Ainda vale a pena invadir-nos?

(Daniel Oliveira in Expresso Diário, 08/07/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

No último documentário de Michael Moore, o realizador decide seguir aquilo que acha ser uma tradição recente dos EUA: invadir um país para lhe roubar qualquer coisa. Só que desta vez quer roubar boas ideias. “E agora invadimos o quê?” oferece uma visão um pouco romanceada de vários países europeus (e da Tunísia) e tem o foco nos problemas americanos: mau sistema público de educação, ausência de um verdadeiro serviço nacional de saúde, legislação laboral com poucas garantias, cultura securitária. E, depois de passar duas horas a malhar nos Estados Unidos, é obrigado a um final delicodoce que atribui ao seu país as melhores ideias do mundo. Como Bernie Sanders, Moore apela ao americanismo para resgatar à história do país o Estado Social e a defesa dos direitos cívicos.

Num estilo um pouco manipulador – com tanta manipulação do lado oposto, aguenta-se um pouco desta –, Michael Moore começa por “invadir” Itália. A ideia que quer roubar são as férias pagas e longas, a licença de parto, a licença de casamento, os longos intervalos de almoço, os feriados. É impossível ver esta parte do filme e não sentir a estranheza de ver elogiado o que, nos tempos que correm, costumamos mostrar como defeitos. Sempre que se fala de feriados ou interrupções no trabalho é para exibir um pecado. O moralismo produtivista é o triunfo final na luta de classes que Warren Buffett disse que tinha vencido. Os que a perderam interiorizaram os valores que lhes deviam ser estranhos: trabalhar menos para os outros é mau, ter feriados é mau, ter tempo livre é mau. São eles, com os seus malditos “direitos adquiridos”, que travam o crescimento das empresas. E são eles que o dizem, irritados consigo mesmos.

Michael Moore mostra, com o descaramento que nos tem feito falta, o oposto: trabalhar menos é bom. Garante uma vida melhor, famílias mais felizes, pessoas mais saudáveis, trabalhadores mais produtivos, emprego para mais gente e, se houver sindicatos fortes, empresários a gastar mais dinheiro com os trabalhadores e menos consigo mesmos.

A viagem à Alemanha segue o mesmo objetivo: horários de 36 horas, menos tempo de trabalho. Em muitas empresas, chefes proibidos de contactar, por telefone ou correio eletrónico, os funcionários nos seus fins de semana, folgas ou fora do horário de trabalho. Sim, usar o tempo de lazer para pôr funcionários a trabalhar sem pagar por isso é uma forma de roubo. Eu sei que a maioria julga que os alemães são uns mouros de trabalho, mas é mentira. Isso somos nós. A isto Moore junta a forma como os alemães lidam com o seu passado, contando às suas crianças os pecados nacionais. Uma coisa que todos nós, sobretudo antigos colonizadores e esclavagistas, podíamos aprender com eles.

Em França, visita uma cantina de uma escola de uma zona pobre, onde se aprende a comer de forma saudável. E onde essa tarefa, que faz do refeitório escolar o melhor restaurante da vila, sai mais barata do que a comida horrenda que é servida, por empresas concessionárias, nas escolas públicas dos EUA. Aliás, Moore aproveita a viagem a França para desmontar o mito dos impostos baixos: o que os americanos não pagam em impostos é-lhes cobrado em seguros de saúde, propinas ou dívida. No fim, gastam muitíssimo mais para ter muitíssimo menos. Na saúde, na educação, na segurança. A viagem à Eslovénia e à Finlândia servem para se manter no tema da educação e apresentar as vantagens da universidade gratuita, que não amarra os jovens a uma dívida, e do melhor sistema de ensino do mundo, que não acredita nos trabalhos de casa e nos exames nacionais. Mas que ajuda a pensar e descobrir.

Portugal também tem motivos para orgulho e não são novidade: a nossa política antiproibicionista em relação às drogas, associada a um forte investimento nas terapêuticas e nas estratégias de redução de riscos, é dada muitas vezes como exemplo pelos extraordinários resultados obtidos e Moore exibe-os com espanto. Nada que tenha sido implementado sem forte oposição. A viagem à Noruega serve para falar do seu extraordinário sistema prisional. Um sistema que parte do princípio que a função das penas de prisão é retirar a liberdade às pessoas, não é infligir-lhes mais sofrimento do que isso. E, de caminho, conseguir evitar novos crimes. A mão pesada norte-americana consegue 80% de reincidência, a suavidade norueguesa 20%. Nos dois casos, a posição sobre a pena de morte de polícias portugueses e do pai de uma das vítimas de Breivik servem para enviar um recado para casa.

Por fim, Moore vai à Islândia e concentra-se no extraordinário poder das mulheres (o primeiro país a ser governado por uma mulher eleita) e na forma como os políticos e a justiça lidaram com as falências dos bancos, punindo parte dos seus responsáveis.

Quem conhece cada um daqueles países sabe que há muita candura na forma como a coisa é tratada para que os norte-americanos sintam inveja. Sabe que há direitos laborais a serem retirados em Itália, que a segregação mina as boas ideias nas escolas públicas francesas, que os “minijobs” estão a rebentar com todo o espírito socializante das leis laborais e empresariais alemãs e que a extrema-direita está a voltar a crescer no país e que na Islândia os responsáveis políticos pelo colapso acabaram por voltar ao poder. Mas More avisa logo no início: veio colher flores, não tratará das ervas daninhas, que são muitas.

Mais do que é dirigido ao consumo interno, impressionou-me perceber que muito do que Moore mostra como motivo de orgulho para os europeus está a ser destruído nos vários países.

A via progressista e social que a Europa tinha para mostrar ao mundo está em derrocada. O retrocesso que os EUA viveram e de que se queixa Moore é agora o nosso. E fomos derrotados na vida porque nos deixámos derrotar nas nossas cabeças. Aceitámos que as escolas públicas de qualidade e gratuitas são um luxo; que um serviço nacional de saúde excelente é insustentável; que feriados, horários de 35 horas e férias pagas nos levariam à miséria. Aceitámos, como não se aceitava há muitas gerações, que estávamos condenados a viver pior do que antes.

Não foi por não haver dinheiro. Ele anda aí como nunca, só vai para mãos diferentes. Não é a globalização. O Estado Social europeu foi construído quando o mercado se abria, não quando se fechava. Foi uma escolha que deixámos e continuamos a deixar que se faça por nós. Quando permitimos que as chamadas “reformas” (na realidade são contrarreformas) nos sejam impostas por quem não foi eleito ou por quem, tendo sido, trabalha para quem não os elegeu.

No fim, em frente ao que resta do muro de Berlim, Michael Moore recorda quando ele e um amigo, de férias na cidade em 1989, se juntaram aos que começaram a fazer cair aquele crime. E explica o seu otimismo: basta um martelo e um escopro e o muro cai. Claro que as coisas não são assim. A razão porque um martelo e um escopro chegaram foi porque ninguém os impediu. E ninguém os impediu porque o poder que mantinha o muro estava podre. É preciso mais do que vontade. Mas sem ela é impossível. É preciso, antes de tudo, vencer o síndrome de Estocolmo que nos faz proteger os nossos próprios carrascos

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Um pensamento sobre “Ainda vale a pena invadir-nos?

  1. Na verdade Warren Buffett estava a ser irónico e alarmadamente triste quando proferiu a frase: “Há uma luta de classes e a minha está a ganhar!” Sendo ele o terceiro mais rico do mundo, conhecido como genuinamente filantropo pelas suas preocupações sociais, esta afirmação deve funcionar como um alerta!

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