de barricada que se sente no dever de defender um lado só porque é o nosso. Até que os avisos começaram a chegar de pessoas muito mais insuspeitas. Quando a solidariedade com o diretor veio de forma claríssima da Reitoria da Universidade Nova e do Conselho da Faculdade (de que fazem parte figuras insuspeitas de “esquerdismo” como o empresário Pinto Balsemão, o banqueiro Vieira Monteiro, o embaixador Seixas da Costa e o dirigente da Fundação Aga Khan Nazim Ahmad) ficou claro que os avisos que recebi não eram infundados. Aquela gente não podia estar toda feita para calar Nogueira Pinto.

Em relação ao comportamento dos estudantes que se juntaram em RGA, nada mudou: eles tentaram mesmo calar os seus colegas. A Associação de Estudantes podia estar, como estava, estatutariamente obrigada a cumprir a inaceitável decisão que tomaram. Mas cabe a quem acredita na democracia não cumprir decisões que atentam contra ela. Não foi com uns e outros que fui injusto. Posso até compreender as suas preocupações, mas acredito que quem se bate pelo direito a contestar o poder vigente deve ser muito rigoroso na defesa da liberdade de expressão daqueles a que se opõem. Foi sempre por esquecer isto que os movimentos progressistas descambaram para o oposto do que defendiam. Foi com a direção da FCSH que eu fui injusto. Apesar de ter sido levado ao engano por Nogueira Pinto e os rapazes da Nova Portugalidade, tenho, neste texto, de repor a verdade. A culpa da direção, se a houve, foi de não ter sabido comunicar com clareza, desde o primeiro minuto, tudo o que sucedera.

Tomada a decisão da RGA e comunicada pela Associação de Estudantes à direção da Faculdade, esta decidiu não lhe dar seguimento. No entanto, o surgimento de ameaças difusas provocou receios no diretor. Este risco já seria motivo de repulsa por quem defende a liberdade de expressão. Só que, ao que parece, os membros da Nova Portugalidade propuseram ao diretor a presença de polícia na sala. Como sabe quem tem memória histórica, a tradição da autonomia académica recusa a presença de forças de segurança no interior das Universidades. Compreendo que isso não perturbe a rapaziada da Nova Portugalidade e muito menos incomode Nogueira Pinto, que apoiou de forma ativa, durante o Estado Novo, a repressão policial contra a liberdade de expressão e de manifestação dos seus colegas. Mas para os democratas, onde obviamente Nogueira Pinto não se inclui, esta é uma memória e importante e a proposta foi, como não podia deixar de ser, recusada.

A segunda proposta da Nova Portugalidade foi ainda mais preocupante e, acima de tudo, reveladora dos verdadeiros objetivos da organização: os rapazes propunham-se trazer o seu próprio corpo de segurança, uma espécie de gorilas, quem sabe de cabeça rapadas, para garantir um espetáculo dentro da Faculdade. A proposta também foi recusada. O raid feito por agitadores de extrema-direita externos à faculdade, no fim da semana passada, para intimidar membros da Associação de Estudantes (que foi invadida) e marcação de uma concentração do PNR só provam que a decisão foi acertada.

Não precisamos, aliás, de desenvolver grandes teorias. Foram os próprios membros da Nova Portugalidade a tornar público o seu objetivo, nas suas páginas de Facebook. Um dos seus dirigentes, Mário Bailão, escreveu: “Estou a enviar o cancelamento do evento para os principais sítios de notícias. Por favor, façam o mesmo, é da máxima importância que a nossa causa ganhe simpatia do público. Por outro lado a propaganda grátis certamente que ajudará a NP a crescer.” Nos comentários, Rafael Pinto Borges, também do movimento, responde: “Grande, grande trabalho hoje. Estamos de parabéns. Amanhã, verão, a novela continua.”

E a novela tem episódios que ou não foram contados ou, apesar de terem sido inicialmente referidos, foram depois esquecidos pelo seu principal protagonista. A verdade é que o diretor da FCSH, depois de perceber que havia riscos de segurança e que a Nova Portugalidade, em reação, se preparava para levar “gorilas” externos à instituição para dentro da faculdade, propôs um adiamento do debate a Jaime Nogueira Pinto. E que ele próprio aceitou, concordando que não estavam garantidas as condições para que a sessão se fizesse. No minuto seguinte, estava a contar ao “Observador” como tinha sido vítima de uma vil censura. Jaime Nogueira Pinto abusou da nossa boa-fé e fez passar por censura o que afinal foi um adiamento que contou com a sua concordância. Só falta saber se sabia da tentativa de ter capangas do grupo de extrema-direita na sua sessão.

Em resumo, os alunos presentes na RGA erraram ao tentar impedir a sessão, a Nova Portugalidade é composta por quem acha que pode chamar a polícia ou “gorilas” para dentro da faculdade, Nogueira Pinto fez-se vítima de um adiamento que ele próprio aceitou, o diretor da FCSH tomou a decisão que podia ser tomada e por isso contou com o apoio de todas as estruturas da Universidade e eu caí como um patinho no conto do vigário. Eu, a Associação 25 de Abril (que cedeu o seu espaço para a sessão) e muitos dos que, independentemente das convicções políticas de cada um, defendem a liberdade de expressão de todos.

Assim sendo, e apesar de ter sido movido pela repulsa que sinto perante qualquer tentativa de limitar a liberdade de expressão, sobretudo quando é o meu lado que as leva a cabo, devo um pedido de desculpas à direção da FCSH e aos meus leitores.

Se é verdade que cerca de 30 estudantes tentaram impedir um colóquio e que isso é condenável, tudo o resto não passou de uma fabricação de um grupo de extrema-direita que, nas páginas de facebook, assumiu que se tratava de um golpe de “publicidade grátis” e de uma manipulação de Jaime Nogueira Pinto, que fingiu ter sido forçado a um adiamento com o qual afinal concordou. Fui enganado.