Contar zeros para adormecer

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/02/2017)

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Foi uma espécie de virar de mesa. Quando o PSD e o CDS tentavam prolongar a novela das SMS de Domingues e Centeno, surge a notícia de que houve vinte declarações de IRS que não foram fiscalizadas, e transferidas para “offshores”, no valor de dez mil milhões de euros entre 2011 e 2015. Este: “Vinte declarações no valor de dez mil milhões de euros” faz-me largar de imediato o cadáver das SMS da CGD e começar salivar de curiosidade: vinte declarações, de quem são?! Tenho mais curiosidade em saber o que raio se passou aqui do que conhecer as SMS do Domingues e do Centeno mesmo que incluíssem “nudes” da Monica Bellucci.

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, veio dizer que não teve conhecimento de falhas no tratamento dado pelo Fisco a transferências relativas a “offshores”. Já foi assim com a lista VIP das Finanças. Núncio não fazia ideia de nada. Na altura, quem se demitiu foi o director-geral da Autoridade Tributária. A lista era VIP, mas demitiu-se o mexilhão. Tenho a teoria de que o problema do Núncio foi ter andado a sortear carros. O pessoal das finanças não lhe passa cartão porque pensam que ele tem a sagacidade de uma apresentadora do Euromilhões.

Neste momento, já surge a hipótese de ter sido “um erro informático das Finanças”. Tinham demasiados zeros e a máquina das finanças só está afinada para menos. Foi feita para estar de olho, e apitar desalmadamente, em contas com dois zeros. Curioso que os alarmes soavam quando alguém espreitava as finanças dos VIP, mas adormecia com declarações de mil milhões. Provavelmente, o sistema informático adormece a contar zeros.

O CDS, partido dos contribuintes, reagiu de imediato a este escândalo, Cristas veio dizer: “O Governo plantou notícias para vir aqui fazer o número.” E que número, Dona Cristas, 10 mil milhões. Na SIC Notícias, João Vieira Pereira não pôs de parte a hipótese de notícias plantadas pelo jornal Público, dizendo que esta notícia deu jeito ao Centeno e que não sabe se foi propositado e que “não sou de teorias de conspiração, mas…”.

Resumindo, o jornalista do canal e jornal, que não revela quem são os jornalistas avençados do BES, porque são inocentes até prova em contrário, diz que coiso e tal, os seus colegas do Público, se calhar, plantaram notícias para ajudar o Governo. É também o mesmo canal onde Marques Mendes debita recados e notícias falsas ao domingo e onde andam a explorar as SMS do Centeno até ao tutano “porque é o que nós queremos ver”.

Não sei quem é o “nós”. Por mim, só queria ver tanta dedicação aos avençados dos Panama/BES como às SMS. E troco ver a declaração de rendimentos do Domingues por ver a parte da massa que fugiu voltar a casa. Eu sei, sou um anjinho, mas tenho esperanças de que o Lobo Xavier também tenha cópias de SMS com esta temática.


TOP 5

Plantado

1. Aníbal Cavaco Silva justifica o lançamento do seu livro de memórias com uma forma de prestar contas aos portugueses – Vai devolver aos portugueses o que ele e a filha ganharam com as acções do BPN.

2. Cristas vai queixar-se a Marcelo do “que se passa neste Parlamento” – Se o PR estiver ausente do país, tem de se queixar ao Ferro Rodrigues.

3. “Costa diz que assunto da CGD ‘acabou’ na segunda-feira com intervenção do PR” – Parece a minha mãe quando dizia que já não havia bolachas, mas havia.

4. Trás-os-Montes: australianos confirmam uma das maiores reservas de lítio da Europa – Com tanto lítio e temos um país de deprimidos.

5. Marquise da casa de Cavaco Silva passou a ter vidros espelhados – Também, quem é que quer ver lá para dentro?! Só se for um decorador de interiores com tendências suicidas.

Dupla de artistas deixa PàF descalço

(J Nascimento Rodrigues, in Facebook, 24/02/2017)

costa_centeno

A crítica ruidosa de que a dupla Costa & Centeno são ainda mais austeristas do que os PàFs pois consolidaram ao ponto de fazerem descer o défice orçamental para 2,1% do PIB, ‘surpreendendo’ Bruxelas e FMI, não tem o efeito desejado no gajo da rua que não gosta de vermelho nem de rosa.

