Insuficiências

(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 28/03/2017)

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Queriam que ficássemos mais pobres, e o país empobreceu. Queriam-nos mais flexíveis, mais baratos, e o país criou o seu batalhão de precários quinhentos-euristas. Queriam-nos mais dóceis, e o país aguentou. Aguentou a troika e o Governo Passos/Portas. Aguentou o ataque aos salários, os impostos e a humilhação. Porque em terra de cristãos a culpa não morre solteira, a preguiça é um pecado e os povos honrados pagam sempre as suas dívidas. Ou assim nos foi dito.

Tudo o que Portugal recebeu desta Europa na última década foi autoritarismo e austeridade. Uma terapia de choque sem qualquer fundamento económico ou racional. Puro radicalismo ideológico misturado com uma boa dose de preconceito. Afinal, as declarações de Dijsselbloem não são mais do que uma interpretação rasca do discurso oficial da irresponsabilidade dos países do Sul.

Se excluirmos os juros, Portugal tem hoje o saldo orçamental mais elevado da Europa. Demasiado foi sacrificado para obter esse resultado, mas dizem-nos que não chega. O Banco Central Europeu quer agora sancionar o país pelos desequilíbrios macroeconómicos. É claro que não importa para esta história que, segundo as regras, o BCE não possa interferir com o poder político. E também não interessa que, segundo o mesmo procedimento que o BCE invoca, a Alemanha deveria ser multada. Sim, porque é tão desequilibrado o défice comercial em excesso como é o excedente predatório. Não interessa nada. A Alemanha é Alemanha, a França é a França, e em Portugal não chega.

Não chega para o BCE nem para a Comissão Europeia, que veio ontem recomendar mais cortes, mais permanentes. E também no sistema financeiro não chega. Não basta vender uma parte do Novo Banco, querem garantir que o Estado não manda, mesmo quando paga. Não chega, nem nunca vai chegar.

Pois vai sendo tempo de dizer que uma Europa onde só cabe quem obedece é uma Europa onde a democracia não chega, nem nunca vai chegar. E esse, sim, é o défice mais insuportável de todos.

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3 pensamentos sobre “Insuficiências

  1. “Aguentou a troika e o Governo Passos/Portas. Aguentou o ataque aos salários, os impostos e a humilhação.”

    Claro que fomos obrigados a aguentar só que também a marianinha colaborou e deu uma ajudinha muito leviana quando levantou com grande leveza a sua branca maozinha no ar do Parlamento para, com o rabaça I, chumbar o PEC IV.
    Fê-lo fundamentando que tal chumbo representava o princípio do fim da resolução de todos os males do país. E agora conclui que “aguentamos o ataque aos salários, os impostos e a humilhação”.
    Minha menina, que estuda muito para fazer contas e prever o futuro mas que cegou naquele momento, digo-lhe eu que aguentaram e sofreram dores de muitos males os milhares que perderam o emprego com os despedimentos a granel e com a matança de PME que o governo passos/portas promoveu mas pouco devem ter sofrido os deputados que tinham, teriam e tiveram sempre o seu trabalho garantido.
    É muito fácil não querer saber nada de futuro quando o nosso é fixe.

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