Pelo contrário, para aquele pessoal de ‘centro’ que sempre olhou a geringonça como o diabo que iria mergulhar o orçamento no despesismo «socratista» e o país à beira de um segundo pedido de resgate no meio de um cataclismo económico, a performance artística da dupla até que não deixa de ser o menor (melhor?) dos males.

Também estas gentes do ‘centro’ ficaram surpreendidas e entre um pássaro na mão (as concessões aqui e ali que poderão obter e a ‘paz social’ sem a CGTP todos os dias na rua e em alguns sectores sempre a chatear) e dois passarocos retóricos a voar, está bem de ver qual a opção «pragmática», e «útil».

Os que ficaram ainda mais surpreendidos foram os que, habituados à mama da teta dos contratos da Administração Pública, tenham ou não mérito no que vendem ou sejam ou não necessários os seus ‘serviços’, viram que o aperto da consolidação socialista lhes estragou a faturação. Esses, então, estão mesmo, mesmo, mesmo danados com essa coisa da dupla Costa & Centeno querer dar um ar de respeitadores das «regras europeias».

Centeno (e Costa como comandante em chefe) apanha(m) os louros – mesmo que atribuídos a contragosto pela ala mais radical do Eurogrupo e pelos técnicos do FMI, os últimos, sempre, a corrigir os parágrafos de previsões. Louros merecidos com uns quantos truques de gestão orçamental e uma prenda caída dos céus que foi só aproveitar (o turismo), finalizando com o cansaço dos empresários de verdade com a política de megafone dos «patrões» das confederações (que não passam de uma espécie de políticos mascarados fora do parlamento).

Os empresários de verdade tomaram a decisão sensatamente inevitável de, aos poucos, recomeçar a investir (ao que parece até em maquinaria) e continuar a explorar o mundo – antes que venha aí alguma grande tormenta mundial. É a janela de oportunidade, estúpido!

É claro que os truques de gestão orçamental têm o seu limite – o relatório do FMI apontou-o com clareza, e com precisão cirúrgica (discorde-se ou não dos pressupostos e objetivos). Costa & Centeno sabem-no bem. A coisa está nos manuais de escola. Os dois não são nenhuns patetas alegres.

A ideia de António (e que Mário reza todos os dias à noite antes de se deitar) é que, enquanto o pau vai e vem, e não há uma hecatombe na zona euro – esperança mesmo é que não haja – e um protecionismo caótico na cena mundial, pode ser que a economia aqui portuga melhore a performance (e suba mais, no futuro, do que os 1,4% deste ano) e crie a cama para mais uma corrida de consolidação (para um défice claramente abaixo de 2% do PIB) este ano e no próximo. Aí, seria o gozo supremo, e o esvaziar do PàFismo e o calar, definitivo, do Eurogrupo e do FMI.

E, claro, se a coisa até correr mesmo assim benzito – e sem surpresas drásticas nas eleições por essa Europa – até que mais uma série de reivindicações dos aliados poderão ser satisfeitas sem stresses.

Pelo meio, naturalmente, Costa & Centeno fizeram o que era mais do que óbvio que tinham que fazer em 2016 – o «despesismo» necessário que acabou por não contrair a consolidação. Repuseram o que foi roubado nominalmente a grandes parcelas da classe média e transmitiram-lhe a ideia de que a consolidação para agradar Bruxelas e Berlim (e o FMI) pode ser soft. A classe média, o grande ‘eleitor’ hoje tem a geringonça – toda ela – como seu padrinho. O pessoal aqui no corner agradece naturalmente (nem preciso de explicar porquê).

O pior, o pior, mesmo o diabo, é se Trump descamba já em 2017 (e não só em 2018) e se os eleitores por essa zona euro fora resolvem pregar uma partida de março a setembro. Aí, está o caldo entornado — mas, mesmo, no caos, há sempre oportunidades.

Os peõs de brega: Cristas, Guedes e Montenegro

(Por Estátua de Sal, 23/02/2017)

trogloditas

A direita portuguesa anda histérica. Depois do diabo ter metido férias, o déficit ter atingido o valor mais baixo de sempre, a economia estar a ganhar fôlego, os rendimentos de muitos portugueses terem aumentado e as cassandras internacionais, FMI, Comissão Europeia, OCDE, terem engolido em seco perante os resultados económicos de 2016, a direita coleccionou derrotas em toda a linha e ficou com a agenda reduzida a um programa político de 160 caracteres ao nível dos SMS do Domingues.

Com tanta irritação e falta de comprimidos para o mau humor, resolveram atacar tudo e todos. Atacam o Centeno porque dizem que mentiu, atacam o Costa porque o protegeu, atacam o Marcelo porque protegeu o Costa, e atacam agora o Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, porque não os deixa atacar, como eles querem, o Centeno, o governo, e especialmente a CGD.

Falam já de “asfixia democrática e parlamentar”, coitados, eles que tem toda a comunicação social a conspirar a seu favor, e onde o espaço de análise e comentário lhes é escandalosamente favorável, e por isso altamente enviesado. Basta ver as parangonas dadas à polémica dos SMS do Domingues em contraponto com o relevo que está a ser dado à recente notícia da saída dos dez mil milhões de euros para offshores no tempo do governo anterior, sem que a Autoridade Tributária os tenha controlado cabalmente. É uma desproporção de tal calibre, a qual é inversamente proporcional à gravidade e ao impacto financeiro dos dois assuntos, que é de bradar aos céus. Mas eles é que estão asfixiados. Ria-se até ao choro.

Assim, a Dona Cristas vai amanhã ao Marcelo apresentar queixa, pelo facto de as esquerdas, como ela gosta de dizer, lhe estarem a apertar o gasganete. Como se o Marcelo pudesse fazer fosse o que fosse e meter-se no assunto, tendo em conta a independência dos orgãos de soberania, constitucionalmente consagrada. Mas, claro que para a Dona Cristas, a Constituição é como uma revista de moda chique que se pode ler de pernas para o ar porque, o que verdadeiramente interessa, são as gravuras. Já estou a imaginar a Dona Cristas a dizer ao Marcelo: – Ó sr. Presidente, estou com uma falta de ar enorme. E o Marcelo, que é hipocondríaco e de remédios sabe tudo, a responder na passada: – Ai sim? Olhe, tome lá um frasco de Onsudil que é excelente para a dispneia. Não me diga que não conhecia e que nunca tomou?!

Para ajudar à festa, o deputado do PSD Marques Guedes fala mesmo de totalitarismo, perigosas derivas e atropelos aos regulamentos da Assembleia da República, tudo com a conivência activa do seu presidente. (Ver aqui). Tudo porque insistem em querer colocar a coscuvilhice ao serviço da sua política ressabiada já que nada mais tem para oferecer ao país que não a sua quezilência de personagens menores.

Mas o mais acutilante ponta de lança da direita é mesmo o deputado Montenegro que vem à baila com mais uma doença do foro mental: a claustrofobia democrática (Ver aqui). Ora, diz o dicionário Priberam que a claustrofobia é o “Medo patológico da clausura ou dos pequenos espaços” (Ver aqui). O que quererá o Montenegro dizer? Que tem medo do Parlamento? Que o Parlamento encolheu e ficou reduzido a um T0? Que o PSD já não cabe no Parlamento? Foi então por já não caber na sala que o deputado do PSD Matos Correia abandonou a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito à CGD? Ria-se de novo.

Mas, a prova máxima da histeria, e o mais grave ainda, foi ver hoje o Montenegro a chamar “soez” ao primeiro-ministro, em declaração às televisões. Anda a usar palavras caras, o Montenegro. Lá tive que ir de novo ao Priberam para ver o que era, ainda que intuísse que não devia ser coisa boa. Soez é o mesmo que “Vil, torpe, reles”, adjectivos nada bonitos para designar um primeiro ministro.

Para quem anda tão asfixiado, não está nada mal a liberdade com que praticas o insulto ó Montenegro. E se eu te disser que não passas de um peão de brega, um bandarilheiro falhado desse teu incompetente e quadrilheiro chefe que é o Passos Coelho? Gostas do troco?

Em suma. A corja está em pânico. Sempre valeu tudo mas agora vale o mais que tudo e já nem sequer se esforçam por manter o verniz da civilidade e da boa educação. A verdade, como diz o povo, é como o azeite e vem sempre ao cima. E quem é troglodita nunca deixa de o ser. Por muita fazenda e água de colónia que ponha em cima da sua pele de cavernícola